sábado, 1 de outubro de 2016

HISTORICIDADE EM FILMES: O NOME DO PODER ABSOLUTO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Clique no link abaixo do texto e leia-o ao som da trilha sonora do filme

Embora seja um filme de ficção, O Nome da Rosa, uma adaptação do livro homônimo de Umberto Eco, contém uma rica historicidade que raríssimas pessoas percebem. Se você ainda não o viu ou se já o viu mais de uma vez, vai aqui uma dica. Assista a este filme novamente, mas com outros olhos e ouvidos. Deixe de lado as tradicionais resenhas de críticos cinematográficos de jornais e revistas e disponíveis em sites na internet. Esqueça também a complicada questão semiótica que envolve o título. Tente ir mais fundo na história. Enquanto você se diverte com o roteiro policial no estilo Sherlock Holmes, você pode também exercitar sua mente. Que tal, por exemplo, fazer uma abordagem filosófica para entender porque as pessoas agiam daquela maneira naquele tempo (século XIV)? Para começar, um bom exercício é procurar entender porque a igreja preocupava-se tanto em proteger o nome de Aristóteles.

Uma das questões centrais do filme refere-se ao monopólio do saber pela igreja que receava ter seu poder e influência social, política e econômica ameaçados e, para defender-se, bloqueava o acesso ao conhecimento e restringia o seu desenvolvimento, aplicando-lhe sua concepção de um universo estático e de uma ordem hierárquica imutável. Você vai constatar esta noção quando um monge beneditino, ao dar como solucionadas as mortes misteriosas que foram atribuídas a ação demoníaca de três pessoas acusadas de heresia (o ecônomo, seu ajudante e uma camponesa), anuncia, numa cerimônia noturna que precede a execução dos supostos hereges, a volta da normalidade, que para ele é a preservação do conhecimento e não a busca do mesmo, pois não existe progresso na história do conhecimento, mas meramente uma contínua e sublime recapitulação. Este conceito do clero está ligado à filosofia aristotélica que serviu para fundamentar os dogmas cristãos no início da alta idade média e, como se supunha que houvesse outras obras de Aristóteles que pudessem contrariar os preceitos da igreja, esta impedia qualquer contato com aquilo que ela chamava de conhecimentos inconvenientes contidos em tais obras e, consequentemente, se apoderava das mesmas. O frei franciscano, William, personagem central, já estava habituado com certas ideias retrógradas da igreja e, antes de encontrar o livro 2 de poética de Aristóteles, que é um elemento fictício no enredo, acabou por descobrir a biblioteca do mosteiro, ficando fascinado com seu tamanho e acervo, a maior da cristandade nas suas palavras, levando-o a fazer os seguintes comentários para o noviço Adso: Ninguém deveria ser proibido de consultar esses livros. Eles contêm uma sabedoria diferente da nossa e ideias que nos fariam colocar em dúvida a infalibilidade da palavra de Deus. É significativo, inclusive, o filme mostrar esta imensa biblioteca, pois confirma o fato historicamente conhecido de que, desde o século IX, os mais abundantes recursos disponíveis da época convergiam para a instituição monástica, levando-a aos postos avançados do progresso cultural. Para acumular tal acervo, a igreja valeu-se de apropriações indébitas e aquisições na base de doações espontâneas em abundância, encargos e tributos diversos em troca de proteção espiritual. Com essa concentração de riqueza, a igreja teve meios de obter e manter um patrimônio cultural vasto que lhe permitiu se impor como a única educadora formal. Para a igreja, o domínio do conhecimento informal poderia induzir o homem a desmistificar as crenças dogmáticas cristãs e colocar em dúvida esta infalibilidade da palavra de deus tal qual a igreja a apresentava ao mundo. A necessidade de supressão ao acesso do conhecimento produzido por grandes pensadores ao longo de séculos é mostrada logo no início do filme, de uma forma um tanto ameaçadora, quando, na eminência de ocorrer a segunda morte misteriosa, um monge noviço é visto, com sobreposição de imagem do monge Venerável Jorge, lendo uma escritura do clero com estas palavras: Na sabedoria há tristeza e quanto mais conhecimento se obtém mais tristeza advém.

E o que há de errado nesta concepção de Aristóteles que a igreja precisa esconder? Na verdade, nada! Ocorre que o filme sugere que Aristóteles teria escrito um segundo livro de Poética, mas totalmente voltado à comédia. Seria um livro que faz rir muito. Esta é outra grande ameaça à igreja e atinge o seu principal instrumento de influência, a inabalável fé que dispensa a razão, contagiada de orgulho e soberba, na opinião de um dos seniores do mosteiro, e incita uma inaceitável quebra da regra beneditina de ascetismo oriental, disciplina, retidão, virtuosismo, obediência e reverência a Deus, exemplo absoluto de tudo o que há de bom e sábio, a verdadeira perfeição que o homem deve buscar. Para os beneditinos, o simples riso já era uma quebra desta regra de conduta (é proibido rir), e isto está diretamente relacionado com o conceito de Deus como o criador divino, e com a igreja como seu representante na terra, e ambos deveriam levar a cabo suas missões com caras fechadas. Para a igreja, se Deus fosse desrespeitado, ela seria ridicularizada e correria o risco de ter seu domínio sobre os homens enfraquecido, pois, sendo ela o preposto de Deus no mundo, ela cairia em descrédito se o seu representado, a igreja cristã, deixasse de ser necessário. Esta associação entre o riso como violação de regra de conduta e ameaça à imagem de Deus, assim definida pela igreja, pode ser apreendida com clareza num trecho do filme no qual o frei William descobre que o livro cômico de Aristóteles existe e está em poder do Venerável Jorge, o beneditino que segue à risca as normas de conduta de sua ordem e que, por isso, não admite o riso em hipótese nenhuma, dando margem ao seguinte diálogo:

- Tantos livros falam de comédia, por que esse lhe causa medo?
- Porque é de Aristóteles!
- Mas o que há de tão alarmante no riso?
- O riso mata o temor e sem temor não pode haver fé. Se não se teme o demônio, Deus deixa de ser necessário. Se todos os homens rirem de Deus o mundo cairá no caos.

A igreja cristã assentou o seu modelo filosófico religioso nas ideias de Aristóteles e, consequentemente, não poderia admitir a existência de um livro de Aristóteles sobre comédia que faz rir e viola as regras da rígida moral beneditina. Lembre-se o que o Venerável Jorge sentencia numa discussão com o frei William na oficina de escrita: Um monge deve manter silêncio, não deve falar sobre seus pensamentos até que seja questionado. Não deve rir, pois para isso existe o bobo que levanta a voz em risos. No entanto, no decorrer do filme, fica evidente que o diálogo acima referido reflete uma preocupação muito mais profunda: não é apenas a regra beneditina que pode ser quebrada com o riso, mas é também o próprio poder da igreja no seu todo que pode ser abalado, pois a igreja governa as mentes com base na instituição da fé que dispensa explicação e demonstração, bastando-se pela sua autoridade que é inquestionável, e impondo-se pelo medo. Se o homem deixa de ter medo, do demônio ou de Deus, a igreja torna-se desnecessária e Deus também. Muito bem. Você deve estar se perguntando: mas o que é este conceito aristotélico de ‘ordem hierárquica imutável’ no modelo filosófico religioso da igreja cristã? Então aqui vai uma explicação bem prática. Suponhamos que eu faça parte do clero do século XIV. Nada me falta, tenho mordomias e não preciso trabalhar para o meu sustento. Você faz parte da maioria pobre, trabalha 16 horas por dia para sustentar a aristocracia ou o clero ou ambos e sobrevive das sobras de seus patrões. Um dia você vem a mim e pede-me para deixá-lo entrar para o clero e eu lhe respondo. Isso é inadmissível. Deus criou alguns para representá-lo na terra e guiar os demais que foram colocados no mundo para servir e obedecer. Se você nasceu como um camponês, você deve ser um camponês até o fim de sua vida. Se Deus quis que eu fosse um líder religioso, devo conformar-me com minha incumbência até o dia de minha morte. Se um de nós fizer qualquer mudança, estará transgredindo a lei de Deus e pagará caro no dia do juízo final, entende? Sim, você entende tanto quanto aquela camponesa que satisfazia os prazeres sexuais do ecônomo do mosteiro em troca de um rico alimento que era privilégio só dos monges, e teve que seguir vivendo, sempre servindo, se vendendo e se humilhando, sem sonhos e sem futuro. Mesmo que eu não pertencesse à minoria clerical, eu lhe daria a mesma resposta prática se eu tivesse a sorte de ter nascido como filho de outra minoria, a aristocracia, que andava de mãos dadas com o clero. Eu poderia ser o Adso do filme. Ele é filho do abastardo Barão de Melk. Somente os ricos podiam propiciar algum tipo de educação aos seus filhos e somente a igreja tinha autorização para educar. O Barão de Melk confiou seu filho, Adso, à ordem franciscana, e frei William foi indicado para seu tutor.

Preste atenção no cenário do filme, lembrando que o ano é 1327 e.c. É fácil perceber o modo de produção de bens agrícolas vigente. A estrutura desta produção é típica da fase em que o feudalismo já está com suas bases estabelecidas, e isso pode ser visto em uma das cenas em que vários camponeses formam fila para pagar tributos com alimentos tirados de sua produção agrícola. Para entender melhor, vamos lembrar o que era a ordem beneditina. Ela foi fundada por Bento de Nursia no limiar do século VI e era a difusão, no Ocidente, das normas de ascetismo oriental concebido por Santo Antão no Egito, no chamado movimento dos anacoretas, que fugiam das cidades para o deserto em busca de isolamento e profunda contemplação e oração como meio de salvação. Para ambos, Ocidente e Oriente, aquele era um momento terrível, de guerras, de carestia, de epidemias e de exploração agravada das massas trabalhadoras sobre as quais recaia o maior peso da crise resultante da decadência e cisão do antigo império romano. A regra de Bento acrescentava à oração e à contemplação o lema reze e trabalhe. Dentro desta regra, o trabalho devia ocupar o dobro do tempo reservado à oração e a comunidade devia ser autossuficiente e não se basear demasiadamente nas contribuições dos ricos que visavam condicioná-la. Assim, a produção agrícola, que havia descido a um nível bastante baixo, acabou até mesmo sendo melhorada pelos beneditinos com seus novos métodos de cultivo dos campos, promovendo, inclusive, a melhoria das condições econômicas do Ocidente. Com o decorrer dos séculos, os mosteiros beneditinos transformaram-se em castelos feudais, com seus servos de gleba que não eram tratados melhor que os outros até que a corrupção monástica se desenvolveu e atingiu um ponto intolerável, imitando o regime feudal externo, e exigindo uma reforma imediata, que se chamou Clunisiana, de Cluny, o francês que a idealizou. Tal reforma que, entre outras mudanças, abolia também a produção agrícola interna, sustentava que o ideal de suficiência deveria ser mantido, com a diferença que o abastecimento cabia às explorações satélites dispersas no campo, em torno das muralhas dos mosteiros. O mosteiro que você vê no filme é estruturado nos moldes da reforma Clunisiana quando já não havia mais produção agrícola interna e o abastecimento de alimentos é obtido à custa dos camponeses que, como é dito no filme, receberão 100 vezes mais no céu aquilo que deram na terra (dos espertos beneditinos, é claro).

O filme inteiro é rodado num único cenário: o interior do mosteiro. Outro bom exercício é identificar algumas das várias unidades monásticas e as funções exercidas pelos moradores do mosteiro que o filme descreve com perfeição, só com imagens, e que são corroboradas pela excelente coletânea de livros chamada A História da Vida Privada, e que revelam uma interessante associação entre conceitos dogmáticos, a estrutura orgânica, hierárquica e funcional dos mosteiros e a relação interna de poder. No feudalismo, as casas dos senhores da aristocracia eram concebidas a partir de representações imaginárias da morada perfeita, a partir do paraíso, da morada dos eleitos do outro mundo. Os senhores do feudo imaginavam o paraíso cristão como uma morada abundantemente povoada, exultante, a casa perfeita, como um paraíso resplandecente, preparado para as felicidades da vida. Os mosteiros beneditinos eram como réplicas, na terra, da morada paradisíaca, e pretendiam ser sua projeção neste mundo, apresentando-se como cidades fechadas com muros, em primeiro lugar, um claustro, cujo acesso deveria ser estritamente controlado, uma porta única, aberta ou fechada em certas horas como as portas das cidades e, a importância maior de uma função, a hotelaria, governando toda a relação entre o interno e o externo. Os mosteiros eram, em primeiro lugar, casas, cada uma abrigando sua família, das mais perfeitas e ordenadas. O modelo beneditino guardava uma vontade de correspondência estreita com as harmonias universais. A nave da igreja é o ponto de articulação entre a terra e o céu; neste lugar operar-se uma ligação com o paraíso, quando a comunidade ali se une para cumprir a função maior, cantar os louvores de deus no uníssono coro litúrgico; a residência fraterna fica ao sul do espaço litúrgico com as seguintes disposições: o pátio, o celeiro, as reservas de alimento, a cozinha, a padaria, o refeitório com depósito para roupas acima, a sala, ladeada pelos banhos e latrinas e encimada por um dormitório que se comunica com a igreja. Contígua a esta morada, estendem-se anexos de oficinas de artesanato (que antes da reforma Clunisiana continha também anexos para a produção agrícola e granja), jardins, estrebarias, estábulos e as cabanas dos servidores domésticos. Mais tarde, a reforma Clunisiana eliminaria quase todos os anexos contíguos, mantendo apenas a estrebaria. Ao norte, para além da igreja, ficava o alojamento do abade, uma casa munida de sua própria cozinha, seu próprio celeiro e banhos próprios; com a reforma, o abade foi reconduzido para o meio dos monges. A nordeste, os excluídos temporariamente da comunidade fraterna, os doentes e os noviços, são isolados em uma outra morada, também autônoma, mas dividida em dois, o local destinado às purgações e às sangrias (este é fácil identificar). Finalmente, perto da porta, a noroeste, os estrangeiros são albergados em duas casas providas do mesmo equipamento completo: uma que acolhe visitantes e estudantes externos que não fazem parte da família, e outra reservada aos pobres e peregrinos. Vê-se que tal organização pretende refletir as estreitas hierarquias da corte celeste. No centro está o lugar de Deus, o santuário; à direita está o lugar do abade, o pai da família; à esquerda esta a parentela: os filhos, os irmãos, os monges, homólogos de anjos. No ponto mais distante da porta, fissura aberta para o mundo corrompido, estão isolados os inválidos, os jovens noviços, crianças, velhos e os mortos (o cemitério fica neste lugar); este ponto é a parte mais vulnerável da comunidade e, em razão de sua fraqueza, fica afastada, mas também protegida pela destra divina, pois nesta mesma direita ficam os lugares destinados às funções espirituais, a escola e a oficina de escrita, enquanto o material, o que sustenta o corpo, é relegado à esquerda de Deus. As  sepulturas estão dispostas na direção do leste, do lado da aurora, símbolo da ressurreição, e para o oeste, do lado do poente, da perversidade do século, permanecem encerradas as pessoas de passagem. A reforma Clunisiana da metade do seculo XI, conforme explicado no parágrafo anterior, trouxe mudanças com relação à produção agrícola interna, legada aos camponeses habitantes da cidade, e com relação ao lugar do abade. A partir dai, vê-se mais intensificado o fornecimento de peças de vestuário por parte do burgo estabelecido à porta (comunidade de comerciantes, de artesãos e de servidores assalariados), pois a comunidade começava a utilizar mais o instrumento monetário. Assim, o mosteiro, no seio de sua clausura, tornava-se mais homogêneo, uma só morada. O abade é o senhor, mas é assistido por um corpo constituído de seniores a quem os jovens monges estão subordinados. Os chefes de serviço são o prior, espécie de vice senhor, abaixo do qual estão o sacristão que cuida da igreja, dos acessórios litúrgicos e de todos os instrumentos sagrados, o camareiro, responsável pelo dinheiro, que não cessou de crescer nos séculos XI e XII, e tudo que entra no mosteiro por doação, tributo e compras (tecidos, vinho, metais preciosos), o ecônomo, que dorme no celeiro, também chamado de senhor do celeiro, responsável por todos os víveres, repartindo a cada dia as porções de alimento com a ajuda do zelador de vinho, do encarregado de cereais e água e pelo condestável responsável pela cavalaria do mosteiro, o hospedeiro e o capelão que dividem o quarto oficio que são as relações com pessoas do exterior menos puras e que se mantém abaixo da dignidade monástica e a distribuição dos excedentes entre os indigentes: lembra-se da cena na qual o frei William diz: lá vai mais uma doação da igreja aos pobres? O âmbito privado, reforçado onde habitavam os senhores, o núcleo da família, a fraternidade agrupada atrás de seu pai, dividia-se em quatro grupos acantonados em quatro abrigos distintos: o noviciado, a enfermaria, o cemitério e o claustro. Esse último abrigo pretendia mostrar a imagem daquilo que devia ser na terra uma vida perfeita, e por isso empenhava-se em aproximar-se das ordenações do mundo celeste, isto é a ordenação dos quatros elementos do universo visível: ar, fogo, água, terra, no espaço interno, o pátio inferior chamado claustro, forma introvertida da praça pública, inteiramente voltada para o privado.

Como você viu ou reviu, o que move a trama do filme são as mortes misteriosas dentro do mosteiro e, com exceção das investigações sherloquianas do frei William, o que se ouve o tempo todo são várias interpretações místicas para encontrar a razão para tais mortes, comentários típicos da igreja que está toda impregnada da noção de Deus como criador do mundo numa forma organizada e hierarquizada e voltada para o bem, e tudo que contraria esta ordem vem da ação do demônio, o símbolo do mal. No filme, as mortes em sequencia são atribuídas a um fenômeno sobrenatural específico: o demônio que resolveu habitar o mosteiro. Para os monges, a causa desses crimes não poderia ser atribuída a outro senão a ele, o demônio, por que tais tragédias no seio de uma comunidade governada por aquele que representa o bem absoluto não poderia ser obra de homens comuns, mas somente daquele que se opõe ao bem, ou seja, o anticristo. Os monges acreditavam na ação do demônio, incluindo-se entre eles até mesmo os franciscanos em visita ao mosteiro. Observe-se que os franciscanos eram menos ascéticos e rígidos do que os beneditinos no que diz respeito às normas de conduta e à condição humana de cristo, no entanto, como se  percebe no filme, até um líder espiritual dos franciscanos, perseguido pela inquisição católica como um herege, faz uso de especulações místicas e apocalípticas para explicar as referidas mortes, o que assusta o noviço Adso, apesar das constantes explicações racionais de seu tutor, o frei franciscano William, adepto do pensamento grego antigo, especialmente o de Aristóteles, e que, ao contrário dos seus irmãos de todas as ordens cristãs, só recorre a Aristóteles para por em prática a sua lógica, de forma coerente para, assim, provar que as mortes são apenas simples atos comuns de homens comuns. Tudo não passa de um suicídio e vários assassinatos por causa de um único livro que ri do mundo como o homem ri de si mesmo.

O frei William conhecia a verdade dos fatos e a revelou a todos os seus irmãos cristãos. Mas a verdade não lhe pertencia. Ela já tinha dono: um organismo jurídico da igreja que completava a humanística trindade: a santa inquisição como o espírito santo entre o pai (a igreja) e o filho (todos os pobres). Mesmo nos nossos dias, a igreja católica e seus seguidores ainda mal conseguem explicar a relação entre o pai e o espírito santo. No século XIV, a igreja e seus escravos que a sustentavam também não sabiam, ao certo, até onde ia o poder da santa inquisição em relação ao papa no vaticano. O que mais se sabia a respeito deste organismo brilhantemente presidido no filme por Bernardo Gui, é que ele exercia todos os poderes concebíveis: legislar em causa própria, julgar inocentes coerciva e arbitrariamente e executá-los sumariamente.

Você deve ter reparado no arsenal de instrumentos de tortura que a delegação da santa inquisição levava para onde ela era chamada para investigar. Mas você não faz ideia da criatividade desta santa no desenvolvimento de certos instrumentos e métodos com um requinte de crueldade que faria inveja aos romanos. Acrescento aqui um destes instrumentos não mostrado no filme que tinha função tripla: torturar, matar e intimidar quem  desafiasse seu poder. Na Espanha, minha tataravó testemunhou a ação de um exército da santa inquisição entrando em seu vilarejo e arrancando de uma das casas uma jovem suspeita de bruxaria. Ela foi completamente despida e montada sobre um cavalo de ferro oco e repleto de brasas incandescentes por dentro. Ela desfilou montada naquele cavalo por toda a vila até morrer, enquanto todo o povoado se trancafiava em suas casas e espreitava assustado pelas frestas das janelas. Este exemplo é uma herança romana aperfeiçoada pelo cristianismo que, afinal de contas, começou na antiga Roma e, em apenas três séculos, se tornou a religião oficial do império romano. Quando este caiu, a igreja católica tomou seu lugar central e todas as suas colônias, tornando-se um novo império em si, mais poderoso, mais extenso e muito mais duradouro. Ele começou pequeno como Roma, uma cidade-estado que se expandiu, se tornou uma república, rompeu suas fronteiras, conquistou outros povos e se transformou no maior império da história da humanidade. Todos os que desafiavam o poder de Roma eram crucificados em público para servir de exemplo. O cristianismo aprendeu muito com os romanos e atingiu o auge do exercício de seu poder absoluto com a instauração da santa inquisição. Assim como o império romano acabou, o cristianismo acabará também. Sua desintegração teve início na Europa no século XVIII, com o surgimento do Iluminismo e as primeiras análises científicas dos textos dos evangelhos, e sua extinção completa deverá ocorrer em menos de um século. Ele será substituído por outro poder que eu não estarei aqui para ver.