sábado, 1 de outubro de 2016

MILAGRES LITERÁRIOS (TRECHO DE UMA PALESTRA SOBRE MITOLOGIA CRISTÃ MINISTRADA EM SÃO PAULO)




Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Conforme já escrevi no meu texto SIMÃO DE CIRENE, uma ÚNICA pessoa INVENTOU o primeiro evangelho e moldou a moral do Ocidente até os nossos dias. Esta pessoa era da aristocracia e falava vários idiomas. Para inventar suas histórias ela leu MUITOS livros de diferentes nacionalidades que ela tinha à sua disposição e copiou muitas histórias e textos destes livros. No entanto, esta pessoa era extremamente criativa e foi ela quem inventou tudo que se lê nos evangelhos: parábolas, milagres, as andanças e os discursos moralistas de Jesus, suas controvérsias com seus opositores e até mesmo a paixão de Cristo: a prisão, julgamento, flagelo e morte de Jesus. Este evangelho recebeu da igreja cristã o nome de MARCOS, no entanto o autor não tinha esse nome porque ele era anônimo e jamais declinou seu verdadeiro nome. Muitas pessoas copiaram e ampliaram o evangelho de MARCOS e deram origem a vários outros evangelhos anônimos que receberam nomes fictícios da igreja cristã: MATEUS, LUCAS, JOÃO, etc. Lembrem-se: sempre que eu mencionar o nome MARCOS estou referindo-me à pessoa anônima que inventou o primeiro evangelho ao qual a igreja cristã dá o nome de MARCOS.

Peço aos leitores para que tenham paciência com a linguagem acadêmica dos  seis parágrafos seguintes que se fazem necessários. Do sétimo parágrafo em diante a leitura torna-se mais accessível, prática e de entendimento mais fácil.

Do ponto de vista acadêmico, podemos analisar este gênero literário chamado MILAGRES sob três aspectos: o sincrônico, o diacrônico e o funcional. Podemos, ainda, fazer uma abordagem mais profunda destas histórias de milagres examinando-as sincronicamente como formas estruturadas, diacronicamente como narrativas reproduzidas e do ponto de vista funcional como ações simbólicas.

O propósito aqui não é esgotar o assunto, pois isso não seria possível já que ocuparia o espaço de um livro. Portanto, para que o leitor possa apreender este estilo literário, meticulosamente elaborado, vou aqui dar apenas um único exemplo de um dos vários aspectos interessantes do modelo literário dos MILAGRES inventados por MARCOS, partindo de uma abordagem sincrônica.

Nestas histórias de milagres há diferentes gêneros, composições e motivos e todos eles podem ser analisados em profundidade adotando técnicas estruturalistas, e isto requer três passos. Primeiramente, é preciso dividir todos os textos interligados de um gênero particular em unidades menores e tentar, na medida do possível, classificar cada uma destas unidades, sejam elas pessoas, motivos ou temas.

Se todas as unidades ocorressem com igual probabilidade em posições específicas o texto seria completamente desprovido de estrutura. No entanto, até mesmo a pessoa mais leiga pode perceber, ao ler todas as histórias de milagres, que as posições das pessoas e dos motivos na sequência de um texto interligado NÃO SÃO arbitrárias, mas minuciosamente arquitetadas. Portanto, uma lista de todos os elementos literários de um gênero deve ser complementada por uma investigação de suas conexões composicionais. O terceiro passo consiste no exame das relações intrínsecas que existem entre todos os elementos específicos de um gênero independentemente da sequência composicional. Sempre que estes três passos são seguidos significa que técnicas estruturalistas estão sendo usadas. O método estruturalista analisa um texto como uma rede de relações. Aliás, este é o significado da palavra estrutura: a composição de um todo criada a partir da soma das relações entre elementos de conjuntos distintos e coerentes.

Quando se estuda o estilo literário empregado na invenção das histórias de milagres considera-se três elementos: personagens, motivos e temas. É importante frisar que estes elementos não são unidades gramaticais distintas de técnica narrativa que existem independentemente um do outro. Os personagens e os temas não têm vida própria lado a lado com os motivos. Eles só aparecem DENTRO dos motivos, embora possam ser separados um do outro.

Este espaço permite-me cobrir apenas um brevíssimo aspecto do elemento PERSONAGEM através da abordagem sincrônica. Na crítica da forma dos evangelhos, a abordagem sincrônica é assim definida: análise de formas ou gêneros literários, classificando similaridades e conexões entre textos cuja contemporaneidade numa determinada área cultural torna possível um agrupamento metodológico, mas não fundamental, da sucessão histórica de tais textos.

Então, O QUE são os PERSONAGENS como elementos literários nas histórias de milagres? Seria simples responder esta pergunta se fosse possível relacionar todas as pessoas que aparecem nas histórias de milagres: Jesus, os discípulos, os opositores e assim por diante. No entanto, para uma análise do gênero, não são os indivíduos que são importantes. O que é importante é o PAPEL que o indivíduo desempenha na história.

Se vocês lerem ATENTAMENTE todas as histórias de milagres relacionadas a CURAS notarão que NUNCA é o próprio ENFERMO quem pede ajuda. Sempre há alguém do lado dele que intercede e que pede ajuda para ele: um parente, um amigo, seu dono, gente que está por perto (do milagreiro). Esse é um dos SETE tipos de personagens que aparecem nessas histórias de milagres. Dá-se a esse personagem o nome de ACOMPANHANTE, aquele que acompanha o ENFERMO e pede ao MILAGREIRO (Jesus) para ajudá-lo.

Aqui vocês já perceberam uma peculiaridade interessante e singular no estilo literário de MARCOS: nos casos de CURAS o ENFERMO está sempre ACOMPANHADO por uma pessoa AMISTOSA que se incumbe de interceder junto ao MILAGREIRO. Isto por si já é muito interessante. Note ainda uma outra peculiaridade: o ACOMPANHANTE SEMPRE surge como se fosse um personagem importante, mas assim que ele pede ao MILAGREIRO para curar o ENFERMO ele sai de cena, simplesmente desaparece e fica relegado ao papel de um mero figurante. Os personagens evidenciados acabam sendo SEMPRE, em primeiro lugar, o MILAGREIRO, ator principal, e, em segundo lugar, o ENFERMO, coadjuvante.

Mais interessante ainda é o fato de MARCOS ter criado uma VARIANTE do personagem do ACOMPANHANTE para uma única história de cura e esta VARIANTE reaparece em MATEUS e LUCAS numa história de cura que ambos copiaram não de MARCOS, mas de um evangelho perdido conhecido como Q, da palavra QUELLE que em alemão significa FONTE.

Esta variante aparece nas curas À DISTÂNCIA, quando o ENFERMO não está presente em cena e introduz mudanças dramáticas no papel dos personagens: o ACOMPANHANTE passa a ser um SUPLICANTE porque ele não pode levar o ENFERMO até o MILAGREIRO. Ao contrário do ACOMPANHANTE que é sempre uma pessoa amistosa, o SUPLICANTE é um INIMIGO, um OPONENTE do MILAGREIRO. Ao contrário do ACOMPANHANTE, o SUPLICANTE não é um mero figurante e nem mesmo um coadjuvante como o ENFERMO quando este está presente em cena, mas um personagem tão importante quanto o próprio MILAGREIRO.

Apesar dessas mudanças dramáticas no papel dos personagens, o que mais chama a atenção é a mudança drástica no contexto do milagre em si. Na maioria das histórias de curas com as presenças do ENFERMO e de seu ACOMPANHANTE, MARCOS parece priorizar os poderes paranormais do MILAGREIRO, mas nas curas à distância o MILAGRE em si, isto é a CURA, não tem importância nenhuma. Nem mesmo o fato de o MILAGREIRO ter realizado uma cura sem a presença do ENFERMO tem algum valor. MARCOS demonstra, claramente, que ele está mais preocupado em INVENTAR um história de cura à distância para servir de contexto ao que mais lhe interessa: o diálogo entre o SUPLICANTE e o MILAGREIRO. Leia com atenção a história da cura à distância da filha de uma mulher estrangeira:

Marcos 7:24 Levantando-se, partiu dali para as terras de Tiro [e Sidom]. Tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse; no entanto, não pode ocultar-se,

Marcos 7:25 porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se-lhe aos pés.

Marcos 7:26 Esta mulher era grega, de origem siro-fenícia, e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônio.

Marcos 7:27 Mas Jesus lhe disse: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.

Marcos 7:28 Ela, porém, lhe respondeu: Sim, Senhor; mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças.

Marcos 7:29 Então, lhe disse: Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha.

Marcos 7:30 Voltando ela para casa, achou a menina sobre a cama, pois o demônio a deixara.

Os judeus da palestina dos primeiros séculos antes e depois da era cristã consideravam IMUNDOS todos os estrangeiros, que eram chamados, genericamente, de GENTIOS e, pejorativamente, de CÃES e PORCOS. Na história acima, a SUPLICANTE é uma estrangeira, uma gentia, e ao fazer um pedido de ajuda ao MILAGREIRO ela é humilhada por ele que a chama de CÃO, alegando que os judeus (as criancinhas) vêm em primeiro lugar.

MATEUS copiou está história de MARCOS e fez algumas pequenas mudanças para tornar o preconceito e a ofensa do MILAGREIRO (Jesus) contra os não judeus mais enfáticos:

Mateus 15:21 Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom.

Mateus 15:22 E eis que uma mulher cananeia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada.

Mateus 15:23 Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós.

Mateus 15:24 Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Mateus 15:25 Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me!

Mateus 15:26 Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.

Mateus 15:27 Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.

Mateus 15:28 Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.

Vocês que são cristãos devem estar assustados ao ler nos evangelhos que JESUS CRISTO, o MESSIAS que veio ao mundo para salvar a humanidade, é um judeu preconceituoso e que ainda humilha e ofende os estrangeiros.

Os teólogos que insistem em afirmar que as histórias contidas nos evangelhos NÃO foram inventadas, mas são verdadeiras, tentam, a todo custo, atenuar a hostilidade de Jesus afirmando que ele entendia que ele era o Messias profetizado no Antigo Testamento e que viria ao mundo para salvar apenas os judeus e que ele teria aberto uma exceção àquela estrangeira em função de sua persistência e fé.

Os acadêmicos do mundo inteiro têm várias explicações para esta hostilidade de Jesus. Uma delas diz que MARCOS escreveu seu evangelho numa cidade fora da Palestina (ISTO É VERDADE) para um público não necessariamente judeu, mas principalmente gentio (ISTO TAMBÉM É VERDADE) e, com esta história da cura da filha de uma estrangeira, MARCOS quis demonstrar que, embora Jesus tivesse vindo ao mundo para salvar apenas os judeus, ele acabou estendendo a salvação a todos os povos do mundo. Mesmo que esta última assertiva seja verdadeira, nenhum acadêmico consegue explicar porque Jesus fez questão de demonstrar preconceito contra estrangeiros e ofende-los com palavras hostis antes de decidir ajudá-los.

Os acadêmicos JAMAIS admitem um fato óbvio que se depreende ao ler o diálogo entre a grega e Jesus. É a mulher estrangeira quem dá UMA LIÇÃO DE MORAL em Jesus! Com estas poucas palavras 'mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças', ela quis dizer: 'tudo bem, eu reconheço que o senhor é o filho de Deus que veio ao mundo para salvar os doentes, pobres e necessitados, e é justo que o senhor, sendo judeu, dê preferencia aos seus compatriotas que são o povo escolhido por Deus, mas perceba que, assim como os homens permitem que seus cães comam as migalhas dos pães que caem no chão enquanto alimentam-se à mesa, o senhor bem que poderia conceder à minha filha uma desprezível migalha da caridade que o senhor concede ao seu povo'. INCRÍVEL, NÃO?

É preciso ENTRAR na mente de MARCOS para entender porque ele escreveu um texto sobre um Jesus preconceituoso e ofensivo que recebe uma LIÇÃO DE HUMILDADE de uma mulher, mais isso é assunto para um novo texto.

MATEUS e LUCAS copiaram a maioria das histórias inventadas por MARCOS e ambos inventaram suas próprias histórias, inspirados em MARCOS, e também copiaram histórias do evangelho Q mencionado acima. Encontramos em MATEUS, LUCAS e JOÃO uma ÚNICA história de milagre com cura à distância que não foi escrita por MARCOS. Eis a versão de Mateus:

Mateus 8:5 Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, apresentou-se-lhe um centurião, implorando:

Mateus 8:6 Senhor, o meu criado jaz em casa, de cama, paralítico, sofrendo horrivelmente.

Mateus 8:7 Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo.

Mateus 8:8 Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado.

Mateus 8:9 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz.

Mateus 8:10 Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta.

Mateus 8:11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus.

Mateus 8:12 Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes.

Mateus 8:13 Então, disse Jesus ao centurião: Vai-te, e seja feito conforme a tua fé. E, naquela mesma hora, o servo foi curado

MATEUS e LUCAS sempre faziam pequenas mudanças nos textos que eles copiavam de outros evangelhos. Não sabemos se esta versão de MATEUS é original ou levemente reeditada, porque o texto original desta história nunca foi encontrado. Nota-se que os papéis desempenhados pelos personagens nesta cura à distância são idênticos àqueles contidos na cura da filha da síria fenícia. As diferenças em relação à história da mulher síria fenícia são estas: 1) Jesus não hesitou em atender ao pedido do centurião romano e nem o humilhou e o ofendeu. Isto tem lógica: quem teria coragem de chamar um general romano de cão? 2) O centurião Romano, adota, espontaneamente, uma postura extremamente humilde diante de Jesus. Isso não faz sentido porque um general romano jamais pediria ajuda a um judeu, muito menos dizer não ser digno de ter um judeu em sua casa.

Embora fictícia, a história de cura à distância inventada por MARCOS é genial, mas o mesmo tipo de milagre relatado por MATEUS e LUCAS perde em originalidade por ater-se a um proselitismo religioso extremamente exagerado e utópico, mesmo considerando-se que todas as histórias de milagres não são reais.