segunda-feira, 14 de agosto de 2017

PREFÁCIO E PRÓLOGO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


PREFÁCIO

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico, e somam cerca de mil publicações.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que escrevi, chamado VALE DA AMOREIRA, e que será publicado neste livro em partes (parágrafos).

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários. 

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando li o artigo O escritor está nu, de Pilar Fazito, publicado no diário site Digestivo Cultural em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro. 


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso.  A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais no meu grupo no facebook chamado Textos de Alceu Natali https://www.facebook.com/groups/316295385178582/´, 
pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cristina, Deirdre, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014


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PRÓLOGO

O vento e meu timoneiro mantinham-nos na rota certa e eu teria chegado à minha terra natal são e salvo, mas o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas desviaram-me do curso, no momento em que eu estava tornando a dobrar a Malea, levando-me para além da Cythera. Nove dias de ventos violentos afastaram-me dali, e no décimo dia aportamos na terra onde vivem os comedores de Lótus que se alimentam do fruto que brota desta flor. Descemos em terra firme e apanhamos água para abastecer os navios. Meus companheiros fizeram uma rápida refeição junto aos nossos barcos de águas rasas. Depois de comer e beber enviei alguns de meus companheiros para instruírem-se sobre os homens que comem o alimento que cresce nesta terra. Eu escolhi dois de meus homens e com eles enviei um terceiro como mensageiro. Eles partiram em seguida e encontraram-se com os comedores de Lótus e estes não demonstraram nenhuma hostilidade, mas, ao contrário, deram-lhes para comer a planta do Lótus, cujo fruto, doce como o mel, fez com que todo o homem que provou dele perdesse o desejo de voltar para casa e de vir contar-nos o que lhe sucedeu. Eles queriam lá ficar, permanecer com os comedores de Lótus, alimentando-se daquela planta, ávidos por esquecer a viagem de volta para casa. Eu os forcei a voltarem aos navios e, com olhos cheios de lágrimas, eles foram arrastados para baixo dos bancos de remos e lá eu os amarrei. Depois, ordenei aos meus outros homens de confiança para que embarcassem e começassem a remar rápido, caso algum outro homem viesse a comer um Lótus e abandonasse a ideia de fazer a jornada de volta. Eles apressaram-se para os navios, tomaram seus lugares de maneira ordenada em suas fileiras e golpearam o mar cinzento com as pás de seus remos. Porém, o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas que nos trouxeram para esta terra continuavam conspirando contra nós, detendo nosso avanço, por isso pedi aos meus remadores para imprimirem mais velocidade, pois a terra dos comedores de Lótus ainda estava muito próxima de nossos navios e a maré poderia levar-nos de volta para lá. Um de meus companheiros, ao dar mais potência aos seus braços, deixou cair uma flor de Lótus que ele escondia. Imediatamente, repreendi-o e amarrei-o junto aos outros três debaixo dos bancos de remos. Apanhei a flor de Lótus trazida a bordo sem que eu soubesse e, antes de jogá-la ao mar, aproximei meu nariz dela só para experimentar seu aroma, e assim que o fiz, senti uma enorme vontade de prová-la, mas resisti à tentação e apenas toquei-lhe com a ponta da língua para sentir seu gosto, mas isto bastou para que eu a devorasse rapidamente e desejasse voltar para a terra dos comedores de Lótus que ainda não se encontrava distante. Então, atirei-me ao mar e com ligeiras braçadas logo cheguei à praia e fui encontrar-me com os comedores de Lótus que me deram uma ótima acolhida, ofereceram-me Lótus até me fartar e perder a vontade de voltar para casa. Eu não saberia mais viver noutro lugar a não ser neste. Aqui esquecerei do meu passado e começarei uma nova vida. Este lugar é letárgico e me dá muito sono. Mas é disso que mais preciso: sono para  sonhar.




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A PRIMEIRA MULHER

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Minha alma curiosa de sopro de vida e beleza, É meu presente de louvor aguçado e espuma do mar, O castigo de quem se precipita no olhar, Pretende escalar o céu para destronar meu senhor, De quem prometeu e desobedeceu, Brincando com fogo de arder na água, Com a paixão que carrego em meu coração, Minha alma curiosa de arte e persuasão, É meu presente de espírito da vida e sensualidade, O castigo de quem se demora no olhar, Pretende comigo casar e não deixa-me abrir meu presente de amor, De quem quer dominar e acaba por se descuidar, Brincando com todos os males da humanidade quem têm sua origem somente no sexo forte, Com a esperança que preservo para o mundo, Com a elegância de meus movimentos, A suavidade de minha voz, Minha força interior que brota da vontade de meu senhor, Um castigo para a masculinidade que queria só para si toda a autoridade.     


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domingo, 6 de agosto de 2017

BANHO DE CIVILIZAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Muita gente diz que Londres é uma cidade chata e arrogante. Esta não parecia ser a opinião do ex presidente Jânio Quadros, tão inteligente quanto matusquela. O homem público ciclotímico que condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, renunciou à presidência com pouco menos de sete meses de governo, teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar em 1964, e curtiu um ostracismo de 10 anos. Regressou em 1978 e elegeu-se prefeito de São Paulo em 1985. O homem dos factoides mediáticos, pendurou, literalmente, as chuteiras na porta do gabinete da prefeitura em 1986 e faleceu em 1992. Jânio tinha fama de pau-d´água – bebia pinga pura durante seus comícios em suas campanhas a cargos públicos - adquiriu o hábito de Winston Churchill de se comunicar com seus ministros através de bilhetinhos, e, entre muitas de suas memoráveis frases, algumas eram irônicas e  engraçadas - bebo-o porque é líquido, se fosse sólido comê-lo-ia. Este culto biriteiro era conhecido também por fazer constantes viagens ao exterior e, curiosamente, sempre fazia uma última parada em Londres. Certa vez um jornalista perguntou-lhe porque ele fazia um pit stop na capital inglesa. A resposta foi contundente e enfática: Porque preciso tomar um banho de civilização antes de voltar ao Brasil. Na escola, aprendemos que a Mesopotâmia é o berço da civilização do mundo, e que a herança cultural e moral do ocidente devem-se à Grécia. E onde Londres entra na sentença deste oráculo? Eu iria descobrir nos anos 90, quando precisei fazer inúmeras viagens a países europeus, exceto à Inglaterra. Comecei a repetir os costumes do homem da vassourinha. Ao final de cada longa jornada de trabalho, arrancava terno e gravata, vestia jeans, camiseta e tênis, e ficava até três dias vadiando pelas ruas e metrôs da Londinium fundada pelos romanos na década de 60 de dois mil anos atrás.  Não demorei mais que um dia para descobrir que em todo canto da cidade se respirava cultura, civilidade, educação e disciplina. Esqueçam os pontos turísticos como Big Ben, Palácio de Buckingham, Museu de Cera de Madame Tussauds, Torre de Londres, e outros que só servem aos colecionadores de fotos para mostrarem aos amigos onde estiveram. Você só não deve deixar de visitar o Museu Britânico, onde você pode ver o Livro dos Mortos dos Egípcios, escrito em 1300 a.e.c. e a Carta Magna de 1215, andar pela faixa de pedestres na Abbey Road, em frente aos estúdios da Apple, onde os Beatles tiraram aquela clássica e lendária foto, e visitar a Carnaby Street, ponto de encontro dos gênios psicodélicos que transformaram Londres no centro da efervescência cultural e artística do mundo e a cidade mais Avant-Garde do planeta. A Inglaterra não era assim. Demasiadamente puritana e preconceituosa nos anos 50, o homossexualismo poderia ser punido com pena de morte. Tudo mudou com os Beatles no início dos anos 60. Aliás, os Beatles e seus pares britânicos da música mudaram o mundo. Na minha busca por acomodações, descobri que os preços de estadia não eram muito civilizados. Mas quem tem boca vai a Roma. Papeando com gente de vários estabelecimentos comerciais e hotéis, acabei recebendo a indicação de uma pensão familiar, na Earl´s Court Garden, que ficava a algumas quadras da avenida e da estação de metrô homônimas. Para lá me encaminhei por volta das 21:00 horas. As ruas estavam completamente desertas. Enquanto as áreas mais centrais da cidade fervilhavam com shows de rock em várias casas noturnas, o pessoal da periferia se recolhia bem cedo. Estava com dificuldades para encontrar a pensão. Então, algo impensável no Brasil aconteceu. Interpelei uma jovem que vinha pela calçada em minha direção. Sem hesitar e sem medo de estar na companhia de um estranho por ruas vazias e escuras, ela levou-me de volta à esquina de onde viera, e mostrou-me a pensão que ficava do lado direito da segunda quadra mais adiante. Lá chegando, fui acolhido com extrema hospitalidade. Fiz uma menção poética a este momento no meu texto 30 ANOS DEPOIS, e que aqui reproduzo: A estação me recebe como as andaluzas em flor, Do outro lado da avenida, As ruas estão desertas, A noite caída tarde ainda em baixas e boas horas, Ao longo de uma aleia de buxos aparada e de cheirosos canteiros de alfazema, Lá adiante, a lividez do luar ilumina vagamente tudo à volta e meu passo até uma alemoa que, Gentilmente, Mostra-me uma alameda de casas simétricas, Feita milharal, Levando-me ao casarão plantado numa das duas estreitas vias transversais, Separadas pelo elegante jardim quadrilátero, Centralizado e cercado de grades. A pensão me recebe como em meu lar, Minha casa, Meus amores, Minhas flores dos trópicos, Cá nesta terra fria e acolhedora, Como a cama aconchegante, O sorriso aberto e familiar do café da manhã tão rico e caseiro, Os primeiros raios de sol iluminam esta parte da superfície terrestre sob sombra. O Earl´s Court Garden é um daqueles típicos quadriláteros de sobrados simétricos, com um jardim central, ao qual só os moradores locais têm acesso, exatamente como se vê no filme UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL. A recepção fechava às 22:00 horas, e só abria às 07:00 horas. Neste intervalo, só adentrava a pensão quem lá estivesse hospedado e tivesse a chave da porta de entrada. Certa vez, cheguei cedo demais a Londres, por volta da 06:00 horas. Eu carregava duas malas pesadas, uma contendo material de trabalho, outra com artigos pessoais. Larguei as duas na calçada, junto à porta da pensão, e fui fazer hora num barzinho na Earl´s Court Avenue.  Ao retornar às 07:00 horas, as malas continuavam no mesmo lugar, intocáveis. Talvez, nos dias atuais, elas fossem tomadas como suspeitas bombas terroristas e recolhidas. Londres é famosa pelas chuvas que caem quase todos os dias. Por isso, o inglês é muito precavido. Sempre sai de casa com um guarda-chuva. Eu não me preocupava com isso. Naquela época eu já não usava relógio nem cueca. A chuva podia se demorar por apenas meia hora, mas sempre vinha, de surpresa, a qualquer hora do dia, de manhã, de tarde e de noite. Logicamente, Jânio não se referia às águas que desabavam das nuvens quando falava sobre o banho da civilização londrina. As chuvas levaram-me a pensar nas palavras de John Lennon em sua música pelos Beatles chamada I´M THE WALRUS: sentado num jardim inglês, esperado pelo sol, e se o sol não vem, você pega um bronzeado de pé na chuva inglesa. Eu ainda preferia esperar a chuva passar, sentado na calçada de um  boteco da Oxford, saboreando um sanduíche, regado à Coca-Cola, e olhando o espetacular mulheril desfilando de sombrinhas. Houve uma ocasião em que a chuva parou de repente, paguei a conta e não esperei pelo troco. Atravessei a avenida e entrei numa loja de CDs do outro lado. O garçom veio atrás de mim e me devolveu o troco em moedas que ele pensou que eu havia esquecido sobre a mesa. Quando se fala em arte e cultura em Londres, as primeiras palavras que vêm à mente são música e literatura. É covardia falar sobre a música popular britânica, a melhor de todos os tempos. Basta aqui assinalar que não pude ver nenhuma das muitas grandes bandas ao vivo em Londres, porque elas só tocavam em grandes estádios e os ingressos sempre eram, e continuam sendo, esgotados com 4 a 6 meses de antecedência. Restava-me, então, me extasiar com as bandas amadoras que tocavam ao vivo todas as noites em dezenas de casas de show. Estes artistas amadores almejavam serem descobertos por algum empresário que os levassem a gravar o primeiro disco e ter exposição no rádio. E cá entre nós, mesmo estes principiantes eram bem melhores do que os melhores músicos brasileiros. Como diziam Keith e Jagger na música STREET FIGHTING MAN: o que pode fazer um garoto pobre, a não ser tocar numa banda de rock. Eu era pobre - e ainda sou - e não tinha talento para música. deus só me deu o dom de saber ouvi-la e aprecia-la. Contentava-me, então, em me lambuzar nas mega lojas de cds da Oxford e adjacências. Só a fileira de prateleiras contendo nomes de artistas começando com a letra ´A´ na HMV era maior do que a maior loja brasileira de cds. Nas minhas dezenas de passagens por Londres, minha obsessão sempre foi a busca por cultura. Na livraria Foyles da Oxford, eu perambulava pelo departamento de história. Encontrei um interessante livro de mitologia e folclore nórdicos. Folheei o livro, e logo reparei que ao lado dele havia outros sobre o mesmo tema. Olhei o preço e não acreditei: 1,99 libras (R$ 7,32) cada livro de cerca de 500 páginas. Perguntei à vendedora se o preço estava correto. Sim, estava. O baixo preço não era uma promoção, mas uma simples liquidação para se livrar do estoque, porque a editora estava prestes a lançar uma nova coleção revisada destes livros. Não tive dúvidas: comprei a enciclopédia de 16 livros contendo a mitologia, folclore e costumes de todas as civilizações da humanidade. Um verdadeiro tesouro por apenas R$ 117,12. Nesta época de muitas idas a Londres eu estava finalizando meus estudos sobre mitologia cristã, e costumava comprar muitos livros acadêmicos sobre o assunto. Na estação de metrô Marylebone há uma igreja cristã com sua livraria chamada SPCK. Nos fundos vendem-se livros usados e raros. Eu tive um enorme prazer ao procurar e lá encontrar a primeira edição, traduzida para o inglês em 1904, do livro UMA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, escrito em 1894, por Adolf Julicher, um alemão catedrático e teólogo, um acadêmico especializado em estudos científicos da mitologia cristã, fazendo uso da Crítica Literária e da Forma. Na parte da frente vendem-se livros novos, de todas as doutrinas religiosas, muitas das quais desafiavam a própria fé cristã. O polêmico manguaceiro, que fechou os oito cinemas que iriam exibir o filme A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Martin Scorsese, em 1989, por considera-lo desrespeitoso à fé cristã, ficaria escandalizado com sua Londres libertina se lesse um livro que comprei na SPCK, chamado JESUS E A POLITICAGEM DOS SEUS DIAS, uma antologia de ensaios diversos, um dos quais descreve Jesus como um agente político, infiltrado na Palestina, a serviço dos romanos. Nas minhas andanças por Londres, eu aproveitava para comprar roupas masculinas e femininas dos anos 60 em butiques descoladas. Em Londres, você pagava – ou ainda paga – apenas 7% de imposto sobre tudo que você comprava. Você pode ter o imposto estornado. O logista preenche um formulário, descrevendo os produtos e os preços. Basta apresentar este formulário e os produtos que você comprou na alfândega no aeroporto e você recebe, na hora, a devolução dos impostos em dinheiro. Uma loja onde comprei muitas roupas não tinha o formulário. O logista me pediu para voltar na manhã seguinte. Não era possível, pois eu estava embarcando para o Brasil naquela noite. Então ele pediu meu endereço no Brasil para fazer a devolução do imposto. Não acreditei nesta história. Dei meu endereço só por educação. Duas semanas após ter voltado ao Brasil, recebi pelo correio, da Inglaterra, um envelope contendo o formulário devidamente preenchido e os impostos em notas de libras esterlinas. Estive em Londres tantas vezes e lá tomei tantos banhos de civilização que acabei esquecendo que sou brasileiro e vivo no paraíso dos ladrões.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

MRS. LIAR, SITTING PRETTY, LITTLE LIES IN A ROW

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);


Todo mundo emprenha pelos ouvidos, Mas eu queria você longe dos meus, De seus pequenos e grandes lábios saem farfalhices e bazófias, Os incautos que caem em suas unhas postas fora, Antes do cruz-credo, Quia absurdum, Adoecem de saber você doente, Viram defuntos matados, Tua ideia de mentira, Representa a mola das mortes, As mães, Filhas e maridas que você sepulta, Sem mostra especial de sua frieza, Razão pela qual a esquizofrênica pseudo-intelectualidade, Congênita à falsa mulher e inseparável dela, Não pode deixar estancar o corolário de imoralidades nestes tempos que sublevaram todos seus antigos valores e temores, Dia desses você mandou assassinar seu ignoto empregado em viagem a trabalho no exterior, Pediu à sua advogada para lhe ensinar a trasladar restos mortais sem corpo de prova, E ao seu marido, Primeiro que a ninguém, Você atira a bala que quebra ossos e atravessa pernas, E a ti mesmo, Último que a todos, Disparas o projétil que se aloja no ombro e urge uma prótese, Olhe, Pois, Que tuas rezas são hipocrisias das desavergonhadas que não podem, Eternamente, Levar à paciência de Jó de seus incógnitos irmãos da terra e de longínquas galáxias, Ora, Como tudo cansa, Suas grandes petas acabam por exaurir-me também, Seu vício artístico de reduzir, Pela sobrevivência, Todos os otários e cornos bravos a uma única estirpe, Torna seu mundo uma monotonia abominável, Quantos espíritos alemães de nome Fritz você já invocou? Quantas vezes você enterrou seu pai, Seus filhos e seu próprio marido? Oras, basta-me saber que sou muito triste com minhas mentiras, E já serei na verdade muito menos.

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

SURPRESA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Não tenho medo de te perder, Para minhas verdades contingentes, E minhas mentiras de nove modas, De longas pernas, Já perfiz um caminho inalcançável por você, De quem só a morte inexorável se aproxima, De quem somente o brilho do sol no mar, E somente as ondas fazendo uma extensa curva alvacenta revelam tanto seu ódio quanto sua má escolha, A lançar-me um olhar de desprezo e indiferença, Você faz leitura corporal, Facial, Verbal e labial, Eu faço leitura mental, Vivo nesta terra, E daqui não posso sair, Mas minha inteligência vive noutro planeta, Anos luz mais adiantado que este, Então só lhe resta escolher entre a resignação de belas mulheres com o outono da vida e a dependência material, Fingindo tanto as pazes, Chegando a fingir que é dor, Uma dor que deveras sentes, E tramar às ocultas até me abandonar, O que jamais me surpreenderá.

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

CUMPLICIDADE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Todos os dias têm seus momentos, Com suas momices, A fartura de nossas carnes prazem e sofrem em nossas próprias peles, A abstinência do nosso amor vive de tempos alitúrgicos, Oh Nosso Senhor, Ensina Teus servos, Que padecem o tormento da incerteza, Da indiferença, Que te agradecem pelo coração que não sente, E pelos olhos que não veem, Oh meu Deus, Largo é o Teu caminho que Te leva à perdição, Estreita é minha porta, Sitiada pela Sua Eva de seios gordos, Que se esfregam em meu rosto quando entro, O que Tu deixas penetrar, Sempre sai, Sob um signo feliz, Quando alguém vem ao Teu mundo, Pela lua nova, Alguém parte debaixo de um sinal mofino, Pelas expensas de Sua religião que recrudesce, À proporção que minguam os Seus bem-aventurados, Você nos deu uma hora para mais viver, Raramente perdoa os que não vivem o bastante, Você nos deu uma hora para mais matar, Raramente perdoa os que não matam o bastante, Você nos deu um sol que raia para todos de boa nascença, Uma chuva que derramas e inundas sobre todos Teus injustos, Oh meu Deus, Tenhais temperança, Fazemos de teu ódio pela humanidade nossa vingança, Oh minhas irmãs, De suas rajadas de furor, De suas tempestades da vida, Tiramos nossa bonança, Tiramos suas noites e suas auroras, E suas esperanças, Oh meus irmãos, Somos peixes que vivem sua própria vida, E ignoramos o curso das águas, Oh meu Deus, Olhe estas crianças, Elas tiram de onde não depositam, Colhem o que não semeiam, Oh minhas crianças, Não vos aflijais, A bala perdida é só um disparo, Vocês estão apenas a um tiro de distância.

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

O ARQUÉTIPO DO LEÃO
















Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Costumava ler até alta noite, Adormecia sobre os in-fólios, Perdia os momentos quando a lua afastava os crepes das horas mortas, Prateava os caminhos, E rumava gente para as terras lavradas, Empunhando archotes, Recebia arquétipos de presente, Mistura de onirismo e vigília, Sonho e vida, Um mundo sem gravidade temporal, Que no começo do dia às vezes se olvidava, Às vezes coincidia com a realidade, E todas as fantasias uniam-se na imaginação e fora dela, Contra minhas puras veleidades, Meus sórdidos segredos, Minhas escancaradas trapaças, Minha falsa imagem de honestidade, Pela imperiosa vontade do universo, O messias estendendo a mão esquerda, O guia espiritual sempre do lado direito, O deus no centro do oportunismo, Os leões de meus pesadelos dormiam todas as noites, Meus cancões urbanos, Curiosos e barulhentos, Estão sempre atentos a qualquer coisa estranha, Me avisam, Me pegam a qualquer hora dos meus sonos, Induzidos, Leves e pesados, Profundos, De Rapid Eye Movements, E eternos, Abaixo do décimo nível, Onde vou morar um dia, Ao lado de meus livros escritos e lidos, De meus gratificantes alunos e professores incógnitos, De meus felinos mansos e saciados.  

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

MITOLOGIA JUDAICA: A MAGIA EGÍPCIA (TRECHO DE PALESTRA MINISTRADA EM SÃO PAULO)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)   

Há mais de um século tornou-se bê-á-bá, nos meios acadêmicos, e mais velho do que andar para frente, na linguagem popular, o fato de que a Bíblia – Antigo e Novo Testamentos – é apenas uma antologia de mitos compilados e reeditados pelos judeus. Aliás, os judeus nada inventaram. Eles apenas copiaram histórias das mitologias de civilizações mais antigas e mais avançadas que sempre os conquistaram e os escravizaram: Sumérios, Egípcios, Assírios, Babilônios, Persas, Gregos e Romanos. A Bíblia contém uma infinidade de nomes de pessoas que não existiram, com nomes que não são judaicos, pois foram plagiados das civilizações das quais os mitos foram copiados. Moisés é um deles. É uma corrupção do nome do faraó egípcio Ramsés, que significa Filho do Sol (Ra = sol, Mses = filho). O nome original, Mses, teve a vogal ´o´ acrescentada, para tornar a palavra pronunciável. Em português, acrescentaram também a vogal ´i´. Os judeus inventaram a história de que o povo hebraico foi escravizado pelos egípcios e que um judeu poderoso, chamado Mses (Moses ou Moisés), venceu os egípcios com seus poderes mágicos, libertou seu povo da escravidão e o levou à terra prometida por Deus. Mses, que significa apenas filho, não é nome de pessoa, nem na antiga civilização egípcia nem na judaica. Você poderia ser filho de alguém no nome, mas este era sempre composto, desde os tempos antigos até nossos dias. Exemplos: Bartolomeu = Filho (bar) de (P)Tolomeu; Barrabás = Filho (Bar) do pai (Abbas); Paul McCartney = Paul, filho de (Mc) Cartney; Eric Von Brown = Eric, filho de (Von) Brown, etc. Certamente, por volta dos anos 500 antes da era comum, quando a Bíblia foi inventada, os judeus conheciam os egípcios e, certamente mais uma vez, eles deviam estar fascinados com os avanços morais e tecnológicos dos egípcios que, entre tantas maravilhas, já faziam testes de gravidez e sabiam, com 90% de acerto, se a criança seria menino ou menina. Para combater o complexo de inferioridade, nada melhor que inventar uma história de um povo paupérrimo em ideias e tecnologias que vence uma civilização super-adiantada. O estigma desse complexo está bem expresso no mito de David e Golias. Os judeus dissidentes da ortodoxia farisaica e saduceia da nova era, que deram início a uma religião que, mais tarde se chamaria cristianismo, também acreditavam, inocentemente, que Moisés existiu e tinha poderes mágicos que aprendeu com os egípcios. Estevão, um dos personagens fictícios do novo testamento da Bíblia, diz no parágrafo 7, versículo 22 de Atos dos Apóstolos que Moisés era versado na sabedoria e magia dos egípcios e que suas palavras tinham um enorme poder, e que esse poder era exercido não apenas com palavras, mas também com um condão mágico que foi usado na fuga para a terra santa, quando perseguido pela tropa egípcia e ficaram sem saída ao dar de encontro com o mar. Então, Moisés ergueu seu condão, pronunciou palavras mágicas, e as águas do mar se dividiram para dar passagem aos judeus. Os Egípcios os seguiram pelo leito seco do oceano e, assim que os judeus acabaram de passar, com o mesmo poder mágico, Moisés fechou as águas do mar e afogou todo o exército egípcio! (leia o livro mitológico chamado Êxodos, capítulo 24, versículos 21 a 28).  Essa ideia de dividir as águas do mar é pura criatividade dos judeus para sustentar uma fantasia? Não, não é. é apenas mais um dos inúmeros plágios. Um papiro da décima oitava dinastia egípcia, do ano 1550 antes da era comum, conta uma história que data dos tempos das pirâmides de Quéops (há mais de 3 mil anos antes da era comum). Diz a história que, certo dia, o rei Seneferu estava triste e desanimado. Ele chamou os nobres de sua corte real para lhe alegrar, mas eles nada puderam fazer. Então o rei mandou chamar o sacerdote Tchaca tcha-em-ankh. Este sugeriu que o rei desse um passeio de barco no lago junto ao palácio, animando-o com as alegrias que ele teria ao ver a linda paisagem nas margens do lago. Além disso, o sacerdote pediu-lhe permissão para preparar a jornada, adornando o barco com vinte remos de ébano, banhados a ouro, vinte jovens virgens, de feições maravilhosas, cabelos ornamentados e quadris perfeitos. E ao invés de estarem com suas próprias vestimentas, estas jovens estariam emaranhadas em vinte redes.  Elas iriam remar e cantar ao mesmo tempo.  O rei aceitou o que o sacerdote lhe propôs. E, de fato, o rei alegrou-se muito com o passeio de barco, enquanto as jovens virgens remavam e cantavam. De repente, uma delas deixou cair na água um ornamento de seus cabelos, feito de um novo tom de azul turquesa. Imediatamente, ela parou de remar, e assim fizeram as outras 19 virgens. Ela e as demais se recusavam a remar enquanto seu adorno não fosse recuperado. O rei, então, mais uma vez, pediu ajuda ao sacerdote Tchaca tcha-em-ankh, e este, ao chegar ao local onde o barco estava estacionado, proferiu palavras mágicas, as águas do lago se dividiram, permitindo que uma das remadoras descesse ao fundo  e pegasse o paramento. Uma vez que o ornamento da jovem foi recolado aos seus cabelos, o sacerdote juntou as águas do lago, o passeio pelo lago prosseguiu e o rei voltou a alegrar-se.


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segunda-feira, 26 de junho de 2017

CANÇÃO DA MELANCOLIA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Um sol vivendo e trabalhando plena luz, De sorriso infantil, Não toma as nuvens por Juno, Abre o céu para todos reclusos espairecerem suas tristezas no dilúvio de claridade que derrama sobre as sombras da terra, Tira Greta Garbo da penumbra, Tira Prudence Farrow de casa para saudar o dia com Mia e John, Do alto de um telhado, No topo do mundo, Onde uma suave aragem beija e balança suavemente os cabelos como pendões de damas entre verdes, Entre azuis sem horizontes, Sopra para o meio do firmamento, Um papagaio de papel, Alto, De braços apartados em cruz, Bailando inquieto, Como torre esguia de igreja, Fazendo-se ao largo do cosmos, Aqui no chão choro, Pela linha que se desenrola e se solta para o infinito, Deixando um saudoso aspecto lembrando, A lacrimosa e pequenina estrela que se mistura às outras invisíveis que te ofuscarão com o brilho da noite de amargura quando ela chegar, Quando a melancolia voltar, Venha, Então, Me abraçar, Dormir no meu sono, Sonhar no meu sonho, Com um novo foco luminoso que logo vai voltar a acender os corpos sombrosos sobre nossas almas angustiantes.  

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

DREAM SONGS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

O que se apesenta neste momento em minha memória, Ainda não são anéis que refulgem nos dedos, Nem padre que não celebra na noite de Natal por menos de mil reais, São os acordeões que empoeiraram-se nas feiras de pechinchas, E não vibram seus  teclados diatônicos e seus botões cromáticos, Nem nas mais cafonas sessões de pulgueiros, Um desprezo ignóbil por Dominguinhos, O maior de nossa música, São, também, os pilhéricos pianos, Dos diabos, Que nunca despertaram para martelar a madeira revestida de feltro e brandir nossos recintos, Outro vil descaso com Chopin, Um dos maiores de nossos clássicos, Mais que esses dois, São os violões, Que, Solitários, Ressoaram um rico e imagístico repertório  de canções, Como num sonho, No qual o próprio sonho encontrou um mágico ensejo para incumbir o quarteto mais famoso do mundo, A executar uma melodia gerada de uma só voz e um único acompanhamento, Algo que transcende de longe nossa razão e nossa imaginação, Da mesma forma que todos seus plágios inconscientes alcançam perdão pelo bom gosto, Pela Sensação que é estar ao lado dela, Tão sensacional como na progressão de Men Men Mentiras, Mas nada a ver a com a tardia e narcisista Sou Uma Sensação, E as imitações não param por aí, A Guerra Terminou, Uma que não precisava ser vencida por ninguém, Combina, Como Romeu e Julieta, O Anjo Da Manhã com Tudo O Que Você Precisa É Amor, A prostituta que passa a noite comigo e chega em casa, Sorrateira, Com o canto do bem-te-vi, Até os pássaros sabem que ela passa o vício e o vírus do cupido, E esses complexos sonoros avançam com Não Não Não, Embarcando No Último Trem Para Clarksville, E vão parar nas estações das  morbígeras morbidezes, Quem Abriu Meu Túmulo?, Para roubar?, É Lá Que Eu Jazo, É lá que devo te procurar? Mas eis que um caprichoso arranjo dos mais belos crisântemos, Chamado originalidade, Tira os acordes do jazigo, Mergulham-nos em preciosidades de beber até fazer mal, Ninguém Consegue Amar Meu Amor,  Uma sutileza expressiva só ouvida nos salões musicais dos anos britânicos, Como, Bem aqui vem uma redundância, Como Minha Garota É Às Vezes, À qual não poderia faltar uma paixão ardente e ufanista, Minha Cidade De São Paulo, Nem pieguices adolescentes, Por Favor Nunca Me Deixe, A la Charles Aznavour, Por que só existe uma? Porque É Somente Você, Só existe uma mulher no mundo? Sexta De Manhã, A celebração de uma vitória onde não houve perdedores, E de pensar que tudo isso começou com ingenuidades, Chamando Atenção, De quem? Da mesma fêmea de sempre? Mesmo Se, Mesmo se o quê? Ninguém sabe, Dinheiro Não É Tudo, Naqueles tempos, Mas não nesses dias, Escreva Com Minha Caneta, Sem título seria melhor, As lhanezas evoluíram um pouco com É Melhor Você Esquece-la, A mesma a quem se implora para ficar, The Scary Song, Por falta de outro nome,  E de pensar que tudo morreu com as esquecidas pelo tempo, O Marinheiro, MaryA Deusa, E de se pensar que tudo ainda vai ressuscitar com os nomes de seus tristonhos compositores: Ay See Us Nay Tall, Ay See Us Blue, Crying Is Our Label, Pain Is Our Rule.



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terça-feira, 13 de junho de 2017

SEJA FEITA SUA VONTADE ASSIM NA PRAIA GRANDE COMO NA CIDADE MAIOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Cai a noite baixa e curta de verão, Sobre um mar de rosas, Azulão na escuridão, E tranquilo como um lago suíço, Com escassas luzes bruxuleantes tocando os barcos adiante no intangível horizonte, Lá pelos idos da alta idade média dos anos dourados, E eu, Sócio fóbico e fobofóbico, Sou rastejado em passos de cobra, Lenta e pegajosa, Para a pista de cimento do Pelicano, rodeada de palmeiras, De ar-livre, De muitas vestes aquarelistas, Rezo minhas rezas, Outros cantam seus cantos, E todos dançam conforme as músicas que alertam, amor de praia não sobe a serra, A menina que me tira tem o venerado símbolo da metade da idade de menor, Seus cabelos são lindos pendões de inocência, Que a brisa beija e balança, Tem o nome da mais badalada rua da minha pauliceia desvairada, Logo torna-se minha primeira namorada, Sem jamais saber que teve um romance, A vigésima quinta hora retorna todos ao edifício brasil, Mas a madrugada é apenas uma criança de peito, Os da maioridade, Com seus carburetos, Arrastam suas redes nas águas mornas ao relento, Eu fico para trás, Recosto minha cabeça no colo de outra cuja graça se perdeu com o tempo, Esta sim, De minoridade absoluta, Sabe embrenhar seus dedos pelas minhas madeixas, Tresnoitar, Curva seus lábios sobre os meus, exala um misto de perfume, E de cheiro áspero de raízes e seiva, Relaxa os nervos, Adormece o cérebro, Põe seu coração à larga, Sussurra no meu ouvido um galanteio, A namoração vai escalar os oitocentos metros até o planalto de onde viemos, E depois, Depois deixamos a vida viver sua vida.     

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