terça-feira, 27 de setembro de 2016

PACIENTE INDIGENTE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ela se toca logo que se completa o elemento estável de sua conduta, De sua maneira definitiva de existir, Que a distingue das outras, Ela se toca porque quer compreender o espaço que seu ser ocupa na atmosfera, Ela se toca porque é precoce, E é nessa precocidade que o demônio faz morada, É numa alma que tem uma prematura percepção de si mesma no mundo que ele busca refúgio, Num intelecto brilhante que se intimida e se encolhe diante da opressão interior que conturba seus sentimentos e suas paixões, Levando-a a trilhar atalhos para minimizar perigos, A desviar-se da exuberância da vida, Uma vida ilhada, Sentindo-se solitária, Ainda que rodeada, Pois ela é terra e não água, Terra adormecida, Quando deveria estar desperta, Terra cansada e sonolenta, A quem é negada o sono reparador, Terra que aparenta sobejar fauna e flora, Mortificada no seu núcleo, E em farrapos, indefesa, arqueja moribunda nas mãos do demônio, Que afasta todos os que deveriam estar por perto, Repugna todos que a viram nascer, crescer, procriar e sonhar, E isola esta ilha num deserto, Tornando-a insípida, Ainda que cercada, Pois ela é terra e não areia, Terra de desprazer e tristeza em meio a desgostos e aborrecimentos, Terra doentia desavistada num leito, Mantida na sarjeta com paliativos convenientes que aprazem o demônio, O último estágio da dor humana.
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