sexta-feira, 30 de setembro de 2016

AQUELA QUE VEM COM A MARÉ


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Água calma, espraiada ao sabor da cor do céu brigadeiro, do mar profundo em dia translúcido, espelha a esmeralda das encostas, a safira do firmamento límpido, o dourado do sol alto, o arco-íris da bonança, dando reflexos multicoloridos à vida submersa, à que brota na superfície, à que se ergue às alturas, à que prolifera neste paraíso, e teu silêncio é rompido pelo distante espocar de nuvens esparsas que se uniram para gotejar, cada pingo rufando silencioso, águas do empíreo com as águas da terra, espargindo o doce sobre a graça, o espírito e a vivacidade, em harmonia e comunhão, cada um deixando-se tocar e se penetrar, aumentando e diminuindo o volume, orquestrando o entorno revezado e concomitante, miúdo e torrencial, abrandando com o vento austero que arregaça as ondas, rugindo com grandiosidade e elegância, donas do mundo que enfrentam a lua e por ela não recuam, mas se impõem e aquietam-se quando lhes apraz, então surgem seus contornos graciosos, de expressão severa e bela, para experimentar os ares do continente a desfraldarem seus cabelos, caminhar pelos prados verdejantes a encantarem-se com seus movimentos, pelas ribeiras sombrias a revelarem seus mistérios, pelos bosques passarinhados a juntarem-se ao seu canto, e a ele também me junto para cantar-lhe uma canção de amor impossível, mas esperançoso, entre o meu mundo e o seu, entre a terra e o mar, o mito e a realidade, cercado de enigmas que só o coração pode desvendar, de simplicidade que você é capaz de entender, de paixão que você é capaz de sentir, que vem de um lugar antigo que traz saudade, que tem águas transportando casais enamorados por entre as edificações, que nos convida a valsar, a relembrar os tempos de cavalheirismo, e como é lindo vê-la embalar-se ao som envolvente, descontrair seus lábios carnudos e descerrar um largo sorriso, rodopiar e rodar sua saia alegremente ainda que por poucos segundos, e como é sublime e lastimoso vê-la valer-se deste instante de felicidade para abrir sua voz e entoar sua despedida.