sexta-feira, 30 de setembro de 2016

SEMELHANÇA A DEUS (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 


Seu espírito elevou seu ânimo às alturas e você se pôs a procurar numa busca incessante, penetrando incólume nas profundezas dos domínios do imaterial e do supra terreno, tangenciando os arredores da abóbada celeste e contagiando-a com alegria esfuziante, no topo do cosmos, logo abaixo de Sírio, grandioso, poderoso, invencível. Você é sagrado, divindade persa e prussiana, e de lá, mais acima no lugar de Sírio Alfa e Sírio Beta, lança sombra sobre a terra, e todos ouvem sua voz eloquente trovejar e mal conseguem acompanhar suas ideias difusas e furtivas, ideias de filho de Boanerges, nau centáurea desde o nascedouro navegando apressada num rio caudaloso, ganhando volume e velocidade, vigor e vontade, até o mar, o mar que não recusa rio, muito menos você que é deus ciano e cerúleo, confiante e devoto da fé, e que toma o lugar da fonte de toda energia que aquece oceanos e continentes, e de lá, no lugar do sol único, se torna lua cheia, lua do meio-dia e da meia-noite, e quem da terra olha para seu brilho é água doce e salgada evaporada com calor intenso, é vida dizimada em segundos, é palco da fauna humana envolto numa densa atmosfera venusiana e asfixiante, derretido num mar de lava escaldante. Você é habilidoso, curandeiro, incansável, é deus que não come, não bebe e não dorme, é sobre-humano, forte como o aço, real como rei, mas se imiscui muito com o humano e a ele se afeiçoa, como ele sonha, fantasia e se entrega a devaneios, veste sua carne, veste denim e índigo, ostenta safira e turquesa, se enfatua e se deprime, não suporta mais sua onisciência, sua onipresença, sua onipotência, não sente mais prazer na fartura de seus conhecimentos, tem medo da solidão, quer dirimir suas dúvidas erosivas tentando convencer pai e filho que é espírito santo, desce do seu pedestal sideral e inatingível, cai como estrela cadente, vem ter com o homem e vive como ele, iluminando os quadrantes do globo como tocha de pirilampos, como uma estrela brilhante do chão. Você se revela um deus que não conhece o mundo que governa, tropeça na própria sombra e acaba se atracando com demônios de minas e se sujando de cobalto para depois se lavar com água-marinha. Você se inebria com o aroma da ardósia e da flor do milho. O gelo se incrusta na sua visão e a neve esquenta o frio que lhe dá arrepios. Os florais o seduzem tanto quanto fumaça e como fumaça desaparecem os fantasmas que surgem à sua frente. Você perambula por florestas da primavera com grama alta e banhadas por mar escuro, farejando hortelã e vasculhando os caminhos que trilha atrás de jade e esmeralda, e,  quando atravessa o pomar do fruto outrora proibido, amarga o limão, se adocica com o abacaxi, transborda da boca para seu queixo o sumo suculento do pêssego, se lambuza de manga, passa ao largo de cenouras e abóboras, não resiste aos bagaços de laranja e se meleca com mamão. Você não se demora muito no mundo mundano, pois sinais de perigo se adiantam aos seus passos e obstruem seu caminho com calçamento de tijolo quente, refratário e incandescente, manchados de sangue, urucum e carmim. Vejo o seu tempo no céu e na terra chegar perto do fim. Você se fartou demais com alimentos dos deuses e dejetos humanos e deve verter, deve se metamorfosear de alguma forma espetacular, deve explodir em bilhões de pedaços super novos, e suas cintilações serão um farol para todos os navegantes da galáxia. Seus cacos juntados ainda não se sabe o que formarão. Um insaciável buraco negro que suga até a luz da vida ou uma densa estrela de nêutron que dela desiste.