sábado, 1 de outubro de 2016

A PSICOGRAFIA DE CHICO XAVIER

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Há vinte anos, eu dei uma palestra sobre Sócrates numa casa espírita. O texto que preparei estava muito longe de ser espiritual, mas tive que fazer algumas pequenas concessões para que meu discurso pudesse receber a atenção do público heterogêneo daquela sociedade quase filantrópica. Uma das maiores preocupações dos dirigentes espíritas é evitar que uma personalidade histórica, como Sócrates, seja colocada lado a lado, em termos morais, com uma figura mitológica, como Jesus. Por ocasião da preparação de minha palestra, um desses dirigentes, bem-intencionado, entregou-me um livro psicografado por Chico Xavier, chamado Crônicas do Além-túmulo, e que contém uma entrevista que o suposto espírito de Humberto de Campos, escritor brasileiro morto em 1934, apelidado de Irmão X, fez com Sócrates no plano espiritual. Aquele curto texto de nada me serviu, mas seu conteúdo estarreceu-me com tanta falta de conhecimento e excesso de preconceitos. Encontro, agora, ensejo para escrever sobre a psicografia de Chico Xavier, uma vez que o espiritismo está na moda com os filmes CHICO XAVIER, AS MÃES DE CHICO, NOSSO LAR e O LIVRO DOS ESPÍRITOS, todos, aliás, muito fracos e piegas. O mais agravante é o fato de que os produtores desses filmes querem passar ao público a ideia de que não se trata de ficção (de baixa categoria), mas de realidade. Não há dúvidas que estes filmes levam ao delírio o único público que os assistem: os fanáticos espíritas. Para mim, Chico Xavier foi um criptomaníaco. Este neologismo não tem nada de pejorativo. Eu o inventei a partir de uma palavra verdadeira: criptomnésia. Portanto, quando digo que Chico Xavier foi um criptomaníaco, quero apenas dizer que ele foi uma pessoa afetada por criptomnésia. Enquanto os espiritualistas acreditam que tudo o que Chico escreveu foram mensagens psicografadas por espíritos de gente morta, uma análise científica dos seus textos prova que seus escritos são apenas resultados da criptomnésia, que é uma condição na qual uma pessoa tem lembranças ou habilidades que ela pode acessar, mas que foram adquiridas subconscientemente ou através de meios subliminares. Em geral, a pessoa não tem nenhum conhecimento de como ou quando tais memórias e habilidades foram adquiridas. Elas podem ficar armazenadas por um longo período de tempo até emergirem através de transe hipnótico, meditação e auto-hipnose. Há vários tipos de criptomnésia. Uma delas é a xenoglossia, a habilidade de falar idiomas que nunca se estudou e com os quais jamais se teve qualquer contato. Outra é a escrita automática, que os espíritas chamam de psicografia, que revela a capacidade que uma pessoa tem de escrever uma grande quantidade de informações a ela desconhecidas, sem nenhum desejo consciente de fazê-lo, decorrendo daí o fato de os espíritas acharem que tais escritas automáticas são iniciativas espontâneas de espíritos de pessoas que já faleceram e que resolvem escrever histórias, contos, crônicas e depoimentos através de pessoas dotadas de percepções extrassensoriais, ou médiuns, como o Chico. Eu não conheci o Chico Xavier, aliás, conheci-o somente por 60 segundos, insuficientes para fazer uma ideia de seu caráter. No entanto, conheci vários amigos íntimos de Chico que o descreveram como uma pessoa extraordinária, fora do comum. Logicamente, esses amigos do Chico são muito suspeitos para falar sobre ele porque são espíritas Kardecistas e, como todos sabem, os espíritas costumam viajar muito na maionese. De forma geral, muitas celebridades, artistas e até políticos que conheceram o Chico, reconheceram nele uma pessoa diferente e excepcional. Não duvido disso. Chico deve ter sido uma pessoa muito especial mesmo. Mas ele é mais conhecido pelo vasto acervo de livros que escreveu. Li vários destes livros e digo que a maioria deles é extremamente pobre de ideias. Muitos dos longos romances de Chico são exageradamente sentimentais, contaminados de moralismo puritano e religiosidade, como se a vida após a morte não fosse um fenômeno natural deste planeta e do universo, mas uma criação da fé cristã. Os livros do Chico são facilmente previsíveis, como os de Paulo Coelho. Depois da quinta página, já se sabe como a história vai terminar. São também excessivamente repetitivos, sempre com a mesma história e o mesmo enredo, mudando somente o cenário e os nomes dos personagens. Os textos mais curtos do Chico são igualmente enfadonhos, e alguns chegam a subestimar a inteligência e a cultura. Outros até que têm boas frases moralizantes e edificantes, mas, ainda assim, muito carolas. Enquanto ele escrevia histórias fictícias, mesmo bregas e melodramáticas, ele conseguia arrebanhar um público apaixonado e pouco culto, o mesmo que coloca os livros da Zibia Gasparetto entre os mais vendidos do país. Mas quando o Chico se punha a escrever sobre histórias reais que pudessem ser confrontadas por livros acadêmicos, Chico se saia muito mal. Como exemplo, analiso aqui um de seus textos curtos, justamente aquele que me foi dado para ler, sobre Sócrates. O texto original é separado em parágrafos numerados em itálico e negrito para facilitar a identificação de meus comentários marcados por letras.

FRANCISCO CANDIDO XAVIER, CRÔNICAS DE ALÉM-TÚMULO, pelo Espírito Humberto de Campos, 25 - SÓCRATES, página 76, 7 de janeiro de 1937.

1. Foi no Instituto Celeste de Pitágoras (1) que vim encontrar, nestes últimos tempos, a figura veneranda de Sócrates, o ilustre filho de Sofronisco e Fenareta. A reunião, nesse castelo luminoso dos planos erráticos, era, nesse dia, dedicada a todos os estudiosos vindos da Terra longínqua. A paisagem exterior, formada na base de substâncias imponderáveis para as ciências terrestres da atualidade recordava a antiga Hélade, cheia de aromas, sonoridades e melodias. Um solo de neblinas evanescentes evocava as terras suaves e encantadoras, onde as tribos jônias e eólias localizaram a sua habitação, organizando a pátria de Orfeu, cheia de deuses e de harmonias. Árvores bizarras e floridas enfeitavam o ambiente de surpresas cariciosas, lembrando os antigos bosques da Tessália, onde Pan se fazia ouvir com as cantilenas de sua flauta, protegendo os rebanhos junto das frondes vetustas, que eram as liras dos ventos brandos, cantando as melodias da Natureza. O palácio consagrado a Pitágoras tinha aspecto de severa beleza, com suas colunas gregas à maneira das maravilhosas edificações da gloriosa Atenas do passado.

a) Como o suposto autor espiritual deste texto foi um poeta e escritor, Chico se permite florear em demasia a descrição do local onde Sócrates é esperado, a ponto de fazer alusão a personagens da mitologia grega, como Orfeu e Pan. Se existe vida após a morte, imagino que o lado de lá não seja idêntico ao lado de cá. Mas esta não parecia ser a opinião do Chico. Não sabemos se os espíritos resolveram prestar uma homenagem à civilização mais inteligente que já houve na terra, ou se a réplica, no plano espiritual, das edificações da gloriosa Atenas é mero fruto de uma doentia saudade dos tempos de encarnados na terra. Logo saberemos.

2. Lá dentro, agasalhava-se toda uma multidão de Espíritos ávidos da palavra esclarecida do grande mestre, que os cidadãos atenienses haviam condenado à morte, 399 anos antes de Jesus-Cristo. Ali se reuniam vultos venerados pela filosofia e pela ciência de todas as épocas humanas, Terpandro, Tucídides, Lísis, Esquines, Filolau, Timeu, Símias, Anaxágoras e muitas outras figuras respeitáveis da sabedoria dos homens.

b) Faltam, nesta lista do Chico, vários dos cidadãos mais venerados pela filosofia e pela ciência de todas as épocas humanas: Galileu Galilei, Francis Bacon, Rene Descartes, Thomas Hobbes, John Locke, Isaac Newton, George Berkeley, David Hume, Immanuel Kant, George Wilhelm, Friedrich Hegel, Auguste Comte, Karl Marx, etc. Para Chico, os mais venerados pela filosofia e pela ciência de todas as épocas humanas são apenas os helenos da Grécia clássica! Poetas, escritores, músicos, filósofos, políticos, oradores e historiadores. Mas, mesmo nesta relação de Gregos clássicos, faltam exatamente as figuras mais respeitáveis na história da produção do conhecimento humano: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Parmênides, Heráclito, Demócrito, Zenão, Epícuro, Pirron, etc. Nem mesmo o grande Pitágoras, a quem Chico diz ter sido consagrado aquele Instituto Celeste, é mencionado!

3. Admirei-me, porém, de não encontrar ali nem os discípulos do sublime filósofo ateniense, nem os juízes que o condenaram à morte. A ausência de Platão, a esse conclave do Infinito, impressionava-me o pensamento...

c) A preocupação com a ausência de Platão é injustificável, tendo em vista que a maioria dos gênios da humanidade não está presente. Também não se justifica esperar que os juízes que condenaram Sócrates, e que não deram nenhuma contribuição à ciência ou à filosofia, pudessem estar presentes num conclave dos vultos mais venerados pela filosofia e pela ciência de todos os tempos.

4. ...quando, na tribuna de claridades divinas, se materializou aos nossos olhos o vulto venerando da filosofia de todos os séculos. Da sua figura irradiava-se uma onda de luz levemente azulada, enchendo o recinto de vibração desconhecida, de paz suave e branda. Grandes madeixas de cabelos alvos de neve moldavam-lhe o semblante jovial e tranquilo, onde os olhos brilhavam infinitamente cheios de serenidade, alegria e doçura.

d) O Chico era famoso por fazer uso demasiado de adjetivos (e eu sou também, mas não famoso). Aqui ele emprega vários em poucas frases. Soma-se à adjetivação o estilo excessivamente floreado.

5. As palavras de Sócrates contornaram as teses mais sublimes, porém, inacessíveis ao entendimento das criaturas atuais, tal a transcendência dos seus profundos raciocínios. À maneira das suas lições nas praças públicas de Atenas, falou-nos da mais avançada sabedoria espiritual, através de inquirições que nos conduziam ao âmago dos assuntos; discorreu sobre a liberdade dos seres nos planos divinos que constituem a sua atual morada e sobre os grandes conhecimentos que esperam a Humanidade terrestre no seu futuro espiritual. É verdade que não posso transmitir aos meus companheiros terrenos a expressão exata dos seus ensinamentos, estribados na mais elevada das justiças, levando-se em conta a grandeza dos seus conceitos, incompreensíveis para as ideologias das pátrias no mundo atual, mas, ansioso de oferecer uma palavra do grande mestre do passado aos meus irmãos, não mais pelas vísceras do corpo e sim pelos laços afetivos da alma, atrevi-me a abordá-lo:

e) Segundo a história, o humilde Sócrates costumava falar aos jovens nas praças públicas com extrema clareza e simplicidade, mas agora ele fala nos palanques celestiais do plano espiritual com extrema complexidade e sofisticação. Ao deixar o mundo terreno e mudar-se para os planos divinos, o Sócrates do Chico deixa a humildade de lado e fala de forma tão complicada que se torna impossível transmitir ao mundo a expressão exata de seus ensinamentos. Nem mesmo Deus é capaz de entender sua avançada sabedoria espiritual. Quando NADA se sabe sobre alguém e, mesmo assim, tem-se a pretensão de conhecê-lo a fundo, é muito comum ouvir explicações como esta: ‘Não posso transmitir aos meus companheiros terrenos a expressão exata dos seus ensinamentos, estribados na mais elevada das justiças, levando-se em conta a grandeza dos seus conceitos, incompreensíveis para as ideologias das pátrias no mundo atual’. Oras, eu, também, não tendo condições de provar que estamos sendo visitados por alienígenas, posso dizer aos meus amigos que mantive contato imediato do quarto grau com os ocupantes dos discos voadores, mas não posso descrevê-los para eles e nem mesmo transmitir-lhes a expressão exata da sabedoria de suas comunicações telepáticas, estribados na mais elevada das perfeições morais, levando-se em conta a sofisticação de suas tecnologias, incompreensíveis para as ciências atuais de nosso planeta. Simples, não?

6. - Mestre - disse eu -, venho recentemente da Terra distante, para onde encontro possibilidade de mandar o vosso pensamento. Desejaríeis enviar para o mundo as vossas mensagens benevolentes e sábias? - Seria inútil - respondeu-me bondosamente -, os homens da Terra ainda não se reconheceram a si mesmos. Ainda são cidadãos da pátria, sem serem irmãos entre si. Marcham uns contra os outros, ao som de músicas guerreiras e sob a proteção de estandartes que os desunem, aniquilando lhes os mais nobres sentimentos de humanidade.

f) O Sócrates da história teria ficado lisonjeado se fosse convidado a falar aos homens comuns, mas o Sócrates do Chico SE NEGA a falar a gente simples, pois agora ele faz parte do mundo das criaturas superiores, mas, mesmo assim, ele se esquece de quem foi (ou ainda é) e comete alguns deslizes humanos, como, por exemplo, repetir o chavão não reconhecem a si mesmos.

7. - Mas. . . - retorqui - lá no mundo há uma elite de filósofos que se sentiriam orgulhosos de vos ouvir! ...
- Mesmo entre eles as nossas verdades não seriam reconhecidas. Quase todos estão com o pensamento cristalizado no ataúde das escolas. Para todos os espíritos, o progresso reside na experiência. A História não vos fala do suicídio orgulhoso de Empédocles de Agrigento, nas lavas do Etna, para proporcionar aos seus contemporâneos a falsa impressão de sua ascensão para os céus? Quase todos os estudiosos da Terra são assim; o mal de todos é o enfatuado convencimento de sabedoria. Nossas lições valem somente como roteiro de coragem para cada um, nos grandes momentos da experiência individual, quase sempre difícil e dolorosa.

g) O Sócrates de Chico e dos raciocínios profundos e transcendentes continua se negando a falar aos homens comuns, porque ele está muito acima deles. Agora, ele é um Deus!

8. Não crucificaram, por lá, o Filho de Deus, que lhes oferecia a própria vida para que conhecessem e praticassem a Verdade? O pórtico da pitonisa de Delfos está cheio de atualidade para o mundo. Nosso projeto de difundir a felicidade na Terra só terá realização quando os Espíritos aí encarnados deixarem de serem cidadãos para serem homens conscientes de si mesmos. Os Estados e as Leis são invenções puramente humanas, justificáveis, em virtude da heterogeneidade com respeito à posição evolutiva das criaturas; mas, enquanto existirem sobrará a certeza de que o homem não se descobriu a si mesmo, para viver a existência espontânea e feliz, em comunhão com as disposições divinas da natureza espiritual. A Humanidade está muito longe de compreender essa fraternidade no campo sociológico. Impressionado com essas respostas, continuei a interrogá-lo:

h) O Sócrates de Chico diz que o homem precisa deixar de ser cidadão, porém o Sócrates histórico foi um ferrenho cidadão Ateniense, tendo, inclusive, servido o exército para defender sua Cidade-Estado. O Sócrates do Chico perdeu a oportunidade de ter nos ensinado quais invenções na terra NÃO SÃO puramente humanas. E mais uma vez, o Sócrates do Chico repete o chavão o homem não se descobriu a si mesmo.

9. - Apesar dos milênios decorridos, tendes a exprimir alguma reflexão aos homens, quanto à reparação do erro que cometeram, condenando-vos à morte?
- De modo algum. Miletos e outros acusadores estavam no papel que lhes competia, e a ação que provocaram contra mim nos tribunais atenienses só podia valorizar os princípios da filosofia do bem e da liberdade que as vozes do Alto me inspiravam, para que eu fosse um dos colaboradores na obra de quantos precederam, no Planeta, o pensamento e o exemplo vivo de Jesus-Cristo. Se me condenaram à morte, os meus juízes estavam igualmente condenados pela Natureza; e, até hoje, enquanto a criatura humana não se descobrir a si mesma, os seus destinos e obras serão patrimônios da dor e da morte.

i) Nos parágrafos 6 e 7, Sócrates diz ser inútil enviar suas mensagens benevolentes e sábias para o mundo e para uma elite de filósofos que se sentiriam orgulhosos de ouvi-lo, mas, para ele, é MUITO OPORTUNO criticar um insignificante personagem Grego como Mileto! Está claro que a criptomnésia não agraciou Chico com qualquer conhecimento sobre Sócrates, por isso a única coisa que Chico tem a dizer sobre Sócrates é aquele velho chavão que todos nós conhecemos e que ele repete, pela terceira vez, neste curto texto: enquanto a criatura humana não se descobrir a si mesma.

10 - Poderíeis dizer algo sobre a obra dos vossos discípulos?
- Perfeitamente - respondeu-me o sábio ilustre -, é de lamentar as observações mal avisadas de Xenofonte, lamentando eu, igualmente, que Platão, não obstante a sua coragem e o seu heroísmo, não haja representado fielmente a minha palavra junto dos nossos contemporâneos e dos nossos pósteros. A História admirou na sua Apologia os discursos sábios e benfeitos, mas a minha palavra não entoaria ladainhas laudatórias aos políticos da época e nem se desviaria- para as afirmações dogmáticas no terreno metafísico...

j) Quando perguntado, três vezes, se ele gostaria de dizer algo ao mundo, o Sócrates de Chico disse, terminantemente, ser inútil! Mas, quando perguntado se ele gostaria de falar sobre seus discípulos, não hesitou em responder: perfeitamente! Este é o momento catártico do texto que tem como objetivo principal criticar os que foram aclamados como grandes homens pela história e que incomodam o Sócrates do Chico. As chamadas palavras desavisadas de Xenofonte as quais o Sócrates de Chico refere-se são aquelas que mostram o Sócrates humano, que não trabalha, que briga com a mulher, não se dá com o filho mais velho, não toma banho, anda descalço e fica uma semana inteira sem trocar de roupa. As palavras desavisadas são aquelas que mostram um Sócrates menos sábio do que moralista e menos moralista do que desmazelado. Mas o calcanhar de Aquiles do Sócrates de Chico não é Xenofonte; é Platão, o verdadeiro gênio, e quando ele se põe a falar de seu maior admirador, ele começa a dar sinais de ignorância. Eu, que sou leigo e um Zé-ninguém, sei que, quando escreveu o livro Apologia, Platão não reproduziu palavras de Sócrates, mas apenas escreveu o que ele, Platão, gostaria de ter dito, em defesa de Sócrates, aos juízes que o condenaram. Vejam só a maestria das ‘ladainhas laudatórias’ de Platão que tanto irritam a fonte inconsciente de Chico: ‘Não me insurjo contra os que votaram contra mim ou me acusaram. A verdade é que não me acusaram e me condenaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano; nisso merecem censura. Contudo, só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos cresceram, castigai-os e atormentem-nos com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. Se eles se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem, e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós o fizerdes, eu terei recebido de vós justiça; eu e meus filhos também’. Até Deus aplaude estas frases que o Sócrates de Chico chama de ladainhas laudatórias.

11. ...Vivi com a minha verdade para morrer com ela. Louvo, todavia, a Antístenes, que falou com mais imparcialidade a meu respeito, de minha personalidade que sempre se reconheceu insuficiente. Julgáveis então que me abalançasse, nos últimos instantes da vida, a recomendações no sentido de que se pagasse um galo a Esculápio? Semelhante expressão, a mim atribuída, constitui a mais incompreensível das ironias.

k) É sempre FÁCIL falar bem de pessoas das quais pouco se sabe, como Antístenes. Quanto menos se sabe de uma pessoa, mais ela é endeusada e mais dela se fala e este é o caso de Jesus. Mas aqui, ao falar pela segunda vez de seu desafeto, chamado Platão, o Sócrates de Chico assina o atestado de burrice com a frase Julgáveis então que me abalançasse, nos últimos instantes da vida, a recomendações no sentido de que se pagasse um galo a Esculápio?’ No seu magnífico livro chamado Fedão, Platão narra a conversa que Sócrates teve com vários amigos no seu último dia na prisão quando, antes do por do sol, ele seria executado. Historicamente, Platão não esteve presente, mas soube de todos que lá estiveram e até mesmo o que conversaram. Platão não narra o que realmente foi falado naquele último dia de Sócrates. Ele apenas escreve, com sua genialidade, sobre o que ele, Platão, acha que seu mestre poderia ter conversado com seus amigos. Para alguém que está prestes a partir para o outro lado, nada melhor do que falar sobre a alma e o que nos espera após a morte (um dos assuntos prediletos de Platão - Leiam o tomo número 10 de A República). Se vocês lerem o Fedão de Platão, notarão que o tempo todo ele faz Sócrates descrever a morte como uma libertação final do espírito, afirmando que o corpo físico nada mais é que uma prisão para a alma e que, quando se morre, o espírito se vê livre desta doença chamada corpo. Como se sabe, Sócrates foi condenado à morte sob a acusação de desvirtuar os jovens com ideias nada convencionais e de denegrir a imagem da religião grega de muitos deuses. No momento derradeiro do livro, o carrasco faz Sócrates beber cicuta. Quando o veneno começa a fazer efeito, Sócrates desaba sobre a cama e permanece quase imóvel. Um de seus amigos o segura pela cabeça e pergunta se ele deseja dizer suas últimas palavras. Sócrates responde: Não se esqueça de que devemos pagar um galo ao deus Asclépio (Esculápio para os romanos). Frase magistral! Mata dois coelhos com uma cajadada só. Asclépio era o deus da medicina e da saúde ao qual as pessoas com enfermidades faziam promessas para se curarem e lhe ofereciam um animal para sacrifício, da mesma forma, como nos dias de hoje, muitas pessoas vão a Aparecida do Norte e fazem promessas para curarem-se de suas enfermidades e oferecem os mais diferentes objetos como pagamento pelo pedido atendido. Com essa lembrança do deus Asclépio, exatamente nos últimos instantes da vida de seu mestre, Platão quis mostrar que, na verdade, Sócrates nada tinha contra a religião de muitos deuses da Grécia, e, ao mesmo tempo, ao pedir para seu amigo pagar um galo a Asclépio, ele está sendo coerente com o tema que ele escolheu para discutir no seu último dia de vida e, assim, pagar uma promessa por uma graça alcançada: Ele está morrendo e seu espírito está sendo curado desta doença chamada corpo, graças a Asclépio, o deus da saúde. Simplesmente genial! E é dessa frase que o Sócrates de Chico tem ciúmes a ponto de achar que Platão teria insinuado que o Sócrates histórico falou isso de verdade. Quanta ingenuidade! Quanta falta de cultura! Quanta falta de inteligência!

12. - Mestre, e o mundo? - indaguei.
- O mundo atual é a semente do mundo paradisíaco do futuro. Não tenhais pressa. Mergulhando-me no labirinto da História, parece-me que as lutas de Atenas e Esparta, as glórias do Pártenon, os esplendores do século de Péricles, são acontecimentos de há poucos dias; entretanto, soldados espartanos e atenienses, censores, juízes, tribunais, monumentos políticos da cidade que foi minha pátria, estão hoje reduzidos a um punhado de cinzas!. . . A nossa única realidade é a vida do Espírito.

l) Todos os espiritualistas dizem que nossa única realidade é a vida espiritual e não a material. O problema é que não existe prova nenhuma de que existe vida após a morte ou vida espiritual e, enquanto não obtemos uma prova concreta, resta-nos deliciarmo-nos com A Guerra do Peloponeso, de Tucídides, que narra as lutas de Atenas e Esparta; encantarmo-nos com as glórias do Pártenon que ainda está de pé na Grécia atual e com os esplendores do século de Péricles registrados nesta grande invenção puramente humana chamada livro. Se o mundo espiritual realmente existe como acreditava Chico, então não devemos nos preocupar com tudo que ficou reduzido a cinzas na terra, pois tudo está sendo reconstituído nos planos divinos, se levarmos a sério o que está escrito no parágrafo 1.

13. - Não vos tentaria alguma missão de amor na face do orbe terrestre, dentro dos grandes objetivos da regeneração humana?
- Nossa tarefa, para que os homens se persuadam com respeito à verdade, deve ser toda indireta. O homem terá de realizar-se interiormente pelo trabalho perseverante, sem o que todo o esforço dos mestres não Passará do terreno do puro verbalismo.

m) Por três vezes, o Sócrates de Chico recusou-se a enviar uma mensagem de solidariedade aos simples mortais ainda encarnados. Agora, ele insinua ser inútil voltar à terra com uma missão de amor, porque o esforço que o homem faz na terra não passa de puro verbalismo. No entanto, tudo o que o Humberto e o Sócrates de Chico disseram neste texto não passa de puro verbalismo: muita eloquência, nenhuma substância e nenhuma lógica.

14. E, como se estivesse concentrado em si mesmo, o, grande filósofo sentenciou:
- As criaturas humanas ainda não estão preparadas para o amor e para a liberdade... Durante muitos anos, ainda, todos os discípulos da Verdade terão de morrer muitas vezes!

n) E se todas as palavras proferidas pelos mais venerados sábios do plano espiritual forem semelhantes a estas, estaremos despreparados não somente para o amor e a para a liberdade, mas também para a sabedoria e a imparcialidade!

15. E enquanto o ilustre sábio ateniense se retirava do recinto, junto de Anaxágoras, dei por terminada a preciosa e rara entrevista.

O que aprendemos com esta entrevista do Sócrates do Chico? Absolutamente nada! O Sócrates de Chico limita-se a repetir o que qualquer mortal sabe: que devemos conhecer a nós mesmos. O resto é puro verbalismo de quem não sabe o que escrever sobre o Sócrates histórico. Se você, leitor, tiver um pouquinho da inteligência do Platão, descobrirá que este texto não é sobre Sócrates. Desde o terceiro parágrafo, o autor vem preparando o leitor para o que mais lhe interessa: criticar Platão. E por que criticá-lo? Talvez porque ele foi o verdadeiro filósofo de todos os séculos. Ou talvez porque o cristianismo é o piano da mitologia judaica carregado pelos ombros do neo-platonismo e do estoicismo e que receberam o rótulo de moral cristã, fanaticamente atribuída a um personagem mitológico chamado Jesus de Nazaré. Mas o Chico não teve culpa disso. Como eu disse, ele era afetado pela criptomnésia, isto é, ele tinha acesso inconsciente a uma fonte de informação que ele desconhecia (se quiser, pode chamar isto de percepção do inconsciente coletivo no estado vígil). A única coisa que podemos asseverar, com toda a certeza, é que a fonte a qual ele teve acesso, pelo menos para escrever este texto, nos dá uma verdadeira aula sobre como fazer críticas levianas a gênios da humanidade, primando pela adoração das palavras e gosto da eloquência vazia de conteúdo e significado. Aos cristãos e, em especial, aos espíritas, isto que vou dizer parecerá um sacrilégio: boa parte da chamada moral cristã foi simplesmente chupada dos livros de Platão. Esta deve ser é uma das razões pela qual Platão foi tão invejado e criticado neste texto do Chico. Ah, que bom seria se todas as máximas da moral cristã fossem, realmente, de autoria do mito chamado Jesus Cristo!

Nem tudo o que Chico escreveu provém da criptomnésia. Vários de seus escritos e declarações advêm de seu inconsciente e consciente pessoal e coletivo, refletindo o ambiente em que foi criado, as influências sociais e religiosas que sofreu, seu nível cultural e intelectual e sua indiscutível percepção extrassensorial. No entanto, se este texto do Chico é uma prova de que existe vida após a morte, deduzo que 1) Sócrates não era tão sábio como conta a história, mas, ao contrário, muito burro ou 2) O espírito de  Humberto de Campos mentiu ao dizer que encontrou-se com o espírito de Sócrates e inventou uma suposta entrevista apenas para criticar Platão, seu desafeto e um filósofo de quem ele tem uma insuportável inveja ou 3) O inconsciente/consciente de Chico é bem preconceituoso. A propósito, naquele famoso e antigo programa chamado PINGA FOGO, por exemplo, Chico fez duas declarações mirabolantes e hilariantes. Não tendo condições de explicar porque ele não psicografava ideias de Platão, Chico tentou diminuir a importância do grande filósofo ao insinuar que ele não era o verdadeiro autor das grandes lições morais e intelectuais que nos legou, mas apenas um médium que psicografava as ideias dos outros! Essa é de doer! Pior ainda, Chico disse também que o primeiro livro da história da humanidade foi ditado por espíritos e psicografado por Moisés numa pedra. Esta dói muito mais que um chute bem dado nos testículos. Talvez por falta de oportunidade e tempo para estudar, Chico não sabia que Moisés não existiu e que os judeus plagiaram os dez mandamentos do Livro dos Mortos dos Egípcios e os enxertaram cocontradições (você não pode cometer adultério - mandamento 7, mas pode comer sua escrava - mandamento 10; você não pode matar - mandamento 6, mas pode instituir a pena de morte segundo a lei do olho por olho, dente por dente, Êxodo 21:24), preconceitos (deus aprova a escravidão, permite que você tenha escravos e permite que você cobice seus escravos que são comparados a animais e objetos, mas deus não gosta que você cobice os escravos dos outros - mandamento 10 - Qual é a mensagem de deus para as pessoas que são escravizadas?), soberba (nos quatro primeiros mandamentos deus só fala de si mesmo).