quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O QUE HÁ NUM NOME?

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Dalmanuta, Que ninguém conhece, Vira Magadan, Que ninguém conhece, E nas mãos de uma versão feminina de Erich von Däniken, Vira Megadan, A ordem da Grande Dan, Uma combinação do grego Mega (grande), E Dã, Uma das 12 tribos de Israel, Onde uma das 3 Marias, Recebe o título de Mãe, De autoridade sobre os gentios, Sem poder ser tocada por um sacerdote masculino, Sem nenhum Pai, Antes de tornar-se cristã, Mas nas mãos de um acadêmico, Um teólogo temente a Deus e a Jesus, Torna-se Madgdala, Na forma acusativa, Que perdeu uma sílaba, Na analogia da representação de Migdal-Gade, Uma das cidades de Judá descritas por Josué, Magadagad em grego, Que perdeu, Acidentalmente ou por transliteração, Um i, E ganhou um a, Como se lê em muitos manuscritos, E nas mãos de um arqueólogo, Também temente a Deus e a Jesus, A cidade de Tarichae, Peixe Salgado em grego, Mencionada por Flavio Josefo em Antiguidades Judaicas, Vira a Dalmanuta de Marcos, A Magadan de Mateus, A Magdala dos historiadores cristãos, A Migdal Nunia, Torre do Peixe em aramaico, Vira um pequeno estaleiro de barcos, Uma industria pesqueira, Um lugar de luxúria e depravação, De onde vem uma mulher possuída por sete demônios, E passa a ser chamada de Maria de Magdala, Maria Madalena, Como em Jesus de Nazaré, Jesus Nazareno, Ambos estranhos à grande Gália, Porque, Segundo os espiritualistas, Jesus planejou encarnar nesta terra dos gauleses, Mas mudou de ideia porque ela foi invadida pelos romanos, E então escolheu um lugar bem pequeno, A Galileia, Que, Segundo estes mesmos crentes, Significa Pequena Gália, Mas, Na verdade, Significa Distrito dos Estrangeiros, Por causa da presença maciça de Babilônios que cruzavam com mulheres israelitas quando eles ocuparam a Palestina, E mesmo sendo todos esses nomes mitológicos, Pergunta-se: O que há neles?

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SEGREDOS PECAMINOSOS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Esta noite, Já adulta, Sonhei que estava roubando dinheiro de minha mãe, Como fazia com 10 anos, Esse psiquismo involuntário no meu sono furta minha alma, Como quando era criança, Requinta minha sensibilidade, Como coralistas entoando cantos gregorianos num mosteiro beneditino, Reconta meu passado, Num vago misticismo de quem ainda não acordou, Do que já passou e não foi abandonado, Meu marido tem o mesmo nome de um priminho para quem mostrei minha vagina no banheiro de minha antiga casa, E insisti para que ele a tocasse, Será que a momentânea auréola do menininho ajudou-o a esquecer este despudor? E da mulher que me tornei? Será que aprenderei alguma coisa destas verdades subterrâneas que a morte esconde aos que simplesmente a temem? Ou diante dela se abandonam ao desespero? Será que segredos assim são da família, Das moscas teimosas, Que por mais que a gente as sacuda, Elas voltam e pousam? Todos os dias se juntam tamanhos bandos de reflexões em minha consciência, Que é um barulho de meus pecados, Estas lembranças são misteriosos arranjos de minhas ideias, O ar de meus próprios sentimentos, Que dão à minha vida uaspecto imoral e pecaminoso, Quantas vezes traí Deus, E me arrependi? Meu marido com palavras, Pensamentos e atrevimentos, Com a mesma leviandade que se troca um homem por outro, Como se troca burros por vacas e bois? Quantas pessoas já matei com as inconsequências de minhas ações, Poetisa narcisista na base de cuja inspiração se descobre uma falsidade radical? Em John Keats, O sentimento de beleza traía um fundo de religiosidade que conciliava o místico e o pagão, Em mim, Um martírio que posso encobrir, Com a mentirosa placidez de meu rosto, Com minha fronte audaz.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A PERFECT DAY FOR A GIANT SOUL WITH AN UNCERTAIN SMILE

A PERFECT DAY FOR A GIANT SOUL WITH AN UNCERTAIN SMILE (POSTED ON WWW.AMAZON.COM ON JANUARY 25TH, 2009). Allbum review written by Alceu Natali with Copyright protected by Brazilian law 9610/98;





For my definition of 'great' albums please refer to my review of 'Heaven Or Las Vegas' by the Cocteau Twins. A cd store in a shopping mall is not the appropriate place to look for great music but once there was one in my neighborhood that was very promising. One of the salesmen there had an appreciation for This Mortal Coil. That was a good start. Their heap was small but not too ordinary. Side by side with disposable radio habitués you could also find a handful of classic candidates. And you could also listen to good music while browsing through their shelves. Curiously, and unlike the mainstream commercial music aired in almost every music place in town, that particular store used to play only cool songs like This Is The Day. I think that's the reason why that store did not last too long. In the 5th of all hells you cannot survive selling the real things only. The Brazilian devil's tacky taste reigns over the sanctified. I bought Soul Mining at that store that no longer exists, only because of that song. The rest of The The's albums found their way into my collection through foreign channels. Many say 2. This Is the Day is the best track. It is really very cheerful with a beautiful accordion that brings to mind the best of Dominguinhos' swinging baiao. Gorgeous! Notwithstanding, 8. Perfect, with its famous Louie Louie's progression, a fat bass and a wonderful combination of different instruments and chorus is just sublime and second to none. 4. Uncertain Smile is less cheerful but splashes sugar while the drum bounces and the guitars water the beat until it leaves room to the amazingly brilliant and classy piano performance by Jools Hollands. Magnificent! 7. Giant is an incredibly beautiful crescendo from a simple drum beat joined by discrete keyboard, a fat bass, voice, more prominent keyboards, orchestral synthesizer, machine drumming, ritualistic chanting. It grows inside and beneath you and you feel like a giant looking over the tops of the trees in a jungle. 1. I've Been Waitin' for Tomorrow (All of My Life) is an aggressive attack by a desperate singing and led by a thundering drum beat, gradually joined by a nervous bass, a low and uneasy synth, a more voracious bass and hastier voice. The sound is threatening, pressing and alarming and suddenly stops. 3. The Sinking Feeling is sort of a short version of the entire album or a first interlude if you will. And it does work. 5. The Twilight Hour sounds like an early attempt to give birth to Giant 6. Soul Mining sounds very much like a second interlude and, once again, it does work very well. Some say Soul Mining got very close to the list of best records of the 80's and that it should definitely stir some intense debate over its inclusion in that decade's finest albums. It is not in my list of the 80's but my all time's greatest.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

UM FIM DE SEMANA DONZELA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Passe um fim de semana comigo, Antes que minha sorte acabe, Seus caprichos são imprevisíveis, Não haverá nenhum santo de guarda, Podemos xingar de tudo quanto é nome feio, A mulher do meu colega de Macau trabalha na Panam, Ela consegue passagens de ida e volta para Nova Iorque de graça, A empresa se aproveita do chinês, Com sotaque de Portugal, Para levar e trazer amostras de produtos de clientes americanos, Não vamos desperdiçar o viajante, E tampouco roubar-lhe a bagagem, O que há dentro dela? Oras, É o edifício Dakota onde John será assassinado dentro de 12 anos, Vamos saltar mais 9 anos no tempo, Este fino Senhor, Requestado, Por todas as valentes damas e cavaleiros, Igualmente amantes e guerreiros, Todos, Por causa de um só minuto de nostalgia e tédio da memória, Recomenda-se, Portanto, Que se abandone este dono da relatividade quando o sol estiver abaixo do horizonte, Pois não podemos salvá-lo no momento próprio, Olha só, Um bom hotel aqui na quinquagésima com a Lexington para o pernoite, Não precisamos mais descer em pousadas, Vamos subir, Cruzar a Park, Depois a Madison, Mas não viramos à direita, Hoje não é dia profesto, A quinta, Com seus olhos coruscantes, Compostura de excessivas feições de primor, fica para trás, Seguimos adiante e entramos no Radio City Music Hall, Será que a tribo dos queridos gatinhos e a noite nos escolhem para ascendermos para a ionosfera e voltarmos para uma vida nova?, Não é aqui? Na Broadway? Então para lá vamos e aproveitamos para ver o que sobrou dos vinis novinhos em folha que perderão o lugar para os discos compactos, Sabe, Quanto mais te ouço, Mais te amo, De verdade, Você não é a distância que, Através da saudade, Transporta aos amantes a imagem da pessoa amada, Você me passeia como um filho embalado nos braços de uma mãe, Me distrai como uma criança com seu brinquedo, És minha árvore mais altiva, E, Enquanto caminho, Minha sombra cobre todos os frutos que você esparrama pelo chão, És um canto de ave que me leva mais alguns anos ao futuro, Para o Forte de Loh, Onde um rio, Feito canal, Corta a cidade, E meu coração, Suas águas plácidas correm ao nível do gramado, Quase a transbordar, E nelas meu barquinho de papel poderia navegar, Como os fenícios nas suas esguias trirremes, Procurando a pálida estrela polar, E essas águas? Elas são como diamantes, Achados aos punhados, A cada lavagem, Sabe, Quanto mais te escrevo, Mais te amo, De verdade, E por estar sempre correndo rios de tinta, Sem você minha bibliografia é pobríssima.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

ARDE SEM SE VER

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Você canta Michelle, Ma Belle, Diz que estas palavras combinam bem, Pergunta o que escrever depois, Te amo, Tem amo, Te amo, Isso é tudo que sei falar, Não posso simplesmente roubar frases de suas canções, Como se rouba um beijo de uma mulher distraída na paixão, Mas posso enfeitá-las, Como uma feliz inspiração por acaso rouba a miséria de minha pobre criação, O que há de errado em derramar algumas lágrimas ao assistir a uma cena de amor num filme? Um pedido de perdão? Uma reconciliação quase impossível? Não posso simplesmente tomar suas melhores catarses ao lento cair das cortinas no palco, Como o dia toma caprichos românticos e fantasias poéticas ao cair da noite, Mas posso realizá-las numa conversa a dois nos parques como fazem duas pessoas enamoradas de sexos iguais e opostos, Você canta Marie, Mon Cheri, Diz sont des mots qui vont très bien ensemble, Pergunta o que escrever depois, Preciso, Preciso, Preciso, Que você entenda as palavras que sei dizer, Não posso simplesmente rimar falas rebuscadas, Como o escritor gongórico que rima amor com dor, Mas posso inová-las, Como os sábios renascentistas renovaram a ciência medieval, Como Platão nos ensinou a amizade colorida alheia ao gozo material, O que há de errado em homenagear seus versos e juntá-los às ideias que faço do amor? De minha admiração pelo seu compasso? De meus suspiros quando olho seus passos?

domingo, 27 de novembro de 2016

SOMOS TODOS BOLIVIANOS


 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Em meados de 1982 arrumei um emprego na empresa São Paulo Alpargatas S/A (SPASA). Foi logo após a ressaca brasileira por ter sido eliminada pela Itália de Rossi na Copa do Mundo na Espanha.  A SPASA era uma grande empresa, com muitas fábricas e, se não estou enganado, tinha quase 20 mil empregados. Era também um grande cabide de empregos, bem maior que a  Santista, mas perdia de longe para a Cotia Trading (leia meu texto chamado NATASHA http://alceunatali.blogspot.com.br/2016/03/natasha.html). Tenho quatro boas histórias sobre a SPASA. Eu deveria começar pela minha primeiríssima experiência na SPASA pouco mais de um mês após ter assumido o cargo de assistente de exportação, uma história a qual dei o título de SOCRATES NA TERRA DO BEIJA-FLOR, mas esta fica para depois. As outras duas chamam-se JACQUELINE e QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? A SPASA tinha um departamento de exportação (DE) que era um verdadeiro luxo, com mais de 30 funcionários, incluindo as áreas de vendas e logística. O DE da SPASA tinha um Gerente Geral, um carioca malandro e porra loca que só enganava e coçava o saco o dia inteiro, com secretária, meio maluquinha que hoje escreve sobre telecomunicações com os mortos, e um assessor, um inglês recalcado, radicado e malcriado na Argentina e que tinha merda na cabeça, Gerentes de Divisões por produto, a maioria só com vocação para bajuladores: Brim (ou Índigo), Jeans, Calçados, Artigos Esportivos e o Resto. Fui contratado como assistente desta divisão, o RESTO, que não tinha nome, porque ela era responsável por produtos que dificilmente podiam ser vendidos fora do Brasil: as famosas colchas de chenile e matelassê com a marca MADRIGAL, e as famosas lonas e encerados com a marca LOCOMOTIVA. Antes de minha chegada à SPASA vendiam-se muitos encerados à Venezuela, graças a um acordo tarifário que o Brasil tinha com aquele país. Vendiam-se muitas colchas de chenile crua ao Chile para serem lá tingidas e revendidas à Argentina, graças a um acordo tarifário que o Chile mantinha com o país dos italianos, que pensam que são ingleses e falam espanhol Os acordos acabaram, e as exportações de colchas e encerados desabaram. Ninguém, ninguém mesmo queria se encarregar destes produtos. Todo o pessoal do panelão, dos gerentes para cima, se interessava somente por coisas fáceis, produtos vendidos com margem de lucro zero e até com prejuízo, especialmente para os EUA e a Europa Ocidental para onde eles podiam viajar e gozar de mordomias e regalias sem precisar fazer nenhum esforço de venda.  O Brasil não precisava exportar porque o mercado interno, protegido contra importações, era fechado e absorvia toda a produção doméstica, e esta era apenas uma das razões que levou o nosso país a ter uma inflação vergonhosa, utópica, mas real, de 30% ao mês em 1989. Na ditadura militar a corrupção corria solta, mas perdia de longe para a corrupção de hoje (governo federal, senado, câmara federal, STJ e praticamente todo mundo que entra para a política neste país). Sob o pretexto de promover o desenvolvimento, os militares se endividavam com dinheiro emprestado do FMI (e as propinas sobre empréstimos eram de 10% para cima – perguntem ao Delfim Neto). Para compensar o déficit interno e externo, os milicos criaram uma série de falcatruas para incentivar as exportações, todas contrárias às regras do GATT (General Agreement on Tariffs and Trade – Acordo Geral Tarifário e Comercial, com sede na Suíça). Quem exportava tinha direito às seguintes picaretagens: isenção de ICMS, IPI e outros impostos, prêmios (descontos) de IPI e ICM que variavam de 10 a 30% sobre vendas no mercado interno, financiamentos à exportação a juros subsidiados, um sistema chamado Draw Back: para cada 3 dólares que uma empresa trazia para o Brasil por meio de exportação ela tinha direito a 1 dólar de importação. Se uma empresa conseguisse exportar 3 milhões de dólares em dez anos ela tinha direito a importar 1 milhão de dólares sem pagar impostos. As empresas não precisam esperar dez anos para ter acesso às importações que, normalmente, eram feitas no primeiro ano de vigência do programa. Muito bem, se o mercado interno absorvia toda a produção da SPASA por que ela se interessava em ter um DE? Resposta: Apenas para ter acesso a juros subsidiados e importações de máquinas e corantes no valor de US$ 200 milhões, sem pagar imposto, mesmo que para isso precisasse exportar US$ 600 milhões, sem lucro e até com prejuízo. Valia a pena. O que se exportava era menos que 5% das vendas no mercado interno. Naquela época os juros de mercado eram bem mais altos que os de hoje.  Indústrias automobilísticas lucravam mais aplicando dinheiro no mercado financeiro do que produzindo e vendendo carros. Portanto o DE da SPASA e de outras empresas era apenas um departamento de luxo, um verdadeiro recanto de extravagâncias e putaria, igualzinha àquela que se pode ver no filme The Wolf of Wall Street, e sobre esta putaria falarei mais no texto QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? Eu precisava trabalhar dentro deste puteiro. Tinha apenas 30 anos, 3 crianças para sustentar, e ganhava menos que US$ 500, e eu tinha que falar inglês e espanhol fluentemente e usar terno e gravata. Meu chefe nada entendia dos produtos que tínhamos que vender na divisão do RESTO. Ele tinha sido mandado embora da Volkswagen e conseguiu entrar na SPASA via cabide de empregos, apenas porque ele tinha a mesma descendência estrangeira do chefão bon vivant. Tive que carregar o RESTO nas costas e consegui recuperá-lo. Mas a turma da panela tinha medo de mim. Porque eu trabalhava de verdade e eles tinham receio de que eu fizesse o que eles eram pagos para fazer e não faziam. Por isso não permitiam que eu viajasse para países do primeiro mundo onde eu poderia vender muito mais. Para o primeiro mundo só poderia viajar a turma do panelão, não para fazer vendas, mas apenas para passear e esbanjar: ficar em hotel de 5 estrelas, comer do bom e melhor e fazer turismo. Havia um boliviano que vinha todos os meses à SPASA para comprar o famoso e popular tênis Kichute da divisão de Calçados e revende-los no varejo. Ele fazia muitos negócios na SPASA, mas só era recebido por subalternos. Nenhum gerente brasileiro subdesenvolvido aceitava se encontrar com um cliente boliviano subdesenvolvido. O boliviano mal terminara o curso primário e durante boa parte da vida adulta trabalhou como peão da indústria petrolífera americana, sempre pegando na massa, se sujando de petróleo o dia inteiro. Não sei como ele fez a transição de mero trabalhador braçal para um próspero distribuidor de produtos brasileiros na Bolívia. Ele comprava bastante mesmo. Tive a oportunidade de conhecê-lo e logo ele se interessou pelos meus encerados, e mais tarde também pelas minhas colchas de chenile. Os encerados tinham uma particularidade: eram produzidos somente nas cores verde e cáqui. Se alguém perguntasse por que cáqui a resposta era simples: a lona cáqui é para caminhões que só viajam por estradas de terra, barrentas e empoeiradas. Portanto a cor cáqui camuflava toda a poeira que se acumulava no encerado. E a verde? Era para caminhões que trafegavam somente em estradas asfaltadas. Por que verde e não azul? Ninguém sabia responder. Este boliviano começou a comprar encerados e colchas demais para um país tão pobre como a Bolívia. Resolvi fazer-lhe uma visita para conhecer melhor seu negócio. Obviamente minha chefia me dava permissão imediata para ir à Bolívia. Ninguém do panelão se arriscaria a ir a um país do terceiro mundo. O boliviano me recebeu no aeroporto com sua Pajero da Mitsubishi, uma carro que eu só veria no Brasil no século 21. Aquela era van era super incrementada, de primeiro mundo. Imaginei que ele tivesse pago muito caro por ela, mas ele disse que foi baratinho, menos que o preço de um fusquinha. Mas como? De onde ele comprou um baita de um carro por um uma pechincha. Ele explicou que na Bolívia você podia escolher o que quisesse: o modelo de carro, ano de fabricação, cor, etc, e entregava o pedido ao pessoal especializado na subtração de veículos alheios na  Venezuela, um país que naquela época já importava carros de várias partes do mundo. Para regularizar a situação do veículo bastava dar uma gorjeta a um inspetor do DETRAN boliviano. Então, lá estava eu, andando num belo carro surrupiado pela primeira vez em minha vida. Os encerados e as colchas de chenile eram entregues em Corumbá, fronteira do Brasil com a Bolívia. Em Corumbá, o boliviano colocava a carga num trem e seguia para Santa Cruz de La Sierra onde tinha um depósito a partir do qual distribuía a mercadoria por toda a Bolívia. A caminho do aeroporto para o hotel, perguntei que tipo de seguro ele fazia para levar a mercadoria de Corumbá para Santa Cruz. Tranquilamente, ele respondeu que contratava seis pistoleiros: dois iam à frente do vagão, um de cada lado, dois na parte traseira, também um de cada lado, e dois dentro do vagão. Quando o trem parava numa estação, os dois pistoleiros saíam de dentro do vagão e os seis mantinham suas metralhadoras apontadas para quem ousasse tentar assaltar o vagão. Fui conhecer seu depósito. Imenso, com uma grande quantidade de produtos estocados. Ainda não entendia como ele conseguia vender tanta coisa para um país tão pobre. Ele esclareceu que vendia também para os países vizinhos, principalmente para o Peru. Mas era quase impossível exportar para o Peru devido aos altos impostos de importação que lá eram cobrados. Ele me assegurou que isso não era empecilho. Ele e seus empregados iam ao Lago Titicaca do lado boliviano à noite, enchiam um barco de mercadoria, atravessam o lago e, em pouco tempo, já estavam no Peru, onde os compradores esperavam pelos produtos sem pagar nenhum imposto. À noite ele me levou para jantar. Eu queria matar uma curiosidade que me incomodava fazia tempo. Era sabido que 95% das estradas bolivianas eram de terra, mas ele comprava somente encerados verdes. Perguntei por quê. Ele me respondeu que os traficantes só compravam encerados verdes. Para quê? Para secar folhas de coca na mata. Helicópteros americanos do FBI sempre sobrevoavam as áreas de cultivo da coca. A lona verde se misturava à vegetação e dificultava a identificação das folhas que seriam transformadas no caríssimo pó branco. Ele olhou para mim e me perguntou se eu estava gostando da Bolívia. E eu respondi: Estou adorando, me sinto um boliviano.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

TUDO O QUE AS FEITICEIRAS DIZEM E NÃO SABEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Este menino não é seu filho, Ela não se conforma com esta mola das leis, A mãe de todas as religiões, Ela quer rezar. Que ela reze então, Miserere mei, deus: secundum magnam misericordiam tuam, Esta mulher ainda está completamente perdida, Ainda não se encontrou, E o pai do menino, não pode ajudá-la? Um momento, A mulher quer continuar orando, Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam, Neste momento, ele está ajudando um amigo japonês que teve uma morte trágica, Como você sabe disso? Porque dou ouvidos às feiticeiras. Os homens na espiritualidade são como as pedras numa abóbada, Resistem e se ajudam simultaneamente. A vida e a morte são combates, Que os fracos abatem, Que os fortes, Os bravos, Só podem exaltar, E quanto ao menino? Um momento, Ela ainda está aqui e quer falar pelos dois, Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me, O menino é um espírito de muita luz, Mas cuidado, O fruto só cai da árvore quando está maduro, Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me, Nossa, esta mulher de novo! Não fale dela assim, Ela está se penitenciando, Está nas sombras e ainda se agarra  à luz deste mundo, À luz deste menino, Agora ouço a voz de uma feiticeira que quer me dizer alguma coisa, Em breve este menino receberá uma merecida e justa quantia, Mas não vos descuidei pois, Também não menos breve, Ele receberá uma cobrança das bravas e é melhor desde já ele começar a juntar todos os recursos que ele tem para se defender. O recado dela é justo. Você sempre conversa com estas bruxas? Acredita no que elas dizem? Falo com elas de vez em quando e acredito nelas, O mais significativo é o fato de que nenhuma  delas tem conhecimento absoluto sobre nós, mas somente alguns pequenos fragmentos de nossas vidas, Não entendi, pode explicar melhor? Vá num mesmo dia se consultar com 10 médiuns diferentes e que nunca se conheceram, daquelas que costumam fazer leitura de tarô, e faça a elas as mesmíssimas perguntas, Você perceberá que cada uma delas consegue responder a uma única pergunta sua, E cada uma diferente da outra, E por outro lado, Cada uma delas te dirá coisas sobre você que você não perguntou, Nem em pensamento, e cada uma delas lhe dirá coisas completamente diferentes umas das outras, Todas verdadeiras, Elas têm apenas um conhecimento relativo e bem limitado sobre as pessoas, Por isso não conseguem responder mais do que uma ou, no máximo duas perguntas que você faz, No entanto, As poucas respostas às suas perguntas e as revelações sobre você feitas espontaneamente serão sempre verdadeiras, e até paradoxais, Uma médium lhe dirá que você ganhará uma fortuna, Mas outra, No mesmo dia, lhe dirá que você sofrerá uma grande perda financeira, E o mais interessante é que as duas são verdadeiras. Como elas conseguem isso? Elas recebem informações de espíritos? Não, espíritos não existem, Elas apenas leem um fragmento de sua mente, Uma médium jamais lhe dirá a mesma coisa que uma outra lhe disse, Desta forma, Você terá dez respostas diferentes para diferentes perguntas que você fez, E 10 informações diferentes sobre você e que você não perguntou, Em resumo, As feiticeiras não têm nenhum controle sobre sua mente, O que elas descobrem a seu respeito é sempre ao acaso, É o mesmo que um sonho, Você nunca sonha com o que quer, É o inconsciente quem decide sobre o que você sonhará cada noite. É interessante. E no caso desta mulher apegada ao menino? Ela está morta e você disse que espíritos não existem. Como ela consegue falar conosco? Isto é contraditório! O que chega a nós não vem diretamente dela, São apenas fragmentos dos nossos próprios pensamentos sobre o que já sabíamos sobre ela. Então deduzo que você é um feiticeiro!  Errado, Tudo o que estou lhe dizendo é pura psicologia humana. As feiticeiras dizem poucas coisas, Mas desconhecem muitas. Elas tem acesso a uma parte bem insignificante de nosso inconsciente que tem o tamanho de um universo, E a mulher quer nos dizer algo mais antes de partir, Ex-umbris ad lucem, Ela está certa, Ela disse: Das sombras para a luz.



domingo, 20 de novembro de 2016

A TREASURE HIDDEN IN HEAVEN

Review written by Alceu Natali with Copyright protected by Brazilian law # 9610/98
POSTED ON WWW.AMAZON.COM ON NOVEMBER 1ST, 2007



INTRODUCTION During the last 15 years I have seen lists of the Best Albums Of All Time, published, mainly, by English and American magazines. I have tried my best but I could never listen to most of those great albums without skipping various tracks. I ask myself if it is a question of taste or prejudice. Maybe both. For instances, when I see The Beastie Boys and Eminem among the English magazine Q's 100 best albums of all time, inevitably, my dark side comes to light: I'd rather see those rappers and hip hoppers murdering the ears of music lovers than murdering people in the streets. Here goes another example: the absence of The Who's album My Generation among the 100 best of that magazine makes me wonder whether these magazines reviewers really listen to music at all. In my country, people say that taste is something that cannot be disputed, but the other day my wife added: taste is something that cannot be disputed but to be sorry about. And she is pretty damn right because what you find and do not find in those lists is something to be awfully sorry about. For someone like me, who loves british pop music, it is impossible to take seriously any list of the best albums of all time that is not topped by Beatles' albums. The Rolling Stone magazine Greatest Albums of All Time have some respect for The Beatles and included 8 albums of theirs among the 100 greatest, however among their 500 greatest you will not find such a precious stone like Heaven Or Las Vegas but you meet face to face with those music murderers I mentioned above and also a lot of albums that are not good enough to be part of the 100,000 greatest of all time. Lest the new generations think I am just a dinosaur of the 60's, I anticipate that I am not the kind of guy who spends hours listening to the complete collections of the greatest bands of the golden decade. I love rock and pop music from all decades. As a matter of fact, I have more CDs from the last two decades than from the 60's, 70's, 80's, 90's and the new millenium's. Nowadays, with the invention of the MP3, people do not need anymore to buy a whole album only because of a few good songs. The music lovers can download from internet only the songs that they like and that means that within a couple of years or so there will be no more CDs for sale. Then, instead of a collection of CDs on his/her shelves, the music lover will have an anthology of songs in his/her iPOD. And I wonder if we are going back to the 60's when only singles were bought while an album was a luxury, something to be bought only as a Christmas gift, or just a tricky marketing strategy to make some extra money on a couple of hits repacked together with a bunch of disposable fillers. As you may remember or not, it was The Beatles with their unmatched talents who made albums become a new form of art and be taken seriously by the media and the public. Anyway, I am already familiar with the iPOD but I am not the kind of anthological guy. Lately, I started prospecting what I call great albums, but great for me is not an album made only of classics in all tracks, or an habitue of radio's hit parades and famous magazines' lists. Furthermore, there is no perfect album. Great for me is a damn good album, from the very first track to the last one. That album that you listen to all the way without skipping a track and without wishing a certain track reaches its end soon because your favorite one comes next. I have prospected many of those types of albums but you will not see most of my greatest in those famous and respectable lists made by journalists as mediocre as music reviewers as I am as an artist or a writer. If you ask me about my prospecting criteria, all I can tell you is that those who have good ears for music do not need more than 30 seconds of each track of an album to know whether it is great or not. That's what I do. When I am looking for new bands I listen to the 30 seconds of every track of their albums available at Amazon until I find my classic one. My musical sense of smell is infallible. When I listen to the entire CD that had that smell of great stemming from the 30 seconds of each one of its tracks there is no mistake about it: it is a great album! On the other hand, I already own about 2,000 CDs of different bands and among them there are various great ones. Heaven Or Las Vegas is one of them. THE TRACKS 1. Cherry-Coloured Funk is a thick and corpulent song, with instruments and vocals filling the space. It is a simple but classic melody, soft and tranquil. It progresses from low vocal notes until it reaches a peak, while the celestial chords sound all the time in the background as if they were playing in a nearby room, and the same goes for the discrete but scoring bass. 2. Pitch The Baby is faster with a more prominent and pointed bass and higher vocal notes. The heavenly atmosphere permeates the song all over. It is a forewarning of track 6 and displays a melodic progression from the first track that culminates with 3. Iceblink luck, a very beautiful pop song, in which both vocals and instruments play with intensity and devotion. Only the drums are muffled to leave room for the fight between the enchanting vocals and the gorgeous instruments for the thrilling climax to the show. 4. Fifty-Fifty Clown is a masterpiece. It has a timelessly futurist sound. Only Strawberry Fields Forever by The Beatles has a similarly complex and beautiful melodic progression. The first part is very difficult to be sung. You cannot whistle it even after listening to it ten times in a row and that means it required a lot of talent to be invented. 5. Heaven Or Las Vegas is similar to Iceblink Luck, less intense and more rhythmical, and equally beautiful. Beth Fraser's vocals are terrific. Iceblink Luck and Heaven Or Las Vegas are Cocteau Twins' couple of their most pop songs, a pair of explosion of joy. 6. I Wear Your Ring is another masterpiece. It is a song that was waiting for someone to create it and it was up to the Cocteau Twins to do it. Beth Fraser' vocals, the bass and the rest of the instruments are amazing and trance inducing. The second and final part is pure ecstasy, one of the best moments of pop music. 7. Fotzepolitic is moved by the beauty of the previous track, celebrates its splendor and makes sure not to challenge its royalty and, at the same time, pays it a sublime homage and becomes a metaphor of that masterpiece. 8. Wolf In The Breast is a prime and a proof that, definitely, the Cocteau Twins were wounded by a Cupid arrow of excellence and made another masterpiece of a simple ballad. After six breathtaking tracks, enters 9. Road, River And Rail, a more lamenting ballad that is not deprived of any of the refinements of the previous tracks and 10. Frou-frou Foxes In Midsummer continues that lamenting for a while but ends with an explosion of vibrant and fire working sound that fills the air again, like a farewell tune adequate to the last track of a fantastic album. REMARK I met a guy who loves rock and pop music like I do and who has the same taste and prejudice I do, but one day he grinned in irony when I told him I found the Cocteau Twins great. Why do not you share a kitchenette with them? asked me the same guy who declared that the Brazilian bossa nova is the greatest revolution in music of all time. Well, bossa nova is a kind of music easily found in every corner of Rio de Janeiro City or even in casinos in Las Vegas and in some boring American movie but the Cocteau Twins' sound is a treasure hidden in heaven and finding it out demands as much talent as the Cocteau Twins needed to produce Heaven Or Las Vegas.

THE TRACKS

1. Cherry-Coloured Funk

2. Pitch The Baby

3. Iceblink luck

4. Fifty-Fifty Clown

5. Heaven Or Las Vegas

6. I Wear Your Ring

7. Fotzepolitic

8. Wolf In The Breast

9. Road, River And Rail

10. Frou-frou Foxes In Midsummer

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A RESSURREIÇÃO DE TILLY POR ATENAS (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Numa ocasião, o Mensageiro da Enganação convidou Tilly para ir a sua casa para ouvir música, bebericar e jogar conversa fora. Tilly achou que talvez esse fosse um bom momento para passar a limpo as lições preliminares e improvisadas sobre os discos voadores que não ficaram claras no primeiro encontro. Enquanto Tilly esperava uma deixa, o Mensageiro pôs um disco para rolar na vitrola com o volume baixo para não atrapalhar a conversa. Os ouvidos sensíveis e afinados de Tilly logo identificaram um som familiar e rejuvenescido que proporcionava uma sensação agradável e emocionante como ele nunca mais ouvira desde os tempos gloriosos do psicodelismo. Ele pediu para aumentar o volume e ficou todo arrepiado:
Quem são estes caras?
O Mensageiro respondeu que era o mais recente álbum do The Who, aquela banda que poderia ter sido a favorita de Tilly. Aquela que quando Tilly ouviu pela primeira vez o fez procurar seu amigo de adolescência e de panelinha e com quem formou uma dupla chamada The Two Flies.
Meu deus misericordioso e cheio de graça, apareceu um conjunto melhor que os Beatles.
O The Who havia passado pela vida de Tilly como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e Tilly não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião Tilly já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.
Mas agora, sem saber, o Mensageiro havia devolvido a Tilly sua paixão pela música e a ela Tilly se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e Tilly os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma banda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepuja-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e Tilly almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Tilly nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, Tilly poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abri-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CONEXÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Aqui no parque, As crianças são trazidas todas as manhãs, A grama cresce sem nos perceber, Os rostos sustentam proeminentes e descarnadas maçãs, O sol nasce antes do amanhecer, Em luz e geometria fundem-em os passados e os amanhãs, As folhas de outono voam a esmo por assim dizer, Todas as vezes que passeiam ao acaso pensam em tudo e em nada,  A chuva cai e sobe sem as nuvens no céu, Sempre às gargalhadas rompe a criançada, Tudo que nos toca são abelhas procurando mel, Viajamos nas recordações e relembraremos uma ilíada em cada jornada, As flores se põem nos calendários de papel, De dias contados, De bancos de jardim apinhados, Lá no parque, As crianças são levadas todos os dias, As árvores nos espiam das janelas, Nos olhos de serem meninos e meninas nota-se somente alegrias, A natureza nos pinta com aquarelas, Suas fragilidades e vitalidades se misturam e se confundem em sentimentos de envolventes e cândidas euforias, Nos troncos os corações flechados são vermelhos e no chão as amarelinhas amarelas, O vento sopra de baixo para cima, Despedem-se efusivamente dos amigos e voltam para casa em fins de tardes, Despencando das alturas a poesia vai ganhando rima, Fecham a noite e caem no sono lendo Meu Pé De Laranja Lima, De doce sabor, Em sonho reparador, Fora do parque, As crianças atingem a maioridade, Contra si e seu momento a vida não pára de correr, Expostas a erros e verdades, Gente vem ao mundo antes de ele ser, Conhecerão o egoísmo e a maldade, A lua míngua por assim querer, Cairão na tentação do meio termo entre integridade e desonestidade, Tudo que nos toca são as estrelas para poderem brilhar, Divididas entre o determinismo e a casualidade, O universo explode antes da poeira cósmica se juntar, Esquecerão a objetividade e apelarão ao divino na hora de maior dificuldade, Deus é criado por assim suplicar, Ao infinito do espaço, À eternidade de seu compasso.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BODAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ninguém é como o tempo, Ele não perdoa, Ninguém é como o vento, Ele solta as branduras e as fúrias de sua brisa e repugnância, Que não haja nos céus sustentação para os papagaios, Nem nos mares mais navegantes. Ninguém é como a morte, É como uma ninfa, Aparecendo e desaparecendo, Por entre os claros de um denso bosque, Vive, Mas está ausente, Morre um dia, Sem que ninguém esteja presente, Precisamos de mais um ano para sermos de cristal, E eu de mais vinte e um para ser de coral, E quem sabe perecer feliz como o mais antigo ancestral dos vilões do amor, Que tudo infamam, Do alto de cada pecado mortal, Vejo no seu rosto muita felicidade, E o tempo que você levou para encontra-la, Leio em suas palavras uma mistura de alegria e vingança, E a facilidade como você se desfez da metade de sua compaixão, Ouço em teu silêncio o medo que sempre teve de mim, E como é mais nobre sofrer independente, Escondendo a dor. 

sábado, 29 de outubro de 2016

SOPRO DE VIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Somos Marte, Não conseguimos respirar, Quem imagina que se pegue de um homem de nosso vizinho, Onde absorve o oxigênio do ar livre e puro nos pulmões, Para tirar-lhe os jeans e a camiseta, Meter-lhe num traje e num capacete, E fazê-lo dançar e cantar músicas, Ele é terra, No alto de uma montanha congelada e rarefeita, Ou nas profundezas de mares silenciosos como ventres maternos, Sua vida respira não sei que elegância, Gravidade e sutileza, Não conseguimos beber nem comer, Ele imagina que se pegue de um de nós em nosso orbe sem mundo, Onde não ingerimos água pura e livre dos rios doces em nossas gargantas, Onde não introduzimos, Pela boca, Alimentos puros e livres da natureza e sua beleza, No estômago, Mastigando-os e engolindo-os, Para tirar-lhe a sede e a fome, E meter-lhe num corpo físico com alma, E fazê-lo viver humanamente possível, Ele não é Marte, Por baixo de um chão arenoso de zarcão, Ou no pico mais alto de todo sistema, Só o vento continua soprando não sabemos que fúria, Fatalidade e providência, Não somos terra, Não entendemos o sopro da vida, O que não criamos, O que sem saber destruímos, O que somos e esperamos.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

CÓSMICO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Língua geral da nova terra, Teu som antecede teus passos, Teu silêncio, Suas vilas fechadas, De poucos fogos, Suas barbacãs desarmadas ao nível do mar, Qual sua sombra fugidia, Intricado que rompe a mata escura, Deixa suas portas abertas, Nos dá passagem para nossos mundos, Onde nos encontramos, Caminhando trôpegos, Como coelhos suspeitando do que de longe vem das grandes águas, Do que do fundo vem da imensidão das densas árvores, Quintal descomunal de nosso pequenino habitat, Teu semblante precede teu movimento, Sua voz, Suas aglomeradas vivendas, De muitas moradas, Suas fronteiras ilimitadas longe de meus olhos, Qual lua em dia de sol, Abençoada curvatura que contorna a escuridão absoluta, Falo-te com meu coração na mão, Levo comigo uma braçada de cosmos retardatários, Colhidos pelos nossos caminhos que trilho, Tomado de fé, Sombra e silhueta de meus pensamentos, Descem ao fundo de sua alma, Sinto seu amor universal não movido, De prêmio vil, Mais altivo, E quase eterno.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PARÁGRAFO 1 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Embora real para Onedin, para os leitores que conhecem, pelas suas sensações orgânicas, e ignoram, pelas suas percepções extrassensoriais ainda não desenvolvidas, tudo o que se passa no decurso do tempo entre seus nascimentos e suas mortes, esta história pertence ao gênero chamado ficção. Ela é um disco voador, um abominável homem das neves, um Abraão e um Moisés, um monstro do Lago Ness, um Jesus de Nazaré, um interno de manicômio que vê o pênis do sol balançar e provocar uma forte ventania e um externo que vê uma rainha inglesa deitada ao lado do seu ministro no fundo raso das margens do mar da Galileia lançar um doce sorriso até a superfície de suas águas tranquilas e cristalinas em plena Palestina do primeiro século da era comum. Ela parece ser o produto de mentes malignas e doentias, pois são esses os nomes que recebem aqueles que dão à providência conotações míticas emendadas com frases prolixas e sem nexo. Onedin não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas às vezes surpreendia com certos algoritmos rudimentares que continham uma lógica tão improvisada que beirava o lirismo, por isso, ele certamente ganharia a simpatia de Alberto Faria, pois ele era um latino que conservava a ficção poética do canto melodioso da cigarra, sem  acusá-lo de rouco e desagradável e conservava também o realismo fantástico da vida exuberante que existe dentro de um sonho, sem acusá-la de prosaica e ilusória. No entanto, quem não conheceu Tilly como Onedin conheceu dificilmente deixará de chamar esta história de esquisitice. Mais difícil do que acreditar nessa história foi contá-la. Para Tilly, teria sido uma agrura que acarretaria nas inevitáveis futilidades e inconveniências quando se tenta convencer ouvidos tupiniquins de que a música popular britânica é a melhor de todos os tempos. Para todos os mortais, é o tempo desperdiçado quando se tenta resgatar o verdadeiro espírito da época em que se viveu. É semelhante ao que Doris Lessing escreveu sobre a tentativa de se reproduzir o ambiente moral de uma era como sendo o mesmo que tentar reproduzir a qualidade de um sonho, pois nenhum tipo de comunicação é possível, a menos que outra pessoa tenha tido o mesmo sonho que você teve e disso você não poderá ter nenhuma prova ou garantia, mas somente confiança e fé. Ainda assim, Onedin estava convencido de que seu inseparável amigo Tilly não desaprovaria sua ousada tentativa de reproduzir aqui a qualidade da inusitada experiência que ele viveu e que Onedin pode constatar com assombro. Porém, muito mais difícil ainda foi fazê-la deixar o âmbito das ideias e entrar no das letras, especialmente para alguém como Onedin, um sexagenário que pouco leu e nada escreveu. Muitos times dos sonhos se tornaram realidade apenas no papel e deste jamais saíram muitos projetos faraônicos e outros tantos bem-intencionados e elaborados. Esta história, no entanto, nunca concebeu planos e esboços e nem conheceu a forma escrita. Ela deu vida a si mesma, alheia às disposições e convicções humanas e à vontade de deus. Ela inseminou-se, desenvolveu-se e pariu-se, sem auxílio de proveta, barriga de aluguel ou parteira. Ela se fez luz sem a pretensão de atingir a dimensão de universos, insciente da sua condição de uma das inumeráveis e pequenas cândidas manchas na imensidão das trevas e que só não são percebidas por quem dentro delas habita. Na verdade, foi Onedin quem se intrometeu em sua vida, tentando cercear sua liberdade primordial e confiná-la numa resma de papiro rabiscado. Mas se Onedin não a escrevesse talvez ele passasse o resto da vida em conflito por ter transformado uma promessa cumprida num segredo não compartilhado que implicasse numa responsabilidade cujo peso ele jamais pudesse suportar e se ele sucumbisse ele jamais se perdoaria na mesma medida em que os amantes do saber jamais perdoariam o mundo se este lhes tivesse negado a genialidade de um Platão por falta da personalidade extraordinária e inspiradora de um Sócrates.

FREAKS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Um novo americanismo chamado HASHTAG me lembrou de uma crônica do Veríssimo no Estadão em 21/05/2015 sob o título TRANSBOARDING. Nela, Veríssimo disse: Triste o país que tem vergonha da própria língua. E acrescentou: Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil. Veríssimo discorre sobre várias palavras em inglês que ele não entende e pede explicações ao vendedor a todo momento. Palavras que deveriam simplesmente serem expressas em português. Apesar do sarcasmo de Veríssimo ser exageradamente parcimonioso, porque, acho, que ele precisa ser sempre politicamente correto para escrever para o Estadão, sua crônica me deu uma ótima ideia pra escrever um novo conto, chamado ENTRE O CÉU E A TERRA, que fará parte de meu livro que está sendo publicado em partes neste blogue. O português é minha língua nativa e jamais me envergonhei dela. Ao contrário, tenho orgulho de falar o idioma de Camões, em que pese o triste fato dele ser o porta-voz de um dos países mais esculachados do mundo, chamado Brasil. O francês é um povo que ainda orgulha-se de sua língua. Depois da segunda guerra mundial, a França entrou em decadência, em todos os sentidos, mas não dá o braço a torcer. A maioria dos franceses fala inglês, mas só responde em francês. Quando ele dá entrevistas sempre exige um tradutor. Ainda vai durar muito tempo a bronca que o francês têm dos americanos por eles terem salvos a França da humilhação imposta pelos nazistas e por evitar que o francês se visse obrigado a falar alemão. A França vive só de seu glorioso passado recente. Quem concede o título de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais importante condecoração concedida pela França, a um escritor como Paulo Coelho, e ainda lhe oferece a medalha de Oficial das Artes e das Letras (Officier des Arts et des Lettres) do ministro da Cultura, uma comenda que supera em status o título de Cavaleiro das Artes e das Letras, é uma país que já não pode ser levado a sério do ponto de vista cultural. Isso apenas reforça a vantagem do povo britânico, que não tem o nariz empinado como muita gente pensa, mas, ao contrário, goza de ambos, franceses e americanos, e até deles mesmos (assista aos filmes De Bico Calado, Porcos e Diamantes, Um Peixe chamado Wanda, Quatro Casamentos E Um Funeral, etc). Estive na Inglaterra inúmeras vezes e cheguei à conclusão de que os ingleses são muito superiores e modestos demais para tanto talento artístico. A Inglaterra jamais deu (e jamais dará) um prêmio a Paulo Coelho, porque lá a literatura é levada a sério. Lamentavelmente, nosso país só leva a sério tudo o que vai na contramão da cultura. Este desvio promíscuo e interesseiro é fomentado pelos nossos governantes (força de expressão minha), com apoio de nossa mídia que arroga para si o papel de último baluarte da justiça social e da crítica ferrenha aos desmandos de nossas governantes. Mas ela é tão é hipócrita e demagoga como qualquer político, e desonesta, como a Rede Globo. Ela está sempre do lado do governo por interesses mesquinhos e para poder levar vantagens sobre tudo e todos, sobre o pobre povo brasileiro, roubado pelo governo todos os dias, ganhando pouco, só o suficiente para a subsistência, sem dinheiro para cultura, para comprar um livro, sem tempo para ler, e, portanto mal falando nossa língua brasileira. Eu poderia dizer que o povo brasileiro é burro, mas seria um tremendo erro e uma tremenda injustiça de minha parte, mesmo considerando-se o fato de que tivemos um burro de raça pura com pedigree na presidência por 8 anos. Somente um burro elege outro para governá-lo. Na verdade, o brasileiro é ingênuo e muito passivo, e é levado, sem perceber, para o mundo da breguice. Mas o brasileiro não está só. Na verdade, 95% da população deste planeta é brega, do tipo Maria Vai Com As Outras, até mesmo na Inglaterra, o país mais civilizado do mundo, há gente brega. A mídia brasileira visa, em primeiro lugar, as classes mais ricas e difunde a ideia de que tudo que há de melhor e sofisticado tem nome em inglês.  Ela empurra esta ideia para as classes pobres que pensam que é chique usar expressões e produtos em inglês. Há alguns anos atrás, uma virtual do facebook enviou-me uma mensagem particular com o número de seu celular, acrescentado que eu poderia enviar-lhe um WHATSAPP quando quisesse. Perguntei-lhe: O que é WHATSAPP? Ela morreu de rir de mim. Ocorre que, embora eu tenha um celular, não vivo pendurado nele, não dependo dele, quase não uso, e até esqueço que tenho um. WHATSAPP é mais um aplicativo americano para comunicações via internet. (rede internacional). É uma multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz para smartphones (telefones inteligentes). Além de mensagens de texto, os usuários podem enviar imagens, vídeos e documentos em PDF (um formato de arquivo portátil), além de fazer ligações grátis por meio de uma conexão com a internet. O que a maioria das pessoas não sabe é que WHATSAPP é apenas um trocadilho com a expressão inglesa WHAT´S UP? que significa, E AÍ? ou QUAL É ? ou O QUE ESTÁ ROLANDO?, etc. O brasileiro poderia, simplesmente, traduzir a expressão para o português e usar um termo coloquial e maneiro como QUALÉ? Que tal dizer: EI, AMIGO, ME MANDA UM QUALÉ. Porém, o brasileiro acha que QUALÉ é brega. Ele se sente mais importante dizendo: ME ENVIA UM WHATSAPP! Ele acha que QUALÉ é brega, mas ele não percebe que o brega é ele. Como dizia Platão: Um louco não sabe que é louco porque ele nunca conheceu a sanidade. Em nossas escolas, não se pode mais mais falar em assédio moral. Onde minha filha de 13 anos estuda, não se pode reclamar de ameaças, provocações, e intimidações por parte de outros alunos. Os professores e coordenadores agora só te entendem se você disser: Minha filha está sofrendo bullying. E a mídia, principalmente a televisiva global, dá a maior força à substituição do português assédio moral pelo inglês bullying. Lembro-me há muitos anos atrás que alguém queria substituir o nome Sao Paulo Fashion Week por Semana da Moda de São Paulo. Imediatamente, uma famosa top model brasileira, retrucou: Se trocarem o nome não participo mais deste desfile. Para aquela celebridade as palavras Semana da Moda eram bregas demais. Acredito que as fezes dela já não são mais marrom. Devem ter as cores das bandeiras americanas e britânicas: azul, vermelha e branca. Raras vezes vou ao Shopping Center Norte (Centro de Compras do Norte). Quando vou e desfilo pelos exuberantes corredores, fico impressionado ao ver nas luxuosas vitrines frases do tipo 50% OFF, que em inglês significa 50% DE DESCONTO. Mais estarrecido ainda fico com frases do tipo ON SALE, que em inglês significa EM LIQUIDAÇÃO. O consumidor não entende o que estas palavras em inglês significam. Só entendem que os preços baixaram, porque ao lado destas mensagens em língua estrangeira o preço anterior (superfaturado) tem um enorme risco em vermelho, e abaixo dele aparece o novo preço 50% mais baixo (mas ainda caro demais). Até mesmo nosso respeitável Dicionário Aurélio adotou essa idiotice. Acabou de introduzir oficialmente na língua portuguesa o verbo TUITAR, Eis o significado de tuitar no Aurélio: Postar no Twitter comentários, informações, fotos, etc. Como todos sabem, twitter é mais uma rede social e um servidor da internet que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais, por meio do website (sítio de rede) do serviço, por SMS e por softwares (programas) específicos de gerenciamento. SMS é uma abreviação do inglês Short Message Service (Serviço de Mensagens Curtas) que poderia ser chamado SMC em português. Twitter em inglês significa PIADOR, do verbo PIAR. Os pássaros PIAM, portanto são PIADORES, mas para os intelectuais brasileiros é muito feio e brega usar o termo PIAR para esta rede social da internet. Para o Senhor Aurélio, TUITAR é muito mais elegante, mais sofisticado, mais inteligível do que o nosso PIAR. A idiotice mais recente é a nova mania americana (imediatamente adotada pelos babacas brasileiros) de marcar qualquer assunto, por mais idiota que seja, com o símbolo do jogo da velha: #. E aqui no Brasil todos têm que pronunciar exatamente como os americanos pronunciam, ou seja HASHTAG. Os americanos sempre usaram o símbolo # como abreviação da palavra número. Exemplo: # 20 (número vinte). De repente, os americanos decidiram que qualquer assunto, por mais trivial e vulgar que seja, deve ser identificado com uma palavra chave. Por isso inventaram em 2014 uma nova palavra, HASHTAG que significa exatamente isso: PALAVRA-CHAVE DE UM ASSUNTO, OU TEMA, OU TEXTO. Pode ser qualquer assunto. Exemplos: # Reality Show do Ronaldinho Gaúcho, #Levir Culpi não comemora gol impedido, #As curvas de Giovanna Ewbank em vestido transparente, #Joana é página virada na vida de Gabriel. E os brasileiros não podem chamar o símbolo # pelo nome oficial em português: Cerquilha ou o popular jogo da velha. Ele é obrigado, principalmente na televisão, a dizer HASHTAG e pronunciar a palavra em inglês direitinho, senão pode ser demitido. Bestialidade é o que não falta neste país, e só perde para a corrupção institucional. Os mais bestas são aqueles que se julgam acima de média, mais esclarecidos, que falam idiomas, e que não têm o que fazer. Alguns, por motivos exclusivamente comerciais, trouxeram para o Brasil uma tradição americana chamada HALLOWEEN (Dia das Bruxas) que nada tem a ver com nosso folclore e nossas tradições. Tentaram transformar o Dia das Bruxas no Dia do Saci Pererê, mas não pegou, porque qualquer bestialidade que venha dos EUA é sempre a melhor do mundo. Não duvido que não vai demorar muito para que estes mesmos bestas instituam no Brasil o Dia de Ação de Graças (THANKSGIVING DAY) uma tradição exclusivamente americana. Há outros bestas que acham que o Brasil já é uma potência olímpica no esporte e que nosso país tem talentos demais para poucas modalidades esportivas. Para não desperdiçar o potencial de tantos atletas, eles resolveram trazer para nosso país o basebol e o futebol americano. Talvez eles não saibam que toda pessoa que adora esportes, mas não tem talento nenhum para qualquer tipo de modalidade, acaba jogando basebol e futebol americano. Eu sempre digo isso aos americanos quando vou aos EUA, e eles ficam putos da vida comigo e, corretamente, dizem que sou subdesenvolvido. Eu lembro a eles que os EUA têm a melhor tecnologia do mundo, mas péssimas ideias artísticas, Basta assistir a todos os filmes que eles produzem todos os anos, especialmente aqueles que ganham o OSCAR, um espetáculo criado por bestas para bestas. Por falar em esporte, o boxe, que pode matar, causar o Mal de Parkinson e deixa outras sequelas irreversíveis, sempre foi chamado de NOBRE ESPORTE. Agora, a Globo, por puro interesse financeiro, trouxe ao Brasil um esporte ainda mais nobre, o UFC, que está muito próximo da carnificina das lutas entre gladiadores no antigo império romano. E por falar em Globo, fugindo um pouco dos esportes, outra nobreza é o famoso BIG BROTHER BRASIL (o Grande Irmão Brasil) que, como já escrevi em outro texto, não passa de uma versão erótica das banalidades globais em horário nobre, uma escola preparatória para jovens mulheres que pretendem ganhar a vida pousando nuas. Acredito que o melhor nome para este programa, mantendo o inglês que é imprescindível, seria BIG GLOBAL SHIT (a Grande Bosta Global). E que novidades o Sr. Aurélio está preparando para os bestas quadradas (freaks)? Verbos como réchitegar (com pronúncia nordestina), feissibucar, uótsapar, gugolar, blogar, instagramar, iutubar, linquedlinar...? Meu corretor ortográfico vive me alertando: Não é e-mail. É correio eletrônico. Não é blog. É blogue. Mas sempre que usei a palavra blogue alguns leitores me perguntaram: O que você quer dizer com blogue? Alguma raça de cachorro como o buldogue?


terça-feira, 18 de outubro de 2016

GENTE FELIZ


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O céu é um copo vazio de chuva, Sorvida pelo solo fértil como diamantes de primeira água, Suado de gotículas dos orvalhos da graça de Deus, Oferendas ao sol que limpa o tempo, Azula o firmamento de uma ponta do arco-íris  à outra, Salto de paraquedas, Ele não abre, Em queda livre, Sinto a liberdade do pássaro de espírito apátrida, Do eterno sonho que sonhava minha alma ansiosa e extasiada, Fazendo deste mergulho no vácuo o momento mais alegre, Que sempre me fora adiado, Qual vida passageira que vive só uma vida, Qual brancas nuvens baixas e transitórias, Tênues e imóveis, Matando-me como uma bola no peito aberto, Aos últimos raios filtrando-se entre as frouxas luzes do crepúsculo vespertino, Às estrelas que estão para nascer, A mais um belo dia que me conduz ao altar do mundo e me faz acreditar, Me faz sorrir aos amigos o encantamento de que estou possuído, Contaminado de gente feliz.





sexta-feira, 14 de outubro de 2016

MINDY


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche);

Sempre vivi na ilusão de que jamais viria ao conhecimento de uma insegurança, Uma fraqueza que tão desgraçada me fez a vida inteira, Enquanto você era moderada por natureza, Eu radicalizava em tudo, Até no amor, Enquanto eu crescia adulto fraco na incerteza, Você já era resoluta demais para uma criança, De tanta beleza, De tanto vigor, Mesmo que você não saiba que seguimos existindo em tempos separados, À distância, Namoro seus lindos olhos azuis, Seus cílios e supercílios maquiados de rímel negro, Não desvio minha atenção para seu corpo, Convirjo-a em seu rosto  graciosamente severo, Este conjunto de traços que criou-se em torno da meiguice, Resistindo à minha rendição, Por jamais poder ser apenas mais um dos homens na sua história, Resistindo até ao esgotamento completo, Reconheço seu talento e meu arrependimento, E sem você saber, Vejo-te todos os dias, Na hora que eu quiser, E só com isso me contento, Você atrasada na hora de nascer, Eu precoce na hora de me perder.     


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PARÁGRAFOS 2 A 5 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sem realmente saber como e por onde começar, Onedin deteve-se por algum tempo no fato desse caso insólito ter tido como ponto de partida Tilly correndo de alguém, algo que se repetiu de forma notável em ao longa de sua vida. Todavia, continuava atormentando-o a preocupação em trazer essa quimera o mais próximo possível daquilo que se considera efetivamente existir, missão que sempre temeu ser tão inconsequente e irracional quanto trazer o reino dos céus à terra santa nos tempos das cruzadas. Consultou o dicionário em busca de outras definições para uma palavra conveniente que lhe veio à mente para explicar este imbróglio, e foi numa frase de João Gaspar Simões contida no dicionário que encontrou o fio da meada deste livro. Se o daimon de Tilly ouvisse esta última palavra, ele imediatamente advertiria Onedin de que esse calhamaço de escritos não passaria de uma surrada colcha de retalhos roubados do melhor de todos os pais dos burros de sua língua. Mas é certo também que Onedin fingiria não ter ouvido o acautelamento e começaria a divagar.
Por que alguém escreve coisas para enganar os outros? Como se descobre que alguém escreve coisas feitas para enganar, mas que não enganam ninguém? Como a incoerência, o sonambulismo, o onirismo, o ilogismo e a eventualidade levam a tal descoberta?
Enquanto meditava sobre estas questões, Onedin decidiu recapitular as mais marcantes circunstancias separadas pela relatividade do tempo em que Tilly precisou sair correndo, e optou por substituir os verdadeiros nomes dos personagens e dos lugares desta história fora do comum para evitar constrangimentos.
A impressionante e derradeira conversa com Tilly impregnou-se na memória de Onedin de forma indelével e trazia-lhe recorrentes lembranças da última vez que Tilly correu tanto, numa situação semelhante à penúltima, e ambas caracterizadas por palavras opostas àquelas que João Gaspar Simões empregou para falar da poesia de Eugênio de Andrade: uma coerente com o conteúdo básico do conhecimento absoluto, e outra com ocorrências simultâneas sem relação causal, mas com o mesmo significado; ambas muito mais que sonâmbulas, verdadeiras projeções astrais; oníricas, mas impessoais; tão lógicas quanto o conceito de desordem no universo e tão constantes como a insensata busca do homem por um significado para a vida. E ao contrário da maneira de conceber e realizar atribuída pelo crítico ao poeta, as verdades que nesta penúltima se comprimiam intensamente como num ovo cósmico eclodiram quando Onedin pretendia dizer coisas feitas para não enganar, mas que acabam fazendo com que todos se sintam enganados. No entanto, estarão irremediavelmente enganados para sempre aqueles que nunca se empenharem em compreender a querença desta explosão:
Quero luz!, gritava Tilly com medo do escuro.