sexta-feira, 16 de setembro de 2016

FACE DANCES (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

O The Who havi
a passado pela vida dele como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e ele não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião ele já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.

Mas agora, sem saber, o Mensageiro da Enganação havia devolvido a ele sua paixão pela música e a ela ele se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e ele os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma b
anda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepujá-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e ele almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Ele nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, ele poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abri-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.

Quando ele se viu pela primeira vez frente a frente com o penúltimo álbum da banda chamado Face Dances ficou por vários minutos enfeitiçado pela atraente capa do disco de vinil exposta na vitrine de uma loja de shopping. Seus olhos infantis cintilavam como no dia que ele ganhou o primeiro trenzinho do Papai Noel. O brinquedo que se deixava ver e não se tocar por trás da barreira de vidro tinha um invólucro que lembrava a forma do A Hard Day's Night de vinte rostos em preto e branco, tirados de uma imitação de rolo de um filme fotográfico e dispostos em cinco colunas e cinco linhas, todos eles separados por molduras de azul comum, mas a embalagem de Face Dances era mais encantadora com aquele tabuleiro de dezesseis caras maiores, aquareladas, estilizadas, rabiscadas, deformadas, picasseadas, assombradas, irreconhecíveis, e de uma beleza que está somente nos olhos de quem a vê, como os olhos dele cuja mente embriagada de adjetivos fastidiosamente rimados é perdoada porquanto aqueles rostos dançavam em volta de sua cabeça e lhe sussurravam no ouvido que as músicas que os embalavam valiam qualquer estouro no orçamento.

Imagino-te como Lúcia no céu com diamantes. Coloco-te em movimento como um caleidoscópio de polichinelos pulsantes. Dou vazão à sua gentil leveza como uma exposição de borboletas esvoaçantes. Amplio-te no firmamento como um arco-íris que ganhou palhetas abertas em leques radiantes. Retenho em minhas pupilas a graça e a meiguice de seu olhar de uma miríade de gérberas deslumbrantes.


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