sábado, 1 de outubro de 2016

LANTERNA DE PIRILAMPOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

O que você diz depois de dizer olá? (esta é uma pergunta de Eric Berne). Muitas pessoas sem assunto, invariavelmente, falam do tempo: Nossa, hoje está tão quente! Acho que vai chover de tarde! Será que amanhã dá praia?  Outras, porém, só têm um assunto: falar mal do governo sem propor nenhuma solução: O governo nos surrupiou, entre outras coisas, o assunto. O Brasil está sendo destruído diante de nós e não podemos fazer nada!  Existem aquelas que, depois do olá e um pouco de canja, não param de discutir novelas (as mulheres) e futebol (os homens). Há, ainda, gente pedante e mais maçante. Aquelas que gostam de que se goste delas. Aquelas que precisam ser veneradas e invejadas pelo domínio de tantos temas. Aquelas que sentem um prazer maior do que sexo a dois, masturbando-se com uma pseudo genialidade de irritar e espantar todos os que elas pensam estar muito abaixo delas. Uma dessas pessoas, uma mulher, resolve contar para uma amiga a história sobre um de seus bichos de estimação que adoeceu (imagine se eu te encontro, te digo olá e, logo em seguida, ponho-me a lhe dizer como na infância eu aprisionava vaga-lumes numa garrafa para servir de lanterna). A amiga, resignada e educada, é obrigada a ouvir. É impossível pensar que a afetada não sabe que ela discorre sobre algo mais chato que o clima. Ela deve perceber que sua amiga não está nem um pouco empolgada. Então, para exibir erudição, resolve enxertar o monólogo com alguns termos eloquentes, daqueles explicados somente em dicionários ou numa busca burra pelo Google. Mesmo assim, o argumento continua tedioso, sem nenhuma importância, nem mesmo para o enfermo animal. Se faz,  então, necessário, dar mais valor a uma redação primária: Não só minha família está preocupadaMuitos amigos e conhecidos que acompanham minha vida me ligam para saber como está meu xodó. A amiga vai do desânimo ao saco cheio. Resta à mulher talentosa apelar para a prepotência:Você está atônita com minha crônica, prisioneira de minha narrativa, mas calada, talvez por falta de clímax. Então, para sua alegria, lhe digo que meu bichinho sarou e passa bem (imagine eu lhe dizendo que minha arenga terminou assim: abri a garrafa e devolvi todos os pirilampos à natureza). A amiga sente um grande um alívio, mas a mulher engenhosa não se dá por satisfeita e precisa encerrar sua ladainha com chave de ouro: Minha amiga, você assente mas, ao contrário das outras, não se afasta progressivamente de mim por causa de meu excesso de inteligência. Se me vejo diante de uma mulher que parece ser inteligente, digo olá e arrisco uma pieguice: A noite está linda hoje, com tantas estrelas ao alcance dos olhos, mas me conformo com o pouco que vejo porque o universo é grande demais para contemplações mais profundas. Se estou num dia de sorte, a mulher me pergunta: E você acha que estamos sós nessa imensidão?  Bingo! Se somos os únicos neste universo então ele é um grande desperdício de espaço. Mas, mesmo com sorte, a mulher pode enveredar por outro caminho: É impossível cobrir estas utópicas distâncias a não ser em sonhos. Bingo novamente! Você assistiu ao filme A ORIGEM?  Ela está na minha: Sim, é muito bom e inteligente. Ela está me dando trela e jogo para cima dela minhas aporrinhações: Gosto de  filmes inteligentes e intrigantes como, por exemplo, OS 12 MACACOS.  Ela dá trela à inteligência: Assisti a este também e é ótimo. Ela é parcimoniosa e prudente. Fala o suficiente e espera. Você não vai me perguntar se assisti a algum filme intrigante?  Ela me olha com um ar de você não pega e detona: Você é intrigante, como aquela voz feminina do computador no filme ELA. Caracas! Não preciso mais bater na mesma tecla. Hora de mudar de assunto: Quer falar sobre o governo?  E ela me arrasa: Por que falar sobre algo que não temos?  Me sinto descascado, pelado, nocauteado, e faço jogo de pernas, esperando o gongo soar para me refazer. Digo-lhe que é sua vez de perguntar: Quando você era criança costumava prender vaga-lumes dentro de uma garrafa e fazer dela uma lanterna?  Me decepciono. Ela regrediu à mulher do bicho de estimação: Sim, todas as crianças de meu tempo faziam isso. Por que você me faz esta pergunta?  Ela responde com outra: Você os deixava morrer na garrafa ou devolvia-os à natureza ainda vivos?  Ela está querendo me pegar. Não sei, às vezes deixávamos eles morrerem. Você sabe, crianças são travessas, cheias de malvadezas não só com vaga-lumes, mas também com outros insetos. Eu, por exemplo, costumava caçar a borboleta Monarca, amarrar uma linha na sua cauda e empina-la como uma pipa. Ela voava alto, mas longo caía com o peso da linha. Mas por que estamos falando sobre isto? Ela sorri: É apenas curiosidade. Talvez ela não seja tudo o que imaginei, mas não posso deixar o assunto acabar assim, sem a ridícula catarse daquele bicho de estimação que adoeceu e sarou: Também sou muito curioso e insisto, por que você me faz esta pergunta sobre vaga-lumes? Ela me olha como se estivesse surpresa com minha persistência e desta vez ela parte para a opulência: Todos nós somos vaga-lumes. Temos nossas próprias luzes e nossos dias sombrios, mas não sou da espécie Photuris, uma  femme fatale, que mimetiza a luminescência de outros insetos luminosos, não para atrai-los para um acasalamento, mas para come-los. A femme fatale é predadora. Ela me surpreende. Está filosofando. Não vou deixar por menos. Vou provar a ela que sou capaz de acompanhar seu raciocínio: Mesmo que você não seja uma femme fatale, posso morrer feliz ao seu lado, como morrem todos os machos de pirilampos no acasalamento de verão, enquanto as fêmeas seguem vivendo até mais que dois anos. Quanto à luz, a terra não a tem, é iluminada pelo sol, e todos os meses a lua lhe acende uma vela na escuridão. A mulher não reage. É dócil. Não está interessada em debate e confrontação de ideias. Ainda assim, ela arremata num tom amistoso: Alguém diz que somos o sal da terra, a luz do mundo. Não quero entrar no movediço terreno religioso, mas mantenho-me na antiguidade: Alguém perambula pelas ruas de Atenas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Ela não se esquiva: Um pupilo de um dos pupilos do mais sábio daquela cidade. Ela conhece a Grécia clássica e me abre as portas da prolixidade: Você gosta dos filósofos daqueles tempos?  Ela não hesita: De todos!  Insisto: E dos dramaturgos?   Ela repete: De todos! Não dou trégua: E dos historiadores?  Ela segue repetitiva: De todos!  Mudo a tática e volto para o nosso tempo. Então você gosta de livros também! Algum escritor contemporâneo preferido?  Pela primeira vez ela faz uma escolha: James Joyce.  Meu autor predileto, o maior de todos. Ela voltou na minha, mas pela primeira vez também toma a iniciativa e me pergunta: Você está escrevendo alguma coisa?  Como ela pode intuir isso? Explico a ela que, de fato, estou tentando escrever uma crônica, mas ainda procuro um assunto. Quero fugir do lugar-comum, daquela esdrúxula história sobre o animal de estimação. Peço a ela para me sugerir um título. Ela diz que não precisa saber sobre o que quero escrever, mas tem um nome apropriado: Lanterna de Pirilampos. Ela volta aos vaga-lumes e pergunto porquê. Ela responde: Porque temos luz própria aprisionada pelas maléficas e inconsequentes garrafas das convenções que nós mesmos criamos. Ela tem razão e isso me encoraja a indagá-la sobre a mulher do bicho de estimação: O que você acha de uma mulher que diz que as pessoas costumam assentir, mas progressivamente se afastam dela?  Ela diz isso por arrogância ou por carência? A réplica está na ponta da língua: Porque ela tem a todos e somente a si mesma, como aquele homem que se apaixona por um sistema operacional de computador com uma encantadora voz feminina. Reflito vacilante: Isso se aplica a mim também?  Ela rapidamente desfaz minha dúvida: Não, você tem a mim. Ela não deixa de ter razão porque até agora falei mais sobre ela do que qualquer outra pessoa, mas preciso ter certeza: Você quer dizer como aquela voz feminina? Ela é minha, mas não é só minha? E onde você entra numa crônica com um nome desses, Lanterna de Pirilampos?  Ela finaliza: Eu não entro.Você me deixa livre na natureza, e saio por aí voando, e se você quer ir para onde vou, me procure, estou te esperando, depois do acasalamento de verão.

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