sexta-feira, 12 de junho de 2015

PASSAGEM POR JAÇANÃ



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Jaçanã tirou-me o pouco de paz e segurança que meu pequeno mundo, certinho e previsível, proporcionava-me todos os dias fáceis de serem vividos, sem cobranças, sem mudanças, sem surpresas. Deu-me alívio a algumas pequenas dores e espalhou pela minha alma outras tantas, tão inimagináveis, tão passageiras e tão curáveis pelo tempo que eu acabei não atinando para todos os momentos felizes que eu vivi e que fizeram todos os lugares por onde passei parecerem mágicos. Não foi preciso esperar pela maioridade para estragar toda aquela magia. Enquanto jovem, eu fiz a felicidade desaparecer na frente de muita gente e a fiz reaparecer nos recônditos da minha solidão. O meu purgatório ficava numa saleta apertada no andar de um velho prédio no centro velho, onde um senhor masoquista e inculpável tirava as medidas do aterrorizante uniforme cinza, largo como a breguice da música brasileira, e marcado com uma faixa lateral vermelha da boca à cintura, para alertar-me que à frente daquele muquifo expiatório só avistava-se o inferno. Mas um dia não fora aquele lugar a porta de entrada do paraíso, ladeada por duas pilastras babilônicas que exibiam, majestosamente, todas as novidades britânicas, e por ela adentro se podia desfilar pelas galerias à procura das disputadas calças Lee apertadas, das Topekas, das Cibatas e dos cinturões? Caminhar com aquela indumentária Maoista pelo asfalto quente do meio-dia era menos perigoso do que humilhante. Minha vergonha era atenuada pela companhia hilária do meu primo Garfão. Para ele, tudo era lucro. Chegar ao ponto e subir no ônibus não era menos torturante. Chegar ao Gepef em Jaçanã era descobrir o que, afinal, vem depois da morte. Os recém chegados eram recepcionados com raspadinha de groselha. No ginásio não havia trote, mas eu recebi o meu primeiro no Gepef quando o diretor, conhecido como dez para as duas, barrou-me na entrada e fez-me voltar no dia seguinte com um corte americano curto, como o meu pai gostava. Eu logo descobri minha vocação. O futebol que eu jogava no meu mundinho não era fruto de minhas fantasias e logo caiu no gosto e respeito dos Gepefianos. Vencer os campeonatos internos era fácil, mas vencer a timidez era impossível. A Célia queria namorar comigo, ou alguém queria que eu namorasse com ela. Ela tinha um belo rosto redondo, enquanto o meu era chupado e realçado pela minha proeminente napa. Ela não sabia que eu não sabia namorar. Eu a acompanhava até uma travessa na Vila Pauliceia e lá a deixava por sua própria conta. Eu perdi a Célia e muito tempo. O professor Almerindo convocou meu pai e disse a ele que se eu continuasse daquele jeito eu iria repetir. E eu repeti mesmo. Eu ia mal quase em tudo, menos em inglês que eu nunca precisei estudar para passar. Os espíritas dizem que isso é coisa de vidas passadas, mas os espíritas até hoje não sabem o que é criptomnésia. Chico Xavier foi o maior criptomaníaco que eu conheci. Todo mundo tem manias. O Totó, o Bimbo, o Pica-Pau, o Kuriak, o Joaquim, o Artur, o Cremonese, o Saad, o Pepino, o Aparício, o Ucraniano, o Zé Galinha, o Calandrino,... E eu tenho mania de ter saudades de toda essa gente boa. Mania de tocar guitarra. Mas nas aulas obrigatórias de canto orfeônico e música eu tinha que tocar bumbo, corneta ou marchar. Eu não marchava, eu corria, e ninguém me pegava. O professor de educação física fazia a gente trotar em volta do Gepef, rua abaixo, rua acima. Este professor era um transgressor dos costumes. Em pleno país do futebol, ele fazia a gente jogar beisebol, o único esporte que permite tirar uma soneca enquanto é praticado. O jogo de taco no asfalto exigia mais talento. Fora das linhas demarcatórias da escola, eu tenho vagas lembranças de alguns bailinhos regados a meia de seda, um jogo contra os Seminaristas que deixavam a santidade de lado e sentavam o pau em todo mundo e da sorveteria em frente ao ponto de ônibus que me levava de volta para a Água Fria. Eu passava mais tempo fora do que dentro do Gepef e, por isso, fui jubilado, belo eufemismo para expulso, e transferido para a Extensão, uma nova ala do mesmo Gepef. A Extensão parecia ficar no anus da periferia. A rua longa, escura e barrenta até a Avenida Guapira parecia uma interminável via crucis para alunos e professores. O horário das 15:30 às 19:30 horas era tão exótico quanto a fauna da Extensão que rivalizava com a Amazônica. O Américo obtinha permissão para manter o cabelo longo por exigência do seu papel numa novela que só existia em sua mente e, para aparecer diante das garotas, ele pedia camisas emprestadas aos amigos para não repetir a mesma roupa todos os dias. Ele era uma exceção ao uniforme oficial que lentamente começou a ser abolido, assim como o cabelo curto, por isso, em menos de dois anos, a Extensão ganhou um ar de liberdade que a diferenciava muito do Gepef. Peru, outro que recebeu um ‘’jubileu’ do Gepef, era meu favorito. Carismático, debochado e entendedor das preciosidades Britânicas e Americanas. Costumava trazer, escondido sob seu capote, capas do Rolling Stones e do Lovin' Spoonful, só para deixar-me com água na boca. Tinha uma namorada, Raquel, mas era tímido demais para ficar sozinho com ela, tanto no recreio como no ônibus de volta para casa. Eu virei segurador de vela e continuava sem saber namorar. Assim como a Célia, a Sílvia tentou, mas não conseguiu. Logo veio sua lindíssima prima, Sônia E eu falhei de novo. Meu deus, como me arrependi por não saber namorar! Aí, finalmente, veio a eterna Márcia que ensinou-me a beijar, mas deixou-me por causa do irmão pegando no seu pé e depois arrependeu-se e chorou durante um porre e fez-me sentir muito medo porque eu não sabia o que fazer numa situação destas. Mas eu nunca terei medo de dizer quanta saudade eu sinto dessa gente como o Ferrugem, o Vassoura, o Sócio, o Odilon, o Ligabuia, a Regina, a Rosa, o Borghi, a Ana, o Agope, a Salete, a Elizete. A Extensão não tinha quadra própria. As aulas de educação física eram realizadas no Gepef e foi na quadra do Gepef que a Extensão se tornou campeã intercolegial de futsal da zona norte, batendo em todos, Cedom, Albino Cesar, São Marcos, e muitos outros. E na final, bateu o temido Aparecida, conhecido como Lobinho, com aqueles dois neguinhos endiabrados no ataque. Mas a Extensão tinha Mané, Luisinho e Amadeu. A jovem diretora da Extensão, presente à quadra do Gepef naquela grande final, toda orgulhosa, fez questão de receber o primeiro troféu de campeão da Extensão logo no seu primeiro ano de existência. E após jogo, o Mané disse-me que havia uma garota do Gepef, chamada Tânia, que morria de amores por mim, e que esteve lá o tempo todo torcendo por mim e agora estava chorando de emoção e querendo ver-me. Eu nunca correspondi às expectativas da Tânia do Gepef, mas ela me fez-me esquecer da minha saudosa Tânia da Água Fria por quem eu sempre fui gamado. A minha turma se conheceu na Extensão do Jaçanã, mas morava nos bairros do Tucuruvi e da Água Fria, e nestes bairros foram realizados muitos bailes ao som dos Beatles, Rolling Stones, Dave Clark Five, The Troggs. Num destes bailes, o Vassoura trouxe-me para fora da casa para conversar e disse-me: 'Não sei se é impressão minha, mas tudo isso parece um sonho'. Era um sonho e, assim como os Beatles, ele acabou. A Extensão não tinha o curso colegial, só o ginasial, e, assim, eu tive que voltar para Tucuruvi para completar meus estudos. Mas se não fosse Jaçanã, eu jamais teria conhecido estes seres humanos incomparáveis e jamais teria visto mágica no ar. Talvez outros, mas não iguais. E hoje, nos meus 59 anos, eu quero mandar um grande abraço a todos vocês do Gepef e da Extensão dos anos de 1965 a 1968 e agradecê-los pela oportunidade de tê-los conhecido e com vocês ver o tempo parar, e quero prestar a Jaçanã, o palco destas emocionantes representações da vida, uma homenagem bem diferente do trem das onze:

Jaçanã, tudo o que eu sempre quis na vida foi um pouquinho de amor para levar a dor embora, para me deixar forte hoje e dar um passo gigante a cada dia. Disseram-me que só os tolos apressam-se com bobagens, mas eu não acredito nisso. Eu ainda continuo apaixonado por você e vou amar-te até o dia de minha morte e além dela. Eu acho que isso é o mínimo que eu devo a você. Só peço-lhe para colocar sua mão suave junto à minha para sairmos por aí flutuando pelo espaço e ficarmos à deriva no tempo. O amor é eterno, bonito e ignora o tempo e o espaço. Não sei para onde todos nós vamos. Só sei que você, Jaçanã, deu um pouquinho de amor à minha vida suficiente para levar minha dor embora, para deixar-me forte hoje e para continuar dando um passo gigante de cada vez e a cada dia.


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quinta-feira, 16 de abril de 2015

A DEUSA DA ÁGUA FRIA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



O bairro da Água Fria é uma pequena galáxia situada no quadrante norte do universo de São Paulo. Seu núcleo é denso, um mar de vida singrado pela avenida homônima, que começa lá em cima, no alto de Santana, onde também começa a Avenida Nova Cantareira, e termina, de novo, lá em cima, no Barro Branco, aonde também chega a mesma Avenida Nova Cantareira. Só mesmo as dobras da teia do espaço curvado pela massa humana, pelo asfalto e pelo concreto podem explicar os encontros, desencontros e reencontros destas duas avenidas pertencentes a bairros distintos.

De 1959 a 1975, eu morei na ponta de um dos tênues braços espiralados deste pequeno aglomerado. O sistema solar onde eu morei tem um nome peculiar: Corneteiro Jesus. Todos os seus habitantes, desde os mais antigos até os de hoje, chamam-no, erroneamente, de Corneteiro de Jesus, fazendo os sistemas vizinhos pensarem que o nome se refere a um anjo que anuncia o retorno do discípulo do João Batista com uma trombeta. Jesus era um soldado do quartel do Barro Branco que, segundo a lenda, nunca deixou de cumprir seu dever uma única vez sequer durante o seu tempo de serviço: soar sua corneta todos os dias às 5 horas da manhã para acordar o regimento.

Um sistema vizinho, a Rua Albuquerque de Medeiros, apelidada de Mombuca, era o nosso maior rival, ou melhor, rival somente da garotada no futebol. As teimas eram tiradas num território inexplorado e desolado, além dos limites da galáxia, chamado Carne Seca, considerado um campo neutro, mas, na verdade, era mesmo um reduto distante dos Mombuqueiros e dominado por eles. Hoje, imaginem vocês, o famigerado Carne Seca deu lugar ao refinado bairro Jardim França.

Mas o meu sistema não vivia só da rivalidade com a Mombuca. Tinha muita tradição e muita história. Jogos olímpicos eram disputados todos os anos, de Janeiro a Dezembro, à maneira dos Gregos, só pelos machos, mas não desnudados, enquanto as fêmeas tinham permissão para assistir só a alguns poucos jogos e de longe. Tinha época certa para cada tipo de modalidade: o jogo de botão, o de futebol, o de taco, o triângulo, o box e o mata-palmo com bolinhas de gude, o roda pião na cela, a caça aos quadrados com cortante, a caça ao balão para não ficar pagão, o tiro ao alvo (passarinhos) com estilingue e mamona, o jogo do abafa com figurinhas, e a corrida de carrinhos de rolimã e patinete. Estranhamente, as artes marciais eram sempre praticadas à noite, e sem a violência dos dias atuais: mana mula e balança caixão. Era estranho também que somente à noite os meninos se enturmavam com as meninas, e com elas praticavam alguns esportes amadores meio efeminados: amarelinha, passa-anel, cobra-cega e queimada. No entanto, até onde sei, não foi em razão do relacionamento com estas flores que algum cravo se tornou rosa.

Já era época de acasalamento para os garotos, mas para as garotas eram apenas tempos de flertes, e, para mim, flertar era enviar um bilhetinho e, com sorte, conseguir um aceno de mão delicada à distância. Isso mudou com a inesquecível Márcia, que morava noutra galáxia ,chamada Jardim São Paulo, e comigo estudou noutra ainda bem maior e mais distante, chamada Jaçanã. A Márcia me ensinou a namorar, a beijar e a me fazer imaginar o que eu poderia tentar com as três beldades mais cobiçadas do meu sistema. A Tânia era a mais provável, a mais liberal, aquela que, dizia-se, gostava de mim, mas ela raramente se aventurava além dos limites de seu planeta, onde ela nunca me recebia sozinha, mas só acompanhada de outras amigas. A Maria parecia impermeabilizada pela frescura e arrogância. Sempre pensei que ela usava estes escudos como mecanismo de defesa para sua insegurança. Enganei-me. Na verdade, ela era exigente e muito autoconfiante. A Lúcia era recatada demais. Ela parecia estar se preparando para entrar num convento de freiras. Enfim, jamais consegui arrancar um simples beijo, nem do tipo selinho, de qualquer uma das três. Pensei, então, que eu só fosse encontrar outras encantadoras alienígenas como a Márcia fora de minha Galáxia nanica.

Mas um dia, surgiu uma nova habitante nas imediações da Corneteiro. Uma garota linda, de 18 anos, dois a mais do que eu, mas com um olhar penetrante e sensual de mais de 21. Nem parecia ser da minha espécie de tão adorável e atraente. Parecia uma deusa. Mesmo com toda aquela formosura, era humilde e discreta. Era pobre e precisava trabalhar para ajudar em casa, e logo arrumou um emprego na farmácia Santa Luzia, na movimentada Avenida Água Fria. Ela fixou residência perto da Maria e com ela fez amizade. Certa ocasião, surpreendentemente, a Maria veio ter comigo, e me disse que aquela deusa queria conhecer o simpático turquinho que ela via passar pelo larguinho com sapatos brancos da Arco-Flex. Minha bela napa havia confundido a deusa, pois meu nariz não vinha da capital do império romano do oriente e nem mesmo da capital do império do ocidente de onde descendo por parte de pai. Ele veio do meu lado materno espanhol. Amor à primeira vista é sempre assim: nossa primeira troca de olhares selou o mais apaixonante e empolgante namoro que eu tive em toda minha vida. Por essa deusa, eu abandonei as olimpíadas diurnas e as brincadeiras noturnas, e passei a me dedicar mais à poesia e à música. Tornei-me um trovador.

Minha deusa fazia questão que eu fosse busca-la na farmácia todos os dias nos finais de tarde. De mãos dadas, começávamos a subir a Rua Altinópolis, lentamente, esperando a noite cair como um véu sobre nossa intimidade. Passávamos pela Rua Dr. Alcides Prestes e desviávamos para a Rua Gracianópolis. Para não expor nossa cumplicidade à Rua Casa Forte, muito próxima da Rua Marechal Fontoura onde a minha deusa morava, fazíamos outro desvio para a Rua Ismael Nery, e lá nos recostávamos sob uma árvore frondosa que foi testemunha das mais belas carícias e juras de amor. Voltávamos para casa sempre por caminhos separados, e nos fins de semana nos reencontrávamos na casa da saudosa Dona Vera, que sancionou o nosso amor como uma juíza de paz, e fez de seu lar um ponto de encontro de todos os jovens do grupo local de sistemas.

Esta deusa poderia ter me ensinado outras coisas além dos beijos cinematográficos e dos abraços apertados, repletos de ternura, mas ela preferiu preservar o meu romantismo e o alimentou com palavras emblemáticas. Dizia que eu era seu 'marinheiro'. Inebriado de tanta paixão juvenil, eu não me preocupava em saber qual de nós estava empreendendo sua primeira viagem pelos complicados caminhos do coração, e retribuía sua sublime vivacidade feminina com poesias e canções. A minha deusa se encantava com meus escritos e meus cânticos e me estimulava a fazer declamações ao longo dos caminhos que trilhávamos juntos.

Num lindo sábado vespertino, com o céu rosáceo do sol poente, passeávamos pela Rua Florinéia, onde ficava o Grupo Escolar Expedicionário Brasileiro do qual recebi o meu diploma do curso primário. De repente, nos deteve uma agradável e distante melodia, vinda das cercanias, e que passou por nós como o efeito Doppler, se aproximando lenta e suavemente, depois nos arrebatando com sua estrondosa sonoridade e, finalmente, se distanciando gradativamente como os últimos raios de sol no firmamento. Eram os Beatles na voz de Paul cantando 'Você diz sim, eu digo não. Você diz pare e eu digo vá. Você diz adeus e eu digo olá'. Sempre que ouço ou apenas me lembro desta canção sou imediatamente remetido para aquele momento que nos deixou estáticos e comovidos, pois nós não tínhamos ido ao encontro daquela canção. Ela que veio até nós. Só hoje compreendo que, embora 'Hello Goodbye' tivesse se tornado a nossa música favorita, ela nos procurou para nos dar um enigmático aviso. Naqueles dias, eu não entedia porque Paul precisava dizer a uma mulher: 'Eu não sei porque você diz adeus enquanto eu digo olá'.

Num domingo de matinê, a Maria veio ter comigo de novo, desta vez para me dizer que a deusa havia desmanchado o namoro por causa de sua mãe. Quando a Márcia mandou me dizer que nosso romance estava acabado por causa de seu irmão, eu senti um vazio enorme, mas não demorei muito para me refazer. Mas quando a minha deusa fez o mesmo comigo, o chão desabou sob os meus pés e me fez cair numa profunda fossa. Fiquei desesperado, desamparado, desorientado e sem forças para subir à superfície. Custei muito a voltar ao convívio habitual com meus amigos da Corneteiro e da Extensão do Jaçanã onde eu estudava até que, depois de muito tempo, consegui iniciar um novo namoro com a Rosa, com quem me casei, tive três filhas e de quem me divorciei depois de nossa festa de bodas de prata.

Eu tinha com a Rosa um namorico firme, mas eu não perdia um baile sequer da turma que conheci em outras galáxias. Num desses bailes, realizado nas proximidades da Rua Ismael Nery, eu saí para a sacada do sobrado para dar umas tragadas e bebericar uma cuba-libre ao ar livre (desculpem-me o trocadilho barato), e me surpreendi com a presença da minha deusa no canto oposto do terraço. De longe, ela me viu e me acenou, e logo veio ao meu encontro. Já não me recordo quem a convidara para aquele baile ou mesmo se ela estava acompanhada. Ela me tirou para dançar e, em seguida, me chamou para um passeio. Eu lhe perguntei para onde e ela me respondeu: 'Nossa árvore está perto daqui'. Eu achei tudo aquilo muito casual, brusco e oportunista demais. Não se coadunava com a preciosa paixão, caprichosamente lapidada, que tínhamos um pelo outro. Por isso, naquela noite, eu estava menos empolgado do que curioso. Menos emocionado do que ansioso.

No entanto, para a frondosa árvore, nada era fortuito ou inesperado. Para ela, tudo era sempre igual como as quatro estações do ano, e nós éramos uma delas que retornava com os mesmos acalorados beijos e abraços de verão aos quais ela se acostumara. O que aquela árvore jamais presenciara foram as lágrimas vertendo dos olhos meigos e sinceros da minha deusa, com uma voz embargada a suplicar-me perdão. Foi a primeira vez que eu vi aquela jovem mulher que eu endeusei chorar, dizer que sentia minha falta e que não poderia viver sem mim. Eu era ingênuo e simplório demais para minha idade e, muitas vezes, paradoxalmente, eu me comportava com uma fidelidade que se espera encontrar somente nos adultos. Eu cometi o sacrilégio de não assentir imediatamente ao pedido de minha deusa, porque eu estava comprometido com outra garota. Ela não se conformou e levantou a voz contra mim. A última coisa que eu esperava da minha deusa era uma promessa de vingança. Eu não pude acreditar nas suas palavras e as atribui a um possível excesso de vodca no baile. Contudo, a minha deusa estava falando sério e sóbria, pois, na semana seguinte, ela bateu na casa da Rosa em plena luz do dia, chamou-a para fora e fez um grande escândalo por minha causa.

Comentar os desdobramentos daquele incidente seria uma injustiça à coragem, firmeza e determinação da minha deusa. Basta dizer que pouco tempo depois deste triste episódio ela deixou a Água Fria e nunca mais a vi.

Em termos astronômicos, essa deusa foi como um cometa desvencilhado das gravidades solares e que, nas suas andanças pelo universo de São Paulo, precisou fazer uma breve parada na galáxia Água Fria, mas seu brilho passou desapercebido por todos os habitantes, o que não pode ser justificado só pelo fato dela ter feito uma morada transitória nos confins desse pequeno agrupamento estelar, pois ela demorou-se o suficiente no seu populoso núcleo para ser notada. Talvez ela fosse uma deusa só para mim, mas que não pertencia a mim nem à Água Fria.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu diria a ela que eu era muito medroso e muito fraco. Receava que meu frágil coração não resistisse a mais uma desilusão como aquela que tive com a Márcia, e agora com minha própria deusa. Talvez eu me sentisse mais seguro com a Rosa, que era mais tímida do que eu, mais conservadora, incapaz de empolgar, mas também incapaz de despedaçar corações de qualquer idade. Se você pegasse no meu pé como sua mãe pegou no seu. Se você chutasse o pau da minha barraca como você chutou o da Rosa. Se você soubesse como eu me abalava emocionalmente com tanta facilidade. Se você soubesse...

Como eu não posso mais voltar no tempo, resta-me dizer que a Avenida Água Fria nasceu ao lado da Avenida Nova Cantareira, e seguiu adiante, quase sempre em linha reta, sempre fiel ao bairro que leva seu nome, recebendo inúmeras ruas perpendiculares e serpenteadas, como um rio que acolhe vários afluentes, e sempre conformada com as delimitações de sua jurisdição. Já a Nova Cantareira tomou um rumo diferente, abriu um enorme leque para o leste, fez o Jardim São Paulo e a Vila Pauliceia abrirem alas para lhe dar passagem, perscrutou todo o bairro de Tucuruvi, se impôs como fronteira entre o Jardim França e o antigo Morro do Ademar, bateu de frente com o Barro Branco sem tomar conhecimento da Avenida Água Fria que ali se contivera, e voltou a se embrenhar pelo norte, deixando para trás a Vila Albertina e o Tremembé até chegar ao pé da serra que leva seu nome e faz fronteira com o universo de Mairiporã.

Talvez eu tenha sido a Avenida Água Fria, mais resignado e com expectativas mais limitadas, enquanto a minha deusa foi a Avenida Nova Cantareira, mais atirada, como um Ulisses instigado pelo destino a sair em busca de odisseias e contemplar outros mundos. Coincidentemente, hoje resido na base da Serra da Cantareira, com a Cecília, minha esposa, e a pequena Ana Carolina, minha quarta filha. Mas minha deusa, eu não sei onde está.

Embora tivéssemos nossos corações partidos, tínhamos que nos manter ocupados para não nos transformarmos em inconsoláveis. Havia um monte de coisas que precisavam ser feitas. E só Deus sabe com que corações partidos tivemos que faze-las. Embora tivéssemos sonhos frustrados, tínhamos que nos manter ocupados porque não podíamos viver de sonhar um com o outro. Havia muitas coisas que precisávamos realizar. E só Deus sabe com que sonhos frustrados tivemos que realizá-las. E porque tínhamos lembranças recorrentes que nos deprimiam, tivemos que beber para esquecer um do outro, pois nos diziam que isto curaria o tempo adoentado, mas só Deus sabe com que tamanha depressão acordávamos de nossas bebedeiras. E porque ficávamos chorando o tempo todo, tivemos que cobrir nossas lágrimas com sorrisos forçados e seguir em frente como se estivéssemos recuperados, mas só Deus sabe quão sofridas têm sido nossas peregrinações pela vida, distantes um do outro, e com os nossos corações machucados.


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