segunda-feira, 26 de setembro de 2016

POR QUEM LÁGRIMAS SÃO DERRAMADAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);

Nasci com um tipo de depressão incurável e que já roubou mais de três quartos de minha vida. Embora fosse introvertido, inseguro e medroso, tive uma infância feliz. Isso se deveu, em parte, aos tempos em que vivi, os mágicos anos 60 que nunca mais voltarão a este planeta. O responsável pela outra parte foi meu pai. Homem honesto e generoso, batalhador, que vivia só pela família. Seu pai só lhe permitiu cursar o primário e o fez pegar pesado no batente na construção civil com apenas 12 anos. Ele aprendeu a ser construtor com meu avô italiano. Com 21 anos de idade ele construiu sua própria casa nos fins de semana, e acordava às 5 horas da manhã de segunda a sexta para chegar ao trabalho às 8 da manhã e voltar para casa só depois das 8 da noite. Não éramos um família rica, nem pobre. Apenas gente da baixa classe média morando num pobre bairro da periferia de São Paulo. Meu pai não deixava faltar nada a mim e aos meus irmãos. Quando sobrava alguma coisa, tinha bicicletas, trenzinhos elétricos, bolas de futebol e toda sorte de brinquedos para todos. Meu pai não era de falar muito. Simplesmente agia. Não pedia favor a ninguém. Sempre se antecipava às necessidades de qualquer parente. Construiu casas para todos, sem nada cobrar. Não tinha nem 35 anos quando comprou um apartamento na Baixada Santista. Nos 60 a Praia Grande era um verdadeiro paraíso e lá passávamos as férias de verão nos meses de Janeiro e Fevereiro todos os anos. Certo dia, chegou em casa meu primo mais velho que morava no interior. Ele queria conhecer o mar. Meu pai prontamente se dispôs a levá-lo e juntou-se a eles um de meus tios. Eles passaram três dias na praia. Eu chorei três noites seguidas de tanta saudade de meu pai. Isso era inexplicável porque raramente eu ficava ao lado dele. Naquela época, os meninos passavam o dia inteiro brincando na rua. Voltavam para casa ao escurecer e só sobrava tempo para tomar banho, jantar, assistir um pouco de televisão e ir cedo para a cama. Meu pai trabalhava 16 horas por dia e eu só o via à noite, perto da hora de se deitar. Aquele choro de saudade ainda hoje parece a ressonância de uma cantiga tão pesarosa que, embalando minha infância, me segue por toda a vida. Nem mesmo quando meu pai faleceu em 1997 tive um choro tão triste como aquele quando eu era uma criança de 10 anos. Igual pranto assim plangente ocorreu-me somente uma segunda vez. Eu já era casado e tinha três pequenas filhas. Me orgulhava muito de ter meninas tão bonitas. Meu amor por elas era o mesmo que o meu pai tinha por mim. Foi uma pena que minha família me marcou com a fama de ser um pai indiferente e ausente. Nunca culpei ninguém por isso, porque ninguém jamais soube que não era eu quem estava no comando o tempo todo. Eu assumia o controle e gozava de raros momentos de felicidade quando minha depressão se cansava e dava uma trégua temporária, como alguém que tira férias do trabalho e fica um mês fora. Minhas filhas dormiam num quarto não muito grande, nem muito pequeno, mas muito confortável. Elas dormiam num beliche e numa cama. Depois de alguns anos os móveis de madeira começaram a se deteriorar e precisavam ser trocados. Minha ex esposa decidiu comprar móveis mais modernos e duradouros, com armações de metais. Nós doamos os móveis de madeira a uma instituição de caridade. Mas tivemos que esperar quase um mês para a loja nos entregar as novas camas. Enquanto isso, minhas filhas dormiam nos colchões estendidos no chão. Eu sofria demais com isso. Me achava um pai desnaturado por deixar as minhas meninas dormindo junto ao assoalho. Eu deveria ser o único a padecer com isso, porque minhas filhas até se divertiam com essa novidade. No dia que chagaram as camas novas, tranquei-me no banheiro e chorei muito, de alívio e alegria. O mesmo choro sentido de saudade de meu pai quando eu era criança. Embora eu não tenha tido a capacidade de ser para minhas filhas tão prestativo quanto meu pai foi para mim, creio que herdei dele um pouco de seu sentimentalismo. Nunca mais chorei desse jeito tão amargurado, mas meu pai foi acometido por estas lágrimas incompreensíveis duas vezes, uma vez por mim e outra pela família. Quando fui à China pela primeira vez eu já tinha mais de 40 anos. Mesmo assim, meu pai derramou muitas lágrimas ao se despedir de mim. Era um tudo-nada de um pai que ama de verdade, aflito apenas por ver um filho viajar para tão longe. Encontrei os mesmos olhos lacrimejados quando voltei ao Brasil depois de um mês. E a última vez que eu o vi foi na UTI de um hospital de onde ele não sairia com vida. Ele já não podia falar porque tinha sido submetido a uma traqueostomia. Ele me abraçou e chorou. Ele não tinha medo de morrer. Ele só queria que eu o levasse para casa, porque a família precisava dele. E não pude fazer por ele a única coisa que ele me pediu em toda sua vida. Hoje choro à toa, por qualquer motivo banal. Talvez minha depressão que envelhece comigo esteja perdendo força e deixou se contagiar pelo meu sentimentalismo.


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