sexta-feira, 16 de setembro de 2016

CIDADE DA MORANGA (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)
A noite tardia fica mais calada longe da agitação urbana. Ela não arfa e sua suave respiração é abafada por burburinhos do universo, remanescentes da grande explosão, uma explosão de querença. ‘Quero luz!’, gritou o negrume abissal quando só existia o nada. Quem comunga com o universo na madrugada, mesmo de olhos abertos, capta o eco de suas vibrações. De olhos fechados é possível ouvi-los e até vê-los. Matilda dirige com sua atenção visual toda voltada para a estrada, pois não é a todo instante que a caligem da noite é fosforeada pelos clarões artificiais das habitações que margeiam o caminho. Seus pensamentos se perdem nas lembranças de sua melhor amiga e se reencontram na imagem da cidade da moranga que ela guarda no seu inventário de processos e fatos psíquicos que atuam sobre sua conduta, mas que escapam ao âmbito da consciência de pessoas normais e nelas só irrompem em sonhos, em atos falhos, e em estados neuróticos ou psicóticos, quando a consciência não está vigilante. Nestes últimos vinte anos, Matilda passou por este mesmo caminho pelo menos duas vezes. Numa delas, voltando para casa, ela viu do lado direito da estrada quase o vale inteiro da moranga, mas não teve coragem de entrar na cidade. Não estava preparada ainda. Se não fosse sua necessidade de cumprir uma promessa feita à sua melhor amiga de redescobrir a cidade, ela teria ficado apenas com o registro da imagem da cidade com sua criptomnésia, que atua como uma câmera fotográfica que precisa só de uma fração de segundo de luz, e sem nenhum esforço da vontade ou da memória ela a retirou do seu patrimônio inconsciente. Ela é um cartão postal monocrômico, não muda nunca. No fundo há uma encosta, não muito acima do plano horizontal dos olhos, onde se amontoam casas acabadas que não lembram favelas ou periferias paupérrimas, e entre elas há entranhas, mas não muita vegetação. O grosso da cidade está no centro, abaixo do nível da estrada, mas os topos das edificações mais altas denunciam várias convenções de concreto. Uma igreja, a prefeitura, uma biblioteca, talvez a delegacia onde sua amiga esteve, talvez um dos vários hotéis, uma cidade destas deve ter pelo menos uns três, fora os motéis, ou talvez algumas pousadas. No primeiro plano, a cidade se esconde por baixo da estrada. Deve estar ali o matagal por onde sua amiga fugiu. Não será difícil traçar o percurso da última grande corrida da via dolorosa de sua amiga, quando voltava para casa sem um ponto de partida, ganhando a estrada numa noite caída, parou no acostamento sem motivo aparente, foi abordada por homens na escuridão num repente, embrenhou-se no matagal sem rumo confiável, foi seguida por dois numa perseguição implacável, avistou luzes com sinais de vida, deixou para trás ladrões na noite vencida, andou pelas ruas sem encontrar uma delegacia, decidiu descansar e refletir numa hospedaria, lendo um jornal com uma manchete da antiguidade, que a seduziu pela morte na clandestinidade, acordou-a na manhã sem resposta ao seu quesito, tendo repreendida sua curiosidade num distrito, e voltou para casa com um enigma sonhado, e lembrou-se da cidade com nome transliterado, para onde hoje Matilda retorna vinte anos depois sem a escrita de Zeus, para desvendar o mistério da moranga nas linhas tortas de Deus.