sexta-feira, 30 de setembro de 2016

SE DEUS FOSSE COMO NÓS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ela caminha pela praia, Sozinha, Mas nunca será tão doce a esta solitária a voz de um anjo, Em seu isolamento, Anda abatida, Cabisbaixa, O olhar vazio e distante a esta espécie de conformismo indefeso, Às vezes ingênuo, E quase permanente, Ela desabafa com uma rara confidente que escreve um livro chamado Campo de Vênus, Humilha-se por não estar à altura da inteligência de quem ela gostaria de ser o grande amor, Tem medo de falar com ele, E por não ter coragem, O transforma num inimigo, Num sinônimo de ódio, A ser guardado pelo resto da vida, Ódio sadio, Ódio doentio, É agora seu escudo, Contra o vilão do amor, Detentor de um saber que só canta prazeres, E que, Dissimulado, Geme de ciúmes, Saber que tudo infama, Comete os sete pecados capitais, E a soberba de sua intelectualidade que está acima do que Deus recrimina, E quanto maior o ódio, Mais aumenta seu temor, A ponto de agredir, Ofender, Mentir, Enganar a si mesma, E a confidente se põe a pensar, Num momento de revelar seu verdadeiro eu, Carregar sozinha angústias, Como se o mundo inteiro se debatesse dentro dela, Seria a última coisa que uma jovem nesta idade faria, E a confidente começa a ter novas ideias para seu livro, O jovem sábio, Que destrói corações apaixonados só com seu cérebro, Permanecerá no anonimato, Acredita mesmo que é muito inteligente, Mas ele cairá do pedestal, Ao ser-lhe revelada sua incapacidade para lidar com assuntos intelectivos, E pior ainda, Sua desastrosa coordenação motora, Será inseguro, Medroso, Prolixo, Exibido, Falso, Oportunista, Radical, Fofoqueiro, Um Bom Vivant, E à escuridão de uma vela apagada, O traste mais repugnante de toda humanidade, Que se escusa atrás de uma pseudo doença, E que, Enquanto teme pela existência de um Deus lá em cima, Uma vez provada Sua inexistência, Desejará ser o super-homem de Nietzsche, Mas atingirá o grau definitivo de sua inferioridade quando colocar em dúvida a fé em si mesmo e reduzir-se abaixo dela, Ela que é sombra e silhueta de sua pequenez que, Sem perceber, descerão ao fundo de sua alma, O tornará mais solitário que a jovem desiludida, Mais mentiroso que ela, Que mentia só para si e para o seu amor perdido e odiado, Mas ele mentirá para o mundo inteiro, Até ser descoberto, Porquanto todos nós somos criminosos até sermos descobertos, E então será ele quem vai caminhar solitário por um deserto de sol escaldante, Cheio de remorsos, Como se estivesse num limbo, Nem céu, Nem inferno, Apenas num vazio terebrante, Na companhia de seus pensamentos torturantes, Mas a confidente precisa de uma purgação entre o ódio da moça decepcionada e a queda do rapaz talentoso, Uma das palavras-chave será a indiferença, Que machuca muito mais que o ódio, A outra, A outra começa a levá-la a pensar em mudar o nome do livro, E se Deus fosse como nós? Todos carentes, Todos doentes, Todos dependentes, Todos deprimentes e cruéis, Mas ela morre antes de começar a escrever, E a jovem desencantada perde a oportunidade de uma desforra, Contra um crime que aos céus clama e a Deus pede vingança, Oh que desgraça, Shakespeare! Sem esta catarse teatral da vida, Que ao lento cair do pano, Só nos deixa, Como objeto de meditação e fruto amargo, Uma interminável fila de interrogações! Por que Deus não pode ser apenas um de nós?

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