sexta-feira, 30 de setembro de 2016

IVONE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Velha combatente com arco de teixo, Minha princesa Sarracena de Espanha, Famosa em guerras, Ainda estou curioso para saber de você quantas moradas nossos irmãos egípcios nos reservam nos elísios, Isto é um tesouro que sei onde está enterrado, E espero trazê-lo à superfície e à vista de todos antes de encontrar a totalidade de minha alma, E se você encontrou a sua, Já deve saber que não sou mais o filho perdulário que retornou ao seu santuário, Nem seu melhor presente de natal, Mas tenho ainda o dorso de minha mão marcado com seu beijo de humildade, E abaixo de meus olhos seu corpo curvado em nobre reverência, E aquele seu gesto augusto subtraiu-me mais do que uma vida humana, E ainda que eu tenha outras mil e tantas, Pois, Como disse Olavo Bilac, Há nela cem mil vidas, Você censurou meu coração para sempre, Mas você deve saber também, Que seu paraninfo rico e poderoso banalizou sua modéstia, Na homenagem de corpo ausente que lhe prestaram, Roubando a palavra e a atenção para si, Recheando o réquiem com todos os predicados que, Segundo ele, Enchiam teus olhos, E para ti, Minha companheira de batalhas de mil anos, Sobraram palavras que  não podem te orgulhar: Tu és dona do descanso eterno, Amém, E entre os que ainda mantém-se no exercício do viver, Aquele que ouve conselhos de duendes embarcou Jesus num disco voador, O lapidador de pedras brutas trocou o alimento do espírito pelo adorno do corpo, Seu melhor amigo, O salvador da pátria, Segue doutrinando mais do que amando, Teu adulador varonil saiu combalido numa batalha pelo seu lugar e desapareceu, E o homem de ouro que primava por um calendário letivo, Enganou-nos com sua hipocrisia e ignorância, Portanto posso ser o pior de todos os crápulas, Mas não o único, Pois como dizia seu maior ídolo, Criminosos somos todos, Quando descobertos, Assim, De mim você nada deve esperar, Porquanto ainda continuo procurando saber o que fazer quando nosso sol está frio demais, Mas quem sabe o tempo ainda possa aguardar! Quem sabe, Antes de te reencontrar, Eu tire de debaixo da terra o tesouro que sempre desejei te mostrar! Enquanto a sucessão dos anos ociosos não se impacienta, Faço-me acompanhar de fantasias que remontam às nossas mais recentes origens, Aquela jovem donzela que, Em desespero, Atirou-se ao rio. Por causa de um amante infiel, Morreu, E transformou-se em sereia, E desde então, Ouve-se seu canto junto a uma rocha no rio, E também aquela outra jovem donzela, Que teve sétuplos, Seus filhos roubados pela sua sogra, E entregues à sua serva com ordens para matá-los, Seis deles transformaram-se em cisnes, Ao terem retiradas suas gargantilhas de nascença, Mas o sétimo sobreviveu, E salvou a própria mãe de ser queimada viva na fogueira, E você? Com quem anda ultimamente? Se você tiver um tempo de folga, Passe um dia desses nos meus sonhos, E leia nos meus pensamentos algumas preciosidades que sempre escondi de você, E, Se lhe for permitido, Antecipe-me algumas surpresas que me aguardam no seu lugar sagrado! Isso ficará somente entre nós dois, Nós dois e Deus que é não é só pai, Mas pai e mãe, Mãe de todas as mães, Pai de todos os pais, Deus como nós dois e todos somos, E como você sabe, Não há segredos entre irmãos de guerra, E este é outro tesouro que não se mantém em lugar recôndito.