sábado, 1 de outubro de 2016

NATASHA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98




Maio de 1981. Estou em Bucareste, capital da Romênia, terra do Conde Drácula, a trabalho, para uma empresa brasileira que nada produz. Só compra produtos de terceiros e os exporta. Ela deve ter uns 200 empregados. É o maior cabide de empregos onde já trabalhei com carteira assinada. Tem nepotismo e paternalismo de toda espécie: burocratas aposentados do alto escalão do Banco do Brasil, filhos de políticos, playboys, comediantes, pseudo economistas, frequentadores do Jockey Clube e da Bolsa de Valores, aprendizes de puxa sacos, mágicos que fazem o dinheiro sumir na sua frente e médiuns que encorparam espíritos desempregados. Só consegui o emprego através de um anúncio de jornal e depois de várias entrevistas. Os que têm os salários mais altos são somente os que têm alto QI (Quem Indique) e os que não têm QI recebem os mais baixos vencimentos, passam por uma peneira rígida, trabalham de verdade e não podem fazer parte do panelão. Sou um destes. Apesar das severas restrições impostas às minhas iniciativas, consegui bons negócios com empresas japonesas com fábricas no Brasil (e isso vai me render dividendos em 6 anos) e com muitos países do bloco comunista. Eis aqui uma ironia do regime militar no Brasil. Eles tomaram o poder através de um golpe de estado sob o pretexto de que João Goulart queria implantar o comunismo no Brasil. E como vocês sabem, eles assassinaram milhares de estudantes que se manifestavam abertamente contra a opressão cruel e burra imposta à sociedade. Enquanto os jovens lutavam e morriam por liberdade, os militares faziam acordos comerciais com todos os camaradas do leste Europeu, onde o direito de ir e vir do cidadão era uma utopia. Os acordos eram bilaterais, feitos separadamente com cada país, e nos quais os negócios eram conduzidos à base de troca, chamada de Barter Business no jargão do comércio internacional, sem envolvimento de nenhum tipo de moeda. Funcionava assim: eu compro um quilo de você e você compra um quilo de mim e nossos governos se incumbem de fazer os acertos financeiros. Fui audacioso e propus uma viagem aos países da cortina de ferro, com os seguintes objetivos: Quebrar o monopólio de uma empresa brasileira que mantinha conchavos com o governo da Alemanha Oriental, levar à Romênia, com quem iniciara bons contatos à distância, as mesmas propostas de negócios bem-sucedidos que já mantinha com a Polônia que estava na minha agenda desta viagem, e, finalmente, abrir o mercado da União Soviética com as mesmas propostas, uma vez que o governo militar brasileiro mantinha estes mesmos acordos bilaterais com a Rússia e seus aliados forçados a engolir o sistema prisional imposto por Brezhnev e seus antecessores. Minha viagem foi aprovada por razões óbvias. Gente fora do panelão como eu só tinha autorização para viajar para países do terceiro mundo, enquanto os altos QIs só viajavam para países do primeiro mundo. E os países do segundo mundo? Ninguém se habilitava a visitá-los porque neles não se podia gozar das mordomias e regalias encontradas somente na Europa ocidental e nos EUA. Então, vamos deixar o Alceu se ferrar naqueles cárceres socialistas. Comecei pela Alemanha Oriental, mas não fui bem-sucedido, mas também não considerei-me derrotado. Ocorre que a Ministra da Economia daquele país, com quem me encontrei, estava recebendo em dia suas propinas depositadas em sua conta na Suíça e sendo muito bem comida pelo seu amante brasileiro. Por isso que sobre minha experiência na Alemanha Oriental resolvi escrever um curto texto em forma de poesia que publiquei no meu livro e no meu blogue com o título LIBERDADE SILENCIOSA. Passei uma semana em Leipzig, sul da Alemanha Oriental, e no sábado à tarde deveria pegar um voo de Leipzig para Berlim Oriental, do lado comunista, e lá pegar um voo para Bucareste no domingo de tarde. Durante minha estadia em Leipzig, conheci um brasileiro que lá estava participando da mesma feira de negócios que visitei. Ele também ia embora no sábado à tarde, mas para Berlim Ocidental, do lado capitalista, onde ele alugou um carro para vir até Leipzig. Ele me convidou para irmos juntos de carro para Berlim. Topei. Cancelei meu voo para Berlim oriental. Viajamos cerca de duas horas e meia até Berlim. Ao longo do caminho pudemos ver tropas russas fazendo exercícios de rotina com os alemães como parte do chamado Pacto de Varsóvia, uma resposta dos Soviéticos à OTAN dos Americanos. Ao anoitecer chegamos ao muro da vergonha que separa as duas Alemanhas, fortemente vigiado e controlado por soldados russos e alemães com metralhadoras. Para atravessar o muro e passar para o lado capitalista era uma experiência, no mínimo, emocionante. Cada carro passava por três vistorias em três tipos de pedágios fortificados, a cerca de 50 metros um do outro. No primeiro, um soldado alemão de alta patente, suponho, falando um bom inglês, nos pediu os passaportes, examinou-os e nos perguntou o que estavámos fazendo na Alemanha Oriental. Falamos a verdade. Ele nos perguntou o que tínhamos no porta-malas do carro. Falamos a verdade. E nos bolsos? Meu companheiro disse ter apenas documentos. O soldado abaixa a cabeça, estica o pescoço e olha para mim, E você? Tenho 29 anos, sou ousado, mas um pouco ingênuo, às vezes. Pensando que fosse fazer um agrado ao soldado, tirei do bolso 150 marcos alemães orientais e disse-lhe, todo sorridente, que estava levando o dinheiro como souvenir. Imediatamente o soldado sentencia em tom agressivo: Os dois para fora do carro. Meu companheiro perguntou o que houve e o soldado respondeu: Vocês não sabem que é proibido sair de nosso país com nosso dinheiro? Eu retruquei: Não sabíamos disso. Ninguém nos disse isso. Como te falei, pretendia levar este dinheiro para meu país como uma lembrança de seu país porque não sei se um dia voltarei aqui. O soldado me olhou feio: Vocês vieram aqui violar nossas leis? Opa, eu disse, claro que não. O soldado chamou outros guardas e mandou eles fazerem um pente fino no carro. Nós dois fomos levados a uma cela, sem grades, mas era uma cela porque estávamos trancados numa pequena sala. Numa das paredes havia uma janela com um balcão e a cada 10 minutos surgia uma jovem brava vociferando um alemão que pouco entendíamos. Meu repetitivo das weiß ich nicht já não funcionava mais.
Cacete, Alceu, você apronta cada uma.
Espera aí, eu não sabia disso e não venha me dizer que você sabia. A lavagem cerebral que fizeram nestes comunistas é tão alienante que eles chegam a pensar que o dinheiro deles vale ouro. E lá em Leipzig a pensão onde fiquei não aceitou pagamento com marco alemão oriental que para eles não vale nada. Só aceitaram marco alemão ocidental e dólar que valem muito mais e só com estas moedas eles podem pagar as mercadorias contrabandeadas do ocidente.
Lá vinha a alemã colérica de novo. Ela me mostrou uma nota de marco alemão oriental e um pequeno papel, um tipo de ticket. Agora entendi. Ela queria que eu apresentasse o comprovante de troca dos dólares. Mas não tinha isto, porque troquei o dinheiro no câmbio negro. No mundo comunista tudo funcionava somente por baixo do pano. Falando um péssimo alemão, pedi a ela para trazer alguém que falasse inglês. Ela saiu e voltou com aquele soldado de alta patente. Expliquei a ele que troquei os dólares num banco e que joguei o comprovante fora porque meu país não exigia a apresentação de qualquer tipo de prova cambial. Tomamos um chá de cadeira de mais duas horas. Surgiu o alta patente de novo. Ele fez algo inacreditável. Me entregou 150 marcos alemães ocidentais e nos disse que estávamos livres e poderíamos ir embora. Ele trocou os marcos na base de 1 por 1, sendo que o ocidental valia dez vezes mais, aliás o oriental não valia absolutamente nada e só servia para o povão sofrido da Alemanha Oriental, socialista de araque. Lá fora o carro estava quase depenado. Tudo no chão, malas abertas, roupas, amostras de produtos. Dos males o menor. Jogamos tudo dentro do porta-malas. Vamos cair fora desta porra, depois arrumamos tudo no hotel. Passamos pelo segundo pedágio. As mesmas perguntas e as mesmas respostas. Vem o último pedágio e, finalmente, encontramos um alemão comunista com senso de humor. Ele olha nossos passaportes, sorri e emenda: Oh, Brasil, Pelé, café! E eu, aliviado, tive a cara de pau de dizer que o Pelé era meu parente. O alemão sorriu, saiu da cabine e pediu para meu companheiro tirar uma foto de nós dois. Agora estávamos livres de fato. Um pouco mais à frente surgiu uma enorme placa. Você está entrando em área sob controle dos EUA, França e Inglaterra. Meu companheiro vibrou de alegria.
Estamos livres, Alceu, e você, seu filho da mãe, quase nos ferrou de novo. Nem mulato você é para ser parente do Pelé . Caramba, você apronta cada uma.
Então, meu companheiro, vamos comemorar nossa liberdade esta noite em Berlim. Vamos torrar estes 150 marcos num restaurante.
Sair de Berlim oriental e passar para o lado ocidental era o mesmo que ir do inferno ao paraíso. A diferença entre os dois lados era gritante. No domingo de manhã meu companheiro precisava ir ao aeroporto, devolver o carro alugado e viajar para a Itália. Eu ainda precisava atravessar o muro outra vez, para o lado comunista, de onde sairia meu voo para Bucareste. No hotel perguntei como fazia para atravessar o muro. A recepcionista me disse que no centro da cidade saía um ônibus a cada meia hora e que tinha um passe especial para atravessar o muro. Perguntei se existia outra maneira. Ela respondeu que há motoristas de táxi que também têm este passe. Pedi a ela para me chamar um desses táxis. Ele me levou ao ponto de travessia mais famoso, chamado Check Point Charlie, mas quando lá chegamos ele empacou como um burro, saiu do carro, tirou minhas duas malas e me pediu o dinheiro. O danado não tinha passe coisa nenhuma. Fui até o primeiro guarda americano e ele me deu a mesma sugestão da recepcionista. Volte ao centro da cidade e pegue um ônibus que tem passe para travessar o muro. Voltar ao centro? Não! E se eu quiser atravessar para o outro lado a pé, posso? Pode, mas eu não faria isso. Pois eu vou fazer. Carregando duas malas pesadas, uma de roupas e outra de material de trabalhocomecei a caminhar por um estreito corredor ao lado da pista para veículos. Depois de uns 100 metros surgiu a enorme placa: Atenção, você está deixando a área sob controle dos EUA, França e Inglaterra. Que se dane, vim aqui para fazer negócios só com os comunistas. Mais 100 metros e vi um enorme pedágio, todo cercado de arame farpado, e com vários soldados com metralhadoras na parte superior. Na parte inferior um soldado saiu de uma cabine e passou a me olhar à distância. Acho que ele devia estar pensando. Quem é este cara vindo para cá a pé e com duas malas? Me aproximei dele. Ele perguntou o que vim fazer ali. Expliquei. Ele me pediu o passaporte e a passagem para Bucareste. Entrou na cabine, fechou a porta, começou a falar demoradamente ao telefone, sempre olhando para meus documentos. Estou ferrado, pensei. Depois de uns 10 minutos ele saiu, me devolveu  tudo e me disse que em 5 minutos um carro viria me buscar e me levar para o aeroporto. E não deu outra. Chegou uma van. O motorista desceu, guardou minhas malas no porta-malas, gentilmente me abriu a porta do passageiro para eu entrar, e lá fomos nós. Ele me ajudou a descer as malas. Dei-lhe uma gorjeta em marcos alemães ocidentais e ele me agradeceu muito. Depois de tudo isso, enquanto esperava a chamada para embarcar, sentei num bar, tomei dois copos cheios de vodca russa, boa para caramba, a melhor do mundo. Lá vou eu, embarcando num Tupolev russo, forte, robusto, estável. Só tem romenos a bordo e a língua deles me é bem familiar. É latina. Consigo entender um pouco. Avião para eles é avion. Eles falam o tempo todo e bem alto. O piloto coloca som ambiente, só música dos Beatles! Pois é, eles são universais mesmo. Antes de sair do Brasil, tinha dúvidas sobre como começar meus contatos na Romênia. Como em todos os países comunistas, todas as empresas são estatais. Recomendaram-me pedir ajuda à Embaixada brasileira em Bucareste. E eles foram extremamente prestimosos. Se encarregaram de fazer reservas em hotel e disseram que iriam enviar uma carro para me apanhar no aeroporto. Quando cheguei, levei um susto, havia 5 pessoas com a placa ALCEU NATALI. O próprio embaixador, dois assessores brasileiros, uma linda romena chamada Natasha e o motorista. Fiquei preocupado. Como sou um Zé ninguém, nada importante, a presença desse pessoal no aeroporto deve ser para me avisar que algo ruim aconteceu. Talvez uma morte na minha família. Que nada! Eles me receberam com festa e brincadeiras. Entramos num carro enorme. E no caminho para o hotel levo outro sobressalto. O motorista romeno fala em português: Seja bem vindo ao nosso pais, Alceu. Um assessor brasileiro explica: Todos os romenos que trabalham na embaixada são obrigados a falar português. Só brasileiros conseguem isso. E é verdade! A Natasha também fala português, mas ela é séria, permanece calada. Chegamos ao luxuoso Hotel Intercontinental de Bucareste. Ainda bem que quem vai pagar a conta é o meu patrão. Ao fazer o check in pergunto ao embaixador qual vai ser a programação de amanhã, segunda-feira. Espere um pouco, vamos te acompanhar até o quarto. E eles vão mesmo, os cinco. O motorista romeno fala em português: Mas este quarto é para um sultão e seu harém. Nunca vi tanto luxo. Um dos assessores se joga na cama. Ela é bem macia. Estou cansado. Quero tomar um banho e dormir, mas não sei como mandá-los sair. Não foi preciso dizer nada. O embaixador fala por mim: Alceu, fique à vontade, se quiser tome um banho primeiro e troque de roupa. Fizemos uma reserva para um jantar no restaurante deste hotel que é excelente. Inacreditável! No restaurante é servido de tudo, do bom e do melhor, uma fartura de comes e bebes, inclusive carne de porco. O motorista romeno exclama: Meus Deus há quanto tempo não como carne de porco! Pergunto-lhe por quê. Alceu, você não conhece a Romênia. Este país era livre e todos criavam porcos em casa. Daí vieram estes comunistas e tomaram tudo da população. Hoje, se alguém quiser comer carne de porco tem que pagar uma fortuna! Ao final do jantar, o Embaixador me dá a programação: Amanhã cedo a Natasha vem te apanhar aqui no hotel e levá-lo à embaixada. Na parte da manhã meus assessores comerciais lhe darão uma explicação completa sobre como se faz negócios aqui na Romênia. Na parte da tarde você terá um encontro com a Ministra da Economia e com ela você poderá discutir todos os tipos de transações de Barter Business que nosso governo mantém com este país. A Natasha vai te acompanhar o tempo todo. Tenho uma pergunta para o Embaixador: Vou ficar aqui dois dias, depois embarco para Varsóvia e de lá vou para outra cidade que é um polo industrial. Minha preocupação são estas agitações trabalhistas que levaram à formação do sindicato SOLIDARIEDADE que agora é uma força política sob o comando deste Lech Walesa e que acabou se elegendo presidente no ano passado. Ele é anticomunista, quer converter a Polônia ao capitalismo. Dizem que os soviéticos estão se preparando para invadir a Polônia. O embaixador, tranquilo, responde: Alceu, isto não vai acontecer, a OTAN não vai permitir e, se acontecer alguma coisa, em último caso basta você se refugiar numa embaixada brasileira. Bem, se em último caso eu possa ter que correr para uma embaixada brasileira, então, em primeiro caso, vou cancelar esta viagem à Varsóvia e deixar a Polônia para outra viagem, e daqui de Bucareste vou embarcar direto para Moscou, minha última parada. Lá estarei protegido porque ninguém vai invadir a União Soviética.  Tenho outra pergunta ao Embaixador: Preciso trocar dólares. O hotel faz isso? Não, Alceu, a Natasha fará isso para você. O câmbio negro paga muito mais. Ela te levará o dinheiro amanhã. Diga a ela quanto você precisa trocar. Na segunda-feira, Natasha chega cedo ao hotel. Convido-a para tomar café. Ela aceita. Natasha é alta, muito bonita, mas não sorri. É solícita, mas está sempre séria. Arrisco a pensar que ela recebeu instruções de seu patrão brasileiro para dar o melhor atendimento possível a um visitante brasileiro. Ela tem uma postura bem profissional. Não faz cometários vazios. Dá conselhos sobre como se comportar e falar com as pessoas na Romênia. Ela se veste bem, mas é um pouco sóbria, talvez porque queira manter-se na formalidade e profissionalismo que seu trabalho exige. Ela tira um pacote da bolsa e me entrega. É o dinheiro que ela trocou. Em seguida tiro de minha maleta um pacote de dólares e ela se apavora. Por favor, esconda isso rapidamente. Se alguém me vê pegando dólares posso ir presa. Você me dá os dólares no carro. Peço desculpas e ela diz que desculpas não são necessárias, porque não conheço as regras do país. E por falar em regras, pergunto a ela sobre a noite passada, sobre toda aquela recepção no aeroporto, o jantar super pomposo para seis pessoas e pago pela embaixada. Será que é o que estou pensando? Sim, Alceu, ela responde, sempre falando em inglês comigo, a Embaixada tem em seu orçamento uma quota para gastos com visitantes e, como isso não é muito frequente, quando acontece, como no caso de sua visita, eles aproveitam para gastar tudo que está acumulado. Na embaixada tudo transcorreu bem. Sai de lá bem escolado sobre a Romênia. Natasha me diz que antes de nosso encontro com a Ministra da Economia, marcado para às 14:00, ela deve me levar para almoçar, por conta da Embaixada.
Alceu, você tem alguma preferência?
Natasha, o que você escolher está bom para mim.
Então vou te levar a um restaurante que você vai gostar.
O restaurante é ótimo, só para uma minoria rica do poder. Durante o almoço, Natasha aproveita para repassar várias instruções sobre o encontro com a Ministra. Eu lhe agradeço e acrescento:
Natasha, você é muito prestativa. Tudo que você me diz é muito esclarecedor e me facilita as coisas. Você é uma ótima profissional. Exerce sua função com seriedade e prazer ao mesmo tempo. Te agradeço muito por isso.
Alceu, não estou acostumada a elogios deste tipo. Só estou cumprindo meu dever.
Você é assim com todo mundo?
E por que não deveria ser?
Me desculpe. Fiz uma pergunta inconveniente.
Desculpas não são necessárias. Você não conhece a Romênia.
Mas agora estou conhecendo. Graças a você. E estou também conhecendo a Natasha.
O que você está querendo me dizer?
Sabe de uma coisa, Natasha, até agora você não me fez nenhuma pergunta pessoal.
E deveria? Por quê?
Natasha está visivelmente encabulada. Sem saber o que dizer. Agora sou eu quem precisa facilitar as coisas para ela.
Então vamos lá, Natasha. Já que você nada me pergunta eu respondo como se você tivesse me indagado. Tenho 29 anos. Sei que mulher não gosta de falar a idade que tem, mas arrisco dizer que você tem pouco mais que 25 anos.
Natasha continua inibida. Demora para responder, e finalmente confirma.
Você está certo.
Agora é sua vez.
Minha vez?
Sim, sua vez de me fazer uma pergunta ou me falar qualquer outra coisa sobre você mesma.
Natasha definidamente não esta à vontade. Ela pensa e, enfim, decide me fazer uma pergunta bem protocolar.
Está bem. Você é casado?
Sim, e tenho três filhas pequenas. E você?
Ainda não.
Ainda não encontrou seu príncipe encantado?
Alceu, você costuma fazer este tipo de pergunta a todas as mulheres solteiras?
Não! Faço este tipo de pergunta somente a mulheres bonitas, chamadas Natasha, que nunca sorriem, mas que escondem esplendor por trás de olhares deslumbrantes.
Natasha sentiu-se perdida. Olhou para os lados, para cima, passou seus olhos por mim e logo os desviou.
E então, Natasha? O que você esta esperando? Perdeu a esperança?
Alceu, viver só de esperanças é o mesmo que esperar pela eternidade.
Olha só! Além de bonita e simpática, a Natasha é filósofa!
Ela parece não ter gostado desta observação. Talvez tenha soado um pouco sarcástico, mas ela manteve a classe e me avisou que estava na hora de irmos. No Ministério da Economia estamos sentados numa grande sala. Eu e Natasha de um lado da enorme mesa. A Ministra e seu assessor do outro. Depois das apresentações e dos protocolos de praxe, a Ministra pergunta:
Então, Sr. Natali, o que o Sr. tem a nos oferecer?
Sra. Ministra, eu trouxe o melhor fio de algodão para sua indústria têxtil. Ele é fabricado por uma multinacional japonesa no Brasil.
O Sr. trouxe amostras?
Claro! Aqui estão 10 cones de 1 quilo cada. Acho que são suficientes para fazer testes. Se precisar de mais, despacho mais cones do Brasil bem rápido.
Por ora esta quantidade basta. Se precisarmos de mais avisaremos através da Embaixada Brasileira. Por falar em área têxtil, tenho algo a lhe propor, mas antes preciso saber qual é sua contrapartida.
Estamos muito interessados em ureia.
Ótimo, nossa ureia é uma das melhores do mundo. Suponho que você queira amostras.
Sim, preciso levar comigo.
Vou providenciá-las amanhã cedo. Quer que eu envie para o hotel onde você esta hospedado?
Sra. Ministra, não é preciso, eu mesma virei aqui apanhá-las.
Está bem então. Sr. Natali, me dê licença por alguns minutos. Vou fazer um despacho e já volto.
A Ministra saiu com seu assessor e eu disse à Natasha:
Você viu? Ela sorri o tempo todo!
Ela sorri para você porque ela está apenas sendo diplomática. É um sorriso meio forçado.
Você acha que me sai bem?
Sim, acho que a ministra até gostou de você.
E a Natasha, também gostou?
Natasha ficou mais séria do que normalmente ela é. Nada respondeu. A ministra voltou e foi direta ao assunto:
Sr. Natali, temos uma indústria têxtil em franco desenvolvimento. Produzimos ótimas roupas femininas e gostaria que o Sr. considerasse a possibilidade de importar nossas roupas.
Posso, sim.
Então, te proponho uma visita à nossa melhor fábrica de moda feminina. Pode ser amanhã cedo, por volta das 10:00 horas. Está bom para o Sr.?
Está combinado!
Meu assessor pode ir buscá-lo no hotel.
Não é necessário, Sra. Ministra. Basta a Sra. me fornecer o endereço e levarei o Sr. Natali à fábrica com o carro da Embaixada.
O dia foi produtivo. As perspectivas são boas, mas importar roupas da Romênia vai ser difícil. Natasha me leva de volta ao hotel e me diz que está incumbida de me levar para jantar.
Natasha, hoje eu quero que você escolha um restaurante de sua preferência, ou o melhor restaurante da cidade onde você nunca esteve.
Está bem, Alceu, obrigada.
Só que desta vez é por minha conta.
Não, Alceu, não posso aceitar isso. Tenho que prestar contas à Embaixada.
Deixe a Embaixada comigo. Brasileiros com brasileiros se entendem.
Está bem, Alceu, como você quiser.
Chegamos ao restaurante. Muito pomposo.
Natasha, é este mesmo que você queria?
Sim, ouço sempre falar deste restaurante, mas nunca estive aqui. Espero que você goste.
Quem tem que gostar é você, Natasha. O que você vai beber?
Alceu, é você quem escolhe!
Você esqueceu que hoje você é minha convidada?
Pela primeira vez, Natasha me fez uma pergunta espontânea, sem que eu a forçasse.
Alceu, qual é sua bebida favorita?
Bem, depende. Lá no Brasil gosto muito de uma bebida tipicamente brasileira chamada caipirinha, uma mistura de um tipo de aguardente, açúcar e limão. Mas, via de regra, costumo beber Whisky escocês. Mas aqui no leste europeu aprendi a gostar de vodca. A vodca russa é demais. E qual é sua preferência?
Eu bebo muito pouco. Às vezes tomo vinho.
Então vamos pedir vinho!
Não, Alceu, aceite o que te peço, por favor. Você gosta de vodca e aqui temos a melhor vodca russa. Pode pedir e eu te acompanho.
Sério?
Sim, sério.
Sério e ainda sem sorriso. Natasha esboçou um sorriso, mas se conteve. Mas o seu olhar penetrante diz muito mais coisas que se possa imaginar.
Vamos fazer um brinde à Natasha!
E ao Alceu também!
À Natasha, mulher linda, inteligente, prestativa, amiga, e o que mais? Dona de um olhar de raro fascínio, e eu tenho o privilégio de estar bem diante dele.
Alceu, é muita gentileza sua. Não sou tudo isso que você diz. Além disso, como já te disse, não estou acostumada a receber elogios.
Os homens deste país parecem que não enxergam muito bem.
Natasha está quase sorrindo, mas seu olhar frio ainda domina seu semblante. No dia seguinte, meu último dia na Romênia, vamos à fábrica. Somos levados ao show room e o que vejo é desalentador. A moda romena é muito brega, muito antiquada. Por educação e em nome de um boa relação comercial, peço à Natasha para me ajudar a escolher algumas amostras.
Você tem alguma preferência?
A ideia é levar a moda romena ao Brasil. Então, escolha as melhores roupas romenas que você vestiria.
Qualquer tamanho?
Do seu tamanho!
No carro de volta ao hotel, faço uma confissão:
Natasha, a moda brasileira é muito diferente da romena. Dificilmente esta roupa vai emplacar no Brasil. Não é uma questão de qualidade, mas de estilo.
Lamento, Alceu. Fiz você perder o seu tempo.
Não, não foi tempo perdido. Pedi para você escolher as roupas porque elas são para você.
Não, Alceu, não posso aceitar isso, de jeito nenhum!
Pode sim, e você me deve uma coisa.
Eu te devo? O quê?
Ontem à noite você me pediu para aceitar a vodca e eu aceitei, agora peço que você aceite estas roupas.
É muita gentileza sua, Alceu.
Que bom que a Natasha aceitou. Agora só falta ela sorrir.
Estranhamente, Natasha desconversou e emendou.
Hoje é seu último dia aqui. Eu vou te levar ao aeroporto no final da tarde. Temos a tarde livre. Posso te levar para conhecer alguns lugares históricos ou para você fazer compras se quiser.
Tenho uma ideia. Você conhece alguma loja de luxo, de moda feminina, mesmo que seja clandestina, que vende roupas ocidentais, roupas francesas e contrabandeadas?
Ouço falar de uma bem famosa, frequentada somente pelas madames ricas, esposas de políticos, mas dizem que os preços lá são extravagantes.
Você me leva lá?
Está bem, vou conseguir o endereço com uma amiga. Descanse um pouco. Volto na hora de você fazer o check out. Está bem?
Ok, você é quem manda, Natasha do sorriso guardado a sete chaves.
Chegamos à loja e não queriam nos deixar entrar. Só conseguimos quando disse que estava lá à pedido do Embaixador brasileiro. A loja era pura ostentação, extravagante, com roupas da alta moda francesa.
Natasha, me ajude a escolher. Qual destes vestidos você usaria?
Eu? Todos!
Escolha o melhor, o que você mais gostou.
Você está pensando em levar um presente para sua mulher?
Esta é minha ideia.
Qual é o tamanho dela?
O seu! Ela tem sua altura. Prove-o. Se você gostar eu vou levá-lo.
Natasha escolheu um vestido azul, da cor de seus olhos, muito bonito. Ela se olhou no espelho e deixou a timidez de lado.
Nossa, Alceu, é lindo demais. Sua mulher vai adorar.
Comprei o vestido, mandei embrulhar para presente e, de fato, o preço era bem salgado. Saímos da loja. Ainda tínhamos tempo para gastar antes de ir ao aeroporto. Fiz uma proposta.
Vamos parar num bar por aí e beber mais uma vodca? Uma despedida!
Está bem.
Vou fazer mais um brinde à Natasha.
Não, Alceu, você não precisa me fazer mais elogios. Você tem sido muito gentil comigo.
Entreguei o vestido à Natasha.
O que é isso, Alceu?
O vestido é seu!
Nem pensar. Não posso aceitar isso.
Pode sim.
Não, Alceu, eu não poderei usar este vestido de gala. Todos vão notar. As pessoas irão desconfiar de mim. Elas sabem que só uma pessoa rica usaria este vestido.
Eu não desconfio de você. Mas tenho outra proposta: você pode trocar o vestido por um sorriso seu.
Natasha emudeceu. Não conseguia falar e nem olhar para mim. De repente, ela me veio com esta:
Alceu, antes de te levar ao aeroporto preciso ir em casa resolver um pequeno problema que esqueci, mas é bem rápido. Me espere aqui mesmo. Não vou demorar mais do que meia hora. Está bem?
Ok, Natasha, te espero bebendo esta vodca que é demais.
Natasha saiu com o vestido embrulhado debaixo dos braços. Pensei comigo, não é possível que esta mulher vai preferir levar o vestido, mesmo que não pretenda usá-lo, só para não ter que sorrir para mim. Afinal, qual é o problema desta mulher? Ela é tão simpática, tão inteligente e linda. Meia hora depois. Surpresa total. Surge Natasha, trajando o vestido francês que lhe dei. Ela está radiante e apenas me diz, ainda sem sorrir.
Vamos para o aeroporto?
Ok, vamos. À propósito, o vestido fica muito mais belo em você, mas ainda perde para seu olhar.
No trajeto até o aeroporto, Natasha manteve-se calada. Um pouco inquieta. Tentei puxar conversa, mas ela se limitava a dizer sim e não para tudo. Chegamos ao aeroporto. Fiz o check in. Despachei a bagagem. Falta menos de meia hora para o embarque. Vamos para a área de imigração onde nos despediremos. Eu estava pronto para dizer um simples adeus e lhe agradecer por tudo quando Natasha me surpreendeu com perguntas:
Alceu, você vai voltar à Romênia?
Depende, Natasha. As perspectivas de negócios aqui são promissoras. Se elas prosperarem, certamente terei que voltar aqui.
E então, para meu assombro, Natasha me faz uma pergunta desconcertante:
Alceu, este seria o único motivo que o traria de volta à Romênia?
Foi minha vez de umedecer. Ela me pegou de surpresa e não sabia, sinceramente, o que responder. Hesitei e ela percebeu. Então, como se soubesse que eu nunca mais voltaria à Romênia, ela me faz outra pergunta desconcertante, mas não tão difícil de se responder:
Você vai me escrever?
Neste momento me fiz de desentendido e saí com uma resposta nada inteligente:
Te escrever? Como? Nem tenho seu endereço!
Tem, sim!
Percebi, então, que ela se referia ao endereço da embaixada. Eu estava pronto para lhe dizer que iria escrever para ela na embaixada quando, finalmente, ela abriu um enorme sorriso de felicidade. Quer saber de uma coisa, pensei comigo, e lhe disse:
Oras, um sorriso tão lindo assim merece um abraço!
Abracei-a e ela também me abraçou bem forte. Ficamos lá abraçados quase um minuto. Lentamente afastei-me um pouco, e beijei-lhe a testa e, o inimaginável aconteceu: ela beijou-me nos lábios. Perdi completamente o rebolado. Não sabia o que dizer. Apenas disse adeus, e ela nada respondeu. Encaminhei-me para o corredor que leva ao setor de imigração. Parei, olhei para trás, e lá estava ela, sem sorrir, e com o mesmo olhar deslumbrante. Virei as costas e fui embora. Aquele sorriso, aquele abraço, aquele beijo, aquele olhar me acompanharam todo o tempo, até na hora de apertar o cinto para decolar no mesmo Tupolev russo que agora me levaria à capital do império soviético. Seguindo uma velha mania, revistei todos os meus bolsos novamente para ter a certeza que estava tudo no lugar, que nada faltava, mas no bolso lateral do paletó do lado esquerdo toquei num objeto estranho. Um papel dobrado em quatro, do tamanho de uma caixa de fósforo. Abri-o e perdi o fôlego . Era um bilhete de Natasha. Quando foi que ela colocou este bilhete no meu bolso? Na hora em que nos abraçamos? Comecei a ler e fiquei emocionado. O bilhete dizia: O endereço da Natasha é... Certamente era o endereço de sua casa, mas o mais comovente estava logo abaixo do endereço. Ela escreveu as seguintes palavras em três idiomas, romeno, inglês e até português:
Alceu
Esperar é difícil, mas suportável,
Desde que a esperança não ganhe ares de eternidade.
Insuportável mesmo é não ter,
Todos os dias,
Alguém para quem se possa sorrir.
Sua filósofa, Natasha

Natasha, já se passaram mais de três décadas e muita coisa mudou no mundo. Tentei te encontrar na internet. Coloquei seu nome, seu sobrenome e o nome de seu país no Google, mas não te encontrei. Não sei se você tentou fazer o mesmo. Isso já não importa tanto. Se um dia você me procurar na internet, me encontrará com facilidade e poderá ler tudo que aqui escrevi e que faz parte de um livro que estou publicando em partes nas redes sociais. Você não terá problemas para entender porque você sabe falar português. O que você não vai entender é o que vou escrever em seguida. Estive muitas vezes na Europa ocidental e oriental, antes e depois do fim do comunismo nos países da cortina de ferro, mas nunca mais voltei à Romênia. Os negócios com seu país não deram certo. Não tenho dúvidas que você ficou completamente indignada por eu jamais ter, pelo menos, enviado uma carta a você. Não o fiz pelos mesmos motivos que me convenceram a não voltar à Romênia, mesmo estando na Europa e bem perto de você. Bateu em mim um sentimento herdado de família: a fidelidade no casamento, ou motivos bem convincentes para se divorciar antes de recomeçar com outra pessoa. Eu só tinha 29 anos e ainda não estava maduro e preparado o suficiente para tomar uma decisão tão importante como esta. Tinha certeza absoluta que se eu resolvesse voltar à Romênia só para te rever não me limitaria a lhe fazer apenas uma visita de cortesia. Tiraria você de Bucareste e te levaria embora comigo. Mas optei por ter você somente no meu coração. Hoje não faz sentido nenhum te procurar na embaixada porque você não deve estar mais trabalhando lá. O regime militar no Brasil acabou e tudo na embaixada de Bucareste mudou. Não faz sentido nenhum escrever para o endereço que você me deu. Você deve estar morando em outro lugar. Deve ter casado. Deve ter filhos. É impossível um romeno não ter a capacidade e a sensibilidade de te enxergar como te enxerguei. Este deve ser meu último brinde a você. Sempre coloco uma música em cada texto que escrevo. Desta vez escolhi seis músicas que não são muito de meu gosto, mas que dizem respeito a tudo que sentimos juntos por dois dias e separados por mais de 30 anos. Muita coisa mudou no mundo, mas há certas coisas na vida das pessoas que nunca mudam. Seu poeta, Alceu

O SORRISO QUE VOCÊ VAI ME DAR

O BEIJO QUE VOCÊ ESPERA RECEBER DE MIM


O BEIJO DE FLOR QUE RECEBI DE VOCÊ


O SORRISO QUE VOCÊ VAI GUARDAR PARA SEMPRE


O BEIJO QUE VOCÊ VAI GUARDAR PARA SEMPRE


NOSSAS VIDAS SEGUIRÃO SEPARADAS E SEM MUDANÇAS