sexta-feira, 30 de setembro de 2016

ASSIM FLUÍA A INSONDÁVEL RELATIVIDADE DO TEMPO 1 (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)
Quero luz!, eu gritava com medo do escuro.

Na primeira vez que corri fiz um ótimo tempo, muito longe, porém, de despertar o interesse de um Felípedes. Não foram centenas de quilômetros de um dia para o outro em terreno próprio para maratonistas, nem partindo da cidade mais gloriosa do planeta para outra tão platonicamente venerada pelos deuses, nem a mando de outrem clamando por socorro. Foram meras centenas de metros colina acima, imprópria para cavalos, sempre contra o vento, num lapso de tempo imponderável como quando se passa de um sonho para outro. Num lugar com um nome desses, carne seca, só podia se esperar desinteligências e brados assustadores.

Espera aí que eu vou pegar o meu revólver e vocês vão ver uma coisa!

Queimei o chão duro e empoeirado feito uma supernova desabrochando, inaudível e invisível, cheguei até o lugar onde a arma se escondia, separei suas partes, guardei-as noutros recônditos e esperei. Quando me veio a certeza de que meu lar não perderia um pai para um criminoso, meu ofego assossegou-se, desapertando-me o peito, a alma e o coração que ainda batia um tanto acelerado como as passadas de um corredor de marcha atlética.

Era só o começo da década de ouro e nela eu adentrava cheio de temores: da água agitada do mar, da terra alheia com frutos para roubar, do fogo da vela se apagar e do terror noturno que sufocava o ar. Pitágoras abordara sistemas quaternários como estes e Platão insinuou-os.

Um, dois, três... e o quarto integrante, que se diz único e verdadeiro e que hoje deveria aqui se materializar?, lembrou minha alma gêmea em voz alta de uma pergunta que eu disse ter recebido de meu daimon. Minha alma gêmea, sempre saudosa de minhas proezas inglórias, que ela sempre pensou tratar-se de peripécias premeditadas, leu uma frase de Camilo Castelo Branco no mesmo dicionário que se tornou seu livro de cabeceira e arriscou uma resposta:

Deve ter adoecido repentinamente ou anda ocupado com artimanhas. Por ele, não faltaria ao encontro. Mas também diante deste triunvirato de condiscípulos ele bem que poderia já estar aqui presente ainda impalpável, fazendo-se de fantoche que ri por descomprazer e fingindo não ter dado as caras onde é esperado.

A estes caprichos da imaginação de minha alma gêmea não faltava certa parcela de verdade, mas para a apoteose dos meus pavores faltava ainda um quinto elemento. Walter Benevides escreveu que com a surdez que o levara aos últimos quartetos, Beethoven quinta-essenciou a música. Eu fiz o mesmo com a esquizofrenia, com a insegurança que me levara a esta primeira quaternidade, instável como o núcleo de um átomo bombardeado por um nêutron. Antes mesmo do crepúsculo dos anos dourados já se apossara de mim essa demência precoce, autista, desafeita ao contato vital com a realidade, relapsa com as formas usuais de associação de ideias, redutora da afetividade.

Eu tinha razões de sobra para enlouquecer, como John Lennon disse lá em cima do outro lado do atlântico, ao escrever uma canção que foi usada na abertura do filme A Hard Day’s Night, falando sobre um jovem desiludido. E aqui em baixo do lado de cá deste mesmo atlântico, embora não conhecesse a letra desta música, eu encarnava-a no melhor estilo do meu ingênuo mundo interior e de meu pobre terceiro mundo exterior. Apaixonava-me por toda garota que conhecia, mas perdia todas antes que cada uma delas soubesse que pertencera a mim. A cada desilusão, tinha vontade de trancar-me num quarto o dia inteiro, mas como não conseguia, chorava, de preferência sentado na calçada próxima à casa de um de meus amores não correspondidos, esperando que alguém se apiedasse de mim. Brigão e discutidor, não conseguia dialogar com ninguém que conhecia e se reencontrasse um de meus desafetos trataria de fazê-la infeliz, mas como não conseguia, chorava, mas não na frente dos outros. Tímido demais, eu pedia as meninas em namoro através de bilhetes e prometia para mim mesmo que um dia iria partir os corações de todas elas, em dois, como fizera com aquela máuser alemã, e iria mostrar ao mundo o que um rapaz apaixonado é capaz de fazer.

Mas enquanto esse dia não chegava, veio uma noite, comum para os sem recalques e bem-sucedidos, mas dramática para um complexado e fracassado como eu, suscitando-me uma apocalíptica tensão pré milenar, uma tensão de véspera de confissão de primeira comunhão. Do outro lado da zona norte, em Santo Amaro, eu e alguns companheiros nos entrincheirávamos numa bela casa de gente fina onde deveria ser comemorado o aniversário de uma debutante ao som de preciosos vinis generosamente cedidos por Kekya. No entanto, um acontecimento inesperado e quase fatal estragou a festa e impediu que todos os convidados adentrassem. O pessoal do bairro foi preterido em favor dos de fora que foram acolhidos somente porque vieram de longe. Desinformados e inconformados com a diferença de tratamento, os locais enfureceram-se, assomaram-se e começaram a gritar palavras de ordem.

Pau nestes caras!

Para mim eles eram os próprios arautos do armagedon anunciando meu fim. Me vi de súbito arrancado do chão firme e lançado num umbral como o meu tio com um tronco de escudo de águia fizera comigo naquele dia em que provei do sal do mar pela primeira vez.

Seu filho da puta, seu filho da puta, disse ao mesmo tio que muitos anos antes assustara-me com uma horrenda máscara de carnaval que rivalizava com sua silhueta de chipanzé.

Seu filho da puta, você não sabe que eu tenho medo dessas coisas?

Se naqueles dias eu já dominasse a minha original, mas já obsoleta e puída técnica para dormir entretendo a mente com radiodifusões de mesas redondas sobre campeonatos de futebol de botão que eu mesmo protagonizava, uma de minhas muitas fantasias que nasceu na minha puberdade e acompanhou-me até a idade adulta, eu poderia imaginar que aquela multidão lá fora fosse um bando de beatlemaniacas ensandecidas assediando a estação de trem onde seus ídolos estavam prestes a desembarcar e atirando-lhes gritos frenéticos. Mas naqueles dias a minha imaginação era mais pródiga em potencializar pavores reais, tão reais quanto as pedras que começavam a torpedear as portas e janelas da casa onde eu abrigava-me como se fossem incessantes investidas gregas para desentocar as presas troianas. Quem ousasse espreitar pela vidraça por trás das cortinas contemplaria assustadores e flamejantes cabos de aço serpenteando e estalando no ar como fios elétricos em curto-circuito. Esta afronta justificou um incomodo pedido de ajuda da anfitriã ao seu pai, mas a resposta foi tão desalentadora quanto àquela dada a Felípedes pelos espartanos em festa.

A titia está fora de perigo e já estamos voltando para casa! Peça para todos se retirarem e diga a eles que ninguém lhes fará mal algum. Vou avisar a polícia também!

Como se tivesse grampeado o telefone e ouvido toda a conversa, o líder dos espartanos em guerra deu um grito penetrante e desagradável que soou como o estampido de um cano cuspindo fogo e chumbo quente:

Sou o pardal e estou com meu berro!

Passei de trêmulo para petrificado. Nada mais podia ser feito. Aquela arma já estava empunhada! Logo cogitei a possibilidade de simular um mal-estar para justificar minha permanência e até um pernoite na casa, mas esta alternativa se desfez logo que a anfitriã se pôs a chorar copiosamente diante do dilema em que se encontrava e queria ela mesma sair lá fora para pedir aos bandoleiros para deixarem seus hóspedes saírem em paz, mas eles não permitiram que ela corresse tal perigo.

Qual porta deste inferno em chamas que começam a me consumir dá saída para algum lugar que não seja os braços da morte?, perguntava-me, e eu que já tinha aquela mania de dizer deus me guarde ao se deitar. Mas naquele momento eu precisava mais do que um guarda-costas divino.

Conheço o pardal. Vou lá fora levar um papo com ele. Deixa comigo!, tranquilizou um dos forasteiros na casa.

Todos suspiraram com uma indisfarçável sensação de alívio com a iniciativa deste herói, ainda que momentânea, pois tinham sérias dúvidas quanto ao sucesso dessa inesperada e corajosa proposição. Podia-se ler todos os pensamentos que permeavam o ambiente. Alguns achavam que ele estava se arriscando e poderia morrer de tanto apanhar. Outros achavam que ele não voltaria e estava apenas tentando salvar sua pele. Eu torcia para que ele estivesse dando uma de boi de piranha. Mas como era mesmo um milagre concedido pelo meu deus da guarda, o estranho, cujo nome minha alma gêmea jamais registrou, retornou ileso e sorridente para dentro da casa.

Barra limpa! O pardal me reconheceu e me garantiu que vai deixar barato desta vez. Não tem erro! Podemos sair!

A anfitriã se acalmou, mas os outros sete estrangeiros nem tanto: Too Good To Be True, cantavam os Uniques no prato da vitrola que se mantivera rodando o tempo todo desde o assédio à casa. Era comovente ouvir os meus pensamentos otimistas de que eu logo estaria do lado oposto daquela situação tão amarga, como num passe de mágica, como se bastasse simplesmente virar o disco e ouvir a tão doce Georgia On My Mind. Mas era hora de todos saírem. E, desconfiados, saímos. O negociador puxou a fila indiana. Porém, ao chegarmos lá fora, ficamos espantados com a multidão que se aglomerava nas duas calçadas, formando enormes paredes que se estendiam quase até o meio da rua e deixando aberto apenas um estreito corredor polonês. Se o pardal havia concordado em deixar todos saírem por que, então, aqueles mais de cinquenta espartanos lá permaneciam em disciplinada formação? D’Ardósias, meu primo, sabia porque e enquanto começava a caminhar a passos vacilantes por entre aquela massa humana calada, mas de olhos atentos, virou-se para mim e sussurrou:

Nós vamos levar o maior cacete. Quando eu gritar você corre.

Luz para que te quero! Pernas para que te quero!, eu retumbei em pensamento, enquanto calculava quantos metros teria que percorrer até dobrar a esquina e alcançar a rua para a libertação.

Mas não foi preciso esperar pelo sinal de D’Ardósias. De repente, sirenes estridentes romperam o silêncio e varreram o céu negro com fachos de luzes vermelhas e brancas, alarmantes e intimidantes. Gritos de pega e de cada um para si e deus para todos vinham de todos os lados e as colunas espartanas inapelavelmente precipitaram-se sobre os troianos como as águas divididas por Moisés fizeram com os egípcios.

Se fosse possível entrar na minha mente ver-se-ia aquela cena de A Hard Day’s Night com três Beatles correndo das fãs pelas calçadas de Londres. John e George na dianteira e Ringo na rabeira. George tropeça e cai e em seguida Ringo tropeça em George a também cai. John segue em frente, os outros dois Beatles logo se recompõem e os três continuam a correr, deixando aquele bando de garotas desvairadas para trás. Minha objetiva grande angular enquadrava-me com D’Ardósias indo à frente e Kekya seguindo logo atrás. Antes de largar, driblei duas rasteiras seguidas, saltitando como um impala à frente de uma chita vencida pelo cansaço, e ainda transpus uma barreira formada pelas costas largas de D’Ardósias que chegou a roçar o rosto no asfalto antes de embalar de quatro com seus braços compridos de orangotango e ganhar a pista. Kekya, sua vitrola e seus discos caíram nas garras das bestas, e foram largados estatelados no piche como um só monte de ferro-velho. Dele se ouvira mais tarde que permaneceu num hospital quase um mês.

Eu deslizava como um verdadeiro meio-fundista vendo à minha frente apenas o tênue brilho de uma medalha de ouro no lugar do amarelo da luz do semáforo que se avistava ao final da rua longa, deserta e escura. Surpreendentemente, faltando 500 metros para a chegada, eis que D’Ardósias ultrapassa-me como um fantasma do qual só se via uma vasta cabeleira cavalgando sobre os ombros. Percebi, então, que o perigo não havia passado, mas, ao contrário, também buscava um lugar no pódio e sem olhar para trás imprimi mais velocidade às minhas pernas fortes e impróprias para calças apertadas, mantendo-me no vácuo de D’Ardósias e alcançando-o na avenida iluminada, o mar onde o homem lobo não se atreve. D’Ardósias sentou-se na calçada, esbaforido, e eu, em forma invejável, mantive-me de pé, mas não podia pavonear-me em triunfo porque ainda tinha na mão aquele lugar escuro onde nunca bate sol. Depois de tamanho susto que entorpeceu minha cabeça, era justificável ouvir-me no dia seguinte proferir uma impropriedade ringoiana como esta: A hard night’s morning.

Com muito mais propriedade profetizou socraticamente meu daimon ao estilo do imitador anônimo de Platão.

Quero cingir-te a fronte com esta coroa de bandanas, pois sei que você obteve-a merecidamente com sua arte de correr e como primícias dos despojos de seu medo, e de bom augúrio considero tua triunfal guirlanda de suor, pois como você sabe seus temores te oprimem como uma tempestade violenta e as próximas que se avizinham não serão menos violentas do que as de hoje e nem as de outrora e de muito bom grado eu alcançaria vitória sobre teus pesadelos.