domingo, 11 de setembro de 2016

OS DEMÔNIOS DE DONA ZENÓBIA (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Seu último funeral foi de uma pessoa que caiu no esquecimento da grande família. Estavam presentes seus cônjuges, a viúva, os dois filhos com genros, noras e netos, uma única cunhada, uma escrava voluntária cuja presença é imprescindível para que um enterro seja autorizado, e outra mulher maliciosa para quem aquela serve de dama de companhia. Não se lembra do que o falecido deixou de fazer para ser pouco lembrado. Já houve velórios mais solitários que esses, mas ela já se esqueceu. Desde que seu pai morreu ela esteve apartada de tudo, dos depauperamentos e dos folguedos. Ela guarda uma fórmula para morrer solitária e abandonada, mas não é original. Em nada difere do que fazemos ao longo da vida para granjearmos amigos. Diz ela que você precisa nascer com medo, herdado da mãe enquanto você está em seu ventre. Guardá-lo junto à sua introversão. Rebelar-se aos gritos debaixo de uma mesa. Cultivar a ojeriza pela escuridão. Compensa-la com um gosto para se exibir. Crescer assim, até o fruto amadurecer e cair. E assim ela cresceu e, quando o fruto estava maduro, foi fulminada por uma síncope incubada que só esperava por um sinal da natureza, como o recuo brusco e sinistro do mar se preparando para o arrebento de um tsunami, e por uma oportunidade matreira, como o estouro de um champanhe com um diabo de garrafa chocando sua rolha. Ela foi encurralada nas cordas pela sua própria imagem refletida num espelho e esta lhe desferiu um gancho potente como um rojão de vara que se lançou aloprado da plataforma do seu estomago até bater no teto de sua cabeça, envolvendo-a em completa penumbra e devastando a sua psique com a força de milhares de maremotos. Do que restou de sua personalidade desintegrada não se poderia esperar nem mesmo o renascer de frágeis siriris que voam abobalhados e cambaleando em todas as direções, batendo cabeças e soltando asas, em busca do calor do sol poente no entardecer dos dias de verão e encontram a morte abraçados na luz dos homens. Renegar o que mais amava, o cinema, para colecionar selos, mostra que o que restou de sua mente era bem menos que cinzas. Paradoxalmente, as opiniões de seus terapeutas iam do grandioso, como uma jovem inteligente e capaz de governar uma nação, passando por uma normalidade casuisticamente normal, como uma jovem mulher apta a exercer atividades civis, porém não belicosas, até chegar ao medíocre, como uma adulta com dificuldade para lidar com questões intelectuais, mas apta para desenvolver atividades manuais que exigissem boa coordenação motora. Medíocre, porque na adolescência ela ganhou de seu pai o apelido de menina desastre, um King Midas In Reverse dos Hollies, pois tudo o que ela tocava virava pó, de onde se conclui que o último diagnóstico fazia dela um zero à esquerda. Nem mesmo as generosas vibrações de uma saudosa mulher de nobre semblante e nem o refúgio no matrimônio e na maternidade anos depois graças à tradicional atração pelo ideal coletivo legado pela sua família contribuíram para uma possível reunificação dos dois hemisférios do seu cérebro de que sofreu uma cisão tão irreconciliável como o protestantismo inglês com o catolicismo romano. Seu estigmatizado lado esquerdo, expoente máximo da covardia humana, sobrepujou o seu politicamente correto lado direito, representante de araque do altruísmo e da moralidade, e um dia lhe impôs a mais irresponsável de todas suas atitudes que lhe rendeu a alcunha de criminosa e estelionatária. Ela perdeu tudo o que tinha e tornou-se devedora de mil vezes mais do que tudo que ela poderia ter acumulado durante toda uma vida. Mesmo assim, continuou levando uma vida de bon vivant, como sempre levou, acompanhada de um peso na consciência cada vez maior e insuportável. Ela já conheceu o inferno aqui na terra. Já faz parte do círculo de amizades do capeta que a mantém viva porque, segundo ele, seu sofrimento é doce e deleitoso. Deus não interfere e diz: ‘Se você quiser vir comigo agora, livrar-se-á desse corpo e dessa dor. Mas se ficar e aguentar, todos saberão, através de você, que o demônio existe. A escolha é sua’. Zenóbia decidiu ficar e respondeu a Deus: ‘Escreverei na dor como prova de coragem. Na privação, como prova de desvario. No fracasso que compromete o futuro de quem ainda depende de mim, como prova de irresponsabilidade. Na preguiça e no gozo, como desculpa para minha demência congênita. Já estou condenada pela natureza que, cedo ou tarde, quer você queira ou não, me levará. No meu velório, não espero mais que duas pessoas, se na ocasião elas tiverem adiado meu abandono. Não espero e também não deixo de esperar que haja vida após a morte. Se houver, não me surpreenderei e saberei por quem estarei acompanhada. Se não houver, nunca saberei que não há vida após a morte, mas o mundo ficará sabendo que não existe justiça porque minha maldade terá morrido comigo.



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