sábado, 1 de outubro de 2016

MULHER DE CORAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Fertilidade da terra, Amarela, Minha eternidade, Sua pele não escurece os mais puros alabastros de Esparta, Nem substitui o negro, Para anunciar meu declínio, Minha velhice, E minha aproximação da morte, Porquanto branca é sua afinidade, Tua é a cor da fruta pêssego, Seiva iluminadora de meu corpo, Macio veludo que o recobre, Lançado à luz pela minha verdadeira mãe ocidental, Me imortaliza a cada 3 mil anos, Me dá o oráculo, Sua madeira pessegueiro me dá o pincel de adivinhação, Ao movimento do forcado laqueado de vermelho, Princípio da vida, Diurna e noturna, Quando seus pecados são como o escarlate, Como neve eles embranquecem, Tal qual a matiz áurea tirante ao alvo, Quando eles purpuram a uva, Como lã se convertem, Abuse de minha própria inteligência, Do meu conhecimento do bem e do mal, Prove de minha maçã proibida, Ou reflita melhor enquanto ela ainda é verde, Que embala as ramas nas matas, Enquanto há esperança, Enquanto sou fértil, Pevides de melão, Sementes de melancia, A te fecundar, E você a me alimentar, Porquanto a vida parte de mim, E desbrocha em você, Entre seus braços, Aos desígnios da providência, À epifania de luzes, Sem rosto e sem forma, Com aspecto de uma pedra de jaspe e coralina, Com um trono envolvido por um arco-íris, E reflexos de esmeralda, Minha longevidade, Não priva a luz, Divide-se entre a servidão a três flores-de-lis douradas e à abóboda lápis-lazúli, Minha imaterialidade, Par le sang de Dieu, Sang bleu, Une peur bleue, Je n´y vois que du bleu, Minha marginalidade, Não anoitece, Desapega-se dos valores deste mundo, Vai de encontro ao branco virginal, Ao sabor agridoce do mirtilo, De muitos sêmenes, E no lusco-fusco da madrugada, Você é a jabuticaba, Preta e bela, Filha de Jerusalém, Canta a noite, Mãe dos deuses e dos homens, Origem de todas coisas criadas, A vênus, Quando você enluta teus doces dias, Ressoa internamente o preto, No lugar do alvo, Torna-se um nada sem possibilidades, Como um nada morto depois da morte do sol, Como um silêncio eterno, Sem futuro, Sem nem mesmo a esperança de um futuro, Quando você desenluta, Produz sobre minha alma o mesmo efeito de um dorido silêncio que vem da lua, Absoluto, Vivo, Transborda as possibilidades vivas, Um nada, Pleno de alegria juvenil, Anterior a todo nascimento, A todo começo, Branco e frio, Como ressoava nos tempos da era glaciária, A filha de Deus, Que me toma consigo, Me leva, Sozinho, Para um lugar retirado, Num alto monte, E ali transfigura a noção de amor, Diante de todos os frutos e cores, Despojando-se da veste profana, Tornando-a resplandecente, Extremamente branca, De uma alvura tal como nenhum lavandeiro na terra pode alvejar, Como nenhum homem mulher de coração pode sonhar.

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