sábado, 17 de setembro de 2016

MARAVILHAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

No mar da tranquilidade passo os dias em silêncio só na companhia de meus pensamentos atormentados, e de muito longe vejo uma criança grandona, filha da terra, jorrando água e gelo e trombeteando mãos às armas. 

No mar da serenidade passo meus dias sossegados, só na companhia dos vazios deixados por almas partidas, e de lá  o dominador do tempo infinito reina na era de ouro, como o soberano da preciosa beleza, o senhor dos anéis frios e fiéis. 

No mar da fecundidade passo meus dias conformada, só na companhia da lembrança de filhos desertados, e de muito longe vejo um homenzarrão, dono de universo, ensoberbecendo poderio com uma grande pinta vermelha. 

No mar da umidade passo meus dias em lamentações, só na companhia de arrependimentos que não me deixam dormir, e percebo que o separador do espaço é solitário como eu, entre o interno e o externo, parecido com uma estrela e usando um cinturão com buracos exageradamente espaçados. 

No mar da tempestade eu passo meus dias incompreendidos só na companhia de erros encontrados nas ingênuas intenções, e de muito perto vejo a morada dos deuses declarando guerra do pedestal mais alto. 

No mar da intelectualidade passo meus dias ensimesmados só na companhia de meus sonhos não realizados, enquanto a fonte da vida sopra os ventos do norte e ilumina a donzela do amanhecer. 

No mar da nebulosidade passo meus dias esgotados só na companhia da contagem regressiva para morrer, e há dentro de mim um caos do qual surge uma mãe terra com uma absurda potencialidade criadora de maravilhas que posso ver, mas não tocar.



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