segunda-feira, 19 de setembro de 2016

RETRATO DO ARTISTA QUANDO PERDIDO

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



No livro um BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA Escrevi um texto chamado ESQUECER É UMA VIRTUDE, publicado neste blog. Embora o tema e seu conteúdo pareçam óbvios, se faz necessário descartar a maioria dos esquecimentos como, por exemplo, aqueles que o tempo cura. Na verdade, há muitos acontecimentos em nossas vidas que jamais poderão ser esquecidos. Virtuoso é aquele que consegue deixar sair de sua lembrança todas suas mais excruciantes mágoas. Esquecer é uma arte que não se domina. A gente só sobrevive a ela, como sobrevivemos no bom nome do nosso animal de estimação, presumindo que ele morrerá antes de nós. Isto é uma continuação afetiva da vida.  A continuação material, o viver de modo precário, cheio de dificuldades, requer muitos sacrifícios para os que vivem na legalidade e na honestidade.  Os que militam na ilegalidade e ladroagem têm verve artística, e para eles escrevi um conto chamado A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA É UMA HISTÓRIA SEM FIM, a ser publicado neste blog. Muitos lutam para sobreviver, outros para ter mais do que precisam apossando-se do que não lhes pertence, e a maioria para não perder o pouco que a sociedade lhe migalhou. Perder é uma arte como esquecer e sobreviver. Ela não se deixa dominar, apenas conviver. Quase tudo desaparece com a ideia de perda. Tal desaparecimento é uma verdadeira tragédia grega, infundindo terror e piedade. Todas pessoas podem ser artistas. Porém, muitas nascem com males congênitos que irão lhes acompanhar até a morte. Elas se veem como pessoas que aprendem a arte de perder todos os dias. Perdem ideais de juventude, o talento latente, as boas, mas raras lembranças. A vida toda elas acumulam somente derrotas e, às vezes, alguma trégua. Lembram de uma canção que não compuseram, de um livro que não escreveram, de uma tese acadêmica que ficou pelo caminho, de antigos sonhos que são revisitados para se consolarem. Elas vivem no sisifismo, no eterno recomeço de alguma coisa. Estão num purgatório esperando um julgamento que é adiado indefinidamente. Não sabem se vão para o céu ou para o inferno. E nesta indefinição já se sentem no inferno, estertorando a morte, rangendo os dentes. Seus acusadores são seus algozes, implacáveis. Ninguém leva a sério uma pessoa que é obrigada a não dizer a verdade, a não agir com normalidade, a fugir da responsabilidade, a tirar todo espaço de seu amor para saciar seu medo, a pensar ser o que poderia ser, mas não é, por uma pobre questão de sobrevivência contra males que não têm cura, que mudam a percepção dos outros sobre ela e a percepção dela sobre ela mesma. Gente assim é odiada, ridicularizada, humilhada e isolada como um leproso. Mas elas não nasceram para serem deste jeito e o maior desejo é que seus descendentes não tenham que enfrentar o que elas enfrentam. Elas continuam vivas, têm pessoas que amam, têm coisas que ainda querem fazer com suas vidas. Ficam tristes e deprimidas por não poderem por em prática o talento que trouxeram a este mundo, por não poderem falar e viver por todas as feições que o dom que possuem lhe permitem. Elas sofrem. Ainda assim, têm momentos de pura felicidade e alegria com o simples canto do pássaro na escuridão apressando a aurora. Elas lutam para manterem-se ligadas ao mundo, com toda sua indiferença, aos seres humanos que elas poderiam ter sido. Vivem um momento de cada vez. Procuram não se torturem por não poderem dominar a arte de perder. Se revoltam, mas vivem agradecendo o tempo todo.


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