sábado, 24 de setembro de 2016

CONFLITO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

A noite é fria e longa, Um inverno infinito e nebuloso, Também sou filha do céu, Fui formada por um sorriso Seu, E nunca brinquei com as asas dos anjos, Arcanjos, Serafins e querubins, Nunca de Ti e dele descuidei, E se Você julga que, Por um único instante, De Ti não lembrei, Que nenhuma lágrima caia sobre o sepulcro em que eu jazer, Sempre fui devota de tudo que para Ti é sagrado, Como Você é servido, Mas sumiu-me na vida meu filho, Desamparando esta mãe, Viúva de alegrias, Órfã de orgulho, Solteira de esperança, E hoje, Aqui fora, Com a lua negra, Lamurio-me com os raros amigos que ainda se dignam a acercar-se, Os demônios, As musas, As ninfas, As harpias, As parcas, E busco, Em pensamento, O santuário da deusa dos mortos, E estas palavras Suas sussurradas de última hora não irão me deter, Não vou entrar no meu quarto, Sentar-me em minha cama, Pôr-me a ponderar que plantei um árvore num quintal, Que coloquei um filho no mundo, E que meus descendentes escreverão em suas conversas o que foi minha existência quando eu deixar de ser mãe nesta terra, Já não sou genitora, Não terei pósteros, Já me encontro no saguão da diva do submundo, Gelado, Forrado de espelhos que refletem minha alma, Congelam minhas lágrimas e meus temores, Suas insistentes abonações não me levarão a desistir, Não vou recostar minha cabeça no travesseiro, Nem ver pela janela aberta as estrelas mergulhando na escuridão, Não vou orar de olhos descerrados, E não espero que minhas reflexões pareçam pétalas flutuando no ar da aurora, Estão minha mente e meu coração voltados para rosto da diva dos que perderam o revestimento do espírito, Ela tem garras, Não sei se perfuram ou abraçam, Adentro seu hall de olhos escuros, E espero descerrá-los diante de um jardim de consolo, Não sei porque Você me pergunta se encontrei paz no meu coração e descanso para minha alma, Me encontro dentro do sacrário da divindade, Muito aquém de Suas lembranças, Vejo caírem em sono profundo, As almas ainda não nascidas, Seus contínuos murmúrios são tardios, Nunca me vi surpreendida com a neve que cobre todo o chão, Como os sinos que ecoam pela atmosfera, Como se fosse o primeiro inverno, Louvada seja você, Deusa dos mortos, Minha sombra anda ao seu lado, Sinto sua generosidade, E entendo a vida, Alguém em que sempre acreditei, O Deus da vida, persevera em me perguntar se já encontrei paz no meu coração e descanso para minha alma, Deusa oculta, Fale a Ele sobre seu poder, Sele meu destino, Atenue meu sofrimento, Ampare meu filho perdido, Porquanto Ele continua a dizer-me que o sol ergue-se todos os dias, Sobre as águas turbulentas do mar e sobre as areias escaldantes do deserto, Diga a Ele que aqui, Em seu templo, O dia também é frio, Nebuloso, Mas vejo tudo claro, Mesmo sob este perpétuo nevoeiro, E Ele agora fala pelo meu filho, Alega que já encontrou paz no seu coração e descanso para sua alma, Pede-me para dormir e esperar, Esperar a primavera e o outono se revezarem, Esperar o dia e a noite se completarem, Diz que Deus escreveu um lindo livro para todos os homens, Plantou um formoso jardim na terra, E sacrificou seu único filho para que hoje pudéssemos ter paz em nossos corações e descanso para nossas almas, E para que, Quando estivessem separados aqui, Pudéssemos nos reencontrar acolá, Minha deusa, Em quem devo acreditar? O único filho Dele nunca retornou, Você pode fazer o meu voltar? Ou devo morrer também para saber em que acreditar?



video