sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 45 A 52 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Tilly não precisava correr naquele dia funesto, como também naquele outro já no seu fim, quando fazia um embolote no mesmo palco dos antigos jogos contras que ganhou iluminação e carros transitando a cada minuto, mesmo à noite, agora menos incomodada pelos larápios de tendais e mais rondada por truculentas viaturas da policia militar andando numa vula e fazendo tanto estardalhaço que pereciam estar na banguela esquiando num terreiro e se divertindo com galinhas alvoroçadas espirrando pelos lados, descuidando dos cuidados, desrespeitando os respeitados.
Parem com esta porra, seus pivetes. Se vocês ainda estiverem aqui quando voltarmos, vão todos se foder.
Os milicos, como eram chamadas as autoridades do mais baixo escalão da ditadura, folgavam até mesmo com os adolescentes e recebiam ordens para trancafiar crianças de qualquer idade se estas se recusassem a falar quando interrogadas. Tilly, ainda em formação e, portanto, despolitizado, desconhecia todas os abusos do autoritarismo de sua terra, e para ele aqueles brucutus eram como todos os meganhas: aqueles que prendem, batem e devem fazer coisas tão horríveis como trancar os detentos num quarto escuro. Tilly já estaria em casa se não fosse por Pacífico e arrependeu-se duas vezes. Primeiro, por ter continuado o bate-bola e não saber que raio de imbecil fez algum gesto obsceno dissimulado que aqueles trogloditas não ignoraram e vieram cobrar com camburão e metralhadora.
Quem, senão Tilly, poderia bater o seu próprio recorde dos 100 metros? Ele conseguiria, mas desta vez, antes de cruzar a linha de chegada até a casa de sua avó que agora só podia regar os lençóis de sua cama, ele ouviu uma voz grotesca, uma espécie de relincho com ranço verde oliva:
Pare de correr seu veadinho e venha aqui senão vai ser pior.
Tilly empacou como um esqueleto de burro e virou uma estátua, uma imagem congelada. Pacífico tranquilizou-o e pediu-lhe para que confiasse nele e voltasse. Tilly, então, virou-se e se arrastou resignadamente como um boi desfilando na passarela de um matadouro, com o corpo meio robótico, meio hipnotizado, como um rato encantado pela flauta Hamelinista de Pacífico, mas com a mente lúcida e a meditar:
Se eu não parasse eu estaria morto, crivado de balas. Continuo vivo, mas até quando? Não sei para onde vou. Para a morte ou outra coisa? O que pode ser pior que a morte? Dizem que um desaparecimento é pior. Pior para quem fica e procura. E para quem desaparece, o que acontece? Só perde a família e os amigos e nunca mais os verá? Fica sumido até morrer? Ou também vive a procurar como os que ficam? E se eu pudesse desaparecer e depois voltar, como quando durmo, sonho e sumo, e vou para lugares que não conheço e retorno para meu mundo ao acordar?
Tilly era imaginativo e suas reflexões no estado vígil eram uma espécie de prefiguração de suas futuras experiências oníricas. Seus pensamentos, enquanto caminhava como se fossem os últimos passos de um homem no corredor da morte, pareciam estar buscando a magia encontrada naquele caso contado por Marie-Louise Von Franz sobre a menina de seis anos que sonhou que estava com a avó e lhe disse: Vovó, eu consigo desaparecer! Pare de bobagem menina, ninguém é capaz disso, respondeu a avó. Nesse momento, a menina acordou, sentou-se na cama, correu os olhos pelo quarto escuro, deitou-se e novamente adormeceu. E como às vezes acontece, ela retomou o mesmo sonho. A avó, no sonho, olhou para ela e disse: Meu deus do céu, como é que você conseguiu?

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