segunda-feira, 28 de novembro de 2016

ARDE SEM SE VER

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Você canta Michelle, Ma Belle, Diz que estas palavras combinam bem, Pergunta o que escrever depois, Te amo, Tem amo, Te amo, Isso é tudo que sei falar, Não posso simplesmente roubar frases de suas canções, Como se rouba um beijo de uma mulher distraída na paixão, Mas posso enfeitá-las, Como uma feliz inspiração por acaso rouba a miséria de minha pobre criação, O que há de errado em derramar algumas lágrimas ao assistir a uma cena de amor num filme? Um pedido de perdão? Uma reconciliação quase impossível? Não posso simplesmente tomar suas melhores catarses ao lento cair das cortinas no palco, Como o dia toma caprichos românticos e fantasias poéticas ao cair da noite, Mas posso realizá-las numa conversa a dois nos parques como fazem duas pessoas enamoradas de sexos iguais e opostos, Você canta Marie, Mon Cheri, Diz sont des mots qui vont très bien ensemble, Pergunta o que escrever depois, Preciso, Preciso, Preciso, Que você entenda as palavras que sei dizer, Não posso simplesmente rimar falas rebuscadas, Como o escritor gongórico que rima amor com dor, Mas posso inová-las, Como os sábios renascentistas renovaram a ciência medieval, Como Platão nos ensinou a amizade colorida alheia ao gozo material, O que há de errado em homenagear seus versos e juntá-los às ideias que faço do amor? De minha admiração pelo seu compasso? De meus suspiros quando olho seus passos?

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domingo, 27 de novembro de 2016

SOMOS TODOS BOLIVIANOS


 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Em meados de 1982 arrumei um emprego na empresa São Paulo Alpargatas S/A (SPASA). Foi logo após a ressaca brasileira por ter sido eliminada pela Itália de Rossi na Copa do Mundo na Espanha.  A SPASA era uma grande empresa, com muitas fábricas e, se não estou enganado, tinha quase 20 mil empregados. Era também um grande cabide de empregos, bem maior que a  Santista, mas perdia de longe para a Cotia Trading (leia meu texto chamado NATASHA http://alceunatali.blogspot.com.br/2016/03/natasha.html). Tenho quatro boas histórias sobre a SPASA. Eu deveria começar pela minha primeiríssima experiência na SPASA pouco mais de um mês após ter assumido o cargo de assistente de exportação, uma história a qual dei o título de SOCRATES NA TERRA DO BEIJA-FLOR, mas esta fica para depois. As outras duas chamam-se JACQUELINE e QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? A SPASA tinha um departamento de exportação (DE) que era um verdadeiro luxo, com mais de 30 funcionários, incluindo as áreas de vendas e logística. O DE da SPASA tinha um Gerente Geral, um carioca malandro e porra loca que só enganava e coçava o saco o dia inteiro, com secretária, meio maluquinha que hoje escreve sobre telecomunicações com os mortos, e um assessor, um inglês recalcado, radicado e malcriado na Argentina e que tinha merda na cabeça, Gerentes de Divisões por produto, a maioria só com vocação para bajuladores: Brim (ou Índigo), Jeans, Calçados, Artigos Esportivos e o Resto. Fui contratado como assistente desta divisão, o RESTO, que não tinha nome, porque ela era responsável por produtos que dificilmente podiam ser vendidos fora do Brasil: as famosas colchas de chenile e matelassê com a marca MADRIGAL, e as famosas lonas e encerados com a marca LOCOMOTIVA. Antes de minha chegada à SPASA vendiam-se muitos encerados à Venezuela, graças a um acordo tarifário que o Brasil tinha com aquele país. Vendiam-se muitas colchas de chenile crua ao Chile para serem lá tingidas e revendidas à Argentina, graças a um acordo tarifário que o Chile mantinha com o país dos italianos, que pensam que são ingleses e falam espanhol Os acordos acabaram, e as exportações de colchas e encerados desabaram. Ninguém, ninguém mesmo queria se encarregar destes produtos. Todo o pessoal do panelão, dos gerentes para cima, se interessava somente por coisas fáceis, produtos vendidos com margem de lucro zero e até com prejuízo, especialmente para os EUA e a Europa Ocidental para onde eles podiam viajar e gozar de mordomias e regalias sem precisar fazer nenhum esforço de venda.  O Brasil não precisava exportar porque o mercado interno, protegido contra importações, era fechado e absorvia toda a produção doméstica, e esta era apenas uma das razões que levou o nosso país a ter uma inflação vergonhosa, utópica, mas real, de 30% ao mês em 1989. Na ditadura militar a corrupção corria solta, mas perdia de longe para a corrupção de hoje (governo federal, senado, câmara federal, STJ e praticamente todo mundo que entra para a política neste país). Sob o pretexto de promover o desenvolvimento, os militares se endividavam com dinheiro emprestado do FMI (e as propinas sobre empréstimos eram de 10% para cima – perguntem ao Delfim Neto). Para compensar o déficit interno e externo, os milicos criaram uma série de falcatruas para incentivar as exportações, todas contrárias às regras do GATT (General Agreement on Tariffs and Trade – Acordo Geral Tarifário e Comercial, com sede na Suíça). Quem exportava tinha direito às seguintes picaretagens: isenção de ICMS, IPI e outros impostos, prêmios (descontos) de IPI e ICM que variavam de 10 a 30% sobre vendas no mercado interno, financiamentos à exportação a juros subsidiados, um sistema chamado Draw Back: para cada 3 dólares que uma empresa trazia para o Brasil por meio de exportação ela tinha direito a 1 dólar de importação. Se uma empresa conseguisse exportar 3 milhões de dólares em dez anos ela tinha direito a importar 1 milhão de dólares sem pagar impostos. As empresas não precisam esperar dez anos para ter acesso às importações que, normalmente, eram feitas no primeiro ano de vigência do programa. Muito bem, se o mercado interno absorvia toda a produção da SPASA por que ela se interessava em ter um DE? Resposta: Apenas para ter acesso a juros subsidiados e importações de máquinas e corantes no valor de US$ 200 milhões, sem pagar imposto, mesmo que para isso precisasse exportar US$ 600 milhões, sem lucro e até com prejuízo. Valia a pena. O que se exportava era menos que 5% das vendas no mercado interno. Naquela época os juros de mercado eram bem mais altos que os de hoje.  Indústrias automobilísticas lucravam mais aplicando dinheiro no mercado financeiro do que produzindo e vendendo carros. Portanto o DE da SPASA e de outras empresas era apenas um departamento de luxo, um verdadeiro recanto de extravagâncias e putaria, igualzinha àquela que se pode ver no filme The Wolf of Wall Street, e sobre esta putaria falarei mais no texto QUE NOME VOCÊ DÁ A ISTO? Eu precisava trabalhar dentro deste puteiro. Tinha apenas 30 anos, 3 crianças para sustentar, e ganhava menos que US$ 500, e eu tinha que falar inglês e espanhol fluentemente e usar terno e gravata. Meu chefe nada entendia dos produtos que tínhamos que vender na divisão do RESTO. Ele tinha sido mandado embora da Volkswagen e conseguiu entrar na SPASA via cabide de empregos, apenas porque ele tinha a mesma descendência estrangeira do chefão bon vivant. Tive que carregar o RESTO nas costas e consegui recuperá-lo. Mas a turma da panela tinha medo de mim. Porque eu trabalhava de verdade e eles tinham receio de que eu fizesse o que eles eram pagos para fazer e não faziam. Por isso não permitiam que eu viajasse para países do primeiro mundo onde eu poderia vender muito mais. Para o primeiro mundo só poderia viajar a turma do panelão, não para fazer vendas, mas apenas para passear e esbanjar: ficar em hotel de 5 estrelas, comer do bom e melhor e fazer turismo. Havia um boliviano que vinha todos os meses à SPASA para comprar o famoso e popular tênis Kichute da divisão de Calçados e revende-los no varejo. Ele fazia muitos negócios na SPASA, mas só era recebido por subalternos. Nenhum gerente brasileiro subdesenvolvido aceitava se encontrar com um cliente boliviano subdesenvolvido. O boliviano mal terminara o curso primário e durante boa parte da vida adulta trabalhou como peão da indústria petrolífera americana, sempre pegando na massa, se sujando de petróleo o dia inteiro. Não sei como ele fez a transição de mero trabalhador braçal para um próspero distribuidor de produtos brasileiros na Bolívia. Ele comprava bastante mesmo. Tive a oportunidade de conhecê-lo e logo ele se interessou pelos meus encerados, e mais tarde também pelas minhas colchas de chenile. Os encerados tinham uma particularidade: eram produzidos somente nas cores verde e cáqui. Se alguém perguntasse por que cáqui a resposta era simples: a lona cáqui é para caminhões que só viajam por estradas de terra, barrentas e empoeiradas. Portanto a cor cáqui camuflava toda a poeira que se acumulava no encerado. E a verde? Era para caminhões que trafegavam somente em estradas asfaltadas. Por que verde e não azul? Ninguém sabia responder. Este boliviano começou a comprar encerados e colchas demais para um país tão pobre como a Bolívia. Resolvi fazer-lhe uma visita para conhecer melhor seu negócio. Obviamente minha chefia me dava permissão imediata para ir à Bolívia. Ninguém do panelão se arriscaria a ir a um país do terceiro mundo. O boliviano me recebeu no aeroporto com sua Pajero da Mitsubishi, uma carro que eu só veria no Brasil no século 21. Aquela era van era super incrementada, de primeiro mundo. Imaginei que ele tivesse pago muito caro por ela, mas ele disse que foi baratinho, menos que o preço de um fusquinha. Mas como? De onde ele comprou um baita de um carro por um uma pechincha. Ele explicou que na Bolívia você podia escolher o que quisesse: o modelo de carro, ano de fabricação, cor, etc, e entregava o pedido ao pessoal especializado na subtração de veículos alheios na  Venezuela, um país que naquela época já importava carros de várias partes do mundo. Para regularizar a situação do veículo bastava dar uma gorjeta a um inspetor do DETRAN boliviano. Então, lá estava eu, andando num belo carro surrupiado pela primeira vez em minha vida. Os encerados e as colchas de chenile eram entregues em Corumbá, fronteira do Brasil com a Bolívia. Em Corumbá, o boliviano colocava a carga num trem e seguia para Santa Cruz de La Sierra onde tinha um depósito a partir do qual distribuía a mercadoria por toda a Bolívia. A caminho do aeroporto para o hotel, perguntei que tipo de seguro ele fazia para levar a mercadoria de Corumbá para Santa Cruz. Tranquilamente, ele respondeu que contratava seis pistoleiros: dois iam à frente do vagão, um de cada lado, dois na parte traseira, também um de cada lado, e dois dentro do vagão. Quando o trem parava numa estação, os dois pistoleiros saíam de dentro do vagão e os seis mantinham suas metralhadoras apontadas para quem ousasse tentar assaltar o vagão. Fui conhecer seu depósito. Imenso, com uma grande quantidade de produtos estocados. Ainda não entendia como ele conseguia vender tanta coisa para um país tão pobre. Ele esclareceu que vendia também para os países vizinhos, principalmente para o Peru. Mas era quase impossível exportar para o Peru devido aos altos impostos de importação que lá eram cobrados. Ele me assegurou que isso não era empecilho. Ele e seus empregados iam ao Lago Titicaca do lado boliviano à noite, enchiam um barco de mercadoria, atravessam o lago e, em pouco tempo, já estavam no Peru, onde os compradores esperavam pelos produtos sem pagar nenhum imposto. À noite ele me levou para jantar. Eu queria matar uma curiosidade que me incomodava fazia tempo. Era sabido que 95% das estradas bolivianas eram de terra, mas ele comprava somente encerados verdes. Perguntei por quê. Ele me respondeu que os traficantes só compravam encerados verdes. Para quê? Para secar folhas de coca na mata. Helicópteros americanos do FBI sempre sobrevoavam as áreas de cultivo da coca. A lona verde se misturava à vegetação e dificultava a identificação das folhas que seriam transformadas no caríssimo pó branco. Ele olhou para mim e me perguntou se eu estava gostando da Bolívia. E eu respondi: Estou adorando, me sinto um boliviano.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

TUDO O QUE AS FEITICEIRAS DIZEM E NÃO SABEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Este menino não é seu filho, Ela não se conforma com esta mola das leis, A mãe de todas as religiões, Ela quer rezar. Que ela reze então, Miserere mei, deus: secundum magnam misericordiam tuam, Esta mulher ainda está completamente perdida, Ainda não se encontrou, E o pai do menino, não pode ajudá-la? Um momento, A mulher quer continuar orando, Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam, Neste momento, ele está ajudando um amigo japonês que teve uma morte trágica, Como você sabe disso? Porque dou ouvidos às feiticeiras. Os homens na espiritualidade são como as pedras numa abóbada, Resistem e se ajudam simultaneamente. A vida e a morte são combates, Que os fracos abatem, Que os fortes, Os bravos, Só podem exaltar, E quanto ao menino? Um momento, Ela ainda está aqui e quer falar pelos dois, Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me, O menino é um espírito de muita luz, Mas cuidado, O fruto só cai da árvore quando está maduro, Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me, Nossa, esta mulher de novo! Não fale dela assim, Ela está se penitenciando, Está nas sombras e ainda se agarra  à luz deste mundo, À luz deste menino, Agora ouço a voz de uma feiticeira que quer me dizer alguma coisa, Em breve este menino receberá uma merecida e justa quantia, Mas não vos descuidei pois, Também não menos breve, Ele receberá uma cobrança das bravas e é melhor desde já ele começar a juntar todos os recursos que ele tem para se defender. O recado dela é justo. Você sempre conversa com estas bruxas? Acredita no que elas dizem? Falo com elas de vez em quando e acredito nelas, O mais significativo é o fato de que nenhuma  delas tem conhecimento absoluto sobre nós, mas somente alguns pequenos fragmentos de nossas vidas, Não entendi, pode explicar melhor? Vá num mesmo dia se consultar com 10 médiuns diferentes e que nunca se conheceram, daquelas que costumam fazer leitura de tarô, e faça a elas as mesmíssimas perguntas, Você perceberá que cada uma delas consegue responder a uma única pergunta sua, E cada uma diferente da outra, E por outro lado, Cada uma delas te dirá coisas sobre você que você não perguntou, Nem em pensamento, e cada uma delas lhe dirá coisas completamente diferentes umas das outras, Todas verdadeiras, Elas têm apenas um conhecimento relativo e bem limitado sobre as pessoas, Por isso não conseguem responder mais do que uma ou, no máximo duas perguntas que você faz, No entanto, As poucas respostas às suas perguntas e as revelações sobre você feitas espontaneamente serão sempre verdadeiras, e até paradoxais, Uma médium lhe dirá que você ganhará uma fortuna, Mas outra, No mesmo dia, lhe dirá que você sofrerá uma grande perda financeira, E o mais interessante é que as duas são verdadeiras. Como elas conseguem isso? Elas recebem informações de espíritos? Não, espíritos não existem, Elas apenas leem um fragmento de sua mente, Uma médium jamais lhe dirá a mesma coisa que uma outra lhe disse, Desta forma, Você terá dez respostas diferentes para diferentes perguntas que você fez, E 10 informações diferentes sobre você e que você não perguntou, Em resumo, As feiticeiras não têm nenhum controle sobre sua mente, O que elas descobrem a seu respeito é sempre ao acaso, É o mesmo que um sonho, Você nunca sonha com o que quer, É o inconsciente quem decide sobre o que você sonhará cada noite. É interessante. E no caso desta mulher apegada ao menino? Ela está morta e você disse que espíritos não existem. Como ela consegue falar conosco? Isto é contraditório! O que chega a nós não vem diretamente dela, São apenas fragmentos dos nossos próprios pensamentos sobre o que já sabíamos sobre ela. Então deduzo que você é um feiticeiro!  Errado, Tudo o que estou lhe dizendo é pura psicologia humana. As feiticeiras dizem poucas coisas, Mas desconhecem muitas. Elas tem acesso a uma parte bem insignificante de nosso inconsciente que tem o tamanho de um universo, E a mulher quer nos dizer algo mais antes de partir, Ex-umbris ad lucem, Ela está certa, Ela disse: Das sombras para a luz.



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domingo, 20 de novembro de 2016

A TREASURE HIDDEN IN HEAVEN

Review written by Alceu Natali with Copyright protected by Brazilian law # 9610/98
POSTED ON WWW.AMAZON.COM ON NOVEMBER 1ST, 2007



INTRODUCTION During the last 15 years I have seen lists of the Best Albums Of All Time, published, mainly, by English and American magazines. I have tried my best but I could never listen to most of those great albums without skipping various tracks. I ask myself if it is a question of taste or prejudice. Maybe both. For instances, when I see The Beastie Boys and Eminem among the English magazine Q's 100 best albums of all time, inevitably, my dark side comes to light: I'd rather see those rappers and hip hoppers murdering the ears of music lovers than murdering people in the streets. Here goes another example: the absence of The Who's album My Generation among the 100 best of that magazine makes me wonder whether these magazines reviewers really listen to music at all. In my country, people say that taste is something that cannot be disputed, but the other day my wife added: taste is something that cannot be disputed but to be sorry about. And she is pretty damn right because what you find and do not find in those lists is something to be awfully sorry about. For someone like me, who loves british pop music, it is impossible to take seriously any list of the best albums of all time that is not topped by Beatles' albums. The Rolling Stone magazine Greatest Albums of All Time have some respect for The Beatles and included 8 albums of theirs among the 100 greatest, however among their 500 greatest you will not find such a precious stone like Heaven Or Las Vegas but you meet face to face with those music murderers I mentioned above and also a lot of albums that are not good enough to be part of the 100,000 greatest of all time. Lest the new generations think I am just a dinosaur of the 60's, I anticipate that I am not the kind of guy who spends hours listening to the complete collections of the greatest bands of the golden decade. I love rock and pop music from all decades. As a matter of fact, I have more CDs from the last two decades than from the 60's, 70's, 80's, 90's and the new millenium's. Nowadays, with the invention of the MP3, people do not need anymore to buy a whole album only because of a few good songs. The music lovers can download from internet only the songs that they like and that means that within a couple of years or so there will be no more CDs for sale. Then, instead of a collection of CDs on his/her shelves, the music lover will have an anthology of songs in his/her iPOD. And I wonder if we are going back to the 60's when only singles were bought while an album was a luxury, something to be bought only as a Christmas gift, or just a tricky marketing strategy to make some extra money on a couple of hits repacked together with a bunch of disposable fillers. As you may remember or not, it was The Beatles with their unmatched talents who made albums become a new form of art and be taken seriously by the media and the public. Anyway, I am already familiar with the iPOD but I am not the kind of anthological guy. Lately, I started prospecting what I call great albums, but great for me is not an album made only of classics in all tracks, or an habitue of radio's hit parades and famous magazines' lists. Furthermore, there is no perfect album. Great for me is a damn good album, from the very first track to the last one. That album that you listen to all the way without skipping a track and without wishing a certain track reaches its end soon because your favorite one comes next. I have prospected many of those types of albums but you will not see most of my greatest in those famous and respectable lists made by journalists as mediocre as music reviewers as I am as an artist or a writer. If you ask me about my prospecting criteria, all I can tell you is that those who have good ears for music do not need more than 30 seconds of each track of an album to know whether it is great or not. That's what I do. When I am looking for new bands I listen to the 30 seconds of every track of their albums available at Amazon until I find my classic one. My musical sense of smell is infallible. When I listen to the entire CD that had that smell of great stemming from the 30 seconds of each one of its tracks there is no mistake about it: it is a great album! On the other hand, I already own about 2,000 CDs of different bands and among them there are various great ones. Heaven Or Las Vegas is one of them. THE TRACKS 1. Cherry-Coloured Funk is a thick and corpulent song, with instruments and vocals filling the space. It is a simple but classic melody, soft and tranquil. It progresses from low vocal notes until it reaches a peak, while the celestial chords sound all the time in the background as if they were playing in a nearby room, and the same goes for the discrete but scoring bass. 2. Pitch The Baby is faster with a more prominent and pointed bass and higher vocal notes. The heavenly atmosphere permeates the song all over. It is a forewarning of track 6 and displays a melodic progression from the first track that culminates with 3. Iceblink luck, a very beautiful pop song, in which both vocals and instruments play with intensity and devotion. Only the drums are muffled to leave room for the fight between the enchanting vocals and the gorgeous instruments for the thrilling climax to the show. 4. Fifty-Fifty Clown is a masterpiece. It has a timelessly futurist sound. Only Strawberry Fields Forever by The Beatles has a similarly complex and beautiful melodic progression. The first part is very difficult to be sung. You cannot whistle it even after listening to it ten times in a row and that means it required a lot of talent to be invented. 5. Heaven Or Las Vegas is similar to Iceblink Luck, less intense and more rhythmical, and equally beautiful. Beth Fraser's vocals are terrific. Iceblink Luck and Heaven Or Las Vegas are Cocteau Twins' couple of their most pop songs, a pair of explosion of joy. 6. I Wear Your Ring is another masterpiece. It is a song that was waiting for someone to create it and it was up to the Cocteau Twins to do it. Beth Fraser' vocals, the bass and the rest of the instruments are amazing and trance inducing. The second and final part is pure ecstasy, one of the best moments of pop music. 7. Fotzepolitic is moved by the beauty of the previous track, celebrates its splendor and makes sure not to challenge its royalty and, at the same time, pays it a sublime homage and becomes a metaphor of that masterpiece. 8. Wolf In The Breast is a prime and a proof that, definitely, the Cocteau Twins were wounded by a Cupid arrow of excellence and made another masterpiece of a simple ballad. After six breathtaking tracks, enters 9. Road, River And Rail, a more lamenting ballad that is not deprived of any of the refinements of the previous tracks and 10. Frou-frou Foxes In Midsummer continues that lamenting for a while but ends with an explosion of vibrant and fire working sound that fills the air again, like a farewell tune adequate to the last track of a fantastic album. REMARK I met a guy who loves rock and pop music like I do and who has the same taste and prejudice I do, but one day he grinned in irony when I told him I found the Cocteau Twins great. Why do not you share a kitchenette with them? asked me the same guy who declared that the Brazilian bossa nova is the greatest revolution in music of all time. Well, bossa nova is a kind of music easily found in every corner of Rio de Janeiro City or even in casinos in Las Vegas and in some boring American movie but the Cocteau Twins' sound is a treasure hidden in heaven and finding it out demands as much talent as the Cocteau Twins needed to produce Heaven Or Las Vegas.

THE TRACKS

1. Cherry-Coloured Funk
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2. Pitch The Baby
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3. Iceblink luck
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4. Fifty-Fifty Clown
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5. Heaven Or Las Vegas
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6. I Wear Your Ring
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7. Fotzepolitic
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8. Wolf In The Breast
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9. Road, River And Rail
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10. Frou-frou Foxes In Midsummer
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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A RESSURREIÇÃO DE TILLY POR ATENAS (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Numa ocasião, o Mensageiro da Enganação convidou Tilly para ir a sua casa para ouvir música, bebericar e jogar conversa fora. Tilly achou que talvez esse fosse um bom momento para passar a limpo as lições preliminares e improvisadas sobre os discos voadores que não ficaram claras no primeiro encontro. Enquanto Tilly esperava uma deixa, o Mensageiro pôs um disco para rolar na vitrola com o volume baixo para não atrapalhar a conversa. Os ouvidos sensíveis e afinados de Tilly logo identificaram um som familiar e rejuvenescido que proporcionava uma sensação agradável e emocionante como ele nunca mais ouvira desde os tempos gloriosos do psicodelismo. Ele pediu para aumentar o volume e ficou todo arrepiado:
Quem são estes caras?
O Mensageiro respondeu que era o mais recente álbum do The Who, aquela banda que poderia ter sido a favorita de Tilly. Aquela que quando Tilly ouviu pela primeira vez o fez procurar seu amigo de adolescência e de panelinha e com quem formou uma dupla chamada The Two Flies.
Meu deus misericordioso e cheio de graça, apareceu um conjunto melhor que os Beatles.
O The Who havia passado pela vida de Tilly como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e Tilly não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião Tilly já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.
Mas agora, sem saber, o Mensageiro havia devolvido a Tilly sua paixão pela música e a ela Tilly se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e Tilly os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma banda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepuja-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e Tilly almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Tilly nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, Tilly poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abri-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

CONEXÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Aqui no parque, As crianças são trazidas todas as manhãs, A grama cresce sem nos perceber, Os rostos sustentam proeminentes e descarnadas maçãs, O sol nasce antes do amanhecer, Em luz e geometria fundem-em os passados e os amanhãs, As folhas de outono voam a esmo por assim dizer, Todas as vezes que passeiam ao acaso pensam em tudo e em nada,  A chuva cai e sobe sem as nuvens no céu, Sempre às gargalhadas rompe a criançada, Tudo que nos toca são abelhas procurando mel, Viajamos nas recordações e relembraremos uma ilíada em cada jornada, As flores se põem nos calendários de papel, De dias contados, De bancos de jardim apinhados, Lá no parque, As crianças são levadas todos os dias, As árvores nos espiam das janelas, Nos olhos de serem meninos e meninas nota-se somente alegrias, A natureza nos pinta com aquarelas, Suas fragilidades e vitalidades se misturam e se confundem em sentimentos de envolventes e cândidas euforias, Nos troncos os corações flechados são vermelhos e no chão as amarelinhas amarelas, O vento sopra de baixo para cima, Despedem-se efusivamente dos amigos e voltam para casa em fins de tardes, Despencando das alturas a poesia vai ganhando rima, Fecham a noite e caem no sono lendo Meu Pé De Laranja Lima, De doce sabor, Em sonho reparador, Fora do parque, As crianças atingem a maioridade, Contra si e seu momento a vida não pára de correr, Expostas a erros e verdades, Gente vem ao mundo antes de ele ser, Conhecerão o egoísmo e a maldade, A lua míngua por assim querer, Cairão na tentação do meio termo entre integridade e desonestidade, Tudo que nos toca são as estrelas para poderem brilhar, Divididas entre o determinismo e a casualidade, O universo explode antes da poeira cósmica se juntar, Esquecerão a objetividade e apelarão ao divino na hora de maior dificuldade, Deus é criado por assim suplicar, Ao infinito do espaço, À eternidade de seu compasso.


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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BODAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ninguém é como o tempo, Ele não perdoa, Ninguém é como o vento, Ele solta as branduras e as fúrias de sua brisa e repugnância, Que não haja nos céus sustentação para os papagaios, Nem nos mares mais navegantes. Ninguém é como a morte, É como uma ninfa, Aparecendo e desaparecendo, Por entre os claros de um denso bosque, Vive, Mas está ausente, Morre um dia, Sem que ninguém esteja presente, Precisamos de mais um ano para sermos de cristal, E eu de mais vinte e um para ser de coral, E quem sabe perecer feliz como o mais antigo ancestral dos vilões do amor, Que tudo infamam, Do alto de cada pecado mortal, Vejo no seu rosto muita felicidade, E o tempo que você levou para encontra-la, Leio em suas palavras uma mistura de alegria e vingança, E a facilidade como você se desfez da metade de sua compaixão, Ouço em teu silêncio o medo que sempre teve de mim, E como é mais nobre sofrer independente, Escondendo a dor. 

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