sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MULHERES DE PRETO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Do lado de fora ela enluta com audácia diatônica, é elegante, fascinante, simplesmente deslumbrante. Do lado de dentro ela se esconde sem aberração cromática, é toda mistério, toda sortilégio, complexamente toda adultério. Ela aparece em sonhos bizarros que alguns homens tiveram uma vez na vida e outra na morte, sinistra com a mão esquerda, remota com os olhos videntes, mágica com a mente intuitiva. Ela desce o vestido plissado até entre o joelho e o pé, é atilada, letrada, tem classe arretada. Ela sobe a saia de abajur até entre as coxas e o umbigo, é atirada, aloucada, tem fala decorada. O homem afoito não dispensa a mulher de vestido camisola, pronta para o rala e rola, nem mesmo a de macacão e óculos escuros, pronta para conquistar a de terno e cartola. Do lado de fora ela se impermeabiliza e retém calor negro, é inabalável, quase inexpugnável, e se desconstrói nas cores. Do lado de dentro ela se transpassa e emite luz branca, é leal, quase angelical, e não descompõe os artifícios monocromáticos. Ela é o próprio sonho bizarro que alguns homens tiveram uma vez na vida e outra na morte, súbita no seu aparecimento, enigmática no seu comportamento, surpreendente no seu afastamento. Ela desce a saia pregueada até entre as coxas e a canela, de intrincado tratamento, de notório refreamento, carrega recalcamento. Ela sobe a saia amarrotada entre o joelho e a virilha, de extrovertida disposição, de livre obrigação, carrega diversão. O homem oportunista não dispensa a exótica de chapéu e vestido transparente, pronta para um papo cabeça, nem mesmo a de trança e vestido adolescente, pronta para se enturmar com a de laço na cintura e ar de me enlouqueça.