sábado, 24 de setembro de 2016

MUNDOS PEQUENOS, GRANDES HISTÓRIAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Se uma civilização a milhões de anos-luz da nossa galáxia tentar localizar o nosso planeta ela estará se envolvendo numa empreitada inglória e desanimadora. Será como tentar achar uma agulha num palheiro, ou, pior que isto, achar um único e específico grão de areia nos mares da terra. O universo é grande, mas poucas pessoas fazem ideia do quão grande ele é. O universo observável tem mais estrelas do que grãos de areia em todas nossas águas doces e salgadas e em nossos desertos. A casa do homo sapiens, por mais insignificante que seja comparada à imensidão do cosmos, tem história, muita história. E para nós, terráqueos, a única história que existe é a nossa, pois, até este exato momento, não temos nenhum conhecimento sobre vida inteligente como a nossa fora do nosso pequeno mundo. No entanto, aqui neste terceiro globo a partir do sol, para se ter uma grande história não é preciso ser grande, nem é preciso ir tão longe no espaço e tão distante no tempo. Basta olhar ao redor de nossas vivências e lembrar das pessoas que conhecemos em carne e osso. Olhando para um passado recente, há apenas cinquenta anos atrás, eu encontro, num espaço menor que cem metros, contidos na metade superior da Rua Corneteiro Jesus e sua confluência com a Rua Marechal Fontoura no bairro da Água Fria, onde passei parte de minha infância, toda minha adolescência e juventude, matéria-prima suficiente para escrever uma verdadeira enciclopédia. Cem metros são bem menos que um mundo em miniatura, mas nestes orbes minúsculos existem tesouros que ficarão enterrados para sempre se não nos importarmos com a vida de seus habitantes aparentemente simples, mas tão complexas e tão ricas em experiências quanto às de um Júlio César ou de um Alexandre, o Grande. Não podemos deixar que as existências destes seres humanos preciosos passem completamente despercebidas, como nomes que nunca existiram para a posteridade, como criaturas sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem, e que não fazia sentido para os seres irracionais que a habitavam, e nem para este universo de tamanho incalculável que nos abriga como uma das inúmeras e pequenas incrustações numa partícula de areia dos oceanos. Naquela pequena área de dez mil centímetros, onde eu vivi durante 16 anos, havia tudo o que uma grande cidade precisa para ter seu nome inserido nos anais da história. Folclore, esportes, festas, tragédias, lendas, escândalos, bares, artistas e imigrantes que deixaram suas pátrias, fugindo das atrocidades das guerras e da pobreza absoluta, e escolheram este cantinho da Zona Norte de São Paulo, que passou a ser a terra prometida para muitos peregrinos extenuados. Pensem no sublime sacrifício de Dona Rosa e no livro que poderia ser escrito sobre sua vida. Nascida e criada na Hungria, ela tinha 18 anos quando a segunda guerra mundial eclodiu e seu namorado veio se despedir dela porque ele havia sido convocado para servir no front da Rússia. Ele morreu em batalha, mas sua descendência foi salva no ventre da jovem Dona Rosa, agora uma mãe solteira que foi acolhida pela irmã para poder criar seu filho. A guerra terminou, mas as privações, as agruras e as aflições não. Sua irmã adoeceu e, no seu leito de morte, ela fez Dona Rosa prometer que ela se casaria com seu marido e o ajudaria a criar seus quatro filhos. Dona Rosa cumpriu sua promessa, uniu-se em matrimônio com seu cunhado sem amá-lo e, em seguida, deixou a Europa para formar uma grande família numa insignificante Rua da Água Fria. E nesta rua ela criou seu primeiro filho órfão de pai, seus quatro sobrinhos e os quatros filhos brasileiros que teve com o marido de sua irmã. Pensem na incrível reviravolta na vida de Dona Encarnação e na bela história que poderia ser contada sobre ela. Sua mãe levava uma vida paupérrima na Espanha. Tinha que lavar roupa para os outros e servir de ama-seca para as madames da aristocracia. Um de seus patrões a engravidou e a patroa, revoltada, exigiu a expulsão imediata da prostituta. O patrão concordou, mas impôs que a menina que nasceu daquele descuido extraconjugal com uma vassala fosse criada na sua casa, como sua filha legítima, pois era seu sangue. Dona Encarnação tinha uma vida de princesa. Frequentou as melhores escolas da Espanha. Vestia roupas finas. Tinha aulas particulares de música e balé e desfrutava de todas as mordomias e regalias que só os milionários sabem descrever. No entanto, sua realeza terminaria aos 16 anos quando seu pai adoeceu e faleceu e seus meios-irmãos cuidaram para que um advogado tirasse seu nome do testamento. A filha bastarda foi jogada na rua e passou a conviver com a miséria de sua mãe e seus outros meios-irmãos. Dois anos depois, com apenas 18 anos, uma mão na frente e outra atrás, mas com muita bravura, Dona Encarnação embarcou num navio rumo ao Brasil e, durante a viagem de mais de um mês, conheceu o José, sem lenço e sem documento como ela, e com ele se casou, se estabeleceu no interior de São Paulo e, juntamente com outros imigrantes, ajudou a construir a cidade de São José do Rio Pardo, onde Euclides da Cunha morou e escreveu o livro Os Sertões. Doze anos depois, José e Encarnação resolveram se arriscar na cidade grande e fixaram residência na mesma Rua Corneteiro Jesus, da Água Fria, onde Dona Rosa morava e, assim como a Dona Rosa educou seus nove filhos e lhes deu um futuro no Brasil, Dona Encarnação também deu aos seus nove filhos brasileiros uma vida repleta de felicidade e uma prosperidade que não poderiam ter no velho continente. Pensem nestas pessoas e no que Olavo Bilac escreveu: Há numa vida humana cem mil vidas, Cabem num coração cem mil pecados. Pensem que há numa vida humana um sem-número de palavras para descrevê-la, e cabem numa pequena via pública povoada por tais vidas humanas um universo de histórias fascinantes para se contar.

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