sexta-feira, 21 de outubro de 2016

FREAKS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Um novo americanismo chamado HASHTAG me lembrou de uma crônica do Veríssimo no Estadão em 21/05/2015 sob o título TRANSBOARDING. Nela, Veríssimo disse: Triste o país que tem vergonha da própria língua. E acrescentou: Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil. Veríssimo discorre sobre várias palavras em inglês que ele não entende e pede explicações ao vendedor a todo momento. Palavras que deveriam simplesmente serem expressas em português. Apesar do sarcasmo de Veríssimo ser exageradamente parcimonioso, porque, acho, que ele precisa ser sempre politicamente correto para escrever para o Estadão, sua crônica me deu uma ótima ideia pra escrever um novo conto, chamado ENTRE O CÉU E A TERRA, que fará parte de meu livro que está sendo publicado em partes neste blogue. O português é minha língua nativa e jamais me envergonhei dela. Ao contrário, tenho orgulho de falar o idioma de Camões, em que pese o triste fato dele ser o porta-voz de um dos países mais esculachados do mundo, chamado Brasil. O francês é um povo que ainda orgulha-se de sua língua. Depois da segunda guerra mundial, a França entrou em decadência, em todos os sentidos, mas não dá o braço a torcer. A maioria dos franceses fala inglês, mas só responde em francês. Quando ele dá entrevistas sempre exige um tradutor. Ainda vai durar muito tempo a bronca que o francês têm dos americanos por eles terem salvos a França da humilhação imposta pelos nazistas e por evitar que o francês se visse obrigado a falar alemão. A França vive só de seu glorioso passado recente. Quem concede o título de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais importante condecoração concedida pela França, a um escritor como Paulo Coelho, e ainda lhe oferece a medalha de Oficial das Artes e das Letras (Officier des Arts et des Lettres) do ministro da Cultura, uma comenda que supera em status o título de Cavaleiro das Artes e das Letras, é uma país que já não pode ser levado a sério do ponto de vista cultural. Isso apenas reforça a vantagem do povo britânico, que não tem o nariz empinado como muita gente pensa, mas, ao contrário, goza de ambos, franceses e americanos, e até deles mesmos (assista aos filmes De Bico Calado, Porcos e Diamantes, Um Peixe chamado Wanda, Quatro Casamentos E Um Funeral, etc). Estive na Inglaterra inúmeras vezes e cheguei à conclusão de que os ingleses são muito superiores e modestos demais para tanto talento artístico. A Inglaterra jamais deu (e jamais dará) um prêmio a Paulo Coelho, porque lá a literatura é levada a sério. Lamentavelmente, nosso país só leva a sério tudo o que vai na contramão da cultura. Este desvio promíscuo e interesseiro é fomentado pelos nossos governantes (força de expressão minha), com apoio de nossa mídia que arroga para si o papel de último baluarte da justiça social e da crítica ferrenha aos desmandos de nossas governantes. Mas ela é tão é hipócrita e demagoga como qualquer político, e desonesta, como a Rede Globo. Ela está sempre do lado do governo por interesses mesquinhos e para poder levar vantagens sobre tudo e todos, sobre o pobre povo brasileiro, roubado pelo governo todos os dias, ganhando pouco, só o suficiente para a subsistência, sem dinheiro para cultura, para comprar um livro, sem tempo para ler, e, portanto mal falando nossa língua brasileira. Eu poderia dizer que o povo brasileiro é burro, mas seria um tremendo erro e uma tremenda injustiça de minha parte, mesmo considerando-se o fato de que tivemos um burro de raça pura com pedigree na presidência por 8 anos. Somente um burro elege outro para governá-lo. Na verdade, o brasileiro é ingênuo e muito passivo, e é levado, sem perceber, para o mundo da breguice. Mas o brasileiro não está só. Na verdade, 95% da população deste planeta é brega, do tipo Maria Vai Com As Outras, até mesmo na Inglaterra, o país mais civilizado do mundo, há gente brega. A mídia brasileira visa, em primeiro lugar, as classes mais ricas e difunde a ideia de que tudo que há de melhor e sofisticado tem nome em inglês.  Ela empurra esta ideia para as classes pobres que pensam que é chique usar expressões e produtos em inglês. Há alguns anos atrás, uma virtual do facebook enviou-me uma mensagem particular com o número de seu celular, acrescentado que eu poderia enviar-lhe um WHATSAPP quando quisesse. Perguntei-lhe: O que é WHATSAPP? Ela morreu de rir de mim. Ocorre que, embora eu tenha um celular, não vivo pendurado nele, não dependo dele, quase não uso, e até esqueço que tenho um. WHATSAPP é mais um aplicativo americano para comunicações via internet. (rede internacional). É uma multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz para smartphones (telefones inteligentes). Além de mensagens de texto, os usuários podem enviar imagens, vídeos e documentos em PDF (um formato de arquivo portátil), além de fazer ligações grátis por meio de uma conexão com a internet. O que a maioria das pessoas não sabe é que WHATSAPP é apenas um trocadilho com a expressão inglesa WHAT´S UP? que significa, E AÍ? ou QUAL É ? ou O QUE ESTÁ ROLANDO?, etc. O brasileiro poderia, simplesmente, traduzir a expressão para o português e usar um termo coloquial e maneiro como QUALÉ? Que tal dizer: EI, AMIGO, ME MANDA UM QUALÉ. Porém, o brasileiro acha que QUALÉ é brega. Ele se sente mais importante dizendo: ME ENVIA UM WHATSAPP! Ele acha que QUALÉ é brega, mas ele não percebe que o brega é ele. Como dizia Platão: Um louco não sabe que é louco porque ele nunca conheceu a sanidade. Em nossas escolas, não se pode mais mais falar em assédio moral. Onde minha filha de 13 anos estuda, não se pode reclamar de ameaças, provocações, e intimidações por parte de outros alunos. Os professores e coordenadores agora só te entendem se você disser: Minha filha está sofrendo bullying. E a mídia, principalmente a televisiva global, dá a maior força à substituição do português assédio moral pelo inglês bullying. Lembro-me há muitos anos atrás que alguém queria substituir o nome Sao Paulo Fashion Week por Semana da Moda de São Paulo. Imediatamente, uma famosa top model brasileira, retrucou: Se trocarem o nome não participo mais deste desfile. Para aquela celebridade as palavras Semana da Moda eram bregas demais. Acredito que as fezes dela já não são mais marrom. Devem ter as cores das bandeiras americanas e britânicas: azul, vermelha e branca. Raras vezes vou ao Shopping Center Norte (Centro de Compras do Norte). Quando vou e desfilo pelos exuberantes corredores, fico impressionado ao ver nas luxuosas vitrines frases do tipo 50% OFF, que em inglês significa 50% DE DESCONTO. Mais estarrecido ainda fico com frases do tipo ON SALE, que em inglês significa EM LIQUIDAÇÃO. O consumidor não entende o que estas palavras em inglês significam. Só entendem que os preços baixaram, porque ao lado destas mensagens em língua estrangeira o preço anterior (superfaturado) tem um enorme risco em vermelho, e abaixo dele aparece o novo preço 50% mais baixo (mas ainda caro demais). Até mesmo nosso respeitável Dicionário Aurélio adotou essa idiotice. Acabou de introduzir oficialmente na língua portuguesa o verbo TUITAR, Eis o significado de tuitar no Aurélio: Postar no Twitter comentários, informações, fotos, etc. Como todos sabem, twitter é mais uma rede social e um servidor da internet que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais, por meio do website (sítio de rede) do serviço, por SMS e por softwares (programas) específicos de gerenciamento. SMS é uma abreviação do inglês Short Message Service (Serviço de Mensagens Curtas) que poderia ser chamado SMC em português. Twitter em inglês significa PIADOR, do verbo PIAR. Os pássaros PIAM, portanto são PIADORES, mas para os intelectuais brasileiros é muito feio e brega usar o termo PIAR para esta rede social da internet. Para o Senhor Aurélio, TUITAR é muito mais elegante, mais sofisticado, mais inteligível do que o nosso PIAR. A idiotice mais recente é a nova mania americana (imediatamente adotada pelos babacas brasileiros) de marcar qualquer assunto, por mais idiota que seja, com o símbolo do jogo da velha: #. E aqui no Brasil todos têm que pronunciar exatamente como os americanos pronunciam, ou seja HASHTAG. Os americanos sempre usaram o símbolo # como abreviação da palavra número. Exemplo: # 20 (número vinte). De repente, os americanos decidiram que qualquer assunto, por mais trivial e vulgar que seja, deve ser identificado com uma palavra chave. Por isso inventaram em 2014 uma nova palavra, HASHTAG que significa exatamente isso: PALAVRA-CHAVE DE UM ASSUNTO, OU TEMA, OU TEXTO. Pode ser qualquer assunto. Exemplos: # Reality Show do Ronaldinho Gaúcho, #Levir Culpi não comemora gol impedido, #As curvas de Giovanna Ewbank em vestido transparente, #Joana é página virada na vida de Gabriel. E os brasileiros não podem chamar o símbolo # pelo nome oficial em português: Cerquilha ou o popular jogo da velha. Ele é obrigado, principalmente na televisão, a dizer HASHTAG e pronunciar a palavra em inglês direitinho, senão pode ser demitido. Bestialidade é o que não falta neste país, e só perde para a corrupção institucional. Os mais bestas são aqueles que se julgam acima de média, mais esclarecidos, que falam idiomas, e que não têm o que fazer. Alguns, por motivos exclusivamente comerciais, trouxeram para o Brasil uma tradição americana chamada HALLOWEEN (Dia das Bruxas) que nada tem a ver com nosso folclore e nossas tradições. Tentaram transformar o Dia das Bruxas no Dia do Saci Pererê, mas não pegou, porque qualquer bestialidade que venha dos EUA é sempre a melhor do mundo. Não duvido que não vai demorar muito para que estes mesmos bestas instituam no Brasil o Dia de Ação de Graças (THANKSGIVING DAY) uma tradição exclusivamente americana. Há outros bestas que acham que o Brasil já é uma potência olímpica no esporte e que nosso país tem talentos demais para poucas modalidades esportivas. Para não desperdiçar o potencial de tantos atletas, eles resolveram trazer para nosso país o basebol e o futebol americano. Talvez eles não saibam que toda pessoa que adora esportes, mas não tem talento nenhum para qualquer tipo de modalidade, acaba jogando basebol e futebol americano. Eu sempre digo isso aos americanos quando vou aos EUA, e eles ficam putos da vida comigo e, corretamente, dizem que sou subdesenvolvido. Eu lembro a eles que os EUA têm a melhor tecnologia do mundo, mas péssimas ideias artísticas, Basta assistir a todos os filmes que eles produzem todos os anos, especialmente aqueles que ganham o OSCAR, um espetáculo criado por bestas para bestas. Por falar em esporte, o boxe, que pode matar, causar o Mal de Parkinson e deixa outras sequelas irreversíveis, sempre foi chamado de NOBRE ESPORTE. Agora, a Globo, por puro interesse financeiro, trouxe ao Brasil um esporte ainda mais nobre, o UFC, que está muito próximo da carnificina das lutas entre gladiadores no antigo império romano. E por falar em Globo, fugindo um pouco dos esportes, outra nobreza é o famoso BIG BROTHER BRASIL (o Grande Irmão Brasil) que, como já escrevi em outro texto, não passa de uma versão erótica das banalidades globais em horário nobre, uma escola preparatória para jovens mulheres que pretendem ganhar a vida pousando nuas. Acredito que o melhor nome para este programa, mantendo o inglês que é imprescindível, seria BIG GLOBAL SHIT (a Grande Bosta Global). E que novidades o Sr. Aurélio está preparando para os bestas quadradas (freaks)? Verbos como réchitegar (com pronúncia nordestina), feissibucar, uótsapar, gugolar, blogar, instagramar, iutubar, linquedlinar...? Meu corretor ortográfico vive me alertando: Não é e-mail. É correio eletrônico. Não é blog. É blogue. Mas sempre que usei a palavra blogue alguns leitores me perguntaram: O que você quer dizer com blogue? Alguma raça de cachorro como o buldogue?


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