quarta-feira, 21 de setembro de 2016

ADEUS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Eu me preparava par ser jornalista. Prevenia minha namorada para que, quando casados, ela se acostumasse com minhas constantes ausências. Queria ser um correspondente internacional. Algumas poucas ciências exatas se colocavam no meu caminho. Então, por medo de enfrentá-las e para evitá-las, optei por outra humana na qual a exatidão exercia um papel bem menor. Comecei a estudar inglês sem saber porquê. Dei aulas em todas estas escolas particulares vagabundas que existem até hoje. Não desisti de ser repórter no exterior e de outra profissão que exigisse o domínio de idioma estrangeiro. Prestei muitos concursos e passei em vários, mas na hora de assumir o cargo fui sacaneado por diretores que deram minha vaga a parentes. Os que mais gosto de lembrar são o Museu da Casa Brasileira onde eu seria Monitor Cultural. Vai aqui um desconto para o Museu porque ele pertence ao estado e todo estado brasileiro contraiu o câncer da corrupção e da bandidagem. A empresa sueca Sandvik. Esta foi esquecida porque dei o troco noutra sueca. A gigante canadense Alcan. Foi difícil encontrar outra canadense tão grande para uma desforra do mesmo tamanho. Então precisei juntar algumas canadenses menores. O Bradesco. Levar o Bradesco a sério é o mesmo que pensar que temos governo neste país. Pausa para cantar
Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.
Até que um professor da faculdade de inglês que pensei que me odiasse me arrumou um emprego no Senac. Fiz as contas de quanto ganharia se eu desse aulas nos três turnos. Era muito pouco para minha ambição. Uma colega de classe que conhecia muito bem minha ganância me deu dois presentes: o livro Fernão Capelo Gaivota, e um emprego na Brastex, empresa de comércio exterior, onde ela trabalhava de secretaria. Minha insegurança era notória, capaz de se defender com falsidade, traição e covardia. Não me aguentava sozinho. Precisava de ajuda de fora para encobrir minha incompetência, e de dentro para fazer companhia à minha carência. Quem passou por mim saiu decepcionado. Comecei a sonhar acordado e viajar pelas estrelas. Queria ser astrônomo, talvez após ter lido o livro Alfa Centauro de Isaac Asimov, ou depois de saber do início do projeto SETI, já não me lembro. Esqueci que nada entendia de física. Prossegui delirando. Serei um estatístico (e a matemática?). Poderia trabalhar no Ibope ou no DataFolha. A ideia veio de meu fascínio pelo jogo de xadrez, minha obsessão por dominar a manjada abertura Rui Lopes com as brancas e a difícil defesa Siciliana com as pretas. Até que eu não era tão ruim no que fazia. Recebi um convite para ser gerente noutra cidade. Mas sair de São Paulo nem pensar. Mais uma pausa para cantar:

Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.

Estudei Administração de Empesas da mesma PUCSP onde fiz faculdade de Inglês. Abracei a carreira de comércio exterior. Erro fatal. Não há lugar para gente honesta neste país para esta profissão (na verdade, para todas). Dei muitas cabeçadas, como empregado em 10 anos, e como autônomo em 30 anos. Não se assustem! Sou velho, mas não tanto. Tenho 63, mas dentro deste corpo há uma jovem alma estudiosa, cheia de ideias, obstinada, que ainda tem um pouquinho de paciência com gente burra, Que gosta de ir às casas de shows em Londres para ouvir bandas de promissores garotos de 18 anos que sonham um dia ser um U2, um Oasis, um Radiohead, um Coldplay, Que senta num bar de calçada na Oxford Street só para curtir o vaivém do mulheril estonteante, vestido com excentricidade e psicodelismo, esbanjando charme, Que compra roupas paquistanesas, uma calça comprida, uma túnica que vai até o meio da canela e um echarpe que serve de turbante, mas não nas horríveis cores masculinas, branco, preto, cor de chumbo, cor de merda e de burro quando foge, mas nas cores femininas, combinação de bordô com salmão e o echarpe usado como echarpe mesmo, em volta do pescoço. Entrei numa multinacional japonesa aqui em São Paulo assim vestido e todos se escandalizaram. Os japas passaram de amarelo para branco marmóreo, em estado de livor mortis. Se eu contabilizar todas as vezes que fui sacaneado e sacaneei dá um empate técnico. No final, estou onde comecei: trabalhando 3 turnos e ganhando muito menos que minha ambição. Última pausa para cantar e ouvir a música que está rolando, muito melhor que esta conversa:
Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.