sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PARÁGRAFO 1 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Embora real para Onedin, para os leitores que conhecem, pelas suas sensações orgânicas, e ignoram, pelas suas percepções extrassensoriais ainda não desenvolvidas, tudo o que se passa no decurso do tempo entre seus nascimentos e suas mortes, esta história pertence ao gênero chamado ficção. Ela é um disco voador, um abominável homem das neves, um Abraão e um Moisés, um monstro do Lago Ness, um Jesus de Nazaré, um interno de manicômio que vê o pênis do sol balançar e provocar uma forte ventania e um externo que vê uma rainha inglesa deitada ao lado do seu ministro no fundo raso das margens do mar da Galileia lançar um doce sorriso até a superfície de suas águas tranquilas e cristalinas em plena Palestina do primeiro século da era comum. Ela parece ser o produto de mentes malignas e doentias, pois são esses os nomes que recebem aqueles que dão à providência conotações míticas emendadas com frases prolixas e sem nexo. Onedin não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas às vezes surpreendia com certos algoritmos rudimentares que continham uma lógica tão improvisada que beirava o lirismo, por isso, ele certamente ganharia a simpatia de Alberto Faria, pois ele era um latino que conservava a ficção poética do canto melodioso da cigarra, sem  acusá-lo de rouco e desagradável e conservava também o realismo fantástico da vida exuberante que existe dentro de um sonho, sem acusá-la de prosaica e ilusória. No entanto, quem não conheceu Tilly como Onedin conheceu dificilmente deixará de chamar esta história de esquisitice. Mais difícil do que acreditar nessa história foi contá-la. Para Tilly, teria sido uma agrura que acarretaria nas inevitáveis futilidades e inconveniências quando se tenta convencer ouvidos tupiniquins de que a música popular britânica é a melhor de todos os tempos. Para todos os mortais, é o tempo desperdiçado quando se tenta resgatar o verdadeiro espírito da época em que se viveu. É semelhante ao que Doris Lessing escreveu sobre a tentativa de se reproduzir o ambiente moral de uma era como sendo o mesmo que tentar reproduzir a qualidade de um sonho, pois nenhum tipo de comunicação é possível, a menos que outra pessoa tenha tido o mesmo sonho que você teve e disso você não poderá ter nenhuma prova ou garantia, mas somente confiança e fé. Ainda assim, Onedin estava convencido de que seu inseparável amigo Tilly não desaprovaria sua ousada tentativa de reproduzir aqui a qualidade da inusitada experiência que ele viveu e que Onedin pode constatar com assombro. Porém, muito mais difícil ainda foi fazê-la deixar o âmbito das ideias e entrar no das letras, especialmente para alguém como Onedin, um sexagenário que pouco leu e nada escreveu. Muitos times dos sonhos se tornaram realidade apenas no papel e deste jamais saíram muitos projetos faraônicos e outros tantos bem-intencionados e elaborados. Esta história, no entanto, nunca concebeu planos e esboços e nem conheceu a forma escrita. Ela deu vida a si mesma, alheia às disposições e convicções humanas e à vontade de deus. Ela inseminou-se, desenvolveu-se e pariu-se, sem auxílio de proveta, barriga de aluguel ou parteira. Ela se fez luz sem a pretensão de atingir a dimensão de universos, insciente da sua condição de uma das inumeráveis e pequenas cândidas manchas na imensidão das trevas e que só não são percebidas por quem dentro delas habita. Na verdade, foi Onedin quem se intrometeu em sua vida, tentando cercear sua liberdade primordial e confiná-la numa resma de papiro rabiscado. Mas se Onedin não a escrevesse talvez ele passasse o resto da vida em conflito por ter transformado uma promessa cumprida num segredo não compartilhado que implicasse numa responsabilidade cujo peso ele jamais pudesse suportar e se ele sucumbisse ele jamais se perdoaria na mesma medida em que os amantes do saber jamais perdoariam o mundo se este lhes tivesse negado a genialidade de um Platão por falta da personalidade extraordinária e inspiradora de um Sócrates.