quinta-feira, 22 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 99 A 108 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Tilly exauriu tudo o que ele queria saber e divulgar sobre o The Who de maneira que não restou mais nenhuma gota etílica para transbordar o copo padecido e cheio de marolas que o Mensageiro da Decepção segurava com mãos trêmulas como se sofresse do mal de Parkinson. Este foi o início do fim do relacionamento entre os dois. A culpa não era do The Who, mas da falta de uma amizade genuína entre eles. Tilly, que se tornou seu companheiro de bebedeira, até que tentou. No auge de um de suas embriaguezes, Tilly propôs que os dois escrevessem um livro juntos, mas foi imediatamente ridicularizado. Tilly passou a ser tratado com mais compaixão e menos seriedade quando ele anunciou o abandono completo do fumo e do álcool por conta de um namoro que ele iniciara com algo que ele acreditava ser mais numinoso que um sonho, sendo que este em si já é algo demasiada e freudianamente infantil para a maioria para merecer crédito. Por fim, Tilly soltou um gás debochado, acintoso e fedorento na frente do Mensageiro o que lhe causou repulsa e indignação. O Mensageiro podia cair pelas tabelas, mas nunca perdia a compostura. Não soltava palavrões e nem urinava nas calças. Vomitava só quando chegava em casa. Assim, o cristo e o seu algoz fizeram um pacto não declarado de separação e nunca mais se viram. Da parte de Tilly, o que garantiu este afastamento definitivo foram aquela flatulência posta em liberdade incondicional, sua ausência no velório e no enterro da mãe do Mensageiro e sua recém-adquirida fama de embusteiro que se espalhou pela família até chegar aos ouvidos do Mensageiro. E da parte deste, foi apenas seu incurável hábito de desonrar um compromisso.

Para Tilly a palavra empenhada não tinha valor absoluto e dependia do grau de risco envolvido no seu cumprimento. Compromissos eram bem mais relativizados e se orientavam pela imprevisibilidade das circunstâncias que os cercavam. Tilly era capaz de escrever uma peça teatral em idioma estrangeiro para sua escola e ainda protagonizá-la e era capaz também de não comparecer no dia da sua primeira apresentação, deixando todo mundo na mão, porque seu pai chegou tarde e não pode lhe emprestar o carro como de costume. Tilly tinha medo de voltar da escola de ônibus à noite. Com um talento rarefeito como a atmosfera marciana e ainda eclipsado pelos seus fobos e deimos, em sua breve passagem por estas paragens Tilly acumulou os mais inimagináveis excessos que a natureza humana é capaz de cometer. Exageros que a natureza que obra sem malícia é incapaz de engendrar, mas que a ela são imputados por conta dos atos de deus que às vezes ela usa para se manifestar e dos quais o homem se aproveita para justificar a intempérie sua se cada dia.

Os nativos do paraíso perdido do norte homenageavam os mortos de caras pálidas com faces lavadas de pó azul. A vegetação verdejante das terras do novo mundo torna-se azul quando vista a uma distância excessiva. O preto culto que trabalha de paletó e gravata para o branco é negro do ébano, quase azul de tão preto. Mas o preto inculto, mísero e azul de tão negro é escravo no novo paraíso dos brancos e apelidado de azulão. As estrelas brancas que iluminam os céus do novo éden e que perdem o controle de suas temperaturas ficam azuis, as mais quentes do universo. Por isso o anil não combina com a frieza que lhe é atribuída e nem com Tilly. Ele não sabia mentir e se entregava facilmente. Tilly também não combinava com o tudo azul de seu país em completa ordem imoral e em franco progresso amoral. Ele combinava mais com a tristeza desta cor no lar dos bravos. Isso já era evidente quando ele compunha músicas num inglês atravessado na sua adolescência.

Ay see us nay tall. Ay see us blue. Crying is our label. Pain is our rule.

Tilly não tinha sangue azul. Era pobre. Não ficava azul de fome nem de raiva. Era esbelto, de corpo atlético. Comia só para repor calorias. Era chorão, medroso, ciumento e melindroso, mas não raivoso. O que, então, poderia fazê-lo migrar do enganoso vazio total e neutro para a mais absoluta casticidade? O espírito, pensou alto seu daimon polivalente, fazendo as vezes de um poeta.                   

O espírito cábulo que não se manifesta nem a cada lua azul. Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea. Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra, que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.
 
O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul. Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado. Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra, esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.
 
O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul. Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília. Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo. Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.
 

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide. Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar. Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra. Desaparece como o fogo da vela que se extingue e esvanece com o aroma de incenso que esteriliza o ar.


Tilly entrou para a espiritualidade como um anjo manquitolando e foi logo acolhido sob os auspícios de um cristo e de um patrono, e lá chegou como chegam todos os que procuram suas identidades nos conglomerados humanos e precisam ser resgatados do anonimato. Todos que se tratam de doenças psicossomáticas e são logo devolvidos à mesma vida de sempre. E de lá também saem contingentes flutuantes trocando a aldeia do campo pela da praia, e lá permanecem os capitães hereditários com seus séquitos de carregadores de tirso. Tilly estreou feito um aleijado de corpo e alma, embora não precisasse de muleta nem de cadeira de rodas e tivesse cabeça para pensar e uma fé menos cética que a de São Tomé. Antes de se apoiar nas próprias pernas e opiniões, ele adulou quem gosta de ser adulado e esnobou quem precisava ser amparado. Por uns tempos, Tilly se tornou mais um bobo da corte que dá quórum a discursos públicos e que, não se sentindo evidenciado o suficiente, revolve como figurante ao redor de coadjuvantes e engrossa rodinhas até poder chegar às bacantes. Antes de esboçar qualquer curiosidade científica, Tilly conviveu com boçais com iniciativa e que se escandalizam com o feminino na vida de deus, que priorizam a obsessão sobre a educação, que montam calendários letivos com esquemas de compensação de feriados, que se respaldam no ócio, na mordomia e na perpetuação do privilégio das repartições públicas e rezam como se estivessem carimbando documentos. Como todos os boçais, Tilly não conseguiu deixar de ser também um oportunista que aparece melhor no dia de servir caldo e água benta, no dia de dar bênçãos com mãos levianas. Para encontrar um refúgio para sua insegurança, Tilly deixou se guiar pelo cajado de pastores escatológicos. Para encontrar seu oásis ele peregrinou e se extenuou no deserto da ignorância. E para encontrar o porto protetor da sua alma naufragou nas águas do dogmatismo e se deixou levar pela maré do fanatismo.



video