sábado, 1 de outubro de 2016

VOCÊ É LINDA DEMAIS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Minha vida é nova e ordinária. Meu coração é robusto e impuro desde a primeira comunhão. Meu destino é incerto e meu anjo da guarda anda inseguro com minha volubilidade. Ele evita palavras contundentes como rebeldia. Meu tempo estende-se por décadas. O de meu avô terminou, mas este velório parece infindável. Estive junto ao caixão, varei a noite improvisada em beira de cama e espalhado pelo chão. Levantei mal dormido e aquebrantado, desesperado por não ver nenhum sinal desse funeral chegar ao fim. Ruminei palavras vergonhosas e deixei escapá-las algumas vezes aos ouvidos de outros temperamentos jovens. Não ouvi admoestação, nem ecos de minha maldade. Há gente demais dentro da casa e fora dela. É difícil conter os bocejos e a irritação. O sol que se aproxima do meio-dia oferece-se para aliviar a monotonia das longas horas à meia-luz das velas, mas exaspera o desconforto com a delonga do ritual. Mas, afinal, que horas será esta porcaria de enterro! Não paro de esfregar os olhos sonolentos. Vejo aumentar o número de pessoas do lado de fora, encaminhando-se para os seus carros. Finalmente, fecharam o esquife de meu avô. Meu pai está no comando de tudo, como sempre. Sem ele não há enterro nem morte. Que desgosto ele teria se pudesse ler meus pensamentos! Não tem olhos marejados, nem peito apertado, porque sua vida é dura, mas linda. Sofreu calado nas mãos de meu avô desde os doze anos, subindo e descendo escadas de altos prédios em construção, carregando pesadas latas d’água e de cimento sobre os ombros que renderam-lhe um reumatismo de seis meses de cama com apenas vinte e um anos. Sem ajuda de ninguém, sem os estudos que lhe foram negados, ele conquistou sua independência financeira cedo e muitos precisaram dele. Mais do que todos, meu avô, que depois da meia-idade, depois de ter perdido tudo que ganhou com amantes e jogatinas, caiu derrotado e enfermo e foi abandonado por todos. Menos pelo meu pai que o acolheu e passou a cuidar dele como um filho incapacitado. Sobre meu avô ouvia-se apenas uma frase de meu pai: ‘Devo minha  profissão a ele’. A existência difícil que teve foi celebrada com generosidade. No cemitério todos querem estar junto à cova. Ninguém arreda o pé até o sepulto ser completamente cimentado. Meu tio desgarra-se da aglomeração e caminha solitário e lentamente pelas ruas delgadas, mãos cruzadas para trás, perscrutando os dois lados, sem ignorar nenhum bem-amado. Eu o sigo à distância até chegar à próxima quadra e ali me detenho. Lá está ela, cândida adolescente a caminho da puberdade, imersa, de corpo e alma, nos cuidados do túmulo. Nada desvia sua atenção. Nenhuma palavra vozeirada nas proximidades, nenhum vulto na sua visão periférica abstraída, nenhum transeunte caminhando a passos apressados e pesados pela sua alameda estreita, nenhum pássaro curioso pousado sobre a cruz sinalizando o mirante da sepultura. Gestos delicados deitam, gentilmente, flores na cobertura e aos pés da tumba. Ela agacha-se e levanta-se e cada movimento seu dita o ritmo de paz e quietude que flui no cemitério. Se há fantasmas em volta, hoje eles estão espantados. Uma última vistoria em torno da campa alinha seu rosto com o meu por fração de segundos. Cabelos negros, lisos e armados, realçam a alvura da face de feições harmônicas, que começa com uma testa graciosamente convexa, chega às sobrancelhas volumosas e bem aparadas, encimando olhos verdes, esmeraldas que reluzem solitárias no meio de um amontoado acinzentado. Abaixo deles, o pequeno nariz arrebitado, rodeado por maçãs levemente protuberantes que se curvam até o queixo esculpido à mão. Acima dele os lábios, moderadamente carnudos, estão fechados, sugerindo respeito, mas descontraídos, por trás dos quais parece haver a ligeira contração dos músculos faciais de Monalisa, como se houvesse um anjo com um sorriso sobreposto sobre seu semblante sem torná-lo facilmente perceptível. Ela prepara-se para partir. Meu tio passa por mim e alerta-me que todos estão indo embora. No carro a caminho de casa, a moça continua na minha retina. Não espero vê-la novamente e nem desejo. Ainda não consegui ir além da admiração e da paixão platônica. Mas quero preservar aquele precioso fragmento de segundo para sempre. Resolvi que ela dará origem ao meu décimo álbum, cuja faixa título falará da garota mais linda do mundo que eu vi num cemitério. O álbum está quase completo. Só falta a música principal que não consigo escrever e nunca escreverei, porque aquele breve momento foi concebido só para os olhos. Foi feito para ser visto e esquecido no reino dos mortos, como são esquecidas a maioria das pessoas comuns que sustentam o mundo, como meu avô, que dentro de poucas gerações será mais um dos muitos seres passageiros e esquecíveis e cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade. Aquela moça seguiu propiciando muitos instantes semelhantes, em circunstâncias diversas e, se quem os presenciou não experimentou igual êxtase, é porque, de fato, a beleza está somente nos olhos de quem a vê. Meus olhos a viram e morrerão com ela. Foi um instante de felicidade da qual a vida é feita e que não pôde ser ofuscado pela morte, nem de meu avô, nem de meu pai. Platão disse que sofrimento e felicidade andam sempre juntos. O  prazer nada mais é do que a supressão da dor. A visão daquela moça no cemitério  concedeu-me alívio para um pesar imaturo e desrespeitoso. Ensinou Lennon que a  vida é momentânea, sem tempo para fofocar e brigar, e não é nada mais do que um instante de prazer, e a morte nada mais do que o desfecho deste momento. Ensinou Sêneca que quem sente medo na hora da morte não foi feliz. A vida é linda demais para preocuparmo-nos com seu fim. E aquela moça era linda demais para eu imaginá-la só para mim.

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