quarta-feira, 21 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 109 A 124 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo


O cristo da vez chamava-se Guardião da Pátria. Ele teve o mérito de despertar em Tilly o seu antigo gosto pela cultura, quando Tilly achava que falar difícil era bonito, mas ele não sabia o que estava fazendo, como o Mensageiro da Enganação que, sem querer, devolveu a Tilly o alimento da alma ao tentar não embarcar na sua nave-mãe. O Guardião foi o cristo mais flagelado e mais resignado, um cristo do cristo ou, como Lennon falava da mulher, um negro do mundo, um escravo dos escravos. Ele ansiava Tilly tanto a ponto de entortar sua boca e fazê-lo gaguejar e engasgar como se ele tivesse um lado paralisado por um derrame, mas Tilly revidava com homéricos discursos nos almoços das terças-feiras. Até Tilly penitenciava seus cúmulos enquanto fazia a digestão. Um ser como Tilly, com um potencial megalomaníaco tão latente, precisava apenas ser instigado por uma vara curta de cutucar onça. O Guardião chegou perto de Tilly o suficiente, até em sonho, convenceu-o e conquistou-o, mas, por um golpe do destino à espreita de inconformados com a breguice do mundo que premia a mediocridade, perdeu-o para o saber frívolo e híbrido que, dizem uns, se decompõe com o cadáver na cova, e, dizem outros, entra no currículo da próxima encarnação, mas o Guardião reteve o que lhe era mais precioso, a idolatria e o saber etéreo que se faz carne e que não demanda prova nem contraprova. Ambos ganharam. Só perderam os muitos seguidores e desertores do novo cristo. Esses últimos, tais quais vira- desvira-casacas, viram Tilly passar de um lado para outro, desagradando gregos e troianos, judeus e samaritanos.

Deus é Mãe e Pai. Deus é a Mãe de todas as Mães e Pai de todos os Pais, dizia Tilly, imitando os antigos Egípcios monoteístas.

Tilly se viu forçado a deixar a espiritualidade pouco tempo depois da morte de seu patrono, o Arqueiro, de quem se tornara quase um filho. Tilly já havia saído antes, espontaneamente, mas um conflito de deveres o fez recuar. Na verdade, ele agiu como aquele presidente que renunciou com pouco tempo de mandato esperando ser chamado de volta com poderes quadruplicados. Tilly foi recebido de volta pelo Arqueiro com uma humildade que lhe subtraiu mais do que uma vida humana, e ainda que tivesse outras mil e tantas, pois, como disse Olavo Bilac, há nela cem mil vidas, o gesto do Arqueiro parece ter lhe censurado o coração para sempre, pois, como disse o mesmo poeta, cabem nele cem mil pecados. Quando o Arqueiro viu o seu  filho pródigo voltar ao lar, curvou-se, tomou sua mão e a beijou, e ainda acrescentou que vê-lo ali, diante de si, era o melhor de todos os presentes de natal que já recebera. A modéstia e a nobreza do Arqueiro foram banalizadas por ocasião da homenagem póstuma de corpo ausente que lhe prestaram na entidade que ele presidia. Seu paraninfo, um jovem rico e poderoso, roubou a palavra e a atenção para si, recheando o réquiem com todos os seus predicados que, segundo ele, enchiam os olhos do Arqueiro. Para o morto mesmo só sobraram as palavras tu és dono do descanso eterno, amém.

Só quem conheceu a mente revoltada e inconformada de Onedin com a perda de seu ente mais querido entenderia porque de tantas experiências espirituais vividas por Tilly e dignas de registro ele preservou apenas um punhado de ataques rancorosos e críticas gratuitas e os esfregou na cara invisível do daimon de Tilly, porque este ainda preferia ver seu pupilo preso na carolice religiosa do que solto no desatino auto-destrutivo. Os acessos intempestivos de Onedin só serviram para expor a enrustida mas indisfarçável malvadeza de Tilly que não era mais fétida do que já se sabia e por isso dispensava execração pública.

Sabe o que o meu amigo Tilly aprendeu com a espiritualidade, Seu Daimon? Conheceu um proprietário de bens sem ônus e vínculos, livre de foros e responsabilidades, um psiquiatra que, nas horas vagas, ensina os efeitos clínicos da fé com palestras, e arranca aplausos de um bando de bobos alegres e ignorantes com um montão de abobrinhas que só servem para lustrar o seu ego e no final todos os palhaços se arrebatam com a pseudo-sapiência do canastrão, mas ficam sem saber quais sãos os efeitos clínicos da fé e nem que homenzinho medíocre se esconde por trás da máscara de doutor.

Após a morte de Tilly, seu daimon deu por encerrada sua missão e, enquanto se preparava para partir, resolveu dar trela às arremetidas de Onedin, violando o Divino Protocolo do Desenxerimento, aquele que proíbe que um daimon converse com o protegido de outro.

Onedin, Isso não é menos desesperador do que um certo homem de graça divina, aflito pela falta de trabalho, e que num discurso a humildes praticantes do anímico, diz que, enquanto estivera no plano espiritual, escolheu ficar desempregado por um bom tempo como expiação na vida presente e que estava sofrendo muito com esta experiência. Esta coragem lhe valeu efusivos louvores ao final de sua arenga que ninguém mais se recordava sobre o que versava.

Eu sei de quem você está falando, mas sabe o que mais Tilly aprendeu, Seu Daimon? Que o favelado vive na miséria porque na sua vida anterior ele foi ruim, por isso ele tem que se conformar com sua mendicância atual e ainda agradecer a deus por ter alguém que lhe explique estas coisas.

Onedin, já isso é mais sádico, mas ainda perde em originalidade para aquele sujeito do tipo trigueirinho, amigo do não menos trigueirento idealizador da operação cavalo de tróia, prelecionador remunerado de uma conferencia apocalíptica sobre pratos volitantes, pois no mundo espiritual os objetos e as pessoas não voam, mas volitam. O conclave foi patrocinado por uma sociedade secreta que de secreto só tinha uma baixa sordidez. O trigueiroso mostrou uma série de fotos de óvnis que mais pareciam bacias emborcadas, pintadas com guache e iluminadas por pisca-piscas de árvore de natal, e ainda se dizia um privilegiado por ter tomado uma grande decisão na vida: a de optar por cruzar os céus do planeta com os ultramundanos em suas baterias de panelas. Sua regalia advinha da correta interpretação de uma máxima das não tão boas novas cristãs: ‘Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos’. A hermenêutica do sonhador de ideais e ofensor do mais baixo Q.I. dispensava a crítica da forma e qualquer alegorização, e encerrava uma das mais preciosas pérolas do folclore neotestamentário. ‘É você quem se escolhe e eu me escolhi’.”

As pessoas que costumam embarcar nessa são as mesmas que ouvem conselhos de duendes. Mas, para finalizar, Seu Daimon, o que pensar de um cara varonil e forte, um machão perigoso como um ignorante despachado, que, ao assistir ao filme ‘A Última Tentação de Cristo’ se escandaliza e acusa meu amigo Tilly de mostrar um Jesus mulherengo?

Sabe Onedin, como dizia Carl Jung, estes lugares que Tilly andou frequentando são albergues para os pobres e fracos, oásis paradisíacos para os náufragos, o seio da família para os órfãos, a meta gloriosa e ardentemente desejada para os que se extraviaram e decepcionaram, o rebanho e o cercado seguro para as ovelhas desgarradas, a mãe que significa nutrição e crescimento, mas seu amigo Tilly fez deles uma muleta para sua deficiência moral e ética, um escudo para sua ansiedade, uma rede de balanço para sua preguiça e um recreio para suas irresponsabilidades.

Se, por um lado, Tilly nunca endossou a teoria mirabolante de que Maria teve uma gravidez psicológica e o bebê Jesus foi trazido por uma nave de outro mundo, por outro lado, ele foi avalista dos velhos preceitos segundo os quais tudo se encaixa, como nuts and bolts, porcas e parafusos, e a partir dos quais se constata, entre outras mirabolancias, que Joana D’arc foi a reencarnação redentora de Judas Iscariotis. No entanto, Tilly recebeu de braços abertos vários dogmas macromaníacos, uma profusão de grandezas grandiosas, grandes sínteses, grandes segredos, grandes revelações, grandes verdades, grandes grandiosidades. Seus favoritos eram os mais estratosféricos. Os mundos felizes onde já não existe expiação, só felicidade, planetas que Tilly imaginava serem habitados por seres que não desencarnam mais, mas só trocam de corpo. E a terra um dia será um desses mundos felizes. Por ora é um mundo de expiação e em transição, para ser um mundo de regeneração, onde não se tem muito para pagar, mas é preciso trabalhar duro para alcançar a felicidade. Tilly levava isso tão a sério que chegou a planejar uma viagem a cidade natal de seu ídolo, Pete Townshend, líder da banda The Who, e lhe dizer que ele não estava delirando quando no passado pensou que poderia levar seus fãs ao êxtase total com sua música a ponto deles literalmente deixarem seus corpos. Tilly iria dizer a Pete como seria possível ele retomar seu projeto abortado chamado Lifehouse. Esse encontro nunca ocorreu e, se tivesse ocorrido, talvez Pete se limitasse a perguntar a Tilly onde é que se conseguia aquela nova droga que faz as pessoas viverem não apenas no mundo da lua terráquea, mas nos mundos de todas as luas do sistema solar ao mesmo tempo.

Contudo, Onedin, é verdade que Tilly nunca compactuou com utopias desvairadas que afirmam que o mundo tem três revelações, duas judias e uma francesa, Moisés, Jesus e Kardec e que tudo é previamente arquitetado no plano espiritual, como o matrimonio, por exemplo, para depois ser posto em prática no plano material, reduzindo os seres humanos a meras cobaias e suas vidas a monótonas e diuturnas reapresentações das mesmas peças teatrais em cartaz há milhares de anos e cujos enredos e catarses são do conhecimento de todos, concluiu o daimon de Tilly.

Mas Onedin nunca se dava por convencido e fustigou inutilmente pela última vez porque o daimon de Tilly já estava de malas prontas.

Pois é, Seu Daimon, se tudo é combinado lá em cima, para que serve a encarnação aqui embaixo? Como campo de provas que agita a bolsa de apostas das assombrações? E se deus já sabe de antemão onde o universo vai dar, para que criá-lo? Para se divertir vendo a mesma história sempre se repetir?