quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O QUE FICOU EM SEU LUGAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Não me lembro das noites que você vinha me ver, As noites altas e mortas, Sem sonhos ou pesadelos, O seu ver deveria ser para ti um bem supremo, E me pergunto se a alma será, talvez, a função maior do olhar, Não me lembro de nenhum sentimento seu que a diferenciasse dos sentimentos gerais que visitam qualquer tipo de criança, Só os adultos me falavam de minhas brincadeiras e de minhas alegrias noturnas, E eles adivinhavam quando, Ao som de meus passos, E à porta de seus aposentos, Ouviam-me a voz e meu andar conheciam, Mas jamais se assustavam, Ao ver-me acordado para tê-la, A mais levantada recompensa que podia ansiar uma mulher que precisava de amor, De lágrimas enxugadas que derramaram à sua despedida, Sempre acordei com o espírito em paz, E nos meus dias viviam meus olhos de sonhador, E o afeto de que você me envolvia propagando-se ao redor deles, Você deveria estar dentro de mim quando carregava meu boneco de pano, Sentindo-se uma mãe com o filho no colo, Dizem que você sempre me acompanhava para onde eu fosse, E para onde fui um dia distante resolveram afastá-la de mim, Alguém que lhe ouvia e lhe sentia, Alguém que gritou aos seus ouvidos que se você realmente me amasse deveria afastar-se de mim para sempre, Sem nenhuma promessa de que me reencontraria, E de volta ao meu reduto, Você, Ainda saudosa e persistente, Se viu forçada a deixar-me dormir meu sono por uma Ave-maria, Com o coração liberto, Na mão de Deus, E nas minhas novas noites inquietas em outra estância viviam meus olhos paralisados por terror, Tormentos com o gosto da morte que você experimentou, Sem nenhum anjo protetor, Até que certa vez tudo passou, Com seu silêncio para lembrar, Pela voz dos tempos, Que a vida passa, E a morte também.