sábado, 1 de outubro de 2016

SALTO AZUL EM ÁGUA VERDE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Esta é minha modesta e sincera homenagem à cidade de Itobi, interior de São Paulo, onde tive o privilégio de passar muitas férias de verão na minha infância. Itobi fica a 10 km de São José do Rio Pardo, cidade fundada com ajuda de meus avós espanhóis, onde Euclides da Cunha escreveu o livro OS SERTÕES




A estrada que leva a vastos horizontes, Aparentemente familiares, Mas de eternas singularidades, É longa e infindável, Deixa o infinito para trás, E cada vez que parece ir de encontro ao céu, Desce como Odisseu ao Hades, Mas para aprender com as almas, E não ser por elas sentenciado, E rapidamente ela retorna terra a terra, Ainda abrangendo num mar verdejante o ímpeto retilíneo da ânsia de chegar a algum lugar, E se chega, Quando se procura, Se desvia e se desce lentamente, Até o que parece ser um lago como o Aquerúsia, Por onde passam todos pecadores, E de onde saem todos os perdoados, E logo percebe-se que o paraíso não é diferente do mundo, Com lugares ruins, Bons, Melhores, Especiais, E únicos, Como o mais sagrado de todos o santuários, Que pode ser adentrado somente pelo suprassumo dos homens num dia de arrependimento, Do bom e do melhor, Do ruim e do pior, Todos são comuns, E o homem comum deles se enfada, e até padece, Mas o homem incomum e passional os engrandece, Com todos hiperbolismos orientais, E a rua principal torna-se tão interminável quanto a rodovia, Mas outras locações têm espírito mais que o comum das percepções humanas, Como o bar da esquina, Que marca o limite norte do local das delícias aprazíveis a deus, E que, Irônica e paradoxalmente, É mais santo que a igreja, No outro extremo, Delimitando a fronteira sul, E além dela parece existir um umbral, Literal, Sem almas vivas ou mortas, Ao contrário do que se acha além-bar, Uma trilha percorrida por bicicleta, Onde no meio do trajeto, Numa paragem de pomar de frutas negras, Farta-se dos pecados originais, Farta-se da vida, E depois busca-se o além que aterra, Lá na quietude do fim do caminho, E é novamente a partir do botequim que se chega a outro rincão, No sentido leste, Subindo a mesma alameda larga e íngreme, Aquela que se abre subitamente como uma janela no meio do nada, E faz nascer, Milagrosamente, Uma pequena cidade que os olhos abertos na rota não alcançam, Uma cidade de paz lunar e eternidade, Que o forasteiro segue, A olhos fechados, Arrastado para um abismo, Este outro recanto parece um recôndito, Mas quando se atravessa seu alto portão, Descortina-se um enorme ginásio grego, A céu aberto, Reservado somente aos másculos, Onde a paixão pelos jogos, Precedidos por uma expectativa messiânica, Faz o coração saltar palpitando pelos olhos, Imortaliza, Como o amor entre Romeu e Julieta, Quem lá pratica esporte vence sem derrotar o adversário, E tudo mais nele se esgotaria, Se do que aqui se fala não fosse o céu dos justos, Que tem entre o que deveria ser profano e o que deveria ser sagrado, Um ponto de encontro, Só para ocasiões especiais, Para dançar as pernas em bailes, Para dançar a alegria em festas de casamento, Para se comungar diretamente com a felicidade num estado de alma poético, Quase religioso, Quase metafísico, Mas é o bar quem insiste em monopolizar, Bem à sua frente está o jardim do Éden, Com todos descendentes de Adão e Eva andando em círculos, Entreolhando-se quando se cruzam, O sorriso implícito do sexo frágil, Correspondendo ao gracejo explícito do quase inquebrável, A cidade inteira parece lá se reunir todas as noites, Caminhando em volta do centro, Onde o coreto está vazio, Onde deus não é visto, Onde a árvore com o fruto proibido desaparece, E Baco e suas bacantes não se atrevem, Porque este território fértil em seres simplórios pertence aos carregadores de tirso, Mas suas lanças são muito curtas, E no lugar de heras e pâmpanos, Suas pontas sustentam os frutos congelados com mãos caseiras e santificadas, Que vêm lá do bar, E no recesso menos distante, Abaixo do jardim, Que fecha a cidade no lado Oeste, Os trilhos estão adormecidos nos dormentes, A estação está vazia, Mas não solitária, Fecha-se ao silêncio, Mas seu íntimo abre-se às lembranças de todos que nela desceram e dela partiram, E todos espectros saudosos que fizeram passagem, Por ela ainda são acolhidos com a mesma hospitalidade, E o bar, Aqui tanto referido, É, Na verdade, Somente a fachada de um templo, Um ponto de intercâmbio, De gente, De prazeres, Os adultos trocando dinheiro por aguardente, E os jovens por guloseimas, E quem está por trás das bancas serve e sorri por comprazer, E se deixa levar pelos olhares maravilhados sem se preocupar que vai para onde o impelem, A única moeda de troca aqui é a cordialidade, O templo é enorme, Suas noites de paz celestial são de tirar o folego de deus, Suas manhãs gloriosas são regadas por mesa farta e uma hóstia, Do tamanho de uma broa, Abençoada com a palavra generosidade ao ser servida, Seu pomar tem o chão forrado de frutas que caem da árvore preferida, E a maior tentação é subir até o último galho para apanhar a fruta que quer sair voando pelos ares, Lá sentar, Se lambuzar, E delirar com uma vida airada, E um de seus vários aposentos, Improvisado de depósito de bebidas e outras tranqueiras, Nada tem de especial, Mas retém pessoas por horas, Encanta, Porque lá parece ser o lugar onde a magia dorme, E muitos dormem com ela, Outros, Porém, Precisam partir, Porque esta minúscula ilha que destoa da exuberante vegetação é democrática, Chega, Fica e vai embora quem quiser, Nasce, Cresce e morre nela quem desejar, E os que estão só de passagem fazem uma pergunta que deus não sabe responder: Para onde vão os que morrem no paraíso?