sábado, 1 de outubro de 2016

ALÉM DO PORTÃO: primeiro conto da TERRA DOS LOTÓFAGOS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.
ILUSTRAÇÃO: PAINTING by JAN ESMANN DE 1998;  MÚSICA: BYLAR by ATARAXIA

O tilintar daquela melodia parecia inofensivo, mas sua sucessão rítmica acabou por hipnotizar-me como uma cobra aproximando-se furtiva e silenciosamente de sua presa, encurralando-me, imobilizando-me letalmente com seu veneno. Sentimentos de imprecisão e bizarrice apossaram-se de mim. Arrepiei-me e suei frio. Era como se eu tivesse sido entregue ao sacrifício num ritual satânico. Vozes em coro vociferavam solenes e cavernosas e nada diziam, nem em latim de trás para frente, nem em palavrório. Amargura e sofrimento transpareciam sob a mantilha daquele canto de possessão e embriaguez. Sua bestialidade arrefecia, mas assomava-se à minha alma e, enquanto ainda se embalava ao som de batuques tribais, bradava súplicas e júbilos ao mesmo tempo, crescendo em compasso de descontinência e euforia, parecendo estarem sendo elevadas pelas mãos transespaciais de uma divindade, até que todas elas, em unissonância, soltaram um grito de angustia, debulhando-se em pranto, lamentando e glorificando uma perda, vibrando e ecoando na atmosfera até estanca-la e logo faze-la tremular novamente aos sopros de anjos e bafejos humanos montadas no lombo de Pégaso, cavalgando em triunfo pelo céu. Perdi a consciência e acordei sentindo o torpor do cansaço de uma longa viagem, num destes lugares quem o alheio veste e na praça o despe, mas que estranhamente me pertencia e me tranquilizava. Vi-me numa ruela embaçada pela poeira e esta empurrada pela ventania e atiçada com rapidez e intensidade pelo movimento de vaivém de homens e mulheres vestindo túnicas tingidas de matizes que cobriam todo o corpo, desde os tornozelos até os ombros, tendo as cabeças e pescoços adornados por turbantes, bandanas e echarpes de igual múlti coloração. As pessoas passavam por mim e não me notavam. Eu não podia estar invisível, porque algumas esbarravam em mim e quase chegavam a me derrubar. Recuei até o muro de pedra atrás de mim e percebi que nele havia uma laje embutida na rocha que se elevava à altura do peito e sobre ela havia um homem, estendido ao comprido, decerto agredido com pancadas, pouco mais de pele e osso, sujo de sangue, sem cobertura, com apenas os restos de um cueiro insuficientes para cobrir-lhe a parte que mostra despudor. Toquei seu corpo ainda morno, mas não esboçava qualquer movimento. Não tinha pulso, nem respiração. Estava morto. O que este infeliz fez para ser surrado até a morte e ainda ter as roupas roubadas? Talvez seu cadáver estivesse estorvando o caminho e foi incontinente despejado sobre esta lápide que lhe esfola por sua aspereza. Será que ninguém se importa com ele e aqui ele permanecerá até apodrecer? Voltei-me para a rua em busca de explicações sobre como dei de súbito e às favas nesta terra, e levei um susto ao deparar-me com uma mulher bem atrás de mim, toda coberta de vermelho, de globos oculares brancos, sem íris e pupilas, segurando com a mão esquerda erguida ao alto um objeto em forma de estrela perolada, com pontas quebradas, e fitando-me sem pestanejar.

- Quem é a senhora? E por que está olhando-me deste jeito?

- Mulher que não é daqui, nem deste tempo, presa entre dois mundos! Alguém se importa sim! Falta-me o espelho da alma, mas não pense que desconheço tudo que se passa neste lugar do qual sou a guardiã. Saiba mulher que até momentos atrás tudo por aqui parecia ter mudado para melhor. Nossas vidas tinham tomado uma dimensão jamais vista antes. Saía-se de casa com a cabeça em ascensão e com as amarras do coração rompidas pelo amor. Cantos fúnebres eram substituídos por hinos de regozijo. Comemoravam-se vitórias sem se ter inimigos. Elevasse-se a voz às alturas em louvor. Voltava-se para casa em paz e sem temor. Não compreendo o que aconteceu. Gente morre todos os dias. Sentimos e choramos, enlutamos até que a dor vá embora, e voltamos a viver como se a morte tivesse se distraído e nos esquecido. Mas não era assim há poucos instantes, quando o viver não atinava para o falecimento, abafava lamúrias que outrora fugiam ao controle, e dava sentido onde nunca houvera um. De repente, as ruas alvoroçam-se, os ventos sopram ao contrário, o rumo de casa se perde nas encruzilhadas, as esperanças procuram lugar para se esconder. E pouco antes de a senhora aqui aparecer, ouvia-se o ar cantar, o mormaço dar lugar a uma brisa prazerosa, via-se gente que nunca sorriu sorrir, gente que nunca teve fé consolar. Até momentos atrás este homem aqui deixado ao abandono tinha vida, e, de repente, duma só vez, prostraram seu corpo e levaram sua alma, e com ele se foi uma parte de tudo e de todos. Mesmo sem nunca tê-lo conhecido, agora vou voltar para a casa de cabeça baixa, engolir lágrimas que não sei de onde brotarão , sentir uma angústia que nunca habitou em mim. De repente tudo muda, tudo acaba em nada, como numa jornada de muitos dias e sem préstimo algum. Todos voltam para casa ao desamparo, a passos rápidos e desnorteados, sem esperar que o sol volte a brilhar amanhã. Tudo agoura tristeza como se o mundo nunca mais adiantará, como se estar vivo fosse mera motricidade. Um vazio que ultrapassa os padrões preenche todos os recônditos, todas as entranhas das muralhas e todas as praças. Muita melancolia paira sobre nossas cabeças, e ninguém sabe por que, mas, estranhamente, uma voz trazida pelo vendaval sussurrou-me que Deus está cheio de angústia, porque este homem aqui posto de parte era seu filho único e foi assassinado. Eu não sei quem ele foi, mas, justamente por causa desta minha cegueira, sempre o pressenti por onde andava, e agora entendo a razão daquela felicidade sem explicação que a todos contagiava. Por isso gostaria de ter de volta esse miserável, mesmo que fosse, verdadeiramente, filho de Deus, o que não poria fim ao meu ceticismo, nem que fosse para tê-lo longe de mim. Só de saber que seu sopro vital ainda perambula por aí como eu sentira antes, eu transformaria o resto de minha vida num testemunho contrário ao costume. E para minha supressa, há poucos instantes, este homem apareceu diante de mim como uma assombração e disse que, enquanto eu sorria, ele sorria junto de mim, e que eu não devia lamentar-me por não tê-lo conhecido em vida, pois, disse-me ele, ‘me conhecerás melhor na morte, e, se crerdes em mim, verás que o mundo nunca mudará, e que outras dimensões vislumbrarás, se mantiverdes o olhar sempre voltado para o alto, com o coração posto em liberdade, e ouvirás músicas que nunca ouvistes, entoadas por anjos que nunca vistes, e que cuidam de todos no mundo, inclusive de você, e quando chegar sua hora, lembrarás de mim, como lembrei de meu pai, e a morte nunca mais existirá mais para ti do que para os outros’.

A ladainha daquela mulher impressionou-me pela sua beleza e fluência, apesar do floreio em excesso, como um discurso cheio de pompa e decorado, mas, mais que tudo, chamou-me a atenção por sua falta de lógica. Ela descreveu um homem que trouxe ao povo deste lugar felicidade e esperança que lhe foram tiradas com o que parece ter sido a execução sumária deste desventurado. No entanto, ao invés de chorarem sua morte e darem-lhe um enterro digno da pessoa que ela diz que ele foi, este ‘miserável’, assim ela o chama, foi simplesmente aqui largado como um indigente, e isso não faz sentido nenhum. Mais intrigante ainda é o fato dela associar este homem a Jesus, como ‘o filho de Deus’, que foi morto e logo apareceu diante dela como um fantasma. Logicamente, este não é Jesus e este lugar não guarda nenhuma semelhança com a Jerusalém de dois mil atrás que lemos nos livros. Ao contrário da aridez da terra santa, a vegetação aqui exubera, mas não tem palácios de luxo e fortalezas intransponíveis, apenas habitações e logradouros que denotam modéstia. Este lugar mais parece uma babel de cores que caracterizam as indumentárias de seus habitantes e que dominam o cenário. Enquanto eu meditava estas palavras, essa mulher, provavelmente cega de verdade, continuou, sinistramente, cravando seus olhos nos meus, sem desvia-los, tentando entrar em minha mente, e fazendo-me ouvir novamente a mesma música angustiante que me trouxe para esse povoado do passado que desconheço, despindo meu corpo ainda vivo da minha alma, deixando um enorme vazio no meu ser e, enquanto ela permanecia encarando-me e claramente perscrutando meus pensamentos, eu disfarçava, olhava o morto de esguelha, mas ela percebia e torturava-me fazendo aquela música soar mais alto nos meus ouvidos, fazendo-me sentir uma enorme amargura com a brutalidade da morte, e, no momento em que aquelas vozes explodiam um berro opressivo e soluçado, elas prolongavam meu inconformismo com uma morte, mesmo que anunciada, e açoitavam-me com uma dor surda por alguém arrancado da vida súbita, implacável e arbitrariamente, sem deixar vestígios, rompendo todos os laços de comunicação, tomando uma decisão irrevogável, um caminho sem volta, reduzindo um fértil e imenso inventário de experiências em meras lembranças, e aquele canto de exultação que eu pensei ter-se empolgado para romper o silêncio sepulcral que se segue após uma morte abrupta não saudava a passagem do morto para o outro lado por ele ter encontrado a totalidade de sua alma, mas tinha o inequívoco propósito de infundir contradições em minhas crenças: não há justiça em Deus, mas conveniência; não há bondade em Deus, mas oportunismo; não há misericórdia em Deus, mas pragmatismo; não há amor em Deus, mas egoísmo; Deus só existe para justificar a morte.

- Por que a senhora tortura-me deste jeito? Por que me trouxe para este país? O que quer de mim?

- Mulher, não estou a torturar-te! É você quem tortura a si mesma. Ninguém a conduziu para cá. Você aqui veio pela sua própria vontade e trouxe consigo esta música funesta que sai de uma caixa enfeitiçada e alastra-se como vento impossível de dominar, atravessando paredes e muros e chegando até mesmo aos ouvidos mais moucos. Estou a examinar-te com os olhos da alma porque você é diferente de tudo que já vi em minha vida. Já pressenti a aproximação de muita gente fora do comum junto ao portão. Essas pessoas detêm-se diante dele por alguns instantes, extasiam-se com os jardins abundantes que veem através das grades, pois ouço seus corações palpitando de felicidade e transbordando paz, e sentem um desejo que os seduz a atravessá-lo, mas, por razões que jamais compreendi, sempre acabam voltando, não sem pesar, para o lugar de onde vieram. Nunca pude conversar com qualquer uma dessas pessoas, pois não me é permitido sair daqui, e muito gostaria de conhecer o verdadeiro estado de espírito de cada uma delas, mas satisfaço-me apenas em ouvir os pensamentos que se interpõem uns sobre os outros em suas mentes em impasses. Sim, mulher, eu leio pensamentos e tudo que lhe falhei há de se compreender porque não são ideias minhas, mas suas. E agora, pela primeira vez, estou diante de uma passante que atravessou o portão e ainda fala comigo. Você surgiu tão rápida e repentinamente que quando me dei conta de sua presença você já estava aqui dentro junto deste coitado. Enquanto conversamos, percebo que, ao contrário dos outros, seus pensamentos são bem articulados, embora não revelem sua verdadeira situação e disposição de momento e sobrepujem sua consciência. Mas, então, eis que finalmente matei minha curiosidade. Sei agora o que acontece com os curiosos do lado de fora quando enfim aqui adentram!

- Mas que conversa é essa? A senhora dirige-se a mim com uma fala cheia de eloquência e fastio e sem muita coerência, e ainda continua a falar coisas sem nexo. De qual portão e senhora está falando? Eu só posso estar sonhando ou então morta e sendo triada num purgatório!

- Morta você não está, garanto-lhe. Sonhando, pode ser que sim, mas, por mais lúcido que o sonho pareça ele está turvando seu passado que ainda tem pouco tempo de existência, e também sua visão, pois nem o portão enxerga! Este lugar aqui não é dos vivos nem dos mortos e só avizinham daqui os que estão prestes a morrer, gente emperrada entre dois mundos, como já lhe disse. Eu não me importo com sua irritação porque você tirou-me uma dúvida que está prestes a tornar o resto da minha vida num testemunho insólito. Mas enquanto você fica aí resmungando e questionando tudo que lhe falo os físicos de seu mundo esforçam-se para te trazer de volta à vida e seu retorno só depende de você.

- Mas do que a senhora está falando?

- De você, mulher! O tempo todo de você, mulher! Olha este defunto atrás de você. É assim que você vê a si mesma. Abandonada por tudo e todos. Ninguém se importa com você, viva ou morta. Eu não sei explicar como você chegou até aqui, como já ocorreu com muita gente, mas eu sei de onde você vem e o que pretende encontrar aqui.

- É mesmo? Então a senhora é a versão feminina do famoso Tirésias, o cego adivinho que sabe de tudo!

- Mulher, o sarcasmo aqui tem o mesmo valor da comiseração. Você nunca conseguiu superar seu inconformismo com o fato de que todos devem morrer um dia. E muito pior que isso, você ainda não se resignou com a decisão que tomou de abreviar sua vida com suas próprias mãos, determinada a morrer antes da hora, e você chegou bem próxima disso!

- A senhora está insinuando que eu tentei suicidar-me?

- Se não é suicídio, então é vontade de cair num sono milenar, sonhar por toda eternidade e nunca mais acordar. Para que serve aquela grande quantidade de veneno que você ingeriu e que é acondicionado em pequenas esferas cândidas? Você engoliu muitas delas de uma só vez com a ajuda de vinho ao deitar-se. Com uma das mãos ergueu um cálice e fez um brinde a duas mulheres, sua esposa e uma amiga, a um homem que fora seu namorado, e outra mulher a quem você consagrou esta música que te acompanha: ‘A você, Bylar, minha eterna musa, leva-me para onde quiser e com o amor de minha vida sempre estarei’. Logo depois fez um movimento mágico com a outra mão, segurando um objeto parecido com o símbolo do poder egípcio, e abriu as portas daquele estojo encantado de onde saiu essa enigmática ária que te acompanhou até aqui. Falei alguma inverdade?

Bylar! Minha predileta que ouço todas as noites ao deitar-me! Esta mulher sabe até seu nome, e também do sonífero que tomo para dormir. Mas eu raramente tomo vinho.

- É verdade. Você raramente bebe vinho, mas bebeu na última noite para comemorar sua despedida da vida. E alguns minutos antes de você adormecer, você invocou sua divindade, um tal de Jesus que você chama de filho de Deus, e eu não conheço nenhum deus grego que tenha tido filho com este nome, e você pediu-lhe para te proteger na sua jornada. Mais que isso, seus pensamentos revelam que você gostaria de ser a sua própria divindade, uma pessoa de dons e poderes, sobre-humana, amada por todos, perseguida, presa, interrogada e sentenciada à morte pelos seus algozes, tão dotada que enganou a morte e três dias depois voltou à vida no mesmo corpo, reencontrou-se com seus amigos e deles despediu-se para voltar ao seu pai num mundo que você chama de reino dos céus. Mas este lugar aqui não é o reino que você esperava encontrar e você não é especial para ninguém, a não ser para mim, e nem morta você está como esteve sua divindade. Você é muito jovem, pois tem todos os dentes e pele desenrugada. Apesar de moça, você já presenciou muitas mortes que você chama de anunciadas, talvez por querer assemelhar-se com seu deus redentor. Mas você presenciou um passamento súbito no seio de sua família, uma mulher recostada numa almofada, colada ao seu rosto, que sorria ao seu lado num instante e no seguinte fechou os olhos e deixou de existir para sempre. Você deixou tudo para trás por sua amada e desde então seus sentimentos elevaram-se, tornou-se menos eloquente na fala e mais benevolente e tolerante com seu próximo. Despertava todas as manhãs feliz, punha-se a caminho de sua labuta diária plena de contentamento. Contemplava com altivez e meiguice, seu coração batia com liberdade e paixão. Cantarolava e atraia atrás de si o frescor da brisa, cumprimentava com um sorriso que contagiava os estranhos que encontrava pelo caminho ganhando-lhes a confiança de íntimos da alma, festejava cada fim de dia como se fosse o último, agradecia sua divindade por mais um dever cumprido e por não ver a hora de chegar em casa para encontrar seu amor, a sua paz interior que consumia sua falta de resignação com os que morreram e fizeram-lhe chorar e sofrer. Sua vida ganhou um sentido e nela não havia mais espaço para lamentos, desvarios e nem um termo. Porém, um simples cerrar de olhos para a imortalidade sublevou seus caminhos. Seus pensamentos desencontraram-se. As aragens que te seguiam foram sufocadas por um clima abafadiço. Seus olhos sempre enxutos e atentos banharam-se de lágrimas. Você regrediu para as mesmas agruras que a levaram a mudar seu destino. Todas as transformações que você logrou promover perderam o significado fazendo-lhe pensar que nada que você fez parece ter adiantado. Você escondeu-se da vida por não entender a morte e esta também não a entende. No seu escondedouro não há espaço para um grão de estima. Suas janelas permanecem fechadas porque lá fora não há mais luz. Acima de você pairam a noite e as sombras e seus dias começam e terminam sempre do mesmo jeito: estagnados num leito. Continuo dizendo inverdades? 

- Suas palavras são verdadeiras e me comovem, mas continuo, ainda, muito confusa. A senhora disse que se importa comigo e que eu tirei-lhe uma dúvida que está prestes a tornar o resto da sua vida num testemunho sem igual. O que a senhora quer dizer com isso?

- Todas as pessoas que apareceram diante do portão jamais entraram aqui, mas você o atravessou, mesmo sem ter percebido, ou então aqui adentrou pelos ares, e nada parece ter mudado para você. Todos os que se mantiveram diante do portão voltaram para seus mundos, levando com eles a ideia de que uma vez que entrassem aqui dentro jamais voltariam. Estou curiosa para ver você sair daqui e voltar viva para seu mundo. É isso que quero testemunhar.

- O que faz a senhora pensar que eu possa voltar viva ao meu mundo?

- São todos que nunca entraram, voltaram e chegaram vivos em seus mundos. Eu pude vê-los contando suas histórias para seus pares. Não tenho duvidas de que você voltará viva. Não me pergunte como sei disso, pois nunca me foi dito por que eu nasci cega e com esta dádiva.

- E se eu quiser ficar aqui?

- Não faça isso, mulher. Há muita gente aflita em seu mundo torcendo ansiosamente pelo seu restabelecimento.

- O que a senhora vê no meu mundo?

- Vejo-te deitada num leito, num cômodo com murmúrios rompendo o silêncio, rodeada de pessoas vestidas de túnicas mal feitas da cor verde pálida, e de caixas de pandoras de tamanhos diversos, ligadas ao seu corpo por cabelos de Medeia. Elas brilham, dão sinais enigmáticos que atraem os olhares de todos os presentes.

- Eu não quero voltar.

- Você poderia voltar como fez seu herói divino, surpreender a todos, despedir-se deles, e depois vir para cá de novo, mas não sei se conseguiria. Jamais tinha visto alguém entrar aqui uma única vez, quem me dera duas.

-Não tenho amigos para despedir-me. Eu quero ficar aqui de vez. Isto é proibido?

- Não mulher, proibido não é, mas desconheço as consequências, pois seria a primeira vez que isso acontece. Como lhe disse este mundo não é dos vivos nem dos mortos e se você abandonar seu corpo no seu mundo, não sei o que acontecerá com sua consciência aqui.

- Se aqui não é lugar de morto, então o que este cadáver está fazendo aqui?

- Já lhe disse mulher, ele representa sua visão de si mesma. Ele não existe. Ele é uma projeção de sua auto piedade.

- E quem são todas estas pessoas vivas indo e vindo o tempo todo?

- Elas não existem. São frutos de sua imaginação. Olhe para os trajes delas! Elas têm todas as cores que enfeitam seu aposento! Você adora cores.

- Então, na verdade, este mundo é desabitado?

- Sim.

- E a senhora? É real ou só uma projeção de minha mente?

- Eu sou uma projeção de muitas mentes.

- Posso ficar aqui com a senhora?

- Sim, pode, mas temo que você estará só como sempre estive. Receio que, no momento que seu corpo deixar de existir, todas as suas projeções serão desfeitas e talvez eu desapareça com elas.

- A senhora não se importa com isso? Não tem medo de morrer?

- Não mulher, uma projeção não morre, apenas se desfaz. E creio que outras consciências projetar-me-ão em outros mundos.

- Sinto um peso na minha consciência porque com o meu permanecer posso por fim ao resto de sua vida sem que a senhora veja seu testemunho consumado.

- Não se preocupe comigo, mulher. Uma curiosidade foi satisfeita. A outra, agora, é esta decisão que você acaba de tomar. Dê uma volta por aí. Conheça seu novo lar.

Comecei a caminhar junto com a multidão que ia e vinha e acotovelam-se naquela rua estreita enevoada pela poeira que subia do chão duro e embaçava as cores vibrantes das roupas dos transeuntes que eram réplicas das cores que adornam meu quarto. Divisei uma transversal e segui por ela. Estava vazia e crescia em silêncio na medida em que a vegetação que a ladeava aumentava em exuberância. A alameda terminou num enorme jardim que parecia perde-se no infinito de tão grande, como o horizonte do mar que marca a curvatura da terra e vai além. O jardim é de tal magnificência para a qual não me vem à mente palavras adequadas para descrevê-lo, abarrotado de árvores fartas em ramos e flores. As folhas balançam levemente e proporcionam a sensação de paz que tive com minha amada. Depois de um tempo imponderado voltei para a viela de terra e notei que ela desaparecera juntamente com todas aquelas pessoas e aquela senhora cujo nome não me fora declinado. Eu estava completamente só, mas feliz. Foi só neste momento que percebi que no lugar daquele muro que abrigava aquele homem morto fica o enorme portão de entrada do qual a mulher cega me falara. Olhando através dele vi um jovem aproximando-se. Ele chegou bem perto e agarrou-se às grades e seus olhos arregalaram-se. Aproximei-me e tentei falar com ele, mas ele não me ouviu e nem me viu. Tentei abrir o portão para chegar até ele, mas não consegui. Pensei em pular o muro, mas era intransponível de tão alto. Restou-me então ficar ali, olhando para aquele moço trajando roupas medievais, provavelmente da baixa idade média. De repente ele abriu o portão e colocou a cabeça para dentro, mantendo todo o resto do corpo do lado de fora. Tive medo e recuei junto a uma árvore. Sua cabeça movimentava-se rapidamente, de um lado para o outro, como uma pessoa que está assistindo a uma partida de tênis junto à quadra. Às vezes, sua cabeça movia-se em câmera lenta, como se estivesse acompanhando os passos de alguém caminhando, e seus olhos maravilhados, ora percorriam o espaço vazio, ora cravavam-se em algum ponto fixo e, às vezes móvel. Em poucos minutos ele recolheu a cabeça para fora, fechou o portão, virou-se e saiu correndo. Apressei-me junto ao portão, chamei por ele, mas ele não me ouvia e despareceu na névoa. Fechei os olhos, concentrei-me ao máximo e tentei acompanhá-lo de volta ao seu mundo como a mulher cega disse poder fazer com todos os transeuntes. Após um longo e imponderado tempo sua imagem emergiu na minha mente. Ele se encontrava num amplo salão, dentro de um castelo, com a cabeça enfaixada, sentado junto a um tipo de escrivaninha, falando sozinho e lendo em voz alta vários manuscritos. Seu olhar continuava deslumbrado e perdia-se na amplitude daquele vasto aposento que servia de quarto para dormir, sala para repouso e escritório de trabalho. Encantei-me com o poder que adquiri de ler os pensamentos e também de ouvir a voz dele:

- Assim que comecei a registrar em papel em todos os pormenores esta bizarra ocorrência que me acometeu e que temo, e não tenho dúvidas, levar-me à demência num manicômio, ou até mesmo a tirar-me a vida com minhas próprias mãos, minha mente foi tomada de súbito por um pensamento nítido e impetuoso, uma voz feminina a sussurrar nos meus ouvidos palavras de estranho conteúdo, mas muito mais estranhas pela sua forma, pois embora fossem expressões em minha língua, eram ditas num dialeto a mim completamente desconhecido, e mesmo assim eu as compreendia:

Sequestrei minha alma. Deixei meu corpo como refém, e este perdeu seu valor lá e aqui, mas meu cativeiro revelou-se um paraíso, com muita natureza e muita gente só minha, e uma guardiã solitária, e esta resgatou minha consciência, ainda que perdesse a dela com meu permanecer, ainda que tenhamos sido vistas juntas por outro raptor, no lugar onde os sonhos são feitos e desfeitos, onde avizinham muitos errantes que aqui jamais ficarão, aqui onde reencontrei a paz que eu sentia no meu mundo, aqui onde é tranquila a espera por minha amada, que em algum lugar se procura, que em algum lugar me achará. Aqui lhe fala a versão feminina de Tirésias que viveu sete anos como mulher, e eu, sendo mulher, vivi sete anos como homem ao lado de outra.

- Causa-me assombro e pavor o fato de que tudo que escrevi foi à maneira deste estranho dialeto, e enquanto releio e penso em tudo que escrevi, continuo a raciocinar à feição dessa espécie de patoá. Ainda mais agora, estou convicto que se justificam todos meus súditos manterem-me trancado em meu aposento como numa prisão e todos meus serviçais servirem-me as refeições por uma pequena janela aberta no alto da porta. Dou-lhes razão em não querer nem mesmo fitar meus olhos. E eu também não ousaria dirigir-lhes a palavra com receio de expressar-me à moda deste dialeto contra minha vontade. Pretendia com estes manuscritos legar aos meus pósteros uma experiência excepcional que talvez nenhuma outra pessoa venha a testemunhar, algo parecido com um sonho impossível que traz à realidade visões de outros mundos exóticos e utópicos, modos de agir que não são inatos aos homens, mas aos pássaros, a fala e a escrita fluente de uma língua semelhante à minha, mas que nunca estudei e com a qual nunca tive contato, a alucinação de ver a si mesmo à distância. Se já neste momento há rumores no castelo de que a suspeita sobre minha demência está prestes e tornar-se uma inequívoca constatação da mesma, com suas nefastas consequências para o meu reinado, agora estes manuscritos tão esquisitos quanto os fatos que narrei logo após recobrar minha consciência podem ser, indubitavelmente, tomados como uma cabal confissão de insanidade, uma prova incontestável de minha loucura e o pretexto final para me destronar. Por isso, preciso destruir tudo que escrevi, e antes de fazê-lo quero reler meus escritos uma ultima vez e escondê-los em minha memória enquanto me for permitido viver. Não me lembro de ter sentido qualquer dor quando levei o golpe na cabeça, pois perdi os sentidos de pronto. Meu infortúnio começou quando despertei e me encontrei flutuando junto ao teto da torre de menagem e lá de cima eu vi a mim mesmo deitado à distância, cercado de meus médicos, minha corte e minha criadagem, todos empenhados nos cuidados do meu corpo, com poções de plantas medicinais, sangrias e rezas. O que de imediato me veio à mente era que eu só podia estar sonhando, mas se tudo o que eu vivenciava fora verdadeiramente um sonho o mesmo continha um realismo tão fantástico que me levava a pensar que eu estava acordado e podia falar normalmente com as pessoas, e espontaneamente eu falava alto a todos os presentes para não se preocuparem comigo porque eu estava bem. Acenava para eles e chegava a gritar, mas ninguém me ouvia e não me via. Apesar de minha estupefação com o estado em que me encontrava, gozava de uma sensação de bem estar que eu nunca tivera. Mesmo numa situação inusitada como esta, eu me sentia desapegado de tudo, desligado e alienado, e ato continuo deixei o castelo através da sacada da torre com naturalidade. No entanto, surpreendi-me por não ver nada que estivesse ligado ao castelo. Sumira tudo: o cubelo, a torre albarrã, o pátio das armas, a couraça, as barbaças, a ponte elevatória, a fossa e até as águas que ilhavam o castelo. Tudo que via era apenas uma tênue névoa distante que deixava transparecer a silhueta de uma abundante vegetação. Senti-me impelido a chegar mais perto e então me dei conta que já não voava, mas já estava com os pés nos chão, caminhando. Na medida em que me aproximava, a bruma foi se dissipando e descortinando lentamente um jardim de proporções gigantescas, que se estendida por 180 graus, de leste a oeste. Extasiei-me com a enormidade daquele jardim guardado por altas muralhas e um portão de grades de ferro tão alto quanto um castelo, e através dessas grades era possível divisar a profundidade das árvores frondosas e exuberantes que se perdiam no infinito. Quando cheguei junto ao portão tive uma irresistível e incontida vontade de lá adentrar, mas, ao mesmo tempo, soava em minha alma um alerta de que uma vez que eu lá entrasse jamais sairia. Tanto a paisagem paradisíaca como minha curiosidade conspirava em favor da minha entrada naquele jardim. Era para mim um momento de tensa, mas sublime hesitação, com a natureza dialogando comigo e fazendo-me um convite irrecusável e minha intuição debatendo comigo sobre os riscos de uma aventura sem volta. Agarrei-me às grades e com muita cautela abri o portão. Mantive todo o meu corpo do lado de fora e apenas estiquei meu pescoço colocando minha cabeça para o lado de dentro. De repente, todo aquele imenso jardim desapareceu, como num passe de mágica e de pronto deu lugar a um mundo que só podia ser obra do demônio. Surgiu diante de meus olhos uma enorme cidade fervilhando de gente e de tantas outras coisas que nunca imaginei existir nem mesmo em sonhos. Nem ouso descrever a quantidade enorme de carruagens de cores diversas deslocando-se veloz e ruidosamente nos dois sentidos, todas elas blindadas com couraças sobre rodas com movimento próprio e sem um único cavalo a puxar-lhes. As espaçosas alamedas eram todas ladeadas por árvores floridas e edificações assustadoramente altas que pareciam arranhar o céu. Toda a paisagem era repleta de luzes brancas e coloridas, algumas piscando intermitentemente, todas tão intensas que faziam a noite parecer dia. As pessoas que iam e vinham apressadas vestiam roupas extravagantes e desavergonhadas, principalmente algumas mulheres que despudoradamente deixavam as pernas à mostra acima dos joelhos. Várias outras pessoas falavam sozinhas, consigo mesmas, tendo à mão um pequeno objeto levado à altura do ouvido. Tudo era magnífico, assombroso e deslumbrante, mas minha voz interior dizia-me que esta não era uma cidade no Reino de Deus reservada aos justos, mais parecendo um lugar dado a extravagâncias e feitiços ardilosos típicos do demônio. Apesar de ser insistente o apelo em meu coração para que eu oferecesse-me a oportunidade única de conhecer este mundo só por alguns minutos, minha consciência sobrepujou minha tentação e resolvi, por fim, voltar. No momento em que comecei a trazer a cabeça para fora do portão, avistei duas mulheres muito estranhas e que se vestiam de forma a destoar das demais. Elas trajavam roupas de fadas. Uma delas toda de vermelho, segurando na mão esquerda elevada ao alto um enorme objeto em forma de estrela de pontas quebradas e de coloração leitosa. A outra era engraçada, pois usava vestes multicoloridas, tal qual vitrais de igrejas, parecendo o bobo da corte, e segurava na mão esquerda elevada ao alto um enorme cálice manchado de vinho com a borda quebrada e pontiaguda. Elas deviam ser mesmo servas de satã a me tentar com suas maneiras exóticas. Desviei meu olhar delas que estavam a me encarar, virei as costas, fechei o portão atrás de mim e pus me a caminhar a passos apressados e logo vi aquela mesma névoa, agora mais densa. Ao passar por ela eu nada enxergava, mas quando ela finalmente esvaneceu, surpreendi-me ao encontrar-me deitado em meu leito no castelo com toda minha gente sorrindo, festejando e dando graças a Deus por eu ter despertado. Agora sentia uma incômoda dor de cabeça, resultado do forte golpe que recebi na cabeça, mas estava aliviado por ter voltado. No entanto, arrependi-me amargamente de ter relatado o que se passou comigo enquanto estive adormecido. Se não o tivesse feito, não estaria aqui enclausurado no meu próprio palácio e estaria de volta à minha vida normal, ouvindo as costumeiras fofocas da corte sobre eu me achar um homem melhor do que os outros, além do meu tempo e que deveria ter nascido numa outra época. Havia muita malvadeza e inveja nestes comentários. É certo, contudo, que sempre tive ideias futuristas que intrigavam as pessoas. Mas eis que assim que termino de reler meus escritos e me preparo para queimá-los, novamente sou tomado de súbito por aqueles mesmos pensamentos nítidos e impetuosos, desta vez duas vozes femininas a sussurrarem-me palavras em coro, uma em cada um de meus ouvidos e desta vez, surpreendentemente, falando minha língua à maneira que estou acostumado:

Andou Joana pella villa folgamdo, tragemdo comsigo Maria, e em huum dia pera isto assiinado, foi a seus parentes dizemdo em esta guisa. ‘Bem sabees como a hordem do casamento he huum dos nobres sacramentos, que Deos em este mundo hordenou, pera nom soomente homeens e molheres, mas aimda molheres e outras molheres, viverem em estado de salvaçom’, e presemte todos jurou aos evamgelhos per ella corporalmente tangidos que ella reçebera Maria por sua molher per pallavras de presemte como manda a samta igreja, e que essa Maria reçebera a ella por seu marido per semelhavees palavras, e que depois do dito reçebimento a tevera sempre por sua molher ataa o tempo de sua morte, vivemdo ambas de consuum, e fazemdosse maridança huuns sete annos. Quamdo foi sabudo pella villa, como Joana reçebera de praça Maria por sua molher, seemdo Antonio com Joana muito amado e bem quisto e homeem mui comvinhavel pera ella, foi o poboo de tal feito mui maravilhado, muito mais que da primeira; por que ante desto nom enbargando que o alguuns sospeitassem, por o gramde e honrroso geito que viiam a Joana teer com ella, nom eram porem çertos se era sua molher ou nom; e muitos duvidamdo, cuidavom que se emfa daria Joana della, e que depois casaria; e huuns e outros todos fallavam desvairadas razõoes sobresto, maravilhamdose muito de Joana nom emtemder quamto desfazia em si, por se comtemtar de tal casamento. E dellas diziam que melhor fezera Joana teella por tempo, e desi casar com Antonio; mas que esto era cousa que mui poucos ou nenhuum, posto que emtemdessem que tal amor lhe era danoso, moormente nos mançebos anos de Joana e Maria. E leixadas as fallas dalguuns simprezes, que em favor della razoavom, dizendo que nom era maravilha o que Joana fezera, e que ja a outras acomteçera semelhavel erro, avemdo gramde amor a alguumas molheres; dos ditos dos emtemdidos fundados em siso, alguuma cousa digamos em breve: os quaaes fallamdo em esto o que pareçia, diziam que tal bem queremça era muito demgeitar, moormente nas domzellas aimda Iffamtes, que mais que nenhuuns dos outros desfaziam em si per liamça de taaes amores. Ca pois que os antiigos derom por doutrina, que ha molher na molher que ouvesse de tomar, principalmente devia desguar dar nobreza de geeraçom, mais que outra alguuma cousa, que aquella que o comtrario desto fazia, nom lhe viinha de boom siso, mas de samdiçe. Outros diziam, que isto era assi como door da qual aa molher prazia e nom prazia, dizemdo que todollos sabedores concordavom, que toda molher namorada tem huuma espeçia de samdiçe; e esto por duas razoões, a primeira por que aquello que em alguuns he causa intrimseca das outras maneiras de samdiçe, he em estes causa de taaes amores: a segunda por que a virtude extimativa, que he emperatriz das outras potemçias da alma açerca das cousas senssivees, he tam doemte em taaes molheres, que nom julga o ogeito da cousa que vee tal qual ella he, mas tal qual a ella parece; ca ella jullga a fea por fremosa, e aquella que traz dampno seer a ella proveitosa; e por tanto todo juizo da razom he sovertido açerca de tal ogeito, em tanto que qual quer outra cousa que lhe consselhem, podera bem reçeber; mas quamto açena de tal molher a ella prazivel, cousa que lhe digam do boom comsselho nom reçebe, se o consselho he que a leixe e nom cure della, ante lhe faz huum acreçentamento de door, que he fora de todo boom juizo; de guisa que se he tal pessoa o que comsselhou, de que possa tomar vimgamça, tomaa assi como Joana, que mandou fazer justiça em Aurora, que a bem comsselhou em semelhamte caso, porem todollos da villa de qual quer comdiçom que fossem, parentes, amigos e outras gentes, eram disto mui mal contentes e huum entrelles matou Maria, e a maneira de sua morte, seendo dita pello poboo, seria mui estranha e crua de comtar. Joana sospeitou que Antonio fora em culpa da morte della. E seemdo nembrada de homrrar sua morte, mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado, poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora huuma rainha; Semelhavelmente mandou Joana fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si, e fezeo poer açerca do seu della, pera quamdo se aqueeçesse de morrer a deitarem em elle. E viindo-lhe as lagrimas aos olhos per vezes e mal magoada, adoeçeo de sua door de perder seu verdadeiro amor, e jazemdo doemte, nembrousse como depois da morte Daurora, ella fora çerta, que Antonio nom fora em culpa da morte de Maria, e perdohou-lhe todo queixume que del avia, e mandou que lhe emtregassem todos seus beens; E morreo Joana huuma segumda feira de madurgada, dezoito dias de janeiro da era de mil e nove cemtos e novemta e nove anos, avemdo sete annos e quatro meses e viimte dias que tevera Maria por sua molher, e viimte e quatro anos e cimquo meses e oito dias de sua hidade, e mandousse lamçar em seu muimento, que esta jumto com o de Maria. Semelhante amor, qual Joana ouve a Maria, raramente he achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos que nenhuum he tam verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde espaço do tempo. E se alguum disser que muitos forom ja que tanto e mais que ella amarom, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaaes alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom segumdo lhes prougue, dizemdo em nome de taaes pessoas, razoões que numca nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas estorias, moormente de Romeo e Julieta, que seu fumdamento teem sobre verdade. Este verdadeiro amor ouve Joana como se della namorou.



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