sexta-feira, 30 de setembro de 2016

ORGULHO (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Ela passou metade da vida com amor-próprio demasiado, Outra metade desatinando uma debilidade camuflada sob a influência das primeiras impressões, Aos poucos irrompendo, E de repente fulminada por uma síncope incubada que só esperava por um sinal da natureza, Como o recuo brusco e sinistro do mar se preparando para o arrebento de um tsunami, E por uma oportunidade matreira, Como o estouro de um champanhe com um diabo de garrafa chocando sua rolha, Ela foi encurralada nas cordas pela sua própria imagem refletida num espelho e esta lhe desferiu um gancho potente como um rojão de vara que se lançou aloprado da plataforma do seu estomago até bater no teto de sua cabeça, Envolvendo-a em completa penumbra e devastando a sua psique com a força de milhares de maremotos, Do que restou de sua personalidade desintegrada não se poderia esperar nem mesmo o renascer de frágeis siriris que voam abobalhados e cambaleando em todas as direções, Batendo cabeças e soltando asas, Em busca do calor do sol poente no entardecer dos dias de verão e encontram a morte abraçados na luz dos homens, Renegar o que mais amava, A música, Para colecionar insetos, Mostra que o que restou de sua mente era bem menos que cinzas, Paradoxalmente, As opiniões de seus terapeutas iam do grandioso, Como uma jovem inteligente e capaz de governar uma nação, Passando por uma normalidade casuisticamente normal, Como uma pessoa apta a exercer atividades civis, Porém não militares, Até chegar ao medíocre, Como uma adulta com dificuldade para lidar com questões intelectuais, Mas apta para desenvolver atividades manuais que exigissem boa coordenação motora, Medíocre porque na adolescência ela ganhou o apelido de catástrofe, um King Midas In Reverse dos Hollies, Pois tudo o que ela tocava virava pó, De onde se conclui que o último diagnóstico fazia dela um zero à esquerda, Mas prometo-lhe, Esta é a última vez que lhe faço uma promessa, Vou libertar você de suas amarras e tirar você de seu casulo, Como John Lennon convenceu Prudence a sair de seu quarto para brincar, Vou livrar você de todos os seus vícios, Como as mãos do médico te livraram de seu ventre materno, Vou romper todos os seus recifes, Para você voltar a nadar em mar aberto de novo, Vou livrar você de toda a sua demência, E você se lembrará do frescor do ar que carrega uma folha de outono, Vou tirar você de dentro dessa armadura, E você voltará a flamejar como fogo que queima todos os miasmas à sua volta, Vou tirar estas vendas de seu olhos, E você chegará sem medo ao outro lado da corda bamba, Vou te ajudar a cegar seu lado cortante, Seu lado censor, Com um bisturi que talha seu orgulho.