sábado, 24 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 86 A 94 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Numa ocasião, o Mensageiro da Enganação convidou Tilly para ir a sua casa para ouvir música, bebericar e jogar conversa fora. Tilly achou que talvez esse fosse um bom momento para passar a limpo as lições preliminares e improvisadas sobre os discos voadores que não ficaram claras no primeiro encontro. Enquanto Tilly esperava uma deixa, o Mensageiro pôs um disco para rolar na vitrola com o volume baixo para não atrapalhar a conversa. Os ouvidos sensíveis e afinados de Tilly logo identificaram um som familiar e rejuvenescido que proporcionava uma sensação agradável e emocionante como ele nunca mais ouvira desde os tempos gloriosos do psicodelismo. Ele pediu para aumentar o volume e ficou todo arrepiado:
Quem são estes caras?
O Mensageiro respondeu que era o mais recente álbum do The Who, aquela banda que poderia ter sido a favorita de Tilly. Aquela que quando Tilly ouviu pela primeira vez o fez procurar seu amigo de adolescência e de panelinha e com quem formou uma dupla chamada The Two Flys.
Meu deus misericordioso e cheio de graça, apareceu um conjunto melhor que os Beatles.
O The Who havia passado pela vida de Tilly como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e Tilly não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião Tilly já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.
Mas agora, sem saber, o Mensageiro havia devolvido a Tilly sua paixão pela música e a ela Tilly se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e Tilly os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma banda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepujá-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e Tilly almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Tilly nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, Tilly poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abrí-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.
Quando Tilly se viu pela primeira vez frente a frente com o penúltimo álbum da banda chamado Face Dances ficou por vários minutos enfeitiçado pela atraente capa do disco de vinil exposta na vitrine de uma loja de shopping. Seus olhos infantis cintilavam como no dia que ele ganhou o primeiro trenzinho do Papai Noel. O brinquedo que se deixava ver e não se tocar por trás da barreira de vidro tinha um invólucro que lembrava a forma do A Hard Day's Night de vinte rostos em preto e branco, tirados de uma imitação de rolo de um filme fotográfico e dispostos em cinco colunas e cinco linhas, todos eles separados por molduras de azul comum, mas a embalagem de Face Dances era mais encantadora com aquele tabuleiro de dezesseis caras maiores, aquareladas, estilizadas, rabiscadas, deformadas, picasseadas, assombradas, irreconhecíveis, e de uma beleza que está somente nos olhos de quem a vê, como os olhos de Tilly cuja mente embriagada de adjetivos fastidiosamente rimados é perdoada porquanto aqueles rostos dançavam em volta de sua cabeça e lhe sussurravam no ouvido que as músicas que os embalavam valiam qualquer estouro no orçamento.
Imagino-te como Lúcia no céu com diamantes. Coloco-te em movimento como um caleidoscópio de polichinelos pulsantes. Dou vazão à sua gentil leveza como uma exposição de borboletas esvoaçantes. Amplio-te no firmamento como um arco-íris que ganhou palhetas abertas em leques radiantes. Retenho em minhas pupilas a graça e a meiguice de seu olhar de uma miríade de gérberas deslumbrantes.
Tilly estava, intolerantemente, convicto de que o The Who era a melhor de todas as bandas e precisava avisar os outros. Mas os outros eram em número infinitamente menor que os seguidores do Elias reencarnado e entre eles pouquíssimos eram aqueles que apreciavam a música britânica, se é que algum deles soubesse a diferença entre a música britânica e as demais, e entre os poucos conhecedores, raríssimos eram aqueles que estavam dispostos a confrontar os Beatles com qualquer outra coisa menor do que o Rolling Stones. O novo público de Tilly era minúsculo, como o do Nazareno, limitado ao seu próprio criador, como esta história que, no início, só tem seu escritor como audiência e que está fadada a ser apenas um João Batista, o menor de todos no reino de deus. O único que poderia ter ouvidos de ouvir Tilly era o Mensageiro e não foi por acaso que ele foi escolhido por Tilly receber sobre sua cabeça o impacto avassalador de uma estrela branca como Deneb, sufocante de tão quente, esmagadora com a sua massa vinte e cinco vezes maior, e ofuscante com sua luminosidade 200 mil vezes mais intensa. A bem da verdade, o Mensageiro não devia sentir muita dor porque quando ele comparecia àqueles esporádicos encontros de assuntos marcados com Tilly, depois dos cumprimentos de praxe ele não falava sobre o tempo, mas ia logo perguntando a que horas o bar abria, de modo que bem antes do lá pelas tantas ele já estava anestesiado com whisky, vodca e cerveja, e pouco antes das altas horas saía completamente encharcado, mas andando com a elegância de um cadáver embebido em formol sem respingar. Nessas condições, é difícil saber se ele sentia algum prazer, mas há que se louvar sua nobreza expiatória que pode ser mais bem apreciada colocando-se no lugar de Yoko Ono quando ela foi obrigada a ouvir aquele jovem baixo, forte e rico cantar Imagine de John Lennon especialmente para ela.

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