sábado, 1 de outubro de 2016

PARÁGRAFOS 6 A 14 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Os que estão atentos devem estar intrigados com a relevância da penúltima vez em relação à última, mas Onedin também esteve confuso com essa estranha proeminência por algum tempo. Uma das maneiras mais simplistas e tillyanas de examinar e entender esta questão é se perguntar qual foi o último disco dos Beatles. Let It Be foi gravado antes deAbbey Road, mas foi lançado depois. Se a discografia dos Beatles serve como uma linha de raciocínio, presume-se que Onedin usou Beatlemania como ponto de partida para compendiar a corridografia de Tilly até chegar a Let It Be, mas, como se sabe, Let It Be foi o penúltimo álbum.
Na primeira vez Tilly fez um ótimo tempo, muito longe, porém, de despertar o interesse de um Felípedes. Não foram centenas de quilômetros de um dia para o outro em terreno próprio para maratonistas, nem partindo da cidade mais gloriosa do planeta para outra tão platonicamente venerada pelos deuses, nem a mando de outrem clamando por socorro. Foram meras centenas de metros colina acima, imprópria para cavalos, sempre contra o vento, num lapso de tempo imponderável como quando se passa de um sonho para outro. Num lugar com um nome desses, carne seca, só podia se esperar desinteligências e brados assustadores.
Espera aí que eu vou pegar o meu revólver e vocês vão ver uma coisa!
Tilly queimou o chão duro e empoeirado feito uma supernova desabrochando, inaudível e invisível, chegou até o lugar onde a arma se escondia, separou suas partes, guardou-as noutros recônditos e esperou. Quando lhe veio a certeza de que seu lar não perderia um pai para um criminoso, seu ofego assossegou-se, desapertando-lhe o peito, a alma e o coração que ainda batia um tanto acelerado como as passadas de um corredor de marcha atlética.
Era só o começo da década de ouro e nela Tilly adentrava cheio de temores: da água agitada do mar, da terra alheia com frutos para roubar, do fogo da vela se apagar e do terror noturno que sufocava o ar. Pitágoras abordara sistemas quaternários como estes e Platão insinuou-os.
Um, dois, três... e o quarto integrante, que se diz único e verdadeiro e que hoje deveria aqui se materializar? lembrou Onedin em voz alta de uma pergunta que Tilly disse ter recebido de seu daimon. Onedin, sempre saudoso das proezas inglórias de Tilly, que ele sempre pensou tratar-se de peripécias premeditadas, leu uma frase de Camilo Castelo Branco no mesmo dicionário que se tornou seu livro de cabeceira e arriscou uma  resposta:
Deve ter adoecido repentinamente ou anda ocupado com artimanhas. Por ele, não faltaria ao encontro. Mas também diante deste triunvirato de condiscípulos ele bem que poderia já estar aqui presente ainda impalpável, fazendo-se de fantoche que ri por descomprazer e fingindo não ter dado as caras onde é esperado.
A estes caprichos da imaginação de Onedin não faltava certa parcela de verdade, mas para a apoteose dos pavores de Tilly faltava ainda um quinto elemento. Walter Benevides escreveu que com a surdez que o levara aos últimos quartetos, Beethoven quintessenciou a música. Tilly fez o mesmo com a esquizofrenia, com a insegurança que o levara a esta primeira quaternidade, instável como o núcleo de um átomo bombardeado por um nêutron. Antes mesmo do crepúsculo dos anos dourados já se apossara dele essa demência precoce, autista, desafeita ao contato vital com a realidade, relapsa com as formas usuais de associação de ideias, redutora da afetividade.
Tilly tinha razões de sobra para enlouquecer, como John Lennon disse lá em cima do outro lado do atlântico, ao escrever uma canção que foi usada na abertura do filme A Hard Day’s Night, falando sobre um jovem desiludido. E aqui em baixo do lado de cá deste mesmo atlântico, embora não conhecesse a letra desta música, Tilly encarnava-a no melhor estilo do sua ingênua disposição interior e de seu pobre terceiro mundo exterior. Apaixonava-se por toda garota que conhecia, mas perdia todas antes que cada uma delas soubesse que pertencera a ele. A cada desilusão, tinha vontade de se trancar num quarto o dia inteiro, mas como não conseguia, chorava, de preferência sentado na calçada próxima à casa de um de seus amores não correspondidos, esperando que alguém se apiedasse dele. Brigão e discutidor, não conseguia dialogar com ninguém que conhecia e se reencontrasse um de seus desafetos trataria de fazê-la infeliz, mas como não conseguia, chorava, mas não na frente dos outros. Tímido demais, pedia as meninas em namoro através de bilhetes e prometia para si mesmo que um dia iria partir os corações de todas elas, em dois, como fizera com aquela máuser alemã, e iria mostrar ao mundo o que um rapaz apaixonado é capaz de fazer.


video