sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 15 A 37 DO LIVRO VALE D A AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Mas enquanto esse dia não chegava, veio uma noite, comum para os sem recalques e bem-sucedidos, mas dramática para o complexado e fracassado Tilly, suscitando-lhe uma apocalíptica tensão pré milenar, uma tensão de véspera de confissão de primeira comunhão. Do outro lado da cidade, Tilly e alguns companheiros se entrincheiravam numa bela casa de gente fina onde deveria ser comemorado o aniversário de uma debutante ao som de preciosos vinis generosamente cedidos por Kekya. No entanto, um acontecimento inesperado e quase fatal estragou a festa e impediu que todos os convidados adentrassem. O pessoal do bairro foi preterido em favor dos de fora que foram acolhidos somente porque vieram de longe. Desinformados e inconformados com a diferença de tratamento, os locais enfureceram-se, assomaram-se e começaram a gritar palavras de ordem.

Pau nestes caras!

Para Tilly eles eram os próprios arautos do armagedon anunciando seu fim. Tilly se viu de súbito arrancado do chão firme e lançado num umbral como seu tio com um tronco de escudo de águia fizera com ele naquele dia em que ele provou do sal do mar pela primeira vez.

Seu filho da puta, seu filho da puta, disse Tilly ao mesmo tio que muitos anos antes o assustara com uma horrenda máscara de carnaval que rivalizava com sua silhueta de chipanzé.

Seu filho da puta, você não sabe que eu tenho medo dessas coisas?

Se naqueles dias Tilly já dominasse a sua original, mas já obsoleta e puída técnica para dormir entretendo a mente com radiodifusões de mesas redondas sobre campeonatos de futebol de botão que ele mesmo protagonizava, uma de suas muitas fantasias que nasceu na sua puberdade e o acompanhou até a idade adulta, ele poderia imaginar que aquela multidão lá fora fosse um bando de beatlemaniacas ensandecidas assediando a estação de trem onde seus ídolos estavam prestes a desembarcar e atirando-lhes gritos frenéticos. Mas naqueles dias a imaginação de Tilly era mais pródiga em potencializar pavores reais, tão reais quanto as pedras que começavam a torpedear as portas e janelas da casa onde ele se abrigava como se fossem incessantes investidas gregas para desentocar as presas troianas. Quem ousasse espreitar pela vidraça por trás das cortinas contemplaria assustadores e flamejantes cabos de aço serpenteando e estalando no ar como fios elétricos em curto circuito. Esta afronta justificou um incomodo pedido de ajuda da anfitriã ao seu pai, mas a resposta foi tão desalentadora quanto àquela dada a Felípedes pelos espartanos em festa.

A titia está fora de perigo e já estamos voltando para casa! Peça para todos se retirarem e diga a eles que ninguém lhes fará mal algum. Vou avisar a polícia também!

Como se tivesse grampeado o telefone e ouvido toda a conversa, o líder dos espartanos em guerra deu um grito penetrante e desagradável que soou como o estampido de um cano cuspindo fogo e chumbo quente:

Sou o pardal e estou com meu berro!

Tilly passou de tremulo para petrificado. Nada mais podia ser feito. Aquela arma já estava empunhada! Tilly logo cogitou a possibilidade de simular um mal estar para justificar sua permanência e até um pernoite na casa, mas esta alternativa se desfez logo que a anfitriã se pôs a chorar copiosamente diante do dilema em que se encontrava e queria ela mesma sair lá fora para pedir aos bandoleiros para deixarem seus hóspedes saírem em paz, mas eles não permitiram que ela corresse tal perigo.

Qual porta deste inferno em chamas que começam a me consumir dá saída para algum lugar que não seja os braços da morte?, perguntava-se Tilly que já tinha aquela mania de dizer deus me guarde ao se deitar. Mas naquele momento ele precisava mais do que um guarda-costas divino.

Conheço o pardal. Vou lá fora levar um papo com ele. Deixa comigo!, tranquilizou um dos forasteiros na casa.

Todos suspiraram com uma indisfarçável sensação de alívio com a iniciativa deste herói, ainda que momentânea, pois tinham sérias dúvidas quanto ao sucesso dessa inesperada e corajosa proposição. Podia-se ler todos os pensamentos que permeavam o ambiente. Alguns achavam que ele estava se arriscando e poderia morrer de tanto apanhar. Outros achavam que ele não voltaria e estava apenas tentando salvar sua pele. Tilly torcia para que ele estivesse dando uma de boi de piranha. Mas como era mesmo um milagre concedido pelo deus da guarda de Tilly, o estranho, cujo nome Onedin jamais registrou, retornou ileso e sorridente para dentro da casa.

Barra limpa! O pardal me reconheceu e me garantiu que vai deixar barato desta vez. Não tem erro! Podemos sair!
A anfitriã se acalmou, mas os outros sete estrangeiros nem tanto: Too Good To Be True, cantavam os Uniques no prato da vitrola que se mantivera rodando o tempo todo desde o assédio à casa. Era comovente ouvir os pensamentos otimistas de Tilly de que ele logo estaria do lado oposto daquela situação tão amarga, como num passe de mágica, como se bastasse simplesmente virar o disco e ouvir a tão doce Georgia On My Mind. Mas era hora de todos eles saírem. E, desconfiados, eles saíram. O negociador puxou a fila indiana. Porém, ao chegarem lá fora, ficaram espantados com a multidão que se aglomerava nas duas calçadas, formando enormes paredes que se estendiam quase até o meio da rua e deixando aberto apenas um estreito corredor polonês. Se o pardal havia concordado em deixar todos saírem porque, então, aqueles mais de cinquenta espartanos lá permaneciam em disciplinada formação? D’Ardósias, primo de Tilly, sabia porquê e enquanto começava a caminhar a passos vacilantes por entre aquela massa humana calada, mas de olhos atentos, virou-se para Tilly e lhe sussurrou:

Nós vamos levar o maior cacete. Quando eu gritar você corre.

Luz para que te quero! Pernas para que te quero!, retumbou Tilly em pensamento, enquanto calculava quantos metros teria que percorrer até dobrar a esquina e alcançar a rua para a libertação.

Mas não foi preciso esperar pelo sinal de D’Ardósias. De repente, sirenes estridentes romperam o silêncio e varreram o céu negro com fachos de luzes vermelhas e brancas, alarmantes e intimidantes. Gritos de pega e de cada um para si e deus para todos vinham de todos os lados e as colunas espartanas inapelavelmente se precipitaram sobre os troianos como as águas divididas por Moisés fizeram com os egípcios.

Se fosse possível entrar na mente de Tilly ver-se-ia aquela cena de A Hard Day’s Night com três Beatles correndo das fãs pelas calçadas de Londres. John e George na dianteira e Ringo na rabeira. George tropeça e cai e em seguida Ringo tropeça em George a também cai. John segue em frente, os outros dois Beatles logo se recompõem e os três continuam a correr, deixando aquele bando de garotas desvairadas para trás. A objetiva grande angular de Tilly enquadrava-o com D’Ardósias indo à frente e Kekya seguindo logo atrás. Antes de largar, Tilly driblou duas rasteiras seguidas, saltitando como um impala à frente de uma chita vencida pelo cansaço, e ainda transpôs uma barreira formada pelas costas largas de D’Ardósias que chegou a roçar o rosto no asfalto antes de embalar de quatro com seus braços compridos de orangotango e ganhar a pista. Kekya, sua vitrola e seus discos caíram nas garras das bestas, e foram largados estatelados no piche como um só monte de ferro-velho. Dele se ouvira mais tarde que permaneceu num hospital quase um mês.

Tilly deslizava como um verdadeiro meio-fundista vendo à sua frente apenas o tênue brilho de uma medalha de ouro no lugar do amarelo da luz do semáforo que se avistava ao final da rua longa, deserta e escura. Surpreendentemente, faltando 500 metros para a chegada, eis que D’Ardósias ultrapassa Tilly como um fantasma do qual só se via uma vasta cabeleira cavalgando sobre os ombros. Tilly percebeu, então, que o perigo não havia passado, mas, ao contrário, também buscava um lugar no pódio e sem olhar para trás imprimiu mais velocidade às suas pernas fortes e impróprias para calças apertadas, mantendo-se no vácuo de D’Ardósias e alcançando-o na avenida iluminada, o mar onde o homem lobo não se atreve. D’Ardósias sentou-se na calçada, esbaforido, e Tilly, em forma invejável, manteve-se de pé, mas não podia se pavonear em triunfo porque ainda tinha na mão aquele lugar escuro onde nunca bate sol. Depois de tamanho susto que entorpeceu sua cabeça, era justificável ouvir Tilly no dia seguinte proferir uma impropriedade ringoiana como esta: A hard night’s morning.

Com muito mais propriedade profetizou socraticamente o daimon de Tilly ao estilo do imitador anônimo de Platão.

Quero cingir-te a fronte com esta coroa de bandanas, pois sei que você obteve-a merecidamente com sua arte de correr e como primícias dos despojos de seu medo, e de bom augúrio considero tua triunfal guirlanda de suor, pois como você sabe seus temores te oprimem como uma tempestade violenta e as próximas que se avizinham não serão menos violentas do que as de hoje e nem as de outrora e de muito bom grado eu alcançaria vitória sobre teus pesadelos.

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