sábado, 1 de outubro de 2016

ESPÍRITO SEGUNDO UM HUMANO (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98, Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo




Cadê você, seu inconstante,que não sai do lado oculto da lua,
que tem mais fama que o nome que eu uso para te invocar,
e que sempre me deixa falando sozinho,
tanto no meu lugar que me amedronta,
como no lugar dos outros que não me afronta?
E por que esse seu apego pelo umbral da noite,
que traz caligem aos meus dias iluminados,
que nascem com o orvalho da terra
e se derretem com o fogo do sol,
que não se debela com água de tempestades
tampouco tremula com o ar de ventanias?

Eis aí você, seu casual,
que surge do nada, do lado invisível da lua,
e vem me procurar só por meio de sincronicidade, e mesmo que eu não te chame,
faz sua aparição parecer mera coincidência,
para onde quer que meu lugar tenha se mudado!
E por que você vem buscar ar do meu arfar,
e ainda nele se disfarça quando desce à terra,
valendo-se da minha água que não te molha,
e de meu fogo que não te queima?

Aqui me tens, seu pacificador,
que não faz se acompanhar de inimigos,
e não lança o lado obscuro da lua contra sua própria obscuridade!
Fale comigo com seus olhos!
Faça telepatia comigo nos meus sonhos!
Acorde durante minha vigília!
Mostre-me sua feição renovada da terra!
Não me confunda com fogo amigo!
Veja a água das minhas lágrimas assustadas!
Sinta o ar das minhas preces murmuradas!

Para onde você vai, seu atemporal,
que teima em não aparecer no lado visível da lua
e se deixa abandonar sempre no seu lado sombrio?
Zele pelos que ficam comigo,
porque não sei o que de você esperar,
e só sei que mais lhe peço do que tenho para lhe dar!
Apareça diante de mim como vapor d'água,
que não pode ser bebida pela terra,
e desapareça com o apagar do fogo de minha vela, e se dissipe com meu incenso que esteriliza o ar!

Eu sou feito de água, terra, fogo e ar
e você é o irrepresentável
que quintessencia minha alma vulgar



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