sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O QUE FALTA NO REINO DOS CÉUS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Era uma tarde de inverno. Da janela via-se o céu azulado, mas lá fora estava gelado. Oras, pensei, aqui não cai neve, as mãos sem luvas não congelam, e do estacionamento a qualquer estabelecimento o vento frio que aumenta a sensação térmica não é tão torturante como o que sopra na região dos grandes lagos em Janeiro. Eu me preparava para sair quando a TV anunciou o excelente filme Reino dos Céus, que aqui no Brasil saiu como Cruzada. Resolvi ficar em casa e fui muito feliz com minha decisão. Depois da sessão de cinema, resolvi ouvir música e selecionei a gloriosa versão do Chandeen da canção In Power We EntrusThe Love Adocated do Dead Can Dance. Foi estranho como essa canção me levou imediatamente de volta ao filme que eu acabara de assistir e, mais estranho ainda, foi o que me veio à mente: Eu sempre vejo a cultura como uma mulher indefesa à mercê dos machistas. Às vezes sou cristão, às vezes não. Às vezes simplesmente ignoro um ataque dos misóginos, ou, então, me limito a retribuir suas agressões ao sexo frágil com uma homenagem à transcendência humana. Porém, às vezes, eu também atiro minhas pérolas aos porcos e aos cães. E esse é o grande risco que corro aqui. Antigamente, os porcos só pisoteavam nossas preciosidades, hoje eles as roubam. Lembrei-me, então, do filme Cruzada que acabara de assistir, e das atrocidades que se praticaram na terra santa em nome de deus em tempos longínquos. Esquecendo-se de mim e dos homens, tentei extrair daquela brutalidade alguma beleza inata ao ser humano quando este cavalga completamente nu e sem nenhum estandarte ideológico. Então, tentei transformar em palavras tudo o que minha alma sentia: A beleza se avista onde o oceano se confunde com o firmamento, De longe, vozes humanas a saúdam com brados efusivos, O som lhe chega aos delicados ouvidos, E ela o acolhe com ternura, Suaviza sua avidez e seu tom, E o sopra de volta com a brisa que o trouxe com brandura, As vozes humanas retumbam em coro e com mais ardor, A beleza cerra seus olhos, Relaxa a sua fronte, Descontrai seu sorriso, E se deixa embalar pelo som mundano e eufórico, As vozes assomassem-se, E a elas se juntam mais graves e agudos, Mais êxtase e clamor, A beleza se mantém impassível e atenta, Ouve e se acalenta, As vozes humanas se exaltam, Vão além dos limites da linha do horizonte, A beleza as traz de volta ao mirante, E graciosamente se move em suas direções como uma nuvem entregue às monções, As vozes sentem suas gentis pulsações, Percebem que ela emana meiguice à distância, É mais bela do que aparentava lá no fundo do céu, É o seu olhar que carrega sorrisos contagiantes, São seus lábios que sussurram como meninas dos olhos irradiantes, São as maçãs de seu rosto que exalam fragrância etérea, São seus cabelos que dão contornos à sua feição singela, É o seu semblante plácido que dá expressão à sua beleza, As vozes humanas emudecem, E se arrebatam com tão doce criatura, A beleza contagiada pelo calor humano, Baila ao redor das vozes, As envolve com afagos que chegam à alma, Seu olhar resplandece, E infunde mais luz tênue ao sol poente, Seus gestos delicados encantam as águas do mar, E se elevam até a lua crescente, Sua boca toca as vozes humanas, E as enche de carinho jamais recebido antes, Seus cabelos se desfraldam ao relento do entardecer, Sua leveza se esgueira suavemente até o novo amanhecer, E as vozes humanas embargadas, Soluçam e balbuciam, A beleza lhes toca os lábios com dedos singelos, E deixa seu silêncio comovente penetrar em suas entranhas, Até que elas descubram seu reino interior, Até que ela exteriorize toda sua celestial subserviência ao amor.



HOJE À NOITE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


HÁ UM AVIÃO ESPERANDO POR MIM NO AEROPORTO
FORAM TRÊS DIAS TOMANDO BANHO DE CIVILIZAÇÃO
OXFORD ESNOBA CHARME COM MULHERES DE ENFEITE
OLHOS AZUIS NAS LOIRAS BONITAS DE ROUPA E CORPO
PINTAS NOS ROSTOS DAS RUIVAS ESCULPIDAS À MÃO
OLHOS VERDES NAS MORENAS BRANCAS COMO LEITE


PICADILLY CIRCUS TEM ROUPA DOS ANOS SESSENTA
TEMPOS E LUGARES ONDE EU DEVERIA TER CRESCIDO
SINTO-ME UM JOVEM BEM MENOS DE MEIA-IDADE
PROVO DA CULTURA COM PALADAR E QUE SUSTENTA
JÁ EXPERIMENTO DÉJÀ VUS COM O SEXTO SENTIDO
JÁ ESTIVE AQUI COMO OUTRA PERSONALIDADE


MARYLEBONE TEM IGREJA QUE NÃO SERVE PARA REZAR
DO ALTO DE SUAS PRATELEIRAS DESCE UM TOMO RARO
CRISTÃOS VENDENDO LIVROS QUE DESAFIAM A FÉ CRISTÃ
SEM ELES JAMAIS SABERIA DE SEGREDOS A DESVENDAR
PAIXÃO DE CRIANÇA E CONHECIMENTO QUE ME É CARO
DISPENSA DEUS, FÉ CEGA, DOGMAS, MITOS E VIDA VÃ


HOJE À NOITE SINTO AMOR
HOJE À NOITE SINTO ENCANTO
HOJE À NOITE SINTO FERVOR
HOJE À NOITE NÃO HÁ PRANTO
HOJE À NOITE NÃO HÁ DOR
HOJÉ À NOITE NÃO HÁ TANTO


CARNABY TEM PSICODELISMO QUE VIROU UM CÂNTICO
ESPECTROS DOS BEATLES VOAM EM TODOS MOMENTOS
O AUGE DA CRIATIVIDADE E VIRTUOSISMO RECEBE PALMA
INSPIRAÇÃO QUE VEIO DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO
A MELHOR MÚSICA DO PLANETA DE TODOS OS TEMPOS
DEU UM VERDADEIRO SENTIDO AO ALIMENTO DA ALMA


LONDRES TEM A MESMICE TURÍSTICA COMO TODA CIDADE
O TÂMISA CARREGA BARCOS COM MUITOS PASSAGEIROS
O BIG BEN NÃO ATRASA UMA ÚNICA FRAÇÃO DE SEGUNDO
MADAME TUSSAUD MOLDA EM CERA TODA CELEBRIDADE
A RAINHA TROCA SUA GUARDA SÓ PARA ESTRANGEIROS
A TORRE NÃO DECEPA MAIS A CABEÇA DE TODO MUNDO


O BRITISH MUSEUM TEM O LIVRO DE ANI DA EGIPTOLOGIA
A ABBEY ROAD TEM FAIXA DE PEDESTRES QUE VIROU MIMO
O HYDE PARK TEM BANCOS COM NOME DE GENTE DE NEON
O MARQUEE CLUB TEM O THE WHO COM TODA SUA MAGIA
A DARTFORT TEM PEDRAS QUE ROLAM E NÃO CRIAM LIMO
O ALBERT HALL TEM ESPAÇO PARA OS BURACOS DE JOHN


HOJE À NOITE TENHO QUE PARTIR
HOJE À NOITE TENHO QUE VOLTAR PARA CASA
HOJE À NOITE TENHO QUE ME DESPEDIR
HOJE À NOITE NÃO TENHO VONTADE
HOJE À NOITE NÃO QUERO IR
HOJE À NOITE NÃO SINTO SAUDADE


MARIA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Maria que é a Maria, É cheia de graça, Cheia de raça, É Madalena, É mãe e tia, É Mariana, É Ana Bolena, Tem corpo que arrepia, Não tem quem não ama, Casada ou solteira, Solidária e companheira, Morre esposa traída, E de seu ventre sai uma rainha, Mulher destemida, Mais poderosa que o rei no xadrez, Lava, passa e cozinha, Não há doce que ainda não fez, Doce de amendoim que o menino roubou, Grita pede, moleque, que te dou, É bonita e valente, Não tem medo do sertão, Não tem medo do que não sente, Luta com o coração, Reza Ave-maria, Compadecida, É quase negra como Nossa Senhora Aparecida, É a Maria judia, Que inventou o banho-maria, A gororoba com coco ralado, Que ficou mais mole que seu nome, Miriam soberana do hebraico modificado, Que em grego virou Maria, Cobiçada por todo homem, Por toda Maria, Que não vai com as outras, Tem sua ideia factícia, Alma pura como poucas, Ajuda todos os seus, É a preferida de Deus, Brilha no céu, Como Três-Marias, Cada uma com seu véu, Abençoando todas as romarias, Dança no ar enquanto trabalha e canta, Lança sob o luar seu charme enquanto a noite avança, E sob o sol, Sua meiguice que nos encanta, É Maria do futebol, Alegria do povo, É Maria de todos nós, Que desafia quem nasceu primeiro, Não precisa responder a sós, Nem a galinha nem o ovo, É Maria morena do mundo inteiro.

A TERRA É FEMININA


 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Minha imperatriz romana, Aurora de meus pensamentos de que meus romances escondidos pouco interesse despertam em seus olhos de boa mente, Onde raios de luzes boreais andam eminentes, Ninguém jamais verá seu sentimento inquieto e secreto, Nenhum coração te apunhalará no mundo, Deixa-me segurar suas mãos de anéis, Em braços de ferro, Te levar para regiões devolutas, Para onde a coragem é sarmatiana, Intrépida como os antigos saxônicos diante da morte, Ardente como nosso amor diante da chama que não se vê, Vamos fazer a Bretanha francesa atravessar o mar até a grande ilha, Onde vive Morgana com sua senhora do lago, E lá fazer nossa pátria suspirada de suas mais doces esperanças, As únicas impaciências de sua alma, De poucos fogos, De muitos amigos em espírito, Gente nossa, Sem fossos, Barbacãs, Sem a muralha de Adriano, Onde Elisabete jamais venderá nenhuma de suas convicções, Qualquer nação de bicho fêmea, Incluída a terra, Que também é mulher.



EX UMBRIS FURTUM AD LUCEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

É um  horror sentir estes baixos calões, Gatunos, Funkeiros, Como só este país pode criar, Joias superfaturadas para adentrar como sócio nas quadrilhas que assaltam residências, Seus advogados desonestos, De porta de cadeia, Levantam objeções a quaisquer propostas de moralização, E travam sobre os cadáveres das vítimas de seus clientes uma briga peito a peito pelos seus espólios, Um cortar de ferros e um ressaltar de sangue que espirra às faces dos mortos, Ficam com todos os despojos do diabo, As tropas policiais perseguem e roubam todos os ladrões cercados, Em meio aos escombros humanos, Surge uma donzela esquecida viva, E dela saem músicas, Que roubam e requintam a sensibilidade, Saem de linda mulher que rouba corações, São estas parcelas redivivas, Restos de um exemplo e de um nome, As que promovem a mais sólida e benéfica imortalidade àqueles que se finaram, Cortejados pela saudade e admiração de todos, A música também é roubada, Qualquer investigação que se faça vai roubar um bom tempo, Vai descobrir que as somas roubadas são muito mais elevadas, Roubam-me de uma de minhas demoiselles a brisa que doudeja indiscreta arregaçando o lenço à tão linda jovem que alegre passeia, E se diz, Ainda, Que a morte veio roubar-lhe os sofrimentos, Um infeliz acaso que roubou de uma merreca de felicidade uma pobre família, Roubam à saída dos bancos, Roubam um beijo à rosa perfumada, Aquela que não fala, Mas só rouba a fragrância que ela exala, A lei de Deus, Assim como a dos homens, Proíbe roubar, O açougueiro rouba no peso da carne, Mas os antigos egípcios não aligeiravam o alqueire, Me chamam de esquisitão, Que rouba-se às manifestações de apreço dos amigos que não tenho.


SWINGING LONDON



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Olhamos para o alto, Para um céu azulado, Desanuviado, E em nossos olhos caem esparsos pingos de chuva num dia ensolarado, Olhamos à nossa direita, Para o outro lado do Atlântico, E em nossos ouvidos penetram descriminados tons negros, Preservamos suas cores em nosso íntimo, E trocamos suas almas pelas nossas, E a Londinium dos romanos, Nivelada ao chão pela rainha Boudica, Na década de 60 de dois mil anos atrás, Deixa agora, Nestes novos e gloriosos anos 60, De ser capital de um império, Para ser o centro da efervescência cultural e artística do mundo, Trocamos nossa rainha palaciana por uma modelista, Que deixou nossas pernas à vista, Nossas roupas com matizes mais vivas, Abandonamos nossas armas, E conquistamos todos os países com nossa moda e nossos costumes, Resgatamos da antiga ilha Grega de Delos, Santuário de Apolo e Ártemis, O elixir que mantém nossas mentes abertas à percepção do desconhecido, Do inusitado, Dando-nos o poder da criatividade e originalidade, Nos tornamos modernos, Descolados, E arrojados, Substituímos nossos banjos por guitarras elétricas, E revolucionamos a música, Pondo Mozart, Beethoven e Bach para dançar em seus túmulos, Escandalizamos nossos conservadores, Incluindo os pequenos carros Mini-Coopers na frota de táxis, E usando nossa bandeira para confeccionar calcinhas, O mundo nos olha e nos ouve, E em todos os seus sentidos vibra a cidade mais avant-garde do planeta, E lhe retribuímos a admiração, Dando-lhe de presente, Os Beatles, Os Rolling Stones, E o The Who, E Deus nos agradece.

SOL ADORMECIDO NAS AVE-MARIAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Depois das ave-marias, A sombra do pôr do sol de manso derrama-se silenciosa sobre meu pranto, Espalha a luz da lua pelas minhas orações a bruxulear ante meus sacrários, Toma-me uma vestidura penitencial, Véu polvilhado de cinzas tirantes ao azul de uma última morada, A desolar-me com salseiro de um mar inexplicável, E de chuvas imperceptíveis, Guarda em mim minha tristeza inteira, Escreve-me com a mão esquerda para dissimular a letra, Para coincidir meus pesadelos vigeis com sonhos dourados, Para os mesmos e antigos anseios unirem-se na imaginação e fora dela, Chegando a desenfiar-me a camisa de dormir, Recaindo na cama, Ao ver, Ou, Antes não ver que ainda é escuridão, Que ainda são horas esquecidas, Que de devaneios ando, Que de água de purificação e sol da vida me simbolizo, E na noite vai minha estrela a resvalar as profundezas de minha alma, Com um consternado silêncio que vem do nada lunar, Como o tempo a acabar, Esta minha alma que a outros céus aspira, E pelo prazer íntimo suspira, Que do corpo fecundo ainda não se despede, Que não tendo um destino adoço nele de espírito se faz presente, Ante olhos inocentes e solitários, Cravados na penumbra, Fatigados de acreditar, De esperar, De braços pesados dos fardos a carregar, Então ele surge, Conformando-me, Indelével, Condescendendo-me, Esquivo e negro, Ocultando-se com argúcia inconteste, Demasiado intransigente, Todo moroso, No amanhecer cálido, Que a próxima noite fechará lenta e rapidamente, Quando na insônia batem as ave-marias, E no sono profundo o mundo se descobre.  



AZUL INFINITO



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sei porque você fica aí, De pé, Olhando gente passar, Ouvindo gente falar, Tentando dar um sentido à sua vida, Pondo de lado os vícios e a cobiça, Para valorizar as virtudes da verdadeira amizade, E eu aqui me sento, Mergulho meu olhar no infinito, Fugindo da materialidade, Perdendo-me na transparência, No vazio, Da água, Do ar, À mercê da mulher, Como um barco vogando ao sabor da corrente, Porque nela tudo se suaviza, Tudo perde forma e substância, O mar deixa de ser mar para ser apenas um cursor, Como pássaro voando ao capricho do vento, Porque nela tudo se desmaterializa, Tudo perde movimento e som, O céu deixa de ser céu para ser apenas sua cor, Sei que você está em busca de um sorriso para dar alívio à alma aflita, De alguém para quem chorar, Alguém para você proteger, Evitando a leviandade do jovem, Que faz sexo só para partir corações, E ainda não me levanto, Passo para o outro lado do espelho, Caminhando para a divagação, Abandonando o repouso terreno, O contentamento comigo mesmo, Num sonho, Com Rígel, Com Mégil, A viver pela mulher, Como uma supernova acrescentando mais luz ao universo, Porque nela tudo se acalma, Tudo ganha solene profundidade, A estrela deixa de ser estrela para ser apenas seu fulgor, Porque nela tudo se realiza, Tudo ganha simpatia e gentileza, A mulher não deixa de ser mulher, Porque nela tudo se relativiza, Nela tudo é tratado com absoluto amor.

TRADUÇÃO DA VIDA




Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Neste mundo material não se pode ser apenas espiritual, mas não é necessário ser sensual, olhar com sagacidade, não é necessário ter poder sobre o corpo, cobiçá-lo sem a alma, basta trazer beijos puros de volta dos lábios que os ungiram, sair da terra possuída e entrar na carne santificada, moldar existências em mãos com centelhas vestidas de crepúsculos espargindo flores das montanhas que conquistam as enchentes, maiores que pesadelos milionários e maquiavélicos que abominam o toque aveludado do pêssego, o encontro carinhoso entre a água e a calha do rio despido, deslizando por entre seios, penetrando-os, enterrando-se neles, bem fundo, tão fundo que faz calar, como se fosse tirar um momento da sanidade, e o que poderia tirar momentos de ternura poderia também tirar uma eternidade de animosidade, e pouco se pode fazer sem os dois, sem a corda da esperança a qual se pendura, que lança devaneadores do presente sobre o vão que separa o passado do futuro, deixando pedras e paus fora do caminho, revelando tudo para Deus e o mundo, entrando em sintonia como duas cordas afinadas na mesma melodia, amadurecida para aprender a chorar e amar sem se ferir, para ter desejos instintivos e quase infantis, procurando por mãos estendidas, por estrelas que explodem, pelo cosmos que abraça, por papai e mamãe, por proteção contra os tiranos, contra as danças dos demônios, contra os computadores que aprisionam em noites solitárias, entregando-se a um entendimento mais intenso, deixando o pêndulo do destino balançar entre homem e mulher, levando-os e trazendo-os para onde se deseja estar, mesmo sabendo que nenhum lugar jamais pertencerá a alguém, nem em toda dor, nem em toda felicidade, mas somente em sonhos, porque sendo eles uma tradução do despertar da vida, esta é também a tradução de um sonho, não passa de um sonho do qual acordamos morrendo.



À ESPERA DO DISCO VOADOR (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Matilda era impulsiva, volúvel e da cor amarela indomável que rechaça todo tipo de atenuação e transborda da tela onde o pintor tenta enclausurá-la com outras nuanças. Ia de um extremo a outro, de borboleteira a beatlemaniaca. Com a mesma inflexibilidade da cor da gema que substituiu os besouros bretões pelas borboletas tropicais, Matilda abandonou estas últimas bisonhamente emolduradas nas paredes de sua casa e passou a perseguir óvnis, estes objetos não identificados chamados discos voadores. A escolha dessa nova presa deveu muito ao livro de Eric Von Daniken, Eram Os Deuses Astronautas, que abriu novos horizontes perdidos para Matilda, e do segundo livro desse autor, As Provas De Daniken, para o primeiro sobre os misteriosos óvnis, A Verdade Sobre Os Discos Voadores, de Donald E. Keyhoe, foi um salto rápido e previsível no abismo. Em menos de dois anos, Matilda já era bem versada sobre o assunto e ainda teve um contato imediato do terceiro grau com o Dr. Allan Hynek, um astrônomo considerado a autoridade mais respeitada da época nos meios da mais nova pseudociência e que trabalhou quase duas décadas num projeto secreto da força aérea da terra dos libertos chamado livro azul que tinha por objetivo investigar se alguém ou alguma coisa estava invadindo o espaço aéreo americano. O encontro com o criador das primeiras categorizações ufológicas e que foi convidado por Steven Spielberg como consultor no seu filme ET, ocorreu em São Paulo, e no terceiro e último dia das palestras deste renomado ufólogo, Matilda conseguiu abordá-lo nos bastidores para lhe pedir um autógrafo e não perdeu a oportunidade para fazer a clássica pergunta de quem deseja acreditar em algo, mas que precisa de um ser superior para sancionar sua nova crença: Sim, eles existem, mas eu estaria mentindo se eu lhe dissesse de onde vêm, pois ninguém sabe nem mesmo o que eles são, respondeu o Dr. Hynek. A resposta não contribuiu muito para as expectativas messiânicas de Matilda, mas não impediu os seus esforços jesuíticos de catequização tal qual a primitiva igreja cristã que prometeu aos seus fiéis que a sua geração testemunharia o retorno de Jesus, mas como ele não apareceu, tratou de preparar suas comunidades para uma segunda vinda do cristo num tempo a perder de vista e a recomendar prudência e vigilância porque ninguém mais sabia o dia e a hora do temido dia da volta do filho do deus terráqueo. Ainda que esse deus assim como os alienígenas permanecessem em seus altivos pedestais e fora do alcance dos olhos de Matilda, esses óvnis pareciam estar dando sinais de aproximação a várias pessoas em todo o mundo e o que causava fascínio em Matilda era o fato de ainda não se saber, oficialmente, o que eles eram e isso a impelia a fazer prosélitos pelo simples prazer de impressionar as pessoas e não necessariamente para suprimir suas próprias incertezas mediante a propagação de suas ideias. Matilda sempre era movida por desafios e novidades e os óvnis eram um modismo que a fez se sentir tão próxima de deus como nunca estivera antes. Ela passou a nutrir sentimentos de grandiosidade, desejosa de ser uma pessoa diferenciada e privilegiada, detentora de uma revelação a ser dividida com poucos e pregava como um João Batista preparando o caminho dos seres cinzas e endireitando suas veredas para o encontro final. Para manter o astral elevado, Matilda vivia cantando a música Calling Occupants Of Interplanatery Craft, dos Carpenters, reconhecida pelos novos cultistas como o hino oficial do dia mundial do primeiro contato entre os símios do planeta terra que andam sobre duas patas e os ultra-emissários interplanetários. Mas Matilda não se contentava em confinar seu ímpeto precursor numa área tão distante e isolada como a ribeira do Jordão e ampliou suas audiências perigosa e pateticamente para todas as esferas sociais. No primeiro dia de seu novo emprego, ela ocupou os noventa minutos do horário do almoço fazendo uma síntese do fenômeno ufológico e deixou suas novas colegas indagando como ela teria conseguido passar no exame psicotécnico. No velório de sua avó ela conseguiu roubar a atenção de uma rodinha de contadores de piadas por quase duas horas. Com o passar dos anos e com os óvnis cada vez mais mostrando indícios de que eles não eram projeções das mentes humanas, mas, ao contrário, os humanos eram as projeções deles, o interesse de Matilda pelos extraterrestres passou para um segundo plano, diminui, esmaeceu, descorou aos poucos, assim como o amarelo que segue sua tendência natural ao claro e guarda uma afinidade intensa e física com o branco, como bem observou o artista e teórico abstrato Wassily Zandansky. A volatilidade de Matilda a levava a migrar para qualquer tom, sem baldeações e sem gradações, com a mesma disposição que ela tinha para sair de um estado de profunda melancolia para outro de puro êxtase. Sua inclinação à alvura, em particular, era ambivalente, como o positivo do retrato de sua alma, mas negativamente carregada de todas as misérias humanas resgatadas de volta a uma caixa de Pandora, e recomposta de todas as cores do espectro devolvidas à sua fonte original através do mesmo prisma que as separaram, transformando-o na cor que não representa apenas a ausência de cores ou a soma de todas elas, mas também uma contraposição ao nada que é gelado, escuro e assustadora e desproporcionalmente maior do que o insignificante todo para o homem, essas pedrinhas luminosas e solitárias que salpicam o breu sem-fim. Matilda se desviava para o branco não porque ela fosse pura, pois nem mesmo seus terapeutas tinham acesso ao seu lado sombrio, e nem porque fosse uma pacifista por convicção, mas por conveniência, pois sua apologia a não violência era apenas um simulacro para camuflar sua paura, daí o fato de sua face parecer estar invariavelmente pálida de sobressaltos. Ao sabor das monções e em atrito com infortúnios, Matilda empreendia odisseias como um Ulisses retirante, instigada a sair em busca de aventuras, como se o destino não permitisse que sua vida tivesse interstícios ou sofresse solução de continuidade, sempre lhe aflorando uma nova veneta logo que uma velha começasse a minguar. Por onde andava Matilda ainda carregava consigo seu acervo de relatos sobre visitantes de outros cantos do universo e quando a ocasião se oferecia, por estar na entressafra e por falta do que falar, ela entortava novos incautos com as mesmas histórias, agora não mais com o mesmo entusiasmo amarelo e contagiante, mas apenas com uma centelha esbranquiçada e nada interessante. Um desses novos imprudentes não se empolgou nem um pouco com suas fábulas, mas se apaixonou por ela e logo se tornou seu novo cristo, mais tarde apelidado por Matilda de Mensageiro da Enganação, um nome inspirado no título de um livro do ufólogo Jacques Vallee. Como acontece com todos os filhos do homem, Matilda passou por várias fases na vida, cada uma delas de duração variável e marcada por uma profusão de opiniões, interesses, vícios e credos que são despudoradamente jogados na privada de tempos em tempos deixando menos vergonha do que fedor. Mas Matilda sempre precisou de um eixo em torno do qual suas manias efêmeras e cíclicas pudessem orbitar elipticamente como um asteroide que não se importa quão longe ele possa às vezes estar de sua estrela mãe contanto que ela permaneça sempre lá, no mesmo lugar, sempre lançando luz sobre sua trajetória e mantendo sua cauda alinhadamente para trás tal qual seus cabelos acariciados pela brisa do mar. Este centro gravitacional era um ponto de referência, um alguém que estivesse à sua altura em termos relativos, e abaixo dela e de deus em termos absolutos. Um tipo de guru não charlatão que desse mais do que validez às suas opiniões e ainda se prostrasse aos seus pés como uma divindade submissa. Não um líder que escolhesse sua meta e a conduzisse até ela, non ducor, duco, ou um conselheiro que sugerisse mudanças nos seus planos, ou um guia ou um orientador que lhe mostrasse o caminho, mas apenas uma diva que tivesse pelo menos algo em comum com ela, que tivesse um conhecimento geral aparentemente parco e que a motivasse a superá-lo, deixando-a ser o centro de suas atenções, ouvindo-a, admirando-a e engrandecendo-a e, ainda que pudesse ser autônoma para arrebanhar seus próprios admiradores, deveria se resignar com o papel de figurante para que Matilda se sobressaísse como a atriz principal. Tal potestade podia ser filho de homem nascido de mulher, mas de natureza glamorosa, como a Miranda Priestly da moda cuja opinião é a única que importa, e deveria se apequenar sob a sombra de Matilda e ser pega para seu cristo particular, como o Personal Jesus do Depeche Mode. Matilda tinha ciúmes desmesurados dessas divindades e se melindrava a ponto de mandar tomar banho até mesmo seus familiares se estes lhe furtassem seu tempo com elas ou desviassem suas atenções para outras pessoas. Se suas deidades morressem, morreriam também todas suas motivações correspondentes ao período que atravessava e com elas Matilda podia se afogar como um salva-vidas despreparado que é levado para o fundo da água pelos braços fortes de um desesperado. Matilda tinha dificuldades crônicas para se livrar da dependência destas divindades, como um viciado inveterado que só consegue deixar as drogas com ajuda médica e ao custo de muito sofrimento. Só mesmo o tempo, o remédio que não faz mais efeito e a visão de uma nova imagem primitiva permitia que uma déia dessas fosse milagrosamente largada no esquecimento, num ostracismo involuntário. Na infância e na adolescência Matilda teve um cristo chamado Joe Citadino que nunca entendeu a indiferença e o desprezo de Matilda por conta do seu total desconhecimento das sequelas deixadas pelo abalo emocional e incurável que ela sofreu na juventude e que dividiu sua vida em duas: antes e depois do colapso. E assim como Estragon e Vladimir de Samuel Beckett esperaram pelo amigo Godot que não apareceu e concordaram em ir embora mas não esboçaram nenhum movimento, Matilda morreu sem ver seu disco voador e suas duas vidas nunca saíram do lugar.

E ASSIM DEVE SER O INFERNO NA MENTE DE ONDINA (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O daimon de Matilda costumava dizer-lhe que a vida em si já é uma expiação e a aconselhava a carregar sua cruz com classe e jamais cair na tentação do satanás de aliviar o peso do seu fardo, e não ter com ele nenhum tipo de envolvimento, nem por brincadeira. O daimon de Matilda era adivinho, filósofo, profeta e cristológico e Matilda costumava participar à sua amiga Ondina tudo o que seu daimon lhe dizia, e Ondina não só se encantava com essas histórias de gênios como também adorava remedá-las, parafraseá-las e parodiá-las, pelo simples prazer de entreter sua mente. Não existe nenhuma palavra no vocabulário desta língua ou de qualquer outra estrangeira que possa explicar Ondina. ‘Espirituosa’ é um vocábulo atraente e tentador, mas está muito distante de uma definição apropriada para o caráter de Ondina. A maior dificuldade de se encontrar palavras para explicar a personalidade de Ondina talvez resida no fato dela sempre parecer se situar exatamente na fronteira que separa um gênio de uma louca. Ela não era nem uma nem outra e tampouco um meio-termo das duas. Talvez fosse um novo tipo psicológico ainda não descoberto pelos cientistas. Talvez ela fosse aquela resposta que Matilda recebeu do Dr. Allen Hynek sobre discos voadores: Se eu lhe dissesse de onde eles vêm eu estaria mentindo, pois ninguém nem mesmo sabe o que eles são. Mas, como dizia aquele presidente corrupto e obtuso, make no mistake about it, Ondina era humana e deste globo terrestre e nele vivia embora ela fosse capaz de se desvencilhar o suficiente de todos os laços da realidade relativa para criar seu próprio mundo. E ela vivia como qualquer cidadã que tem o direito de entrar numa biblioteca pública, folhear e tomar livros emprestados, devolve-los e consultar outros. Ela também ouvia vozes, mas nunca as atribuía a daimons. Nunca acreditou que alguém pensasse ou falasse por ela. Sempre achou que as vozes eram apenas ecos de seus próprios pensamentos, típicas de uma pessoa que, como ela, tinha o costume de constantemente falar com seus botões e confabular com sua consciência. Ela também tinha visões, mas nunca se deixou envolver por elas, e também jamais abstraiu delas qualquer ideia própria. Ela simplesmente as contemplava enquanto seu incansável inconsciente se incumbia do resto. Ondina era sociável, participativa, oferecida e de raciocínio rápido. Ela respondia a tudo, no ato, sem pensar muito e sem nenhuma intenção de zombar ou de pousar de engraçada e intelectual. Nenhuma pergunta ou observação a ela feita ficava sem resposta ou sem um comentário. Ondina só emudecia diante de Matilda, a quem ouvia atentamente, e para os demais falava tudo o que Matilda remoía em casa, sozinha, por horas a fio, lamentando-se sempre por não ter dito o que precisava ser dito na hora certa, e inutilmente se vangloriando de todas as respostas à altura que ela esculpia meticulosamente, imaginando o efeito que elas teriam produzido se fossem ditas nos instantes que já passaram e não voltam mais. Ondina era um anseio por rigidez de caráter aparentado por Matilda e esta um sonho de liberalismo inconsciente representado por Ondina que não era santa, nem satânica, nem tão burra, e muito longe de ser brilhante, mas não totalmente desprovida de malícia beatificada, bondade mefistofélica, repentes irracionais e sobre-humanos. Era inútil querer encontrar em suas palavras beleza e elegância de expressão, vivacidade de matuta, ou ironia refinada e voltairiana. Ondina era também muito prestativa, ou pelo menos isso era o que ela fingia ser, e falava por falar, para não se omitir e não ser negligenciada, sempre com boa fluência e conteúdo, parecendo culta, mas era apenas uma curiosa, uma palpiteira afetada por criptomnésia crônica e, invariavelmente, se complicava, pois boa parte do que dizia sempre transgredia o contexto em que se encontrava. Ondina lembrava muita a morte quando esta cometia um deslize. Quanto mais ela queria consertar uma ideia mal formulada e mal compreendida, mais ela se alongava, iniciando um interminável corolário de complicações, mas ela sempre acabava encontrando meios tão intrincados de se safar quanto suas próprias enrascadas. Se não fosse o fato dela ter registrado esta história, ela seria mais uma pessoa inexplicável, passageira e esquecível, como Pacífica e Bombeira, mais um ser cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade, um ser sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem e que não fazia sentido para os seres que a habitavam e nem para este universo que a abriga como uma das inúmeras e pequenas incrustações num grão de areia do oceano. Se um dia Ondina apreendeu um pouco de ingenuidade no seu convívio com Matilda, este pouco de pureza que ela conservou foi contaminado pela perversão e hipocrisia da sociedade e pelo seu total desapego a juízos de conduta humana no que concerne conceitos do bem e do mal, mas o seu sarcasmo ficava reservado somente aos seus pensamentos que eram dirigidos mais enfática e desavergonhadamente aos perpetradores do mal, como o belzebu mutreteiro das advertências do daimon de Matilda.

DAIMON DE MATILDA: Matilda, Cuide para que não recaiam sobre ti carmas recalcitrantes por teres envaidecido o arqui-inimigo de Deus na sua própria casa com a desculpa de que uma vez lá estando nada te custaria saudá-lo. Em verdade te digo, chegará um dia em que encontrarás o tinhoso numa boa hora e ele tentará te seduzir e te fazer hóspede em sua morada, se demorará na sua mestria cerimonial e tardará em lhe servir uma saideira de modo que para se livrar dele terás que ser mais ardilosa que o próprio.

ONDINA: Sabe, Seu capeta, não querendo fazer média com o senhor, mas eu acho o seu inferno impecável. Estas fornalhas inspiradas no holocausto de Hiroshima são impagáveis. E eu que pensei que fosse encontrar aqui apenas aqueles caldeirões de pigmeus, fogueiras da santa inquisição e até mesmo aqueles fornos dos campos de concentração nazistas! Agora, essa sopa de merda que é servida aqui é simplesmente do caralho, ou melhor, do cu mesmo, e com certeza faria os mais finos paladares das moscas parasitas do distrito federal renderem-se ao seu inigualável sabor. E esse cheiro de enxofre então? É denso, substancioso e delirante! Nem todos os peidos de toda a humanidade soltos ao mesmo tempo se comparam a esse telecoteco em sovaco de nega, cheio de manteiga de se lambuzar, e com catinga de macaco misturada com a de gambá. Estou tão chapada que vou voltar planando. O senhor me dá licença mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar minhas amigas e convivas se iludindo com o reino absoluto dos céus depois de eu ter conhecido esta livre democracia terrena que não cobra dízimos e nem exige vestes nupciais para entrar. O senhor não perde por esperar! Esta sua humilde e honrada penetra há de aqui regressar em breve como a melhor guia de almas e balas perdidas que esta zona maravilhosa cheia de encantos mil jamais viu.


VESTIDA DE MODÉSTIA



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

A lua dona da noite, O sol do dia, A terra de sua vida, O ar da respiração murmurada, Para os ventos gerais reinarem, Render-se à doidice de seus sopros, Feito bando solto de demônios travessos e brincalhões, As nuvens carregadas não tomadas por Juno, Para Zeus brandir o raio com que troveja, Num relâmpago sobre dezoito chuvas, De muitas primaveras por viver, Sobre meus outonos avançados, Cobertos com o branco e vermelho de minha antiguidade, Sob seu pleno viço, De olhos negros, De alma da cor do mar profundo em tempo límpido, Despe-se do amor-próprio, Qual árvore das folhas, Qual névoa rompida pela luz da manhã, Toda veste-se de desapego e suficiência, E caminha para o universo, Para uma festa à fantasia de estrelas, Com sua aura luminosa como único adereço, Tocando nos infinitos astros de meia-claridade que lhe guarnecem o espaço, E de espaço, Ouve-se notas longínquas de uma melodia que escapa-lhe de boa mente, A cantarolar palavras no interior de uma simplicidade singular, Vedada ao mundo, Ocupado com a loucura de suas importâncias, Feito solitário preso em anjo desenxabido e macambúzio. 


APENAS DIFERENTE (dedicado a Mary Temple Grandin)

Dedicado a Mary Temple Grandin, americana autista que aprendeu a falar tardiamente, com a ajuda da mãe, que recusou-se a interná-la e insistiu para que ela estudasse. Temple é  Bacharel em Psicologia, com Mestrado e Doutorado em Zootecnia. Ela revolucionou as práticas para o tratamento racional de animais vivos em fazendas e abatedouros e hoje ministra cursos em universidades e é a mais bem sucedida e célebre profissional norte-americana com autismo, altamente respeitada no segmento de manejo pecuário

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Se eu tivesse seus olhos, Poderia ouvir o som das estrelas, E como minha voz muda quando estou zangada, Feliz, E mais satisfeita, Se eu não tivesse uma mente, Os mortos morreriam para sempre, E eu não pararia de perguntar aos vivos para onde eles vão, Se eu entendesse bem as pessoas, Não entenderia melhor os animais, E seria tão cruel quanto à natureza, Se eu não tivesse você, Não seria independente, Nem poderia dar um significado à minha existência, Se eu não pudesse ver a morte, Antes dela estar viva, Não me sentiria próxima de Deus, E não saberia como a vida é tão preciosa, Se eu tivesse medo de atravessar a escuridão, O vendaval, E a tempestade, Meus sonhos seriam abalados, E caminharia eternamente sozinha, Sem esperança no coração, Se não existisse alguém de boa vontade para me mostrar perspectivas, As portas não se abririam para mim, E minhas ideias morreriam comigo, Se eu fosse estrangeira, Menos mimada, Mais exigida, Menos prolixa, Mais pragmática e objetiva, Seria melhor sucedida, Mas não seria eu mesma, Se você tivesse meus olhos, Veria o mesmo mundo, Mas com outro tipo de inteligência, Se eu conseguisse te abraçar, Entenderia porque você faz o que faz, E porque as pessoas são capazes de amar, Se você vestisse meu corpo e minha alma, Entenderia porque sou tão diferente, Mas não inferior.

SILVANA FAZ FALTA AO MUNDO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O que te proponho não é mister, Entre neste sonho quando lhe convier, Nada te prometo que eu não possa dar, O que te ofereço é poder te amar, Sonhe dentro de mim, Acompanhe todo enredo até o fim, E encontrará no seu sono apenas paz, Dorme um amigo, Acorde o que está preso e em perigo, E terá em sua existência o bom sonho que nunca se desfaz, Aqui se raia o sol só para você as 24 horas do dia, Aqui se ensaia em bemol só para você as 7 notas da melodia, A noite só chega para que você possa ver estrelas como luzes matutinas, O acorde só arpeja para que você possa ouvir os sons em claves femininas, Teu mar embravecido aqui é reflexo de calma que se reza, Teus vagalhões como montanhas que despedaçam-se com fúria nas falésias maciças aqui tornam-se mãos suaves e gentis que te erguem ao alto de um precipício e põem tuas pernas a dançar, Teu olhar entristecido aqui é espelho da alma que se embeleza, Tuas inquietações como rajadas que amedrontam-se com terror nas tempestades da vida aqui tornam-se brisas finas e puras que te sopram corpo acima e põem seu espírito a flutuar, O que te infundo não é simples fantasia, Desperte para o mundo mesmo em época tardia, O que desejo é ver você feliz, O que almejo é ser seu aprendiz. 

NATUREZA MORTA



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De onde vejo o sol há muito silêncio e nenhum movimento. Ele está longe do universo. Seu lar é a terra com seus passarozinhos redomoinhando o céu, silhuetando suas formas ágeis e delicadas, num bailado não ensaiado, diante e distante de uma chama branda que harmoniza-se com nuvens desamarradas e crestadas de rosa. De onde estou posso ler seus bicos cantando, ecoando e passando ao largo da minha imaginação, deixando-se levar pela aura que estende-se até onde as águas cacheadas de verde encontram-se com o firmamento macio e ainda anilado. Meus olhos percorrem prados ondulados até onde as montanhas esmeraldas alquimiam-se com o ouro do pôr do sol, juntando-se à serenidade da noite, caindo lentamente e acalmando o coração, que bate com a taciturnidade das estrelas e cumplicia-se com o sortilégio da alvorada. Da banda oposta vejo o lado iluminado movendo-se calado e com seu rosto espreitando a pálida escuridão. Ele ainda continua bem afastado do cosmos. O teto de seu lar está vazio, sem deixar nenhuma marca onde há pouco penduravam-se olhos cintilantes que de longe observavam almas com uma aparente insensibilidade de natureza morta. De onde ainda estou gostaria de vê-lo despontar no fundo do quintal de sua casa novamente, acordando e cativando a fauna no palco onde a mesma peça é representada todos os dias. Onde estarei dormindo pela última vez, meus olhos se voltarão para o alto e sondarão as mesmas imagens ilusórias. Meu espírito buscará os mesmos sentidos vãos. E por mais alto que eu pense, ninguém me ouvirá. E por mais distante que meu pensamento viaje, ninguém o encontrará. Por mais viva que esteja minha essência enquanto deixa marcas deléveis no mundo, é a magia de meus sonhos que viverá para sempre.


SENSIBILITATE ET SENSUALITAS SINE RATIONE CERTA ARTICLE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Põe-se a caminho sensualidade de sensibilidade, Faz vento soprar rente a um gênero frágil deitado em solo fértil, Esparrama cabelos, Pontas de tirso de hera e pâmpanos, Carregadas de pinhas com arranjo de flores de celofane, Cingidas de tijolo e salmão, Embrenhados por mãos entre fios emaranhados, Acariciados por suaves toques de veludo, Por lagartixas deslizando em vidraças como Jesus em água, E deixam mechas pendularem sobre olhos de caleidoscópio, vidros multicoloridos refletindo milhões de sóis, Milhões de escravos carregando bastões em círculos em torno de suas escravas, Negras do mundo que atraem seus brancos em trevas de dias findos, Fazendo-se acompanhar igualmente por bacos e tíades, Levando uns a sentirem-se o que é estar morto, Como se nunca tivessem nascidos, E outras a sentirem-se o que é ser lasciva e sentimental, Como se nunca atinassem para sexo oposto, E bastam-se por sua sensibilidade, E extravasam-se por sua sensualidade, E acoplam-se por leis naturais do sexo forte, Aliado de ruim com elas, De pior sem elas, Adversário de inconcebibilidade  sem feminilidade, De previsibilidade com masculinidade, Privando vivedores de cores, Flores de odores, Provadores de sabores, Trovadores de amores.      

O PRIMEIRO ENCONTRO DE ONEDIN COM DONA MYSTIQUE (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

...e o famoso Platão, por exemplo, era homossexual. Toda Atenas sabia e ele não estava nem aí.

O que é que o senhor está dizendo, moço? Onde já se viu um seguidor e mártir do Nosso Senhor ser chamado de bicha! O senhor está ofendendo a mim e a Deus, sabia? Onde é que o senhor está com a cabeça?

Nada surpreendia Onedin, mas esta inesperada observação da Sra. Mystique exigiu dele alguns segundos extras de reflexão. Os olhos múlti direcionais de Onedin percorreram rapidamente a sala à procura de algum livro sobre a Grécia clássica, mas nada encontraram. Onedin pensa: Esta mulher não pode ser uma espírita enrustida senão ela era teria dito que Platão foi um precursor e não um seguidor ou um mártir do Mestre. Será que ela é uma daquelas católicas pseudólogas inconscientes a ponto de confundir Santo Antão com Platão? Seria bem mais simples e até útil se Onedin usasse um pouco de sua memória críptica e explicasse à Sra. Mystique que talvez ela estivesse se referindo àquele santo que iniciou o movimento dos anacoretas e que séculos depois foi fonte de inspiração para os mosteiros Beneditinos. Mas, ao invés disso, Onedin preferiu justificar uma implausível homossexualidade de Platão dentro do contexto desavisado da Sra. Mystique. Onedin não se importava se alguém confundisse as pessoas. O que ele não admitia era alguém duvidar e ainda se ofender com suas afirmações.

Perdão, minha senhora, jamais passou pela minha cabeça a ideia de denegrir a imagem do nosso venerável São Platão, o candidato a apóstolo. Eu explico para a senhora. O Mestre tinha um grupo de amigos mais íntimos chamados os 12 apóstolos, e tinha também um grupo de seguidores menos chegados, mas fieis, chamados os 12 suplentes e...

...Espera um pouco. Eu nunca ouvi falar nestes 12 suplentes! E o que eles têm a ver com o fato de Platão ser bicha?

Tem tudo a ver. Eu te explico. Os 12 suplentes eram seguidores devotos que aspiravam entrar no grupo dos 12 Apóstolos para poder desfrutar da divina companhia do Mestre e de suas parábolas do arco da velha, mas eles não ganhavam o suficiente para chegar a tal posto. Eles não ganhavam como os suplentes da nossa câmara que para substituir os titulares em férias faturam em apenas um mês uma grana que a senhora levaria uns vinte anos para juntar. Para entrar no círculo de amizades do Mestre era preciso ter cacife, mas, com exceção de São Platão que abriu mão de seus escravos e de sua vida aristocrática em Atenas para ser apenas um carregador de tirso em meio às poucas bacantes na Galileia, esses suplentes eram todos uns pés rapados!

Ah essa não! Isso já é demais! Desde quando o Nosso Senhor cobrava pela sua amizade? O senhor já está passando dos limites!

De forma nenhuma! Isso era coisa do Judas. Ou a senhora já se esqueceu que ele era o tesoureiro do grupo e um grande trambiqueiro?

Mas o Nosso Senhor jamais teria permitido que Judas ludibriasse seus companheiros!

Claro que não! Mas ele não tinha conhecimento das falcatruas de Judas, tanto é que até ele foi vítima daquele salafrário e acabou sendo traído por ele e foi vendido aos Romanos por trinta paus, lembra-se?

É mesmo!

A bem da lógica, era a Sra. Mystique quem precisava de um tempo extra para refletir sobre todas essas asneiras de Onedin. Uma pessoa normal esperava que a Sra. Mystique encerrasse a conversa e colocasse Onedin para fora de sua casa. Mas aquilo que os humanos chamam de normal é muito mais relativo do que o tempo.

Mas, me diga uma coisa. Como o senhor sabe que o Platão era veado?

Bem, como eu lhe disse, Platão era um dos 12 suplementes e, juntamente com os 12 apóstolos, um dos 24 seguidores do Mestre. Como ele era o último da fila na ordem de preferência do Mestre, era chamado de 24.

Ah, não! Isso já é demais! 24, o veado no jogo do bicho? Moço, o Senhor já está querendo me fazer rir com coisa séria. Como é que poderia existir jogo do bicho naquela época?

Oras bolas, a senhora não sabe?

Não sei o quê?

Que os contraventores do jogo do bicho se inspiraram no sistema hierárquico dos 12 apóstolos e dos 12 suplentes baseado em números e nomes de animais!

Não diga!

Digo sim! Eu conheço tudo sobre o significado de toda essa bicharada.

Agora, o senhor me deixou curiosa. Fala-me aí, quem era quem nesta hierarquia.

Eu bem que gostaria Sra. Mystique, mas tenho outro compromisso. Teremos que deixar isso para outro dia.

Agora, Onedin queria se livrar da pessoa quem ele pensou ser sua melhor pista para desvendar o misterioso crime passional, mas mal sabia ele que ela seria a peça chave do quebra-cabeça legado por Tilly. Se ele se libertasse dela e voltasse a encontrá-la, e ele voltaria a se encontrar com ela mais vezes até dar uma explicação sobre todos os animais de sua perigosa improvisação, ele não teria dificuldades para aceitar a irrogação da pecha de embusteiro com esta história do jogo do bicho em tempos longínquos com a mesma cordialidade que Murphy aceitou a de pessimista, pois seu otimismo congênito destituiu-o da noção de defeito e lisonjeio, mas ele estaria preparado para dar uma explicação convincente e mais absurda do que esta história, pois cedo ou tarde, rezam os ditames do juízo humano, a senhora Mystique cairia em si ou alguém faria isso por ela, e sua razão seria naturalmente restituída à normalidade. Porém, a Sra. Mystique não era daquelas pessoas que gostam de mágicas, aquelas que sabem que tudo não passa de um truque, mas que sentem um enorme prazer em serem enganadas. A senhora Mystique não nasceu e nem se tornou doida. Como a maioria das pessoas, ela precisava ser alienada, pois só assim é possível continuar vivendo. Onedin não precisou se esmerar para esquivar-se dela, afinal ela não era tão matreira como o coisa à toa, e seu hálito enxofrado se amalgamava com o cheiro de mofo do ambiente e formava uma rara atmosfera catinguenta, mas exorcizante.

Ah, vamos lá, moço, o senhor é um verdadeiro artista de cidade grande. Me dá uma canja, vai. Fale-me só alguns nomezinhos.

Está bem, mas só alguns nomes porque já estou atrasado. O número 1 era Pedro, o avestruz, aquela rocha sobre a qual o Mestre disse que iria edificar sua igreja.

Mas por quê avestruz?

Porque ele era covarde. Ele negou o Mestre três vezes. Agiu como uma avestruz que enterra a cabeça na areia para não enfrentar o perigo e a adversidade. A senhora lembra daquela letra do Paul que diz: 'Me used to be angry young man, Me hiding me head in the sand'? É a mesma coisa.

Nossa que interessante! Não entendo inglês, mas acho que agora estou começando a ligar as coisas. Posso dar um palpite?

Claro!

Eu já sei quem é o número 2, a águia. É João!

A senhora sabe que eu também sempre pensei que João fosse a águia até o dia que eu estudei este código secreto do entourage do Mestre e descobri que, na verdade, João é o 7, o carneiro.

Essa eu não entendi. E aquilo que a gente aprendeu no catecismo sobre os quatro evangelistas serem representados por animais, Marcos, o leão, Mateus, a fera com rosto de homem, Lucas, o touro e João, a águia?

São apenas interpretações artísticas da igreja tardia. Não tem nada a ver com o código secreto dos apóstolos.

Mas, então, fizeram estas representações com base em quê?

Foi com base nos próprios evangelhos. Dizem o seguinte: João é a águia porque sua narrativa começa no céu, com o verbo eterno que desce à terra e se faz carne. Marcos começa falando de João Batista, uma voz que clama no deserto como um leão que urra. Lucas é um boi porque este é um animal de sacrifício no templo e a narrativa sobre a pregação de Jesus de Lucas começa no templo. Mateus é, na verdade, apenas um ser humano e sua narrativa começa com a genealogia humana de Jesus.

Puxa vida, o senhor sabe tanta coisa! Também não é para menos. Um jornalista do Legislado Baixo! Aqui no Vale e ainda na minha casa, me entrevistando! Sinto-me lisonjeada com sua presença e deslumbrada com tanto conhecimento que estou adquirindo com o senhor.

Imagina. Eu que não estou acostumado com tanto elogio assim.

Muito obrigada, moço. O senhor pode me dizer por quê João era o carneiro?

O evangelho diz que João era o apóstolo favorito do Mestre. Ele o amava. João foi o único apóstolo que esteve presente na crucificação, sempre junto à mãe do Mestre. E do alto da cruz o Mestre disse para sua mãe: 'Mulher, eis o teu filho!' E disse para João: 'Eis a tua mãe!' O Mestre era conhecido como o cordeiro de Deus, por isso, seu apóstolo favorito teve a honra de substituir o Mestre e passar a ser chamado por um nome correspondente: o carneiro!”

Se, por acaso, a senhora Mystique perguntasse que bicho João foi antes da crucificação, Onedin já estava com a resposta na ponta da língua.

Meu Deus, que coisa linda! Olha só, fiquei toda arrepiada.

Bem, agora preciso ir mesmo.

Por favor, só mais um nome. Eu prometo que será o último hoje, tá bom?

Está bem, só mais um.

Quem era o número três, o burro?

Eu acho que a senhora vai ficar tão surpresa quanto eu quando fiquei sabendo. Era o Pedro.

O Pedro de novo? Não entendi.

Era outro apelido que ele recebeu do Mestre, porque, além de covarde, ele era meio burro, meio porra louca, se a senhora me permite. Fazia as coisas sem pensar. Há várias passagens no evangelho que atestam sua impulsividade. Naquele episódio do Mestre andando sobre as águas, Pedro pediu para ir ao encontro dele e o Mestre pediu para que ele viesse. O burro desceu do barco, achando que iria andar sobre as águas e afundou. O Mestre, sempre paciente, lhe perguntou educadamente: 'Onde está sua fé?' Mas eu acho que ele devia estar se perguntado: 'Meu pai, terias tu colocado o cérebro deste burro no lugar por onde saem as fezes'? Tem também a noite em que o Mestre foi preso. Quando o soldado se aproximou para levá-lo, Pedro se precipitou e cortou a orelha dele com uma espada, arrumou a maior confusão e o Monte das Oliveiras quase virou um banho de sangue e teve nego que precisou sair correndo pelado.

Nossa! Olha que eu já li os evangelhos várias vezes e nunca tinha prestado atenção nestes detalhes.

Até mesmo depois da ressurreição, eu acho que o Mestre tirou uma com a cara dele.

Ah, não acredito.

Bem, se a senhora leu os evangelhos tantas vezes como disse, veja o Capítulo 21 de João. Lá diz que na terceira aparição que o Mestre fez aos apóstolos após a ressurreição, eles haviam acabado de comer e o Mestre fez a Pedro a mesma pergunta três vezes: 'Você me ama mais do que os outros'? E Pedro deu ao Mestre a mesma resposta três vezes: 'Sim, Mestre. O Senhor sabe que eu te amo'. Mas, nas três vezes, o Mestre deu a mesma réplica: 'Vá dar comida aos carneiros'. Na terceira vez, Pedro ficou até meio aborrecido e disse: 'Mestre, você conhece todas as coisas. Você sabe que eu te amo'.

Virgem Maria, esta eu preciso conferir. Não é que eu duvido do senhor, por favor não se ofenda, mas preciso ler isso de novo e descobrir como eu não percebi esse tipo de gozação antes. Mas, pensando bem, será que o Nosso Senhor não estaria testando Pedro por causa daquelas três vezes que ele o negou?

Faz sentido. Talvez o Mestre quisesse apenas constatar que Pedro era covarde e burro, mas não mentiroso.

Moço, agora estou me dando conta de uma coisa. Se Pedro ocupa 2 dos 24 números do jogo, alguém vai ficar sem número. Como o senhor explica isso?

Onedin tinha explicação para tudo. Ele não só provaria que nenhum dos 24 integrantes ficaria sem número, como também elevaria a quantidade deles acima dos 24 sem aumentar a quantidade de animais.


A senhora me dá licença, mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar meus amigos e convivas se iludindo com a opulência da cidade grande depois de eu ter conhecido esta pequena e simplória cidade do interior que recebe estranhos em seus lares de braços abertos e ainda retribuem suas súbitas aparições com largos sorrisos em seus rostos. A senhora não perde por esperar! Este seu humilde entrevistador há de aqui regressar em breve como o melhor aprendiz da homossexualidade que esta amoreira cheia de amores mil jamais viu...