sábado, 1 de outubro de 2016

YEKUN

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Isto aconteceu anos atrás. Eram 23 horas. Tomei 6 mg de Lexotan e, como de costume, fui para a cama assistir a um filme até pegar no sono com a TV ligada. Hoje preciso de 18 mg para dormir. O telefone tocou. Naqueles dias eu vociferava como o pai do bem sucedido corretor da bolsa de valores no filme O Lobo De Wall Street: Quem é o filho da mãe que me liga em plena terça-feira a esta hora? Hoje, ao contrário, corro para atender, para receber uma má notícia ou um chamado de emergência (mas quem precisa de minha urgência?). Também deliro, esperando que minhas comunicações telepáticas foram, finalmente, atendidas, e que minha confidente tenha captado meus pensamentos e, mesmo a contragosto, num gesto de mera caridade ou desencargo de consciência espiritual, resolveu responder às minhas súplicas, talvez a pedido de um espírito alemão. Tirei o telefone do gancho. Do outro lado da linha uma voz meia metálica, nem masculina, nem feminina, respondeu ao meu alô com uma certa entonação e cadência:
Sou alienígena, Com sexo de anjo, Sem pênis e sem vagina, Não descasco banana e nem toco banjo.
Nunca tolerei trotes. Sempre soltei um tremendo palavrão antes de desligar na cara. Porém, naquele dia não irritei-me tanto e não sei porquê. Aquele sujeito inconveniente até que tinha um pouco de senso de humor. Sua trova era hilária, pouco original, mas não tão obscena. O filme na TV não era tão ruim. Até me prendia a atenção. Por isso o sono ainda não tinha batido e a alta dosagem do Lexotan levava cada vez mais tempo para fazer efeito. Então, impelido por uma curiosidade que nunca tive, decidi dar trela ao gozador, mas bancando o durão importunado:
Olha aqui, cara, já passam das 11, e estou com muito sono. Vou desligar. Se você voltar a ligar vou te denunciar. Tenho identificador de chamadas, sacou?
Não adianta me denunciar, Sou ubíquo, Ninguém pode me encontrar, Você é apenas um soníloquo.
Desgraçado! Como ele sabia que falo dormindo? Ele me tirou do sério. Perdi a paciência. Não suporto desafios, ainda mais de anônimos fazendo pegadinhas por telefone. Por isso desliguei e até desconectei a linha do aparelho. Um segundo depois o telefone tocou. Impossível! Atendi. Era o chato de novo, arfando, apenas dizendo a palavra desafio, num ritmo e num tom do ET phone home. Isso deixara de ser uma brincadeira. Tornara-se perigoso e preocupante. Alguém estava me vigiando, me grampeando, fazendo ligação direta num telefone com fio, mas desconectado. Como isso era possível? Era mais que invasão de privacidade. Era uma intromissão de alta tecnologia. Precisava descobrir o que estava acontecendo, quem era este cara e o que ele queria de mim. Procurei não demonstrar preocupação, mas apenas surpresa bem humorada:
Cara! Como é que você conseguiu isso? O telefone está desligado!
O sujeito cínico simplesmente desconversou. Não respondeu à minha pergunta e ainda continuou me desafiando.
Estou estudando o caráter humano, Você parece ser cristianicida, Não tente bancar o einsteiniano, Senão não falarei mais com você pelo resto de sua vida.
Cacilda, pensei,  o cara é doido mesmo! Cristianicida? Nunca levei jeito para carrasco da Santa Inquisição. Sou ateu, mas não persigo cristãos. Aliás, não persigo ninguém, com ou sem religião. Raramente dou atenção para trotistas, mas este, além de me preocupar, estava despertando minha curiosidade e conseguindo ganhar minha atenção. Desliguei a TV. Continuei super invocado com o truque do telefone. Tentei por um fim a este jogo:
Cara, não sou anticristão, ok? Agora chega de brincadeira. Qual é a sua? Quem é você? Por que você está me espionando?
Ele desconversou de novo, mudou completamente de assunto e me veio com essa:
Você deve ter percebido que sou poeta, Rimo tudo que sai da minha mente, E para me seguir você terá que andar na minha bicicleta, Sempre para frente, E, Se parar, Não pode ser de repente.
Já estava ficando com raiva dessas dissimulações e metáforas. Poderia ligar para a operadora para identificar o dono do número, mas o telefone não desligava. Pensei até em sair de casa e ir à polícia.  O sujeito continuava na linha, ofegante, esperando pela minha resposta. Hesitei. Parei para pensar. Talvez o melhor fosse continuar conversando com o matusquela para ver como isso iria acabar. Continuei refletindo. Repassei sua primeira rima: Sou alienígena, Com sexo de anjo, Sem pênis e sem vagina, Não descasco banana e nem toco banjo. Ela era tão hilariante que cheguei a decorá-la. Então percebi que o sujeito cometeu erros. Decidi desafiá-lo:
Claro que percebi que você é poeta, seu matusquela. Você fala cantado, declamando um poema. Embora rima não seja meu forte, aceito montar na garupa de sua magrela, e para começar, vai aqui uma pequena lição: alienígena não rima com vagina. As duas palavras têm terminações diferentes: uma com ena, e outra com ina. Além disso, a primeira é proparoxítona, e a segunda é paroxítona. Que tal essa, Fernando Pessoa galático?
Não pensei que você atinasse para esse tipo de detalhe, Actum quam scriptum plus valet, Espero que você não falhe, Alienum nobis, nostrum plus aliis placet.
O filho da mãe relegou minha correção a um pequeno e desprezível detalhe. E ainda por cima apelou para uma língua morta. Eu estudei latim no último ano em que este idioma era obrigatório no ensino médio. Logicamente meu latim estava bem enferrujado, mas ainda me permitia entender o que ele dissera e percebi que o danado alterou a ordem das palavras de uma das frases para forçar uma rima. O correto é plus valet actum quam scriptum e não actum quam scriptum plus valet. Ao invés de apontar mais um erro dele, optei por ater-me ao significado de uma das frases em Latim:
Ah, meu chapa, te peguei. Você fugiu da raia, e além disso escolheu a pessoa errada para testar seu latim. Todo mundo sabe que os humanos têm inveja uns dos outros, até mesmo você que se diz extra terráqueo! E o que você fez ou faz que é mais importante do que escreve, além do que você está me falando?
O maluco resolveu enfurecer de vez com um ultimato:
Só respondo se você falar em rima, Você aceitou minha proposta seu bestunta, Portanto entre no clima, E reformule sua pergunta.
Bestunta? Um revide porque o chamei de matusquela? Poderia ser, mas eu não era mal humorado como ele pensara. Fiz a mesma pergunta sem rimas. Ele não respondeu. Continuava esbaforido. Este jeito dele disfarçar, mudar completamente de assunto parecia um joguinho de adolescente, uma criancice. Não tinha dúvidas de que ele tinha em suas mãos várias estrofes já escritas, preparadas com antecedência, todas rimadas e anotadas num papel. Ninguém consegue responder a uma pergunta de imediato rimando as palavras. Precisei de alguns minutos para refazer minha pergunta com rimas. E o maluco parecia não ter nenhuma pressa. Parecia ter todo o tempo do mundo. Consegui, finalmente, rimar os significado da outra frase em latim e o desafiei novamente:
Diga-me, então, seu desmiolado, o que você faz mais importante do que diz, Algo que possa ser comprovado, Algo que não te contradiz.
A resposta dele foi uma charada:
Tenho o dom da premonição, Vejo uma propaganda de uma bebida que vocês chamam de cerveja, Tem uma garçonete na praia que os clientes chamam de verão, Ela rebola e o que ela deixa ver não vem numa bandeja.
Eu não fazia a menor ideia do que ele queria dizer com este negócio de propaganda de cerveja. Mas hoje, relembrando o que ele disse anos atrás, fico pasmo e incrédulo. O cara falou de uma propaganda que só foi veiculada na televisão no ano passado! Era aquela propaganda da cerveja Itaipava com uma morenaça de saia curta que deixa aparecer até as nádegas. Esse cara é paranormal, pensei. Eu tinha gravado aquele comercial por causa de um detalhe. Quando o assisto em câmera lenta é possível congelar a imagem no momento em que o traseiro da mulher aparece claramente. Minha mulher me disse que ela não está sem nada por baixo. Diz que ela está usando um fio dental. Oras, se lá existe um fio dental ele está bem escondido dentro do rego porque o que se vê é apenas a bunda da mulher. Esse anúncio me fez lembrar da ridícula censura à propaganda da cerveja Devassa da Schincariol. No comercial, a socialite Paris Hilton, de vestido preto, pega uma lata da cerveja da geladeira e a passa por seu corpo, rebolando, ao som do tema de O Homem do Braço de Ouro de Elmer Bernstein, e é observada por admiradores que estão na praia. Paris Hilton não mostra nem a bunda e nem mesmo a calcinha, mas apenas suas belas pernas com uma minissaia usada por todas as mulheres até hoje. Na ocasião, grupos de defesa dos direitos das mulheres (bem burrinhos) protestaram contra o anúncio e o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – CONAR – (burro e bem subdesenvolvido) acatou o protesto e removeu o comercial da televisão alegando que o mesmo continha apelo sexual. Quem aqui, que estiver lendo este texto, é burrinho o suficiente para ignorar que as novelas de terceiro mundo da globo e o pornográfico Big Bosta Brasil contém mais apelo sexual do que qualquer propaganda? Sem saber que o doido com uma provável percepção extrassensorial estava lendo o futuro, fiz críticas aos desmandos e roubos no Brasil. Estranho foi que, enquanto pensava na ideia, as palavras adequadas para as rimas me vinham à mente rapidamente, com extrema facilidade. Hoje tenho certeza que o paranormal estava me ajudando de alguma forma que não sei explicar. Mais estranho ainda foi o fato de, não sabendo que ele estava prevendo o futuro, eu ter esquecido de lhe perguntar o que ele queria dizer com a propaganda da cerveja. O que acabei respondendo tem tudo a ver com minhas reflexões deste exato momento. Começo a achar que ele ainda está aqui presente, lendo meus pensamentos, e consegue trasportá-los para o passado. Isso pode ser justificado com a resposta que lhe dei com minhas críticas às imbecis censuras e maracutaias no Brasil. Vejam só o que disse a ele:
Ótima ideia para falar do país baluarte da moral, Onde fazer propaganda de cerveja devassa é um insulto, Onde jovens casais na cama global do horário nobre são apenas expressões da arte corporal, Onde ladrão da planície que rouba ladrão do planalto fica cem anos sem receber indulto.
O danado, mais uma vez, ignorou meu comentário. Apenas pegou um gancho numa de minhas palavras e veio com outra premonição:
A Copa do Mundo em 2014 será um câncer com rápida metástase, Se vocês tivessem sido eliminados nas oitavas seria frustrante, mas menos deprimente, Por sorte, ou azar, vocês conseguiram passar para as fases seguintes, Mas na semi vocês sofrerão uma humilhação que marcará suas vidas para sempre.
Logicamente em 2014 era praticamente impossível para qualquer brasileiro imaginar que o Brasil não seria campeão de futebol jogando em casa, com toda a torcida a favor, muito menos não conseguir nem chegar à final e ainda dar um tremendo vexame. Mais aí está o fato incontestável: o cara é realmente sobrenatural. Ele fez outra previsão do futuro e acertou na mosca. Inacreditável e assustador. Eu fiquei revoltado com o vexame que o Brasil deu e se eu pudesse responder ao paranormal hoje,  eu diria: Espero ver o Brasil perder mais uma de 7 X 1, mas desta vez no Maracanã, Espero ver as Olimpíadas do Rio vencidas pelo crime organizado, Masturbar meu ego com minha inteligência, Danar-me com minha irresponsabilidade, Ver televisão até as seis da manhã, Dormir até o dia ter acabado. Roubar dos ladrões de Brasília e negar-lhes sociedade. O que o demente me perguntou em seguida é uma prova inconteste de que ele está aqui, agora, neste momento, lendo minha mente, e levando meus pensamentos para o dia daquela conversa que tive com ele por telefone anos atrás. Novamente, ele mudou de assunto e, tenho certeza, que ele pegou carona na minha frase sobre as Olimpíadas no Rio e me perguntou:
O que você tem contra a cidade maravilhosa? Sua natureza de beleza incomparável? Seu excesso de mulher bonita e formosa? Ou sua espontaneidade tao invejável?
Continuava não entendendo o motivo desta repentina pergunta sobre O Rio de Janeiro. Eu tinha uma resposta pronta para a pergunta e, estranhamente, meu raciocínio continuava muito mais rápido que o normal e as rimas fluíam com rara facilidade. Se eu pudesse responder hoje, eu teria usado uma notícia do jornal O Estado de São Paulo por ocasião do aniversario de fundação da cidade do Rio no ano passado, com umas poucas mudanças para atender às exigências de rimação do poeta de araque. Eu teria dito: É fácil para o visitante que chega ao Rio achar que não há nada de errado com o Brasil. A classe média com certeza sabe viver: Copacabana e Ipanema distam apenas alguns minutos dos principais centros financeiros e comerciais e de um jogo de vôlei ou o surfe para começar o dia com céu de anil, Os escritórios das corretoras localizados no alto dos prédios têm a visão do Jardim Botânico e dos morros cobertos de vegetação, Mas quanto mais sairmos dos bairros mais ricos, Mais os esplendores desaparecerão, E darão lugar à cidade real assolada pela pobreza e pela violência que agarram-se aos morros, Tendo como cartão postal a favela, Quanto mais profundo é o nosso olhar, Pior esta cidade maravilhosa se revela. No entanto, antes mesmo de eu dar uma resposta sobre a questão da cidade maravilhosa, o sujeito estranho antecipou-se, leu meus pensamentos do presente, levou-os ao nosso bate-papo por telefone e, com sutileza, me fez uma recomendação:
Para combater esta sua aversão, Você pode idealizar uma república perfeita, mesmo que utópica, como a de Platão, Impor-se um ostracismo de dez anos por ser, na condição de poderoso político, suspeito, mesmo sem prova, de corrupção, Ou então aderir ao culto dos mistérios, mesmo que místico, que têm mais moralidade que a fé cega de qualquer religião.
Oras, eu não entendia porque antes de esperar pela minha resposta, ele acrescentou outra para reforçar sua insinuação de que eu tinha ojeriza pelo Rio. E nesta recomendação, ele fez uso de uma sequencia de fatos fartamente conhecidos sobre a Grécia antiga. Achei que ele estava me gozando. Paguei a gozação na mesma moeda.
Hoje é um dia perfeito para traçar uma freira de convento, Cortar uma mecha do cabelo da Medeia e abrir a caixa da Pandora, Sentir o cheiro de bacalhau da pitonisa que não espana as teias da aranha há muito tempo, Trancar-se com ela e Afrodite num templo em Corinto e jogar a chave fora.
O zureta me fez uma leve e sutil admoestação, mas como se estivesse apenas divagando:
No meu planeta a vulgaridade é repudiada, Mas em todo meu sistema solar não existe um consenso, Já na minha galáxia a grosseria é tolerada, Eu particularmente, não costumo falar tudo o que penso.
Com argúcia ele fez menção à minha grosseria. Pois muito bem. Naquela época eu estava mal, mal mesmo. E foi neste papo com um paranormal anônimo que resolvi extravasar, por para fora toda minha podridão. Baixei o nível para valer. Acendi um baseado e soltei o verbo:
Espero não morrer antes de envelhecer, Roubar mais um milhão antes dos setenta, Fumar baseado toda semana, Fazer amor durante o dia, Mandar todo proselitismo religioso se danar, Abusar de minha virilidade enquanto o coração aguenta, Orgulhar-me de ser um grande sacana, Ter uma pobre e solidária família. Espero assaltar o Banco do Brasil, Assaltar a Igreja Universal, Mentir na cara dura e sem medo, Marcar um encontro e dar o cano, E hoje é um dia perfeito para nascer de inseminação artificial, Pedir ao doutor Abdel Massi para cuidar da mãe da criança, Ganhar bolsa de estudo do governo para fazer o mobral, Eleger os mesmos políticos para a corrupção não perder a esperança, Dia perfeito para dar um passeio num cemitério, Ver um fantasma bravo reclamando com o coveiro, Do IPTU de seu jazigo e da conta alta que veio do necrotério, Rasgando a notificação de despejo feita pelos vermes do viveiro, Dia perfeito para dar uma enconchada num ônibus lotado, Sentir-se correspondido, Sentir o barraco ser armado, Enquanto a carteira é afanada pelo bandido, Dia perfeito para deitar na cama sozinho e pelado, Sem ter hora para dormir e despertar, Assistir TV comendo pizza de alho com repolho e bebendo vodca com Coca-Cola até o dia amanhecer, Arrotar, soltar gases, curtir um pacau e fechar porta e janela para não deixar nenhum cheiro escapar, Morrer chapado, desencarnar um espírito de porco em pleno velório e por todo mundo para correr, Dia perfeito para sair na garoa sem cueca, Cheirar o dedo que coçou o rego por cima da calça, Tossir, espirrar e escarrar até sair toda a meleca, Sentir gosto de cabo de guarda-chuva e aliviar o peso de mala sem alça, Dia perfeito para fazer um programa diferente com a ética, Despintar o pinto de calça e enrabar o rabo de saia, Sem descriminar a gonorreia, a fimose e a aidética, Sangrar ao urinar porque a camisinha sueca é paraguaia, Dia perfeito para receber uma visita das testemunhas de jeová, Fazer do roubo de gravatas pelo rabino a nova mania, Ouvir o bispo Macedo dizer ou desce ou dá, Senão a igreja renasce em cristo e rouba a freguesia.
O sandeu me ouviu pacientemente. Ele não me cobrou resposta e não me interrompeu, e soltou frases complexas e enigmáticas, quase filosóficas, de difícil entendimento.
É abismal e descomunal a distância que separa os ricos e pobres em sua nação, mas, paradoxalmente, parece que ninguém se importa quão poucos são os ricos além dos sonhos da avareza, E se eu fosse passar a você a ideia de um espírito de falso otimismo eu não seria nem justo com você e nem sincero comigo mesmo, Todos aqueles que carregam fé em seus corações e trabalham pelo bem estar de todos são o sal da terra, mas acabam sendo humilhados pelos políticos na garra do dogma, Mais de 200 milhões de momentos de verdade há neste país afora todos os dias, cada vez que cada um deles entra em contato com a minoria abastada.
Eu não poderia deixar isto passar batido. Era um desafio à minha inteligência. Repassei todas as frases atentamente. O que logo me chamou a atenção foi a frase sal da terra, que virou um tipo de clichê tirado dos livros da mitologia cristã. Então atinei para o fato de que talvez ele estivesse montando frases com clichês. Passei a madrugada inteira pesquisando. E o paranormal não tinha nenhuma pressa. Ele continuava na linha, sempre respirando com dificuldade. Valeram o esforço empreendido e todo o tempo que gastei. Descobri todos os clichês. Sonho de avareza é uma expressão criada em 1678. Em 1781, um tal de Dr. Samuel Johnson emendou: Ricos além do sonho da avareza. Momento de Verdade significa um momento decisivo. Foram os espanhóis que criaram a expressão chegou o momento da verdade nas touradas, referindo-se ao golpe final de espada que mata o touro. No entanto, o poeta extrassensorial fez uso desta expressão a partir de uma declaração de um tal de Carlzoon do jornal Financial Times em 1986: Temos 50 mil momentos de verdade neste mundo afora todos os dias. Carlzoon definia momento de verdade como cada vez que um cliente entrava em contato com sua empresa. A frase se eu fosse passar a você a ideia de um espírito de falso otimismo eu não seria nem justo com você e nem sincero comigo mesmo foi escrita por Max Schreiner durante o discurso de um partido político no álbum de comédia de Peter Sellers chamado os Mais Vendidos de 1958. Todos estes clichês chegavam a ser trágicos à luz do contexto no qual o cara os empregou. Eu também conhecia muitos clichês, mas preferi aliviar o peso das frases contundentes do paranormal que entristecem o povo de meu país e, justamente por ter tanto ódio de nossos governantes que saqueiam a nação e a população, continuei com minha baixaria, fazendo criticas aos políticos e seus conchavos. Se fosse hoje, falaria sobre os escândalos da Petrobras, do Mensalão, Dos juízes que soltam traficantes e criminosos hediondos por dinheiro, Dos cursos de Doutorado em Ladroagem criados pelos nossos governantes. Mas naqueles dias, os escândalos eram outros:
Dia perfeito para trocar um nome artístico por um provérbio popular, Daniel D’antas Do Lado De Cá por Um Grupo De Oportunidades Faz O Ladrão Num País Tropical, Celso Da Niel Do Lado De Lá pelo Assassinato Não Investigado É Político E É Bom Engavetar, Gilmar Mem De Sá por Verdade Desrespeitada Mil Vezes Torna A Mentira Constitucional, Dia perfeito para votar para presidente, Ser assaltado pela polícia e preso pelo ladrão, Não ver o dinheiro roubado pelo fisco e esbanjado bem na sua frente, Ver o candidato eleito ser carregado nos ombros da multidão, Mandar deus para a prostituta que o pariu, Mandar a prostituta para o alto escalão do governo federal, Mandar o governo federal juntar-se com o Edir Macedo, Mandar o Edir Macedo juntar-se com o Vaticano, Dia perfeito para louvar Deus que é brasileiro, Federal e supremo, Que da tribuna lava as mãos imundas com aguarrás, Manda prender todos que são cúmplices do Seu Nazareno, Manda soltar todos que são amigos do Seu Barrarás, Dia perfeito para sonhar em ser um John Lennon tupiniquim, Narrar um dia na vida dos brasileiros, Contar quantas estradas cobrem quilômetros de buracos sem fim, Saber quantas faltam para aprovar o orçamento da união depositado nos paraísos estrangeiros, Dia perfeito para viajar de trem na ferrovia do aço, Fazer Henrique oitavo esperar mais de cinco mil dias para ver a cabeça de um mil de Ana Bolena rolar, Viajar oito mil quilômetros de cipó na transamazônica com Jane pendurada no saco e chita no seu cabaço, Realizar o sonho de todo jipeiro aventureiro que nunca pôde disputar o Paris-Dakar, Dia perfeito para soltar um barro na mesa do chefe, Sem ter arriscado na loteria por ser judeu, Pagar para ver o jogo do color e levar um blefe, Tentar a sorte com um chinês mafioso e amigo do Romeu, Dia perfeito para por ordem no galinheiro, Nomear raposas para apressar o progresso, Realizar outro milagre brasileiro, Com ranço de regime militar e saudades de retrocesso, Dia perfeito para passar um cheque sem fundo, Ser bebê que esconde dólar na fralda e debaixo do berço, Ser o burocrata mais religioso do mundo, Que nunca assina um contrato sem pedir um terço, Dia perfeito para encostar nas bananas da feira e aplicar uma lufada, Sem saber que a banca é do filho do ato secreto abafado, Chegar em casa e encontrar numa dúzia onze podres e uma bichada, Embrulhadas em papel de jornal de estado censurado.
Diante de tantas críticas, o lunático resolver ferir meu calcanhar de aquiles, e feriu mesmo:
Roubar dinheiro do pai enquanto é criança é perdoável, mas denota uma tendência, Propor a um irmão uma carreira às custas de seu dinheiro para cobrar juros do que outrora fora emprestado é detestável, Chamar um irmão de ladrão e depois pedir-lhe dinheiro emprestado é deplorável, Ligar para uma filha para a qual nunca se ligou só para usá-la para algo de seu interesse é o que faz um procriador genético mau-caráter sem nenhuma consciência.
Ele acabou comigo. Fiquei sem palavras. Fiz o que ele estava fazendo no início. Desconversando e passando para outro assunto:
Se você é um alienígena de verdade, Do mal ou do bem, Certamente você pode comprovar se existe disco voador, De onde ele vem, Ou se ele é fruto de um exímio enganador.
O cara me arrasou novamente:
Um dia você irá assistir a uma filme chamado Trapaça, E nele alguém dirá que as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar, Quase todos no seu mundo acham a vida sem deus e religião uma desgraça, Você e Nietzsche acham que a vida sem música é como morrer na praia depois de atravessar o mar.
Logicamente eu não entendi o que ele quis dizer. Só hoje, depois de assistir ao filme Trapaça percebi que ele leu o futuro e o incluiu em nossa conversa no passado. E ele se saiu muito bem ao dizer que as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar. Foi extremamente interessante ele saber que faço das palavras de Nietzsche as minhas. Sem música, a vida seria um erro. Apesar de minha dissimulação, ele não perdoou minhas criticas anteriores:
A necessidade é realmente a mãe da invenção, E a arte da sobrevivência é uma história sem fim, Metade do que se faz na vida não vem de pura convenção, like what one writes on a postcard, A outra metade é mais maldade arquitetada pela mesma mente ruim, because old habits die hard.
Ele misturou português com inglês (like what one writes on a postcard = como a gente escreve num cartão postal – because old habits die hard = porque é difícil se livrar de antigos hábitos). O mais impressionante é que neste ano de 2016 comecei a escrever um conto com o titulo A Arte da Sobrevivência é Uma História Sem Fim. A certa altura, talvez por causa do efeito do baseado, eu já não estava mais preocupado com ele. Estava certo que ele era apenas um paranormal que prevê o futuro. mas então, repentinamente, ele me fez uma nova pergunta:
Você assistiu ao filme o Homem Mariposa, Aquele que levou um homem a outra cidade, Depois de ter causado a morte de sua esposa, E o fez a antecipar-se a uma calamidade?
Ele referiu-se a um filme sobre uma história real, embora vários fatos tenham sido deturpados e  inventados. O homem Mariposa, ou Homem Traça é uma suposta criatura sobrenatural, que segundo relatos, apareceu em Charleston e Point Pleasant, EUA, entre novembro de 1966 e dezembro de 1967. Sua aparição está associada ao acontecimento de futuros desastres. A suposta criatura é estudada e investigada pela Criptozoologia, sendo portanto um criptoide. Até o momento não existe um consenso entre os pesquisadores se os Homens Mariposa seriam uma entidade vista por videntes, uma criatura extraterrestre, um produto da imaginação ou fantasia de alguns, ou algo não descoberto pela ciência. No filme, o homem mariposa é visto como um paranormal, que prevê o futuro, liga para qualquer pessoa mesmo que o telefone esteja desligado, e ainda advinha o que você está fazendo dentro de casa. Ele desafia e sempre acerta. Respondi sem nenhuma intenção de ser sarcástico:
Então você é o famoso homem traça, alienígena, Que aparece de tempos em tempos, Prevê o futuro, mas causa desgraça, E subitamente desaparece com o vento?
Calmamente, o paranormal passou a falar longamente:
Sou um ser angelical, Mas de outro sistema solar, A ninguém faço mal, Não sei prejudicar, Minha ideia era fugir de mim mesma, Decolar da pista da realidade, Voar pelo universo a esmo, Sem nenhuma responsabilidade, Visitar um planeta diferente por dia,  Levar bens materiais só para o gasto, Fingir que já tive uma família, Levar uma vida andando de fasto, Experimentar momentos de fraqueza, Esconder-me atrás de uma humana paixão, Levá-la comigo na incerteza, Ser tratada como se fosse um humano sultão, Dar-lhe tudo o que ele nunca teve, Colocar um filho meu em seu mundo, Levá-lo a lugares onde ele nunca esteve, Jamais contar-lhe minha história a fundo, Voltar a cometer enganos, Mas humanos, Fazê-lo correr humanos e transeuntes perigos, Ficarmos os dois completamente insanos, Abandonados, Dependentes e sem abrigos, Minha ideia era ser apenas um anjo protetor, Mas agora quero morrer e renascer, Ser como você: um humano de família e escritor, Humilhar-me e amadurecer, Minha ideia era ser uma guia espiritual, Mas agora quero ser protegida de mim, Não criar problemas para sua sociedade, Nem mesmo ser uma folha de grama num jardim, Minha ideia era ser um anjo mentor, Mas agora estou insegura e com auto piedade, Tenho medo dos outros sentirem dor, Não tenho coragem de contar minha verdade, Minha ideia era ser Deus, Mas agora sei que ele não existe, Os outros sofrem por problemas meus, Algo fora de mim faz com que eu persiste, Minha ideia é sair do fundo desse poço, Pensei que já havia me erguido 45 graus, Mais ainda falta muito para sair desse osso, Acima de minha cabeça há uma escarpa sem degraus, Minha ideia agora é viver um dia de cada vez, Ouvir os que sempre oram para mim na solidão, Substituir minha frieza por calidez, Minha indiferença por comiseração, Gostaria de voltar a ser um anjo conveniente, Mas minhas asas não servem mais nem para voar, Para proteger um criança de um acidente, Minhas preces não vão a nenhum lugar, Ainda assim, Sou muito inteligente, Conheço o futuro, Ensino a linguagem dos sinais, A ler, A escrever e a dominar a mente.
Ele falou com a mesma voz metálica, mas agora feminina, usando adjetivos e substantivos no gênero feminino. Ele se confessou com palavras minhas que eu escrevi faz poucos anos. Usou, também o termo transeunte que é o título de um conto que escrevi recentemente. De repente, a voz dele tornou-se feminina, doce, suave, e ela começou a cantar uma música que conheço, com muita ternura. Ela mudou a letra um pouco para falar de nós dois e, ao final, ela desligou e nunca mais tive contato com ela. Na verdade, como ela deve viajar no tempo e ler pensamentos, ela pode estar aqui agora, enquanto escrevo.
Sei o quanto você já sofreu, Mas não quero te ver marginalizado, Seu mundo é frio e aí a fraternidade morreu, Mas jamais deixarei você ser ignorado, Trocarei seu Lexotan pelo meu calmante, Tornar-te-ei puro, Você não andará mais vacilante, Tudo isso eu juro, Vou reconciliar a violência em seu coração, Reconheço que você tem sido injustiçado, Vou exorcizar todos os demônios que têm lhe roubado, E satisfazer os desejos ocultos em seu coração, Você engana seu próprio amor, Fazendo-se, Ao mesmo tempo, De malvado e divino redentor, Você pode ser um pecador, Mas é minha a sua inocência de sonhador, Você pode ser meu acariciador, Ou então me ensinar a acariciar, Você pode ser meu amor, Ou então me ensinar a amar, Vamos reconciliar a inteligência em nossas mentes, Vamos aceitar que temos sido involuntariamente exilados, Vamos esconjurar todos que disseram que somos amados, Vamos dar nomes para nossos erros que para os outros são indigentes esquecidos no passado.

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