sábado, 1 de outubro de 2016

PERDENDO A RELIGIOSIDADE E DEIXANDO CORRER O MARFIM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Será que toda unanimidade é burra como disse Nelson Rodrigues? Ou apenas uma frase de efeito, para nos fazer refletir, provocar polêmica, não para encerrar discussões ou aumentar o número de lugares-comuns, e que, quando todo mundo concordar que a unanimidade é burra, ficará comprovado que toda unanimidade é burra mesmo, como disse a internauta Priscilla Winchester há oito anos atrás? O mundo está cheio de conformidades e divergências. Aqui no extremo ocidente prevalece o cristianismo. Lá no extremo oriente são todos amarelos, mas eles não se bicam. No meio, no oriente médio, que também pode ser chamado de ocidente médio, os semitas têm inimigos em comum, mas não se unem para enfrenta-los. Sobre estas disparidades, prefiro passar a palavra a três personagens do meu livro Vale da Amoreira: o misterioso narrador, Tilly que não conseguia se desvencilhar de sua religiosidade e o daimon de Tilly (Onedin, o principal, que não atinava para nada e deixava correr o marfim, não fala nada aqui, mas fala muito em outros textos). O narrador realça um comentário libertador de Tilly: Sabe, meu daimon, a maioria das pessoas costuma dizer que a vida é muito difícil. Quando alguém morre elas dizem: ‘finalmente descansou’ ou então ‘partiu dessa para uma melhor’. Mas será que a vida é assim tão difícil mesmo? Será que quando morremos realmente encontramos algo mais fácil? E essas pessoas que consolam os mortos com estas frases de efeito? Elas não se importariam de estar no lugar do falecido no caixão? Claro, que sim! Elas tem medo de morrer e enquanto murmuram esses alentos fiados com boca mole, no fundo, elas estão pensando ‘antes ele do  que eu’. E do lado de lá, será que é melhor? Ninguém que morreu jamais voltou para nos contar. E esses que dizem conversarem com os mortos e que uma vida de esplendor nos aguarda após a morte? Eles têm um medo que se pelam da morte e se desesperam mais do que aqueles filósofos baratos de velórios. Sabe, meu daimon, custou-me muito decidir te dizer o que vou dizer. De tudo aquilo que você me perguntou eu concluo que é mais fácil explicar o que os vivos pensam que conversam com os mortos do que entender o que se passa num sonho e talvez eu encontre paz comungando apenas com o universo. O enigmático narrador explica para o mundo o significado das palavras de Tilly e aproveita para alcaguetar seu daimon: A última frase de Tilly foi um momento singular na existência do seu daimon. Seu pupilo proferiu as palavras mágicas que todo deus espera ouvir toda uma vida humana. É natural que o daimon de Tilly tenha se orgulhado tanto e encontrado ensejo para celebrar tal acontecimento, pois ele representa um passo decisivo em direção ao centro regulador do cosmos. O daimon de Tilly festejou e soltou fogos, porém soltou  também pensamentos impróprios para deuses e que só são ouvidos na forma de impressões sonoras vindas da boca de humanos ébrios. Tais pensamentos emanados  da aura de deuses raramente são aprisionados nas teias do espaço curvado pela massa, mas, para sorte dos leitores, os de daimon de Tilly lá se enroscaram acidentalmente e foram recuperados na íntegra e o seu teor é fruto de grande júbilo extravagante, quando o homem liberta a criança que existe dentro de si e  quando um deus dá asas ao homem que plasma sua alma. Em seguida o delator reproduz as  reflexões inconvenientes do daimon de Tilly: Os espiritualistas estão mais próximos do purgatório do que os outros religiosos porque eles já fazem uma boa ação para cada vinte ruins. Já o inferno, com embaixadas, consulados e representações comerciais por toda parte, está comprometido, porque ele foi comprado pela igreja universal do reino de deus e seus rebentos evangélicos com dinheiro surrupiado dos ignorantes, pobres e fracos. Agora, se Onedin quiser dar uma colherada naquela sopa de merda no tártaro terá que gastar uma nota preta. Os católicos continuam esperando o dia do juízo final que só virá daqui a cinco bilhões de anos quando o sol consumir seu combustível por completo e todo sistema solar desaparecer. Mas eles não atinam para essa demora, como também não atinam para os mais de mil anos de desmandos. Os judeus vivem por dinheiro e o emprestam a juros desde o dia que uma espécie de símios desceu das árvores e perdeu o rabo porque, segunda a lei deles, ganhar dinheiro é o preço que eles têm que pagar ao deus Javé do Cifrão por te-los  transformado em hominídeos, mas um célebre rabino vem alardeando em uma certa comunidade judaica que um bom negócio hoje em dia é investir em gravatas de grife e as afanadas são as mais valorizadas. Os muçulmanos preparam uma guerra santa, uma revanche contra as cruzadas, mas é estranho que eles utilizem homens-bomba ao invés de mulheres-bomba porque para eles a mulher é apenas um objeto descartável, como uma camisinha que se joga fora depois de uma transa. Talvez eles estejam pensando nas recompensas reservadas ao homem bom no paraíso: 70 esposas para cada um. Deve ser por isso que eles poupam as fêmeas. Mas se fosse assim, mais lógico seria se cada homem-bomba carregasse consigo 70 donzelas num ataque suicida. Os hindus são meio parecidos com os espiritualistas na teoria, com os judeus na prática e com os Africanos no sincretismo bramânico. O que atrapalha uma possível fusão dos três são as vacas e os macacos sagrados e a fome e as diferenças sociais epidêmicas que só perdem para o continente dos azulões. O povo do negro do carvão teve o corpo, a alma e a identidade saqueados pelos brancos cristãos e o que lhes restou de consolo foi o candomblé do terreiro, sem deus, nem céu, nem inferno. Os Asiáticos são estranhos e misteriosos. Não há olhos puxados e negros e nem peles lisas que possam uni-los O âmbar não se mistura com o mostarda. Este não se dá com a tangerina que não respeita nem o açafrão e nem o limão. Estes dois têm ódio do ouro e este último tem preconceito contra todos os amarelos. Já fui uma pessoa como Tilly, antes de seu tardio despertar, e já cheguei à mesma conclusão que ele chegou. Hoje sou como Onedin, mas ainda sustento algumas unanimidades. Uma delas, minha preferida, não é tão unânime assim mas, modéstia à parte, sinto-me um privilegiado por fazer parte de um seleto e pequeno grupo de gente menos burra que a maioria. Em 18 de Março de 2015, a NME, a melhor e mais antiga revista semanal sobre música da Inglaterra, publicou o resultado de uma enquete, feita com músicos britânicos e americanos, para eleger a melhor música dos Beatles. O resultado não poderia ser outro: Strawberry Fields Forever (SFF) (Eternos Campos de Morangos), composta por John Lennon em 1967. Eu tinha 15 anos quando ouvi SFF pela primeira vez e, mesmo sem saber o que os Beatles iriam lançar posteriormente, já sabia que SFF seria a melhor música popular de todos os tempos, escrita pelo melhor compositor de que se tem conhecimento, integrante e líder do melhor grupo musical da história deste planeta. Mesmo no ano de seu lançamento, SFF já havia sido eleita como a melhor música já composta até então por nada menos que George Martin, produtor dos Beatles (que não conseguia disfarçar sua preferência por Paul - ele morreu esta semana aos 90 anos), e Pete Townshend, líder e mentor do lendário e extraordinário The Who. Para quem não sabe, SFF foi a primeira música gravada para o mais celebrado álbum da história, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, e, por incrível que pareça, George Martin resolveu deixar SFF fora do álbum para priorizar um para de músicas fracas de Paul como When I’m Sixty-Four e She’s Leaving Home. SFF foi lançada num compacto simples, juntamente com Penny Lane de Paul, dois meses mais tarde. Em 1967, a famosa revista semanal americana Times reconheceu que SFF era o maior clássico da música mundial. Quando John Lennon foi  assassinado em Dezembro de 1980, a Times lhe prestou uma linda homenagem. Eu tenho o exemplar com John Lennon na capa com o título When The Music Died (Quando A Música Morreu). A completa cobertura da morte e carreira de John Lennon feita pela Times em 1980 mais uma vez destacou SFF como sua melhor música pelos Beatles e, consequentemente, como a melhor música popular já escrita até então. Quem não sabe disso não entende muito de música. Quem sabe e não concorda  é terceiro-mundista (awfully sorry, já sei que gosto não se discute, mas só se lamenta). John nunca se gabou de ter escrito SFF. Ao contrário, ele se queixou que a música foi mal gravada. Ele alegava que naqueles tempos o George Martin passava muito tempo se esmerando na produção das canções de Paul, enquanto as dele eram sempre tratadas com um certo desleixo e como objeto de muitas experimentações. Strawberry Fields (Campos de Morangos) era o nome de um orfanato do Exército da  Salvação, no subúrbio de Liverpool perto da casa onde John morava com sua tia desde os cinco anos de idade. Os pais de John o abandonaram. John e dois amigos se divertiam nas quermesses no jardim do orfanato, vendendo garrafas de limonada por alguns centavos. Tive o privilégio de ver o que sobrou daquela imensa casa Vitoriana transformada em asilo para crianças abandonadas, ainda com parte do muro de pé e a inscrição Strawberry Fields (que segundo John deve ter sido uma  fazenda de morangos no passado). O orfanato nada tem a ver com a música SFF.  John escolheu este nome, Campos de Morangos, apenas para expressar seu nível de conscientização quando ele tinha apenas 5 anos de idade. John era arrojado, sentia-se diferente de todos de sua idade, via coisas que os outros não percebiam, muitas vezes de forma alucinatória, como se estivesse afetado não apenas por poesia, mas também por intuição e até paranormalidade. Ele achava que era um louco ou um gênio, mas, na verdade, não se considerava nem uma coisa nem outra. E quando ele falava de genialidade não se referia aos famosos gênios da humanidade que endeusamos. Referia-se a momentos de genialidade que as crianças experienciam numa determinada fase da vida. Numa das frases da letra, Living is easy with eyes closed, misunderstanding all you see (É fácil viver de olhos fechados e não entender nada do que você vê), John pretende manifestar este grau de conscientização que ele tinha em tenra idade, enquanto os outros nada enxergavam, como se vivessem de olhos fechados e não atinando para o mundo à sua volta. Noutra frase, de difícil tradução, No one I think is in my tree, I mean it must be high or low (Acho que ninguém parece estar em minha árvore - na minha mente, no meu pensamento -, Quero dizer, que deve ser bom ou ruim - porque ou estou num nível superior ou num nível inferior em relação aos outros), John perguntava-se porque os outros não eram tão liberais e despojados como ele e porque não entendiam de onde ele vinha. Antes dos Beatles irem aos EUA pela primeira vez em Fevereiro de 1964, eles já faziam muito sucesso na Inglaterra. Em 1963 a realeza britânica os convidou para fazer uma apresentação no Royal Variety Performance de Londres, com as presenças da rainha Elizabete, a rainha mãe, e a Princesa Margaret. O show foi aberto ao público em geral. Ao final da apresentação, John Lennon, com apenas 23 anos de idade, dirigiu-se ao público e disse: Agora que vamos tocar nossa última música, peço a ajuda de todos. Vocês que estão sentados nas arquibancadas de preços baratos batem palma, e o pessoal dos camarotes basta chacoalhar suas joias. Em 1965, os Beatles receberam do Primeiro Ministro e da Rainha a condecoração mais honrosa concedida pela Grão Bretanha: a medalha de Membros do Império Britânico. John sempre se sentiu vendido por ter aceito a medalha. No mesmo dia que ele a recebeu ele deu a medalha à sua tia Mimi que o criou, alegando que ela merecia aquela honraria muito mais que ele. Em 1966, no auge da carreira dos Beatles, John disse a um jornal de Londres: Somos mais populares que Jesus Cristo. E eram mesmo, e continuam sendo. Houve protestos por parte de um grupo de puritanos nos EUA que tentaram boicotar os Beatles. Mas eles perderam porque os Beatles eram maiores do que qualquer coisa ou pessoa que a América e o mundo conheceram. E para consagrar seu desprendimento, em 1969 John devolveu sua medalha de Membro do Império Britânico à Rainha, em protesto pelo envolvimento dos britânicos no conflito Nigéria-Biafra e pelo apoio que os Britânicos davam aos Americanos na  guerra do Vietnã. Eu não tenho nem 1% do talento que John teve. Não sou poeta, nem intuitivo, e nem paranormal (exceto em alguns sonhos estranhos que costumo ter). Quando eu tinha 15 anos compus mais de 100 músicas em inglês, todas sob a influência dos Beatles, Rolling Stones e do Who, todas descartáveis e esquecidas. Mas há algo de que me orgulho e me dá muito prazer: minha capacidade de percepção musical. Um exemplo é uma postagem neste blog onde estou publicando um livro, em partes, chamado Um bazar Chamado Pescoço de Girafa. O título  da postagem é DISSOLUÇÃO, um trecho adaptado de meu livro Vale da Amoreira. Para este texto escolhi uma versão cover de SFF e, para meu gosto, ficou ótimo. Parece-me que os dois são indissociáveis, como se um tivesse nascido para o outro. Costumo sempre escolher uma música para a maioria dos textos que escrevo. A música (a melodia e não a letra) me inspira muito. Também escrevo textos a partir de uma ideia qualquer e depois procuro a música adequada para o texto e, invariavelmente, sempre encontro, por acaso, a música que se casa perfeitamente com minhas ideias. Se eu tenho um pouco de intuição ou paranormalidade vígil ela reside neste fato. A ilustração que adiciono a cada texto, embora em terceiro plano, não está lá à toa. É escolhida a dedo e, como no caso da escolha de uma música, ela parece cair do céu, parece me procurar. Já li mais de de dois mil livros na minha vida, e agora chegou meu tempo para escrever. Para mim nada me dá mais prazer do que ler tudo o que escrevo ao som da música que dá mais vida ao texto. É claro que escrevo também poesias, crônicas, livros, etc, sem precisar da inspiração de uma música. Estou extremamente feliz com o próprio estilo que criei: a trindade texto, música e ilustração. Essa é uma da razões pelas quais jamais publicarei livros impressos. Em primeiro lugar porque jamais pagarei um editor para publicar um livro meu. Prefiro postar meus escritos de graça nas redes sociais. Segundo, porque não é possível imprimir um livro com vídeos. No prefácio do livro Um bazar Chamado pescoço de Girafa, resumi assim meu estilo: As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma  alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso. A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos. Eu disse acima que  já fui como Tilly, um sujeito que tinha medo de não ter religião e de não acreditar em deus. Hoje tenho medo que deus possa existir porque se ele existe mesmo e é o criador de tudo então estamos todos ferrados. Basta dar uma olhada no país em que vivemos, governado por ladrões, e também em outros explorados pelos brancos cristãos, como os do continente Africano, onde crianças comem esterco de cavalo para sobreviver. Se Deus existe e faz isso com nosso planeta, imaginem o que ele faz com o resto do universo. Sou ateu e com muito orgulho. O deus no qual a maioria do mundo ocidental acredita foi inventado pelo homem. E depois de ter lido muitos livros acadêmicos sobre judaísmo e cristianismo, tornou-se extremamente fácil explicar como tudo que está escrito no Velho e Novo Testamento foi meticulosamente inventando, aliás foi surrupiado das culturas de outras civilizações mais antigas. O cristianismo, assim como todas as religiões do mundo, não passam de mitologias. O famoso psiquiatra Carl Jung escreveu muito sobre religião. Reproduzo abaixo sua definição de Jesus Cristo (coloquei em letras maiúsculas  palavras e frases às quais se deve dar muita atenção): É quase impossível querer saber quem era e como era Jesus em sua realidade concreta. SE SUA FIGURA FOSSE  FIDEDIGNA SOB O PONTO DE VISTA HUMANO E HISTÓRICO, seria provavelmente  tão pouco esclarecedora como a de um Pitágoras ou a de um Sócrates. Jesus apareceu como o portador de uma revelação justamente pelo fato de apresentar-se como um Deus Eterno (e, por isso mesmo, NÃO HISTÓRICO), e só podia agir como tal, graças ao consenso geral inconsciente: se os contemporâneos de Jesus não tivessem visto algo de especial na figura do milagroso Rabi da Galileia, as trevas não teriam percebido que uma luz havia brilhado. POR FALTA DE RELATO FIDEDIGNO, só a fé poderá dizer se Jesus acendeu a Luz pelo próprio poder ou se sucumbiu, em seu sofrimento, sob o peso da expectativa universal da luz, (Pai, por que me abandonastes?). Em qualquer caso, as provas extraídas da análise dos textos a respeito da projeção e da assimilação da figura de Jesus são inequívocas. A participação do inconsciente coletivo nesse processo se acha amplamente documentada, pois são abundantes os exemplos paralelos no campo da historia das religiões. Em face desta situação, devemos indagar o que foi tocado pela ´mensagem´no íntimo do homem, e qual a resposta que este lhe deu. Esta questão é cheia de significado, pois a mentalidade coletiva da época - o arquétipo da imagem do Anthropos - precipitou-se sobre Jesus QUANDO ELE NÃO ERA MAIS DO QUE UM PROFETA QUASE DESCONHECIDO. A antiga ideia de Anthropos, cujas raízes se encontram parte na tradição judaica, e parte no mito egípcio de Horus, se apoderara dos homens no começo da era Cristã, pois correspondia ao espírito do tempo. Tratava-se do Filho do Homem. do próprio filho de DEUS CESAR AUGUSTO, SOBERANO DESTE MUNDO, PROCLAMADO PELOS ROMANOS COMO O SALVADOR E O PORTADOR DAS BOAS NOVAS.  Esta Noção de oposição ao Deus Cesar Augusto transformou o problema judaico originalmente do Messias num problema universal. mas seria um grande mal-entendido tomar como simples acaso o fato de que Jesus tenha se tornado o Salvador do Mundo. Sua personalidade dever ter sido de uma envergadura extraordinária para poder exprimir e responder de maneira tão perfeita à expectativa geral, se bem que inconsciente, de seu tempo. Ninguém mais, senão precisamente ele, o homem Jesus, poderia ser portador de tal mensagem. Como se percebe claramente neste comentário de Jung, ele analisa Jesus como mais um arquétipo da psicologia humana e enfatiza que ele não é uma figura fidedigna (confiável) do ponto de vista humano e histórico, o que equivale a dizer que ele não existiu. No entanto, ele realça a personalidade extraordinária de um profeta quase desconhecido, mas real, o que é contraditório. Ou Jesus existiu ou não existiu. Não há meio termo. Carl Jung foi um desses gênios da humanidade que eu endeuso (li sua obra completa). Além de inteligente, era super culto. Falava vários idiomas, inclusive o grego e o latim. Como pode, então, uma sumidade da psicologia humana ser ambígua? Será que estou enganado e querendo encontrar ambiguidade onde não há? Certamente, Jung leu toda literatura pré e neo testamentaria (o velho e o novo testamento) para poder falar sobre Jesus com propriedade. Não sei se ele leu muitos dos livros acadêmicos que esmiúçam os textos cristãos e encontram evidências da inexistência  histórica de Jesus. Eu li cerca de 500 livros acadêmicos sobre mitologia cristã e, com base nos conhecimentos que adquiri, o mais perto que consigo chegar deste quase desconhecido profeta judeu de Jung é minha certeza absoluta de que, se Jesus existiu de fato, ele foi, na mais otimistas das hipóteses, seguidor de João Batista, um profeta judeu, popular e carismático e que foi injustamente assassinado pelas autoridades vigentes. O seguidor (que não se chamava necessariamente Jesus) tomou as dores de seu mestre e foi logo tirar satisfações com os governantes, em seus templos e fortalezas e chutou o pau da barraca, literalmente. Foi preso e sumariamente executado. Ele teve o que Andy Warhrol chamou de seus 15 minutos de fama. O seguidor tornou-se um herói pela sua coragem e ousadia e ganhou um nome apropriado: Yeshua em aramaico (Jesus em grego) que significa SALVAR. E o resto é apenas folclore. Mas na menos otimistas das hipóteses, Jesus foi inventado para substituir aquele profeta judeu, muito conhecido e popular e que foi assassinado por motivos políticos. Escrevi vários artigos acadêmicos sobre o mito Jesus e que resultaram em palestras públicas. Vários destes artigos serão publicados neste livro que estou postando neste blog. O primeiro deles chama-se ESCRAVOS TALENTOSOS, uma palestra que ministrei nos EUA. Este artigo bastaria para o leitor compreender onde começa e até onde vai este mito cristão. Outros artigos semelhantes a serem postados como A LENIÊNCIA, DRAMATICIDADE E CRIATIVIDADE DA MULHER APRESSADA: UM ENSAIO SOBRE MITOLOGIA CRISTÃ e O  TESTEMUNHO FLAVIANO são igualmente contundentes e irrefutáveis. Deixo agora o  campo da religiosidade, esta numinosidade de efeitos causados por atos objetivos imparciais que apoderam e dominam o sujeito humano, mais  sua vítima do que seu  criador. Retorno ao campo da unanimidade da qual fazem parte John Lennon e Carl Jung. Retomo aquela música chamada STRAWBERRY FIELDS FOREVER que pode ser uma unanimidade burra ou inteligente demais para a maioria das pessoas. Para entender é preciso lembrar como as músicas eram lançadas em discos nos 60. Os  artistas viviam mais de lançamentos dos chamados compactos simples, um pequeno disco de vinil contendo a música principal do lado A e uma menos importante do lado B. Um álbum com 12 músicas era uma objeto de luxo, algo que se dava como presente de natal. Mas então surgiram os Beatles que revolucionaram a música popular no mundo e transformaram o álbum (chamado de LP na época) de 12 faixas como uma nova forma de arte. Os artistas, cantores ou bandas que tinham repertórios bem limitados, costumavam compor, no máximo, uma ou duas músicas por ano. Para faturar um pouco mais com tais músicas que faziam sucesso nas paradas  musicais, eles criavam um álbum com uma ou no máximo duas canções de sucesso nas rádios e completavam o LP com outras 10 músicas fracas que na época eram chamadas de FILLERS (que significa algo parecido com o nosso enchimento de linguiça). Os Beatles, ao contrário, tinham repertorio demais. Todo álbum que eles lançavam era composto por 12 músicas de sucesso. E eles se deram ao luxo de jamais escolher uma ou duas músicas de cada álbum e lançá-las simultaneamente em compacto simples como faziam todos os artistas. Como eles tinham talento e músicas boas de sobra, estabeleceram uma regra: Nenhuma música de qualquer álbum seria lançada separadamente em compacto simples. Eles lançavam um álbum inteiro com músicas inéditas e compunham músicas à parte para serem lançadas apenas em compactos simples e que jamais fariam parte de um álbum, sempre fieis à filosofia da banda de que canções lançadas em compactos simples não deveriam estar nos álbuns novos. Desde 1962 até o final da banda em 1969, todos os álbuns e compactos dos Beatles alcançaram o primeiro lugar nas paradas de sucesso dos EUA e Grã Bretanha. O compacto contendo no lado A Penny Lane de Paul e Strawberry Fileds Forever de John no lado B (músicas que deveriam fazer parte do celebrado álbum Sgt Peppers) foi o primeiro a não chegar no topo das paradas. Alcançou apenas o segundo lugar, atrás da breguice de RELEASE ME de Engelbert Humperdinck. Para mim isso significa que uma unanimidade como Release Me pode ser burra, enquanto que uma obra-prima como Strawberry Fields Forever pode ser uma unanimidade  somente para pessoas inteligentes. Como a religião não faz parte de meu cardápio por ser indigesta à minha inteligência e nunca tive e jamais pretendi ter qualquer tipo de talento de reconhecimento público, sou indiferente ao sucesso dos outros e ao que vai pelo mundo. Não me preocupo com as consequências de meus atos. Convivo muito bem com meus fracassos. Nada me  deixa mais feliz do que falar e escrever o que penso, sem medo nenhum, sem precisar ser politicamente correto e enfadonho (como fazem cronistas de famosos jornais para manter seus empregos) num pais onde honestidade virou sinônimo de idiotice, onde ninguém mais sabe a diferença entre um político e um ladrão. Por isso, deixo correr o marfim, entendeu?  Não? Então explico: a expressão DEIXAR CORRER O MARFIM significa ser indiferente aos sucessos, ao que vai pelo mundo, não se preocupar com as consequências dum ato, e eu não me preocupo com porra nenhuma.