sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MENSAGEIROS DA ENGANAÇÃO



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Meu amigo Zen, espero que você não se importe de chamá-lo de amigo depois de seus 14 anos de afastamento, rompendo uma amizade de 20 anos. Somente no último dia 12 de Setembro de 2014 descobri, por acaso, na internet, que você morreu no dia 16 de Fevereiro de 2014. Acho que não foram poucas nem simples as razões que o levaram a se afastar, e creio que conheço algumas delas, mas somente você pode dizer quais foram os verdadeiros motivos. Na última vez que tivemos um encontro formal, na minha casa, por ocasião de minha festa de bodas de prata com minha ex-esposa em Abril de 2000, você estava muito bem, depois de ter se curado do alcoolismo. Estava magro, esbelto, elegante, só tomava refrigerante e vestia roupas incrementadas, próprias do gosto que temos em comum: calça jeans, camiseta preta e colete. Mas naquele dia eu já desconfiava que você estava de partida, pois isolou-se no quintal da casa e mal pude conversar com você. Talvez você não se sentisse à vontade sem a presença de  meu ex-irmão, seu amigo antes de me conhecer. Como você deve ter sabido, através da minha ex-família hipócrita que inventou e espalhou aos quatro ventos minha fama de mau caráter, dois anos mais tarde minha vida deu uma guinada de 360 graus. Divorciei-me e logo em seguida casei com a Cecília. Moramos um ano em Belo Horizonte, lá tivemos a Ana Carolina, e em Outubro de 2003 voltamos para São Paulo. No primeiro semestre de 2004, eu passeava com a Cecília e a Ana no Shopping Center Norte e, de repente, topei com você e a Fátima numa casa de sucos. Ao nos abraçarmos, pela primeira vez você deixou de ser espontâneo e proferiu uma frase rebuscada: Ah, o Alceu é uma pessoa que não dá para esquecer. Mas você tinha me esquecido e eu não estava chateado com isso. No entanto, você me surpreendeu com sua resposta à minha pergunta sobre como andava sua saúde: Alceu, nunca imaginei que depressão fosse assim tão terrível. Nunca imaginei que um dia ficaria semanas deitado numa cama, sem tomar banho, sem trocar de roupa, sem escovar os dentes, e fazendo um esforço hercúleo para poder ir ao banheiro. Na hora lembrei-me do dia em que sua mãe morreu. Você estava indignado com minha falta de consideração por não ter ido nem ao velório e nem ao enterro. Você perguntou ao meu ex-irmão: Por que o Alceu não veio? Ocorre, meu amigo Zen, que naqueles dias minha  depressão, que nasceu e vai morrer comigo, tinha atingido o auge do sofrimento humano, a dor da alma, e como você eu estava deitado num sofá havia semanas, sem tomar banho, sem trocar de roupa, sem escovar os dentes, comendo e engordando como um porco, e fazendo o mesmo esforço hercúleo para ir ao banheiro. Nunca te contei isso porque você não iria acreditar e, como você, eu também não gostava de me justificar. Como sempre fiz, não por mera formalidade, mas por afeição mesmo, anotei num papel meu novo endereço e meu novo telefone e fiquei esperando você aparecer em casa, como nos velhos tempos. Mas eu sabia que nunca mais o veria. Para falar a verdade, não sentia saudades de você. Só saudade de nossos encontros de sábados, desde o meio da tarde até além da meia-noite, vendo vídeos e ouvindo rock britânico, jogando conversa fora e bebendo todas: vodka, whisky e cerveja, e é por isso que a maior parte dos nossos papos iam para o lixo mesmo. Obviamente, se estou escrevendo sobre você e para você é porque a sua morte  deixou-me, no mínimo, triste, e porque quero prestar-lhe uma homenagem em agradecimento por você ter me concedido o privilégio de sua amizade por duas décadas. Mas não espere de mim a falsidade das pessoas que costumam elogiar à exaustão uma pessoa só quando ela morre. Sei que você teve uma juventude traumática e que nunca gostou de falar sobre isso. Foi meu ex-irmão quem me disse que quando você fazia nosso antigo científico do ensino fundamental no GEPEF em Jaçanã, onde também estudei, você já tinha nobres ideais e se engajou no movimento estudantil contra a ditadura militar. Você foi detido, interrogado, liberado, mas perseguido e vigiado durante dez anos. Todas as manhãs quando você saía para trabalhar, sempre havia um homem do outro lado da calçada te observando. E às vezes até dentro do ônibus que você tomava. E quando voltava para casa lá estava do outro lado calçada outro homem de olho em você. Foi também me ex-irmão quem me disse que você queria ser médico. Tentou o vestibular três anos seguidos, mas não conseguiu passar. Talvez tenhamos perdido um grande médico, mas ganhamos um extraordinário jornalista. Eu também queria ser jornalista como você, mas desisti por medo e covardia. Tinha receio de enfrentar um vestibular com provas de ciências exatas, matemática, física e química. Então, simplesmente escolhi um vestibular que tivesse ciências humanas como maior peso nas notas. Fiz faculdade de Língua e Literatura Americana e Britânica e depois Administração de Empresas na PUCSP, a mesma onde você fez jornalismo. Daí que ao final dos anos 70 estamos formados e trabalhando e vamos nos conhecer através de meu ex-irmão. Durante nosso primeiro encontro eu estava obcecado com minhas pesquisas sobre discos voadores e torrei seu saco por mais de uma hora contando histórias sobre eles. Qualquer pessoa teria evitado um chato como eu para sempre, mas você não o fez, e não sei por quê. Talvez porque você descobriu que tínhamos algo em comum, como você tinha com o meu ex-irmão: a música, mas  não qualquer música: o rock, mas não qualquer rock: o britânico e a Santíssima Trindade: o Pai (Beatles), o Filho (Rolling Stones) e o Espírito Santo (The Who). Apesar da relação de parentesco entre Pai e Filho, ninguém era cria de ninguém. Cada um inventou seu próprio estilo, e cada um de nós tinha sua banda favorita. Cada um de nós tinha seus problemas e suas carências. A sua percebi logo no início dos anos 80, quando você ainda trabalhava na prefeitura de São Paulo. Na tarde de um dia de semana você ligou da prefeitura para minha casa e eu atendi: Pô, Alceu, você esqueceu de mim? Não liga mais para mim? Não quer mais me ver? Vamos nos encontrar, pô! Você era solteiro e morava com seus pais e eu não tinha seus telefones. Quem os tinha era meu ex-irmão. Então te convidei para vir à minha casa no sábado, para a festa de aniversário de uma de minhas ex-filhas do meu primeiro casamento. Era uma festa só para crianças, mas você veio e juntos tomamos de tudo, menos refrigerante. Em compensação, te flagelei como na paixão de cristo. Quantas vezes te obriguei a assistir ao mesmo vídeo do show do The Who de 1982? Dez vezes? Não sei como você me aguentava. Meu ex-irmão contrabalançava as coisas e colocava vídeos de shows do Rolling Stones. Era divertido quando você me provocava. Alceu, o The Who é bom, mas os Stones são imbatíveis. Em nossos encontros nunca rolou música brasileira, mas sei que você gostava, e muito, Quando você pegava no violão, você tocava e cantava bem, sempre bossa nova, às vezes Jorge Ben Jor, e às vezes até o Tremendão. Você nunca se arriscava a tocar Beatles, Stones e The Who como eu. Às vezes você tinha acessos de loucura como, por exemplo, me dizer que a bossa nova foi a maior revolução na história da música no mundo. Toda pessoa super culta e inteligente como você tem um pouco de louco, embora exista por aí muita gente que é burra e doida ao mesmo tempo. O mundo inteiro sabe que foram os Beatles que revolucionaram e reinventaram a música. Antes deles só havia Mozart, Beethoven, Bach e outros gênios da música clássica. E cá entre nós, bossa nova é música para boi dormir, para gente velha. E nós não somos velhos? Já passamos dos 60! Mas o Alceu ainda tem dentro dele o mesmo jovem de 20 anos, rebelde, radical, ingênuo e cada vez que ele vai a Londres sempre traz novidades britânicas, novas bandas de rock formadas por garotos de 18 anos. Não sei que estado de espírito você levou consigo quando partiu, mas sei o que você deixou: um competente trabalho editorial no jornal da TV Bandeirantes; uma verdadeira revolução no telejornalismo esportivo quando você assumiu o comando do programa Vitória e colocou somente nosso rock como música de fundo, algo que a Rede Globo copiou de você e usou no programa Esporte Espetacular como se fosse ideia original dela. E não foi por isso que você recusou um convite para trabalhar para ela, mas porque você a achava hipócrita e manipuladora da opinião pública. Mesmo assim, quando o Serginho Grossman veio lhe pedir um conselho sobre se deveria aceitar ou não um convite para trabalhar na Globo, você, percebendo nos olhos dele o alto salário que lhe fora oferecido, simplesmente respondeu: Vá em frente, Sérgio, faça o que lhe dá prazer! Como esquecer as vezes em que você me dizia: Alceu, no próximo domingo vou abrir o programa Vitória com a primeira faixa do álbum Tommy do The Who especialmente para você? Como esquecer o dia que você fez um programa especial sobre Eric Clapton em visita ao Brasil e enviou a equipe da Cultura à casa de meu ex-irmão para nos entrevistar na condição de fãs deste grande músico britânico. Além do Vitória, você renovou e inovou o programa Vitrine da TV Cultura, e ficou pouco tempo na direção do programa Metrópole porque a equipe que lá trabalhava era uma panelinha viciada e não conseguia acompanhar seu raciocínio. Como esquecer a entrevista histórica que você fez com o Pelé quando ele completou 50 anos? Quantas pessoas sabem (ou fingem não saber) que a revista Veja lhe concedeu prêmios de melhor tele jornalista e produtor pelo seu trabalho original e inteligente? E só eu conheci a sua dignidade e integridade quando pediu demissão da ESPN Brasil porque lhe pediram para bater de porta em porta nas empresas para encontrar patrocinadores para seu programa. Olha aqui, José Trajano, este não é meu trabalho, não é minha função, sou jornalista, por isso estou caindo fora. Isto vai ser bom para mim e para você também. Nunca fui inteligente, mas também tinha meus acessos de loucura. Certa vez, quando elogiei demais a banda britânica Cocteau Twins, de quem tenho o repertório completo, você me gozou: Por que você não divide uma quitinete com eles? Que é isso, companheiro? Eles criaram seu próprio estilo, mesclando psicodelismo com sons celestiais e rock áspero, nada comercial. Quer saber de uma coisa, pouquíssimos músicos são capazes de compor uma canção como Fifty-Fifty Clown, de complexidade comparável somente a Strawberry Fields Forever de John Lennon. Há outras reprovações suas que aceitei de bom grado. Nos anos 90 andei me envolvendo com espiritualistas e, como de costume, torrei seu saco mais uma vez com histórias sobre eles, sempre sob seu olhar de desaprovação, e acrescentei que eles, pelo menos, faziam caridade, formando grupos todos os fins de semana para levar alimento e roupas aos moradores de rua. E daí, Alceu? Bem daí que ao menos eles tinham a consciência tranquila. Que consciência, Alceu? Então me toquei. E como seriam suas vidas noite adentro ao relento, e durante o dia inteiro sob sol, frio e chuva, sem nenhuma perspectiva, sem um lar? Percebi, então, que meu trabalho de entrar em favelas para fazer triagens de famílias que iriam receber cesta básica durante um ano era uma tremenda cretinice. Eu não dava peixe e nem ensinava a pescar. Era cômodo para mim esperar que os pobres viessem de longe até mim para buscar uma cesta de alimentos. Eles voltariam para seus casebres de madeira e de chão de terra enquanto eu deitaria confortavelmente num sofá, assistindo TV a cabo, petiscando e bebericando. Só para mim você contou histórias tão íntimas. Alceu, eu fiz melhor que isso há muito tempo atrás, num pequeno convento de freiras católicas que deixavam o hábito de lado, vestiam jeans, tênis e camiseta, pegavam ônibus e iam de encontro aos pobres, não para lhes dar alimento e roupas, mas para ajudá-los a construir uma vida. Alceu, você precisa conhecer mais gente. E precisava mesmo. Estou falando de um Zen cristão? Não! Até onde sei você é ateu como eu e, além de falarmos de música, tínhamos altos papos sobre política, filosofia, sociologia, antropologia e até psicologia. E você não escondia sua simpatia pelo regime socialista dos soviéticos e cubanos. O povo não deveria gastar dinheiro com saúde, educação, habitação, transporte e nem alimentação. Isso é obrigação do governo. E você tinha ojeriza aos imperadores americanos que estão mais de um século à nossa frente, não só em tecnologia, mas também em moralidade. Mas é claro que eles não são santos. Ninguém é santo neste planeta, nem o papa, nem o rabino que afanava gravatas de griffe em Miami, nem o Dalai Lama e nem Madre Tereza. Você chegou a ouvir falar de suas noites escuras quando, já na velhice, ela colocou em dúvida a existência de Deus? Oras, dirá você, ser ateia não a transforma numa pessoa menos caridosa. E você sempre teve razão: um ateu é mais útil que um beato. Seu talento é proporcional à sua modéstia. Você nunca falou de si mesmo para ninguém. E quando descobri, por acaso, que você tem uma página no Facebook, ao contrário de muita gente de TV, jornal e revista que se acha uma celebridade, você jamais postou o que você fez, o que faz e o que vai fazer, jamais escreveu sobre tudo que você realizou na sua carreira de grande sucesso, jamais postou onde você esteve e onde estará, jamais disse quem você é. Você nunca foi aparecido, nem materialista, nem ambicioso. Nunca se vendeu por dinheiro. E deixou o estrelismo contagioso das grandes emissoras para ganhar menos e trabalhar em emissoras desconhecidas, como a TVT, seu penúltimo emprego e, antes de morrer, o SESC onde você estava realizando um projeto de música instrumental brasileira. Lembra-se quando, numa de nossas bebedeiras, lhe perguntei; Vamos escrever um livro em parceria? E você, com aquele sorriso de um canto da boca, retrucou: Alceu, você precisa parar de beber. Não sei se você referia-se somente à minha presunção ou à sua também. Enfim, o fato é que já escrevi um livro, uma antologia de centenas de textos variados, intitulado UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, de 280 páginas, com a mesma formatação do Ulisses de James Joyce, o mesmo número de caracteres por linha e a mesma quantidade de linhas por página. Com isso quero te dizer que o livro é cinco vezes mais longo que o Alquimista do Paulo Coelho, nosso Sílvio Santos da literatura. O livro está sendo publicado em partes no meu blog, de graça, e demorará um ano até estar por inteiro na internet. Quando digo de graça quero apenas salientar que jamais pagaria a um editora para publicar meu livro e, sendo um escritor de araque, mesmo que ele fosse impresso, ninguém o compraria, exceto minha mulher, minha filha, meus dois gatos e meus quatro cachorros. Se você tiver oportunidade de ler este livro, certamente você dirá que ele é, na verdade, uma antologia de fezes. No entanto, tenho certeza que você gostará do prefácio, porque nele faço referência ao livro de Pete Townshend, líder e mentor do The Who, chamado HORSE’S NECK (Pescoço de Cavalo), que serviu de inspiração para o título de meu livro, e que no Brasil foi traduzido com o título TREZE. Lembra-se do que você me disse quando lhe emprestei este livro? Alceu, isto sim é literatura das boas como não lia há muito tempo, e algumas pessoas lá na TV Cultura também leram e adoraram. Então, estou reproduzindo este prefácio para você ao final deste texto. Assim, meu amigo Zen, acabo de escrever mais páginas a um livro que já está pronto e agora você faz parte dele! Mas não era assim que eu queria deixar registrado sua passagem pela minha vida. A ideia sempre foi outra. Estou escrevendo um romance chamado VALE DA AMOREIRA. Vai estar pronto no final de 2015. Terá cerca de 300 páginas, com a mesma formatação de UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE CAVALO. O principal personagem deste livro chama-se Onedin. O segundo em importância chama-se Tilly, de quem muito se fala nas primeiras 70 páginas. A partir daí Onedin rouba o show até as últimas páginas, e só perde em excentricidade para o narrador, cuja verdadeira identidade não posso revelar até que o livro seja publicado. O narrador diz que Tilly conheceu você e ele lhe pôs o apelido de Mensageiro da Enganação. Isto não é uma crítica ou uma ofensa a você, mas apenas uma gozação, porque continuo sendo um gozador como você. Eu (e outras pessoas de meu convívio que você conheceu) achava engraçado o hábito que você adquiriu de marcar encontros, não comparecer e nem se justificar. Nunca  fiquei chateado com isso, apenas lamentava ter perdido mais uma oportunidade de desfrutar de sua boa companhia. A ideia para este apelido veio de um livro que li em inglês, chamado MESSENGERS OF DECEPTION, do cientista francês Jacques Vallée, com quem conversei nos EUA. Este livro foi mais tarde traduzido no Brasil com aquele nome, MENSAGEIROS DA ENGANAÇÃO, e o achei apropriado para nós dois, porque somos todos Deception MessengersMidnight Ramblers, mas não daqueles serial killers como os famosos Boston Stranglers. Em sua homenagem, transcrevo ao final deste texto as cinco páginas em sequencia nas quais o narrador, o guia espiritual de Tilly, aquela voz interior que Sócrates chamava de daimon, discorre sobre você, Tilly e Onedin. Em todos os textos que escrevo sempre incluo uma música, porque, como você sabe, aquele grande filósofo que nós dois tanto admiramos escreveu que sem música a vida seria um grande engano. Por isso até hoje não entendo como os gregos da época clássica, do século de Péricles, escreviam coisas tão inteligentes sem poderem se inspirar nas músicas que temos hoje. Não é à toa que eles são considerados os mais inteligentes deste planeta, o berço de nossa civilização ocidental. Portanto, estou incluindo um vídeo de sua banda favorita, os Rolling Stones. A música que escolhi é de um show ao vivo quando eles estavam no auge no final de nossos gloriosos anos 60. Tenho certeza que você venderia sua alma ao diabo se ele pudesse te levar para assistir àquele show. Resolvi incluir uma outra música que você vai achar um pé no saco. Ela não é muito boa, mas, enigmaticamente, ela traduziu meu estado de espírito enquanto escrevia este texto e me lembrava de nossos tempos juntos. Talvez ela seja apenas mais uma de minhas muitas carências. Mande um abraço aos nossos ídolos Brian Jones, Jimi Hendrix, Keith Moon, John Lennon, George Harrison e John Entwistle. Até breve, se você ainda quiser voltar a ser meu amigo.

São Paulo, Setembro de 2014.

PREFÁCIO DO LIVRO UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que estou escrevendo.

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários.

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando lí o artigo 'O escritor está nu', de Pilar Fazito, publicado no diário 'Digestivo Cultural' em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro.


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso. A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será 
publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais e em grupos, pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cristina, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014


AS CINCO PÁGINAS EM SEQUENCIA DO LIVRO VALE DA AMOREIRA NAS QUAIS O MENSAGEIRO DA ENGANAÇÃO É MENCIONADO CINCO VEZES

       Ao sabor das monções e em atrito com infortúnios, Tilly empreendia odisseias como um Ulisses retirante, instigado a sair em busca de aventuras, como se o destino não permitisse que sua vida tivesse interstícios ou sofresse solução de continuidade, sempre lhe aflorando uma nova veneta logo que uma velha começasse a minguar. Por onde andava Tilly ainda carregava consigo seu acervo de relatos sobre visitantes de outros cantos do universo e quando a ocasião se oferecia, por estar na entressafra e por falta do que falar, ele entortava novos incautos com as mesmas histórias, agora não mais com o mesmo entusiasmo amarelo e contagiante, mas apenas com uma centelha esbranquiçada e nada interessante. Um desses novos imprudentes não se empolgou nem um pouco com suas fábulas, mas se apaixonou por ele e logo se tornou seu novo cristo, mais tarde apelidado por Tilly de Mensageiro da Enganação, um nome inspirado no título de um livro do ufólogo Jacques Vallée.
Como acontece com todos os filhos do homem, Tilly passou por várias fases na vida, cada uma delas de duração variável e marcada por uma profusão de opiniões, interesses, vícios e credos que são despudoradamente jogados na privada de tempos em tempos deixando menos vergonha do que fedor. Mas Tilly sempre precisou de um eixo em torno do qual suas manias efêmeras e cíclicas pudessem orbitar elipticamente como um asteroide que não se importa quão longe ele possa às vezes estar de sua estrela mãe contanto que ela permaneça sempre lá, no mesmo lugar, sempre lançando luz sobre sua trajetória e mantendo sua cauda alinhadamente para trás tal qual os longos cabelos da moça acariciados pela brisa do mar. Este centro gravitacional era um ponto de referencia, um alguém que estivesse à sua altura em termos relativos, e abaixo dele e de deus em termos absolutos. Um tipo de guru não charlatão que desse mais do que validez às suas opiniões e ainda se prostrasse aos seus pés como uma divindade submissa. Não um líder que escolhesse sua meta e o conduzisse até ela, non ducor, duco, ou um conselheiro que sugerisse mudanças nos seus planos, ou um guia ou um orientador que lhe mostrasse o caminho, mas apenas uma diva que tivesse pelo menos algo em comum com ele, que tivesse um conhecimento geral aparentemente parco e que o motivasse a superá-lo, deixando-o ser o centro de suas atenções, ouvindo-o, admirando-o e engrandecendo-o e, ainda que pudesse ser autônoma para arrebanhar seus próprios admiradores, deveria se resignar com o papel de figurante para que Tilly se sobressaísse como o ator principal. Tal potestade podia ser filha de homem nascido de mulher, mas de natureza glamorosa, como a Miranda Priestly da moda cuja opinião é a única que importa, e deveria se apequenar sob a sombra de Tilly e ser pega para seu cristo particular, como o Personal Jesus do Depeche Mode. Tilly tinha ciúmes desmesurados dessas divindades e se melindrava a ponto de mandar tomar banho até mesmo seus familiares se estes lhe furtassem seu tempo com elas ou desviassem suas atenções para outras pessoas. Se suas deidades morressem, morreriam também todas suas motivações correspondentes ao período que atravessava e com elas Tilly podia se afogar como um salva-vidas despreparado que é levado para o fundo da água pelos braços fortes de um desesperado. Tilly tinha dificuldades crônicas para se livrar da dependência destas divindades, como um viciado inveterado que só consegue deixar as drogas com ajuda médica e ao custo de muito sofrimento. Só mesmo o tempo, o remédio que não faz mais efeito e a visão de uma nova imagem primitiva permitia que uma deia dessas fosse milagrosamente largada no esquecimento, num ostracismo involuntário. Na infância e na adolescência Tilly teve um cristo chamado Joe Citadino que nunca entendeu a indiferença e o desprezo de Tilly por conta do seu total desconhecimento das sequelas deixadas pelo abalo emocional e incurável que ele sofreu na juventude e que dividiu sua vida em duas: antes e depois do colapso.
Numa ocasião, o Mensageiro da Enganação convidou Tilly para ir à sua casa para ouvir música, bebericar e jogar conversa fora. Tilly achou que talvez esse fosse um bom momento para passar a limpo as lições preliminares e improvisadas sobre os discos voadores que não ficaram claras no primeiro encontro. Enquanto Tilly esperava uma deixa, o Mensageiro pôs um disco para rolar na vitrola com o volume baixo para não atrapalhar a conversa. Os ouvidos sensíveis e afinados de Tilly logo identificaram um som familiar e rejuvenescido que proporcionava uma sensação agradável e emocionante como ele nunca mais ouvira desde os tempos gloriosos do psicodelismo. Ele pediu para aumentar o volume e ficou todo arrepiado:
Quem são estes caras?
O Mensageiro respondeu que era o mais recente álbum do The Who, aquela banda que poderia ter sido a favorita de Tilly. Aquela que quando Tilly ouviu pela primeira vez o fez procurar seu amigo de adolescência e de panelinha e com quem formou uma dupla chamada The Two Flies.
Meu deus misericordioso e cheio de graça, apareceu um conjunto melhor que os Beatles.
O The Who havia passado pela vida de Tilly como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e Tilly não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião Tilly já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.
Mas agora, sem saber, o Mensageiro havia devolvido a Tilly sua paixão pela música e a ela Tilly se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e Tilly os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma banda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepujá-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e Tilly almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Tilly nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, Tilly poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abri-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.
Quando Tilly se viu pela primeira vez frente a frente com o penúltimo álbum da banda chamado Face Dances ficou por vários minutos enfeitiçado pela atraente capa do disco de vinil exposta na vitrine de uma loja de shopping. Seus olhos infantis cintilavam como no dia que ele ganhou o primeiro trenzinho do Papai Noel. O brinquedo que se deixava ver e não se tocar por trás da barreira de vidro tinha um invólucro que lembrava a forma do A Hard Day's Night de vinte rostos em preto e branco, tirados de uma imitação de rolo de um filme fotográfico e dispostos em cinco colunas e cinco linhas, todos eles separados por molduras de azul comum, mas a embalagem de Face Dances era mais encantadora com aquele tabuleiro de dezesseis caras maiores, aquareladas, estilizadas, rabiscadas, deformadas, picasseadas, assombradas, irreconhecíveis, e de uma beleza que está somente nos olhos de quem a vê, como os olhos de Tilly cuja mente embriagada de adjetivos fastidiosamente rimados é perdoada porquanto aqueles rostos dançavam em volta de sua cabeça e lhe sussurravam no ouvido que as músicas que os embalavam valiam qualquer estouro no orçamento.
Imagino-te como Lúcia no céu com diamantes. Coloco-te em movimento como um caleidoscópio de polichinelos pulsantes. Dou vazão à sua gentil leveza como uma exposição de borboletas esvoaçantes. Amplio-te no firmamento como um arco-íris que ganhou palhetas abertas em leques radiantes. Retenho em minhas pupilas a graça e a meiguice de seu olhar de uma miríade de gérberas deslumbrantes.
Tilly estava, intolerantemente, convicto de que o The Who era a melhor de todas as bandas e precisava avisar os outros. Mas os outros eram em número infinitamente menor que os seguidores do Elias reencarnado e entre eles pouquíssimos eram aqueles que apreciavam a música britânica, se é que algum deles soubesse a diferença entre a música britânica e as demais, e entre os poucos conhecedores, raríssimos eram aqueles que estavam dispostos a confrontar os Beatles com qualquer outra coisa menor do que o Rolling Stones. O novo público de Tilly era minúsculo, como o do Nazareno, limitado ao seu próprio criador, como esta história que, no início, só tem seu escritor como audiência e que está fadada a ser apenas um João Batista, o menor de todos no reino de deus. O único que poderia ter ouvidos de ouvir Tilly era o Mensageiro e não foi por acaso que ele foi escolhido por Tilly para receber sobre sua cabeça o impacto avassalador de uma estrela branca como Deneb, sufocante de tão quente, esmagadora com a sua massa vinte e cinco vezes maior, e ofuscante com sua luminosidade 200 mil vezes mais intensa. A bem da verdade, o Mensageiro não devia sentir muita dor porque quando ele comparecia àqueles encontros de assuntos marcados com Tilly, depois dos cumprimentos de praxe ele não falava sobre o tempo, mas ia logo perguntando a que horas o bar abria, de modo que bem antes do lá pelas tantas ele já estava anestesiado com whisky, wodka e cerveja, e pouco antes das altas horas saía completamente encharcado, mas andando com a elegância de um cadáver embebido em formol sem respingar. Nessas condições, é difícil saber se ele sentia algum prazer, mas há que se louvar sua nobreza expiatória que pode ser mais bem apreciada colocando-se no lugar de Yoko Ono quando ela foi obrigada a ouvir aquele jovem baixo, forte e rico cantar Imagine de John Lennon especialmente para ela. 
O daimon de Tilly costumava lhe dizer que a vida em si já é uma expiação e o aconselhava a carregar sua cruz com classe e jamais cair na tentação do satanás de aliviar o peso do seu fardo, e não ter com ele nenhum tipo de envolvimento, nem por brincadeira. O daimon de Tilly era adivinho, filósofo, profeta e cristológico.
Cuide para que não recaiam sobre ti carmas recalcitrantes por teres envaidecido o arqui-inimigo de deus na sua própria casa com a desculpa de que uma vez lá estando nada te custaria saudá-lo. Em verdade te digo, chegará um dia em que encontrarás o tinhoso numa boa hora e ele tentará te seduzir e te fazer hóspede em sua morada, se demorará na sua mestria cerimonial e tardará em lhe servir uma saideira de modo que para se desvencilhar dele terás que ser mais ardiloso que o próprio.
Tilly costumava participar a Onedin tudo o que seu daimon lhe dizia, e Onedin não só se encantava com essas histórias de gênios como também adorava remedá-las, parafraseá-las e parodiá-las, pelo simples prazer de entreter sua mente. Não existe nenhuma palavra no vocabulário desta língua ou de qualquer outra estrangeira que possa explicar Onedin. Espirituoso é um vocábulo atraente e tentador, mas está muito distante de uma definição apropriada para o caráter de Onedin. A maior dificuldade de se encontrar palavras para explicar a personalidade de Onedin talvez resida no fato dele sempre parecer se situar exatamente na fronteira que separa um gênio de um louco. Ele não era nem um, nem outro e tampouco um meio termo dos dois. Talvez fosse um novo tipo psicológico ainda não descoberto pelos cientistas. Talvez ele fosse aquela resposta que Tilly recebeu do Dr. Allen Hynek: Se eu dissesse de onde ele vem eu estaria mentindo, pois ninguém nem mesmo sabe o que ele é. Mas, como dizia aquele presidente burro e canalha, make no mistake about it, Onedin era humano e deste globo terrestre e nele vivia embora ele fosse capaz de se desvencilhar o suficiente de todos os laços da realidade relativa para criar seu próprio mundo. E ele vivia como qualquer cidadão que tem o direito de entrar numa biblioteca pública, folhear e tomar livros emprestados, devolve-los e consultar outros. Ele também ouvia vozes, mas nunca as atribuía a daimons. Nunca acreditou que alguém pensasse ou falasse por ele. Sempre achou que as vozes eram apenas ecos de seus próprios pensamentos, típicas de uma pessoa que, como ele, tinha o costume de constantemente falar com seus botões e confabular com sua consciência. Ele também tinha visões, mas nunca se deixou envolver por elas, e também jamais abstraiu delas qualquer ideia própria. Ele simplesmente as contemplava enquanto seu incansável inconsciente se incumbia do resto. Onedin era sociável, participativo, oferecido e de raciocínio rápido. Ele respondia a tudo, no ato, sem pensar muito e sem nenhuma intenção de zombar ou de pousar de engraçado e intelectual. Nenhuma pergunta ou observação a ele feita ficava sem resposta ou sem um comentário. Onedin só emudecia diante de Tilly, a quem ouvia atentamente, e para os demais falava tudo o que Tilly remoía em casa, sozinho, por horas a fio, lamentando-se sempre por não ter dito o que precisava ser dito na hora certa, e inutilmente se vangloriando de todas as respostas à altura que ele esculpia meticulosamente, imaginando o efeito que elas teriam produzido se fossem ditas nos instantes que já passaram e não voltam mais. Onedin era um anseio por rigidez de caráter aparentado por Tilly e este um sonho de liberalismo inconsciente representado por Onedin que não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas não totalmente desprovido de malícia beatificada, bondade mefistofélica, repentes irracionais e sobre-humanos. Era inútil querer encontrar em suas palavras beleza e elegância de expressão, vivacidade de matuto, ou ironia refinada e voltairiana. Onedin era também muito prestativo, ou pelo menos isso era o que ele fingia ser, e falava por falar, para não se omitir e não ser negligenciado, sempre com boa fluência e conteúdo, parecendo culto, mas era apenas um curioso, um palpiteiro afetado por criptomnésia crônica e, invariavelmente, se complicava, pois boa parte do que dizia sempre transgredia o contexto em que se encontrava. Onedin lembrava muita a morte quando esta cometia um deslize. Quanto mais ele queria consertar uma ideia mal formulada e mal compreendida, mais ele se alongava, iniciando um interminável corolário de complicações, mas ele sempre acabava encontrando meios de se safar tão intrincados quanto suas próprias enrascadas. Se não fosse o fato dele ter registrado esta história, ele seria mais uma pessoa inexplicável, passageira e esquecível, como Pacífico e Bombeiro, mais um ser cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade, um ser sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem e que não fazia sentido para os seres que a habitavam e nem para este universo que a abriga como uma das inúmeras e  pequenas incrustações num grão de areia do oceano. Se um dia Onedin apreendeu um pouco de ingenuidade no seu convívio com Tilly, este pouco de pureza que ele conservou foi contaminado pela perversão e hipocrisia da sociedade e pelo seu total desapego a juízos de conduta humana no que concerne conceitos do bem e do mal, mas o seu sarcasmo ficava reservado somente aos seus pensamentos que eram dirigidos mais enfática e desavergonhadamente aos perpetradores do mal, como o belzebu mutreteiro das advertências do daimon de Tilly.
Sabe, seu capeta, não querendo fazer média com o senhor, mas eu acho o seu inferno impecável. Estas fornalhas inspiradas no holocausto de Hiroshima são impagáveis. E eu que pensei que fosse encontrar aqui apenas aqueles caldeirões de pigmeus, fogueiras da santa inquisição e até mesmo aqueles fornos dos campos de concentração nazistas! Agora, essa sopa de merda que é servida aqui é simplesmente do caralho, ou melhor, do cu mesmo, e com certeza faria os mais finos paladares das moscas parasitas do distrito federal renderem-se ao seu inigualável sabor. E esse cheiro de enxofre então? É denso, substancioso e delirante! Nem todos os peidos de toda a humanidade soltos ao mesmo tempo se comparam a esse telecoteco em sovaco de nêga cheio de manteiga de se lambuzar e com catinga de macaco misturada com a de gambá. Estou tão chapado que vou voltar planando. O senhor me dá licença mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar meus amigos e convivas se iludindo com o reino absoluto dos céus depois de eu ter conhecido esta livre democracia terrena que não cobra dízimos e nem exige vestes nupciais para entrar. O senhor não perde por esperar! Este seu humilde e honrado penetra há de aqui regressar em breve como o melhor guia de almas e balas perdidas que esta zona maravilhosa cheia de encantos mil jamais viu.
Tilly exauriu tudo o que ele queria saber e divulgar sobre o The Who de maneira que não restou mais nenhuma gota etílica para transbordar o copo padecido e cheio de marolas que o Mensageiro da Enganação segurava com mãos trêmulas como se sofresse do mal de Parkinson. Este foi o início do fim do relacionamento entre os dois. A culpa não era do The Who, mas da falta de uma amizade genuína entre eles. Talvez a amizade entre eles servisse apenas para cada um exorcizar seus próprios demônios. Tilly, que se tornou seu companheiro de bebedeira, até que tentou. No auge de um de suas embriaguezes, Tilly propôs que os dois escrevessem um livro juntos, mas foi imediatamente ridicularizado. Tilly passou a ser tratado com mais compaixão e menos seriedade quando ele anunciou o abandono completo do fumo e do álcool por conta de um namoro que ele iniciara com algo que ele acreditava ser mais numinoso que um sonho, sendo que este em si já é algo demasiada e freudianamente infantil para a maioria para merecer crédito. Por fim, Tilly soltou um gás debochado, acintoso e fedorento na frente do Mensageiro o que lhe causou repulsa e indignação. O Mensageiro podia cair pelas tabelas, mas nunca perdia a compostura. Não soltava palavrões e nem urinava nas calças. Vomitava só quando chegava em casa. Assim, o cristo e o seu algoz fizeram um pacto não declarado de separação e nunca mais se viram. Da parte de Tilly, o que garantiu este afastamento definitivo foram aquela flatulência posta em liberdade incondicional, sua ausência no velório e no enterro da mãe do Mensageiro e sua recém-adquirida fama de embusteiro que se espalhou pela sua ex família hipócrita até chegar aos ouvidos do Mensageiro. E da parte deste, foi apenas seu incurável hábito de não honrar um compromisso. 

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