sexta-feira, 30 de setembro de 2016

E ASSIM DEVE SER O INFERNO NA MENTE DE ONDINA (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O daimon de Matilda costumava dizer-lhe que a vida em si já é uma expiação e a aconselhava a carregar sua cruz com classe e jamais cair na tentação do satanás de aliviar o peso do seu fardo, e não ter com ele nenhum tipo de envolvimento, nem por brincadeira. O daimon de Matilda era adivinho, filósofo, profeta e cristológico e Matilda costumava participar à sua amiga Ondina tudo o que seu daimon lhe dizia, e Ondina não só se encantava com essas histórias de gênios como também adorava remedá-las, parafraseá-las e parodiá-las, pelo simples prazer de entreter sua mente. Não existe nenhuma palavra no vocabulário desta língua ou de qualquer outra estrangeira que possa explicar Ondina. ‘Espirituosa’ é um vocábulo atraente e tentador, mas está muito distante de uma definição apropriada para o caráter de Ondina. A maior dificuldade de se encontrar palavras para explicar a personalidade de Ondina talvez resida no fato dela sempre parecer se situar exatamente na fronteira que separa um gênio de uma louca. Ela não era nem uma nem outra e tampouco um meio-termo das duas. Talvez fosse um novo tipo psicológico ainda não descoberto pelos cientistas. Talvez ela fosse aquela resposta que Matilda recebeu do Dr. Allen Hynek sobre discos voadores: Se eu lhe dissesse de onde eles vêm eu estaria mentindo, pois ninguém nem mesmo sabe o que eles são. Mas, como dizia aquele presidente corrupto e obtuso, make no mistake about it, Ondina era humana e deste globo terrestre e nele vivia embora ela fosse capaz de se desvencilhar o suficiente de todos os laços da realidade relativa para criar seu próprio mundo. E ela vivia como qualquer cidadã que tem o direito de entrar numa biblioteca pública, folhear e tomar livros emprestados, devolve-los e consultar outros. Ela também ouvia vozes, mas nunca as atribuía a daimons. Nunca acreditou que alguém pensasse ou falasse por ela. Sempre achou que as vozes eram apenas ecos de seus próprios pensamentos, típicas de uma pessoa que, como ela, tinha o costume de constantemente falar com seus botões e confabular com sua consciência. Ela também tinha visões, mas nunca se deixou envolver por elas, e também jamais abstraiu delas qualquer ideia própria. Ela simplesmente as contemplava enquanto seu incansável inconsciente se incumbia do resto. Ondina era sociável, participativa, oferecida e de raciocínio rápido. Ela respondia a tudo, no ato, sem pensar muito e sem nenhuma intenção de zombar ou de pousar de engraçada e intelectual. Nenhuma pergunta ou observação a ela feita ficava sem resposta ou sem um comentário. Ondina só emudecia diante de Matilda, a quem ouvia atentamente, e para os demais falava tudo o que Matilda remoía em casa, sozinha, por horas a fio, lamentando-se sempre por não ter dito o que precisava ser dito na hora certa, e inutilmente se vangloriando de todas as respostas à altura que ela esculpia meticulosamente, imaginando o efeito que elas teriam produzido se fossem ditas nos instantes que já passaram e não voltam mais. Ondina era um anseio por rigidez de caráter aparentado por Matilda e esta um sonho de liberalismo inconsciente representado por Ondina que não era santa, nem satânica, nem tão burra, e muito longe de ser brilhante, mas não totalmente desprovida de malícia beatificada, bondade mefistofélica, repentes irracionais e sobre-humanos. Era inútil querer encontrar em suas palavras beleza e elegância de expressão, vivacidade de matuta, ou ironia refinada e voltairiana. Ondina era também muito prestativa, ou pelo menos isso era o que ela fingia ser, e falava por falar, para não se omitir e não ser negligenciada, sempre com boa fluência e conteúdo, parecendo culta, mas era apenas uma curiosa, uma palpiteira afetada por criptomnésia crônica e, invariavelmente, se complicava, pois boa parte do que dizia sempre transgredia o contexto em que se encontrava. Ondina lembrava muita a morte quando esta cometia um deslize. Quanto mais ela queria consertar uma ideia mal formulada e mal compreendida, mais ela se alongava, iniciando um interminável corolário de complicações, mas ela sempre acabava encontrando meios tão intrincados de se safar quanto suas próprias enrascadas. Se não fosse o fato dela ter registrado esta história, ela seria mais uma pessoa inexplicável, passageira e esquecível, como Pacífica e Bombeira, mais um ser cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade, um ser sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem e que não fazia sentido para os seres que a habitavam e nem para este universo que a abriga como uma das inúmeras e pequenas incrustações num grão de areia do oceano. Se um dia Ondina apreendeu um pouco de ingenuidade no seu convívio com Matilda, este pouco de pureza que ela conservou foi contaminado pela perversão e hipocrisia da sociedade e pelo seu total desapego a juízos de conduta humana no que concerne conceitos do bem e do mal, mas o seu sarcasmo ficava reservado somente aos seus pensamentos que eram dirigidos mais enfática e desavergonhadamente aos perpetradores do mal, como o belzebu mutreteiro das advertências do daimon de Matilda.

DAIMON DE MATILDA: Matilda, Cuide para que não recaiam sobre ti carmas recalcitrantes por teres envaidecido o arqui-inimigo de Deus na sua própria casa com a desculpa de que uma vez lá estando nada te custaria saudá-lo. Em verdade te digo, chegará um dia em que encontrarás o tinhoso numa boa hora e ele tentará te seduzir e te fazer hóspede em sua morada, se demorará na sua mestria cerimonial e tardará em lhe servir uma saideira de modo que para se livrar dele terás que ser mais ardilosa que o próprio.

ONDINA: Sabe, Seu capeta, não querendo fazer média com o senhor, mas eu acho o seu inferno impecável. Estas fornalhas inspiradas no holocausto de Hiroshima são impagáveis. E eu que pensei que fosse encontrar aqui apenas aqueles caldeirões de pigmeus, fogueiras da santa inquisição e até mesmo aqueles fornos dos campos de concentração nazistas! Agora, essa sopa de merda que é servida aqui é simplesmente do caralho, ou melhor, do cu mesmo, e com certeza faria os mais finos paladares das moscas parasitas do distrito federal renderem-se ao seu inigualável sabor. E esse cheiro de enxofre então? É denso, substancioso e delirante! Nem todos os peidos de toda a humanidade soltos ao mesmo tempo se comparam a esse telecoteco em sovaco de nega, cheio de manteiga de se lambuzar, e com catinga de macaco misturada com a de gambá. Estou tão chapada que vou voltar planando. O senhor me dá licença mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar minhas amigas e convivas se iludindo com o reino absoluto dos céus depois de eu ter conhecido esta livre democracia terrena que não cobra dízimos e nem exige vestes nupciais para entrar. O senhor não perde por esperar! Esta sua humilde e honrada penetra há de aqui regressar em breve como a melhor guia de almas e balas perdidas que esta zona maravilhosa cheia de encantos mil jamais viu.


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