sábado, 1 de outubro de 2016

DEUS SALVE A RAINHA MARY QUANT!



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Todo mundo diz que sua época foi a melhor de todas. Isso dizia meu pai sobre os anos 40 e minhas filhas sobre os anos 90. Desculpem-me os mais idosos e os mais novos. Eu tive o privilégio de chegar à juventude em plenos e gloriosos anos 60 que deram início e atingiram o auge da criatividade, liberdade, da magia e de todas as melhores manifestações e expressões de cultura e arte as quais você pode dar o nome de SONHO. Foram seis anos de puro encantamento: de 1964 a 1969. Se você tinha entre 15 e 19 anos, como eu tive, nestes anos, então você ouviu falar deste sonho. Se você viveu num país atingido em cheio por esta vara de condão de prestidigitação, então você pode ter estado bem perto ou até mesmo dentro dele. O centro desta nova onda foi uma estrela chamada música em torno da qual todos esplendores da juventude giravam. Mas não foi qualquer música. Foi um som único no mundo com a marca da originalidade, beleza e êxtase total. Uma música vinda de muito longe, do Reino Unido, que mal sacudiu a terra de Vitória e logo veio aportar na terra das oportunidades. A América já tinha sua música, que os britânicos tomaram emprestado e europeizaram, e, inconscientemente, preparava uma campo libertino e minado pronto para explodir, precisando apenas de um catalisador: os Beatles e seus pares britânicos invadiram a América e, de roldão, o resto do mundo, e transformaram a música popular para sempre. E tudo que entrava nos EUA rebatia aqui no quinto dos infernos que tinha, e ainda tem, Sampa como o centro de tudo, onde tudo acontece. Sampa fervilhava com vários gêneros: bossa nova importada do Rio, Tropicália da Bahia e jovem guarda da própria Pauliceia desvairada. Mas era música de gente careta. A juventude COOL (contrário de careta) só curtia música de primeiro mundo. Garotos e garotas formavam grandes turmas e todo santo sábado havia baile (balada nos dias de hoje) na casa de alguém onde só rolava música britânica e, paradoxalmente, muita música americana também porque esta pegou a febre britânica e lançou um monte de música comercial e dançante, basicamente tocada por bandas que duravam menos de um ano, os famosos ONE HIT WONDERS. Realizar baladas todos os fins de semana não era, como nos dias de hoje, um pretexto para transar. Não era preciso explicar para ninguém que o momento que se vivia era mágico. Intuitiva e inconscientemente os jovens marcavam encontros semanais para celebrar esta curta fase fascinante e inigualável de suas vidas, como num ritual, fraterno, sem brigas, etéreo, transcendental, divino. O nome para tudo isso era PSICODÉLICO. Todo mundo vinha vestido a caráter: com as extravagantes e incrementadas roupas inglesas. Graças aos britânicos mais uma vez, as meninas vinham de minissaia, inventada pela estilista Mary Quant em Londres. Não é à toa que ela acabou recebendo a maior condecoração da Grã-Bretanha: MBE (Membro do Império Britânico). E bem que as garotas brasileiras da minha época também mereciam um premio igualmente apoteótico porque elas davam a nós, garotos, a oportunidade de conhecer as cores das calcinhas de todas elas, inclusive a cor do pelo pubiano das que nada usavam por baixo. DEUS SALVE A RAINHA MARY QUANT! Os garotos iam de calça LEE apertada, camisa bufante, colete, cinturão e bota de salto carrapeta. Já consegue imaginar o cenário! Tudo girava em torno da fantástica música da SWINGING LONDON. A juventude reunia-se para confraternizar-se, ouvir música, dançar, beber e fumar.  No meio da balada rolava música dançante e ingênua. Mas não se enganem! As meninas não eram nada ingênuas e tampouco promiscuas! No meio daquele frenesi rolava sexo apenas como mais um acessório. Entendeu? Acho que não. Quando tocava música lenta, dançava-se de rosto e coxas coladas. Quando tocava rock da pesada, o par não se tocava e fazia coreografias estroboscópicas como as luzes que saiam do teto e das paredes, como JUMPING JACK FLASHES. Normalmente, tanto o garoto como a garota dançava segurando um copo de cuba libre (rum com Coca-Cola) numa mão, e um baseado na outra. Não havia acanhamento, rodeios e nem preliminares. O pessoal chegava e punha para quebrar, e sempre começava um baile com força total, com um petardo dos Rolling Stones, ou com uma efêmera música americana, como a Mary, Mary, dos Monkees. A galera entrava em transe, mas ninguém terminava a noite caindo pelas tabelas e os garotos costumavam acompanhar, cavalheirosamente todas as garotas de volta às suas casas. Não entendeu? Não te culpo por isso. É perda de tempo tentar resgatar o verdadeiro espírito da época em que se viveu. Pois, como Doris Lessing escreveu, tentar reproduzir o ambiente  moral de uma era é o mesmo que tentar reproduzir a qualidade de um sonho, pois nenhum tipo de comunicação é possível, a menos que outra pessoa tenha tido o mesmo sonho que você teve e disso você não poderá ter nenhuma prova ou garantia, mas somente confiança e fé. Eu e muitas pessoas tivemos o mesmo sonho. Se você não teve, lamento. Mas o espírito das minissaias você entendeu.


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