sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 38 A 44 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O daimon de Tilly era mais adivinho do que Tirésias e ainda por cima enxergava. Alguns anos depois, Tilly foi fulminado por uma síncope incubada que só esperava por um sinal da natureza, como o recuo brusco e sinistro do mar se preparando para o arrebento de um tsunami, e por uma oportunidade matreira, como o estouro de uma champanhe com um diabo de garrafa chocando sua rolha. Tilly foi encurralado nas cordas pela sua própria imagem refletida num espelho e esta lhe desferiu um gancho potente como um rojão de vara que se lançou aloprado da plataforma do seu estomago até bater no teto de sua cabeça, envolvendo-o em completa penumbra e devastando a sua psique com a força de milhares de maremotos. Do que restou de sua personalidade desintegrada não se poderia esperar nem mesmo o renascer de frágeis siriris que voam abobalhados e cambaleando em todas as direções, batendo cabeças e soltando asas, em busca do calor do sol poente no entardecer dos dias de verão e encontram a morte abraçados na luz dos homens. Renegar o que mais amava, a música, para caçar borboletas, mostra que o que restou de sua mente era bem menos que cinzas. Paradoxalmente, as opiniões de seus terapeutas iam do grandioso, como um jovem inteligente e capaz de governar uma nação, passando por uma normalidade casuisticamente normal, como um sujeito apto a exercer atividades civis, porém não militares, até chegar ao medíocre, como um adulto com dificuldade para lidar com questões intelectuais, mas apto para desenvolver atividades manuais que exigissem boa coordenação motora. Medíocre, porque na adolescência Tilly ganhou de seu pai o apelido de kidisastre, um King Midas In Reverse dos Hollies, pois tudo o que ele tocava virava pó, de onde se conclui que o último diagnóstico fazia dele um zero à esquerda.
Nem a barba da face esquerda feita meses depois graças às generosas vibrações de uma saudosa mulher de nobre semblante e nem o refúgio no matrimônio e na paternidade anos depois graças à tradicional atração pelo ideal coletivo herdado de sua família contribuíram para uma possível reunificação dos dois hemisférios do cérebro de Tilly que sofreu uma cisão tão irreconciliável como o protestantismo inglês com o catolicismo romano. O estigmatizado lado esquerdo de Tilly, expoente máximo da covardia humana, sobrepujou o seu politicamente correto lado direito, representante de araque do altruísmo e da moralidade, e um dia lhe impôs a mais humilhante de todas as corridas e que lhe renderia a alcunha de cabra frouxo se ele vivesse na terra do cangaço. No entanto, naquele dia azarado Tilly não precisava correr, como nunca precisou correr noutras ocasiões de um passado um pouco mais distante, quando ele ainda tirava rachas em chão preto desbotado, áspero e escaldante, descalço, com bola de borracha que logo furava e murchava até o tamanho que melhor se adequava às condições do campo de jogo, sempre interrompido a cada fração de hora por carros, tão abundantes quanto os pardais que desciam para procurar petiscos no meio da grama, teimosa em brotar das fendas entre os paralelepípedos das sarjetas, meras linhas demarcatórias da cancha para os raros expectadores, mas privilegiadas testemunhas oculares de partidas de mata palmo disputadas por exímios artistas, verdadeiros mestres enxadristas no manuseio das bolinhas de gude. As peladas com bolinhas maiores e menos reluzentes que as belas esferinhas de vidros reuniam mais participantes e faziam mais a alegria do povinho, ainda que Tilly amealhasse boa parte da diversão fazendo de cada um de seus amigos um João para suas pernas de Mané, artificialmente tortas no andar, mas naturalmente retas no jogar. Retos também eram os automóveis. Vagarosos no passar, parcimoniosos no buzinar, cuidadosos e respeitosos. Os da guarda metropolitana eram ainda mais zelosos, mesmo no exercício da autoridade exigida pela função de seus ocupantes.
Parem com este jogo senão vocês vão parar no juizado de menores. É proibido jogar bola na rua, meninos!
O neguinho Lee, próximo de Tilly, mandou os guardas tomarem naquele lugar, com uma voz meio enrustida de branco e os trouxe de volta já com as portas da viatura abertas e com cassetetes nas mãos. Tilly foi o único que correu. Quem mais, senão ele, poderia ser responsabilizado por tamanho escárnio? E quem mais, senão aquele que sai correndo, se alcaguetando, poderia ser o autor deste imperdoável insulto? Tilly bateu o recorde dos 100 metros rasos até a casa de sua avó que se encontrava no jardim molhando suas plantas e viu, indignada, um dos guardas debruçando-se sobre o baixo portão de madeira à procura do trinco para abri-lo. O guarda respondeu aos olhos semicerrados e importunados pelo sol da velha baixinha:
Vim buscar o garoto que se esconde atrás da senhora. Ele destratou a polícia e vai ser levado para o juizado de menores.
A avó estrangeira de Tilly se expressava num dialeto quase intraduzível e, tomada de grande furor e com um regador em riste, falou nesta língua de forma tão clara que aquele guarda civil, elegantemente vestido de um azul escuro das meias ao quepe, possivelmente jamais esqueceu em toda sua carreira.
Este é meu neto e é um menino bom e educado e jamais maltrataria alguém e o senhor só vai botar a mão nele depois de passar por cima do meu cadáver. Deixa os meninos brincarem em paz e vai se preocupar com os marmanjos vagabundos que vira e mexe roubam roupas do meu varal à noite.