quinta-feira, 22 de setembro de 2016

THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? ALLEN GINSBERG, POETA AMERICANO DA CONTRACULTURA E REBELIÕES JUVENIS DOS ANOS 60


Texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de ALLEN GINSBERG à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98.

Lembro-me direitinho daquela noite, do momento exato, quando fui a um lugar em Nova Iorque chamado THE DOM, e os Beatles cantaram I WANT TO HOLD YOUR HAND, com aquele som contralto intenso, OOOH, que entrou direto no meu crânio e, num instante, percebi que aquele som iria entrar direto no crânio da civilização ocidental. Comecei a dançar em público pela primeira vez na minha vida. Senti um prazer e um relaxamento impetuoso, mandando às favas toda timidez e todas as preocupações da vida. Eles tinham um ritmo alegre. Suas vozes eram generosas, francas, joviais e solidárias. Eles não eram apenas quatro caras formando uma banda. Eles se amavam, tinham muita consideração uns pelos outros. Lembro-me que naquela noite no THE DOM me dei conta que a dança dos negros havia sido devolvida aos brancos ocidentais, que as pessoas iriam retornar aos seus corpos, e que os americanos iriam rebolar. Os Beatles mudaram a consciência dos americanos. Inventaram uma música repleta de masculinidade aliada a ternura e vulnerabilidade cabais. E quando foi aceita na América, esta música, mais do que qualquer outra coisa e qualquer outra pessoa neste país, nos ensinou a ter uns com os outros um certo tipo de relação mais afetiva, mais sincera e de mente mais aberta. Os Beatles fizeram isso com a América e com o mundo inteiro. Na mesma época, aquele garoto de apenas 15 anos do hemisfério sul, citado no primeiro texto acima
, já havia sentido I WANT TO HOLD YOUR HAND não apenas penetrar em seu crânio, mas também cortar seu coração, quando ele, inocentemente, brincava com o jogo de botão e pela primeira vez em sua vida sentiu sua alma extasiar-se, arrebatar-se e comover-se com uma música saindo do rádio ao seu lado. O garoto era tímido e bipolar, mas já conseguia dançar em público nos bailinhos nas casas dos amigos nos fins de semana. A partir daquele momento, ele aprendeu também a tocar guitarra e a cantar, cantar em inglês todas as músicas dos Beatles. Seus amigos também se apaixonaram pela música dos Beatles, mas não entediam o que eles diziam naquela língua estrangeira. Mas entender para quê? Música é melodia e não letra. Quem gosta de palavras lê poesia. Quem gosta de música não se importa se ela é cantada em língua viva ou morta. O que importa é a melodia, o arranjo, a progressão e originalidade melódicas, a voz humana, solo ou em coro, fazendo apenas o papel de mais um instrumento no conjunto. São estes ingredientes, e não as palavras, que alimentam a alma. E almas de todo o mundo conheceram um novo alimento que não se provava desde os tempos de Beethoven, Mozart, Bach e outros gênios da música clássica. Sem os Beatles, nós jamais teríamos música na forma como os britânicos continuam quintessenciando até os dias de hoje. 



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