quinta-feira, 15 de setembro de 2016

THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? CAROL GALLAGHER, AMERICANA, AEROMOÇA NO VOO DOS BEATLES DE NEW YORK A MIAMI EM FEVEREIRO DE 1964

Texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de Carol Gallagher à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98.


Em 1964 eu era uma aeromoça e fiquei sabendo, no último instante, que os Beatles estariam no meu voo de duas horas de Nova Iorque para Miami. Eu já era fã de suas músicas pelo rádio e agora teria o privilégio de vê-los cara a cara e ainda servi-los. Levei semanas para refazer-me da emoção de tê-los conhecido justamente em sua primeira visita ao meu país. John, ao lado de sua esposa Cynthia, permaneceu quieto o tempo todo, sentado na última fileira. Os outros não paravam de distribuir autógrafos. Eles primavam pela alegria, simpatia e um senso de humor que eu nunca vira antes. Eles davam a nítida impressão de que não estavam levando a sério esta ideia de conquistar o maior mercado de consumo do mundo. Na verdade, eles não levavam os Beatles a sério. Para eles, tudo não passava de uma grande aventura. Eles deviam estar pensando: Já que estão nos pagando, por que não aproveitar e divertir-se? Ringo insistiu em colocar um colete salva-vidas antes de aterrissar e queria, a todo custo, ver da janela do avião algum tubarão no mar. Paul era a prova cabal de que os Beatles não esperavam tornar-se famosos nos EUA. Ele perguntou-me: Será que vai ter alguém nos esperando no aeroporto? Ao descer na pista, milhares de pessoas enlouquecidas os aguardavam do lado de fora. Eles desfilaram em carro aberto pelas ruas e eram saudados pelo povo como se fossem heróis astronautas voltando da primeira viagem tripulada à Lua. Algumas de nossas celebridades, com uma pontinha de inveja, dizem que nós entregamos a América de bandeja para eles. É verdade que eles não precisaram conquistar nada; o mundo todo prostrou-se aos seus pés como súditos reconhecendo a majestade de seus reis.



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DANÇAR COM OLHO GREGO - PUBLICADO EM 31/12/2015

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Hoje é dia de fazer uma resenha do ano que está acabando, Uma retrospectiva dos fatos mais importantes dos últimos 365 dias, Na verdade, Não tenho certeza de que posso comemorar a passagem do ano hoje, Pelos menos é o que meu telescópio dá a entender, Ou melhor, Não saber, Em várias de minhas observações feitas hoje nada me garantiu que a terra completa uma volta em torno do sol às 00:00 horas, Mesmo assim vou fazer um apanhado, É tradição. Para começar, O melhor programa de TV continuou sendo o documentário CONSTRUINDO UM IMPÉRIO: ROMA, do canal History Channel, De todas as grandes proezas da civilização romana de 2 mil anos atrás, A que mais me impressiona é o sistema de onze aquedutos trazendo para a cidade água de rios bem distantes, Entre 30 a 70 KM, Roma tinha uma população de cerca de 1 milhão de pessoas e a cidade recebia 800 milhões de litros de água potável por dia, O que equivale a uma média de 800 litros por pessoa por dia, Os romanos primavam por várias virtudes, Entre elas a inteligência e a higiene, A água era um bem público, Nada se cobrava por ela, E sobrava água, E é por isso que cada cidadão romano tinha fartura de água em casa e encontrava uma fonte em cada esquina para beber e se refrescar, De acordo com a ONU (Organização Das Nações Unidas), Cada pessoa necessita de cerca de 110 litros de água por dia para atender as necessidades de consumo e higiene, Aqui na Grande São Paulo, Onde vivo com mais de 20 milhões de pessoas, Chegamos a gastar 200 litros por pessoa por dia, Nos últimos dois anos de escassez, Falta de chuva, a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) impôs um limite de consumo de 102,9 litros por dia assim distribuídos: Banho: 12 litros, Beber água: 2 litros, Descarga: 12 litros, Escovar os dentes: 2,7 litros, Lavar louça: 55,2 litros, Lavar roupa na máquina: 19 litros, E me pergunto: O que os romanos faziam com tanta água? A leitura de alguns livros acadêmicos e o History Channel me deram a resposta: Piscinas e saunas públicas por toda a cidade, E eles não dependiam de chuva, Mas somente de inteligência e trabalho. Aqui na cidade de São Paulo, A única piscina pública que temos é o Rio Tiete , Que se parece muito com o Mar Morto, Você mergulha e não afunda, Se você tem um bom equipamento de mergulho, Roupas de borracha para se proteger contra possíveis dejetos indesejáveis e máscaras para não engolir a densidade mastigável da água e não respirar o ar exageradamente puro, É diversão garantida na certa, O prefeito de São Paulo, Que já entrou com um pedido para transformar o Baile do Pancadão em patrimônio cultural da cidade, Juntou-se ao governador do estado para fazer uma petição junto à UNESCO da ONU e transformar o Rio Tiete em patrimônio histórico da humanidade, O SUS continua sendo o melhor programa de saúde da história deste país, O índice de mortalidade caiu muito em 2015, Antes, De cada 10 pessoas que entravam vivas num hospital pelo SUS, 9 saiam mortas, Agora só 6 saem mortas, Me lembro que no seu segundo mandato de presidente, O Lula se encontrou com o Obama, Presidente dos EUA, E ofereceu a ele a implantação do SUS na America, Foi uma pena o Obama não ter acreditado no programa, Se ele tivesse implantado o SUS nos EUA, Ele poderia ter acabado de vez com a pena de morte vigente em vários estados americanos, Eta lei hedionda esta dos americanos! O melhor boato do ano foi.., Bem, Eu sei que boatos não deveriam entrar nas estatísticas, Porque não têm nenhuma comprovação oficial, Mas, Como diz nosso velho ditado, Onde há fumaça há fogo, O melhor boato vem do prefeito do Rio de Janeiro, Dizem que ele propôs ao COI (Comitê Olímpico Internacional), Uma nova modalidade esportiva para os jogos olímpicos de 2016, E para garantir a aprovação do COI, Ele teria prometido que, Além das tradicionais medalhas, Ele oferecerá prêmios extras aos vencedores, Trata-se de uma nova prova de ciclismo que o prefeito chama de EMOÇÃO A TODA PROVA, O percurso dos 22 Km da linha vermelha, Quem chegar em primeiro lugar sem levar nenhum tiro, Além da medalha de ouro, Ganhará um ponto do jogo do bicho na favela da rocinha, O que chegar todo baleado, Mas ainda vivo, Ganhará, Além da medalha de prata, Um plano de saúde do SUS, Vitalício, E extensivo a toda família do herói, E quem chegar baleado e morto, Ganhará a medalha de bronze e um terno de madeira extraída da sucata das obras superfaturadas dos jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2008, Se o COI aprovar esta proposta, Será mais um dos grandes legados da prefeitura e do governo estadual do Rio de Janeiro, O fato mais triste deste ano foi a separação de Joelma e Chimbinha da banda Calypso, Isto é algo profundamente lamentável e que marcará a vida dos brasileiros por muitas décadas, A melhor superstição do ano foi anunciada somente hoje, Nossa presidente Dilma disse que querem que o céu caia sobre sua cabeça, E para aguentar a pressão, Ela disse que não dispensará a pulseira de olho grego na virada, Isso me lembra a civilização mais inteligente do planeta, Os gregos do século de Péricles, Eles também tinham várias superstições, Uma delas, Em Atenas, Chamava-se OSTRACISMO, Todo ano os membros do senado se reuniam para uma votação, Cada senador votava num colega que ele achava que estivesse abusando do poder e se corrompendo, Quem tivesse o maior número de votos era exilado num lugar distante por dez anos, Mas o governo de Atenas garantia as posses e o bem estar da família do exilado até que ele voltasse, Ostracismo é um termo derivado da palavra grega cerâmica, Que era uma peça usada como uma cédula de votação, Talvez este tipo de superstição jamais pegaria no Brasil, Porque teríamos mais eleitos do que eleitores, Não teríamos governo (o povo ainda não escolheu nenhum, verdade seja dita) para cuidar das famílias e das posses dos exilados porque estão todas no exterior, Meu Deus, Não percebi! Como o tempo passa tão depressa! Já são mais de 23 horas e estão me chamando para a ceia, E eu tinha tantos acontecimentos para recapitular! Fica para o ano que vem, E por falar no ano que vem, Faço menção ao último parágrafo da crônica do Veríssimo no Estadão de hoje, Ele diz que você sabe que está ficando um velho filosófico quando lhe perguntam o que você acha de viver no Brasil e você responde: A gente acaba se acostumando, Estou ficando cada vez mais velho, Vou fazer 64 anos em Abril, Já estou acostumado comigo e com o Brasil, Mas em 2016 vou fazer coisas às quais não estou muito acostumado, Dançar, Fumar baseado, Cheirar pó, Isso, Me garantem os ladrões que assaltaram minha casa em Setembro, Definitivamente, Alivia a pressão de viver neste país.

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A LINGUAGEM DO CORPO NA SEXTA-FEIRA, 13



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sexta, 13, é um dia azarento. Um dia para Satanás regozijar seus olhos anticristãos e infernizar a vida de incautos de pouca fé. Um dia para ele festejar a heresia. Dizem os sabe-tudo do vaticano que o coisa-ruim se vale do fato de Jesus ter sido traído por um amigo e preso numa sexta-feira, logo após ter celebrado sua última ceia com 13 pessoas à mesa, e ser levado à morte dois dias depois. Não sou supersticioso mas, por via das dúvidas, tomo minhas precauções. Minha sogra já apareceu um dia em casa, em plena sexta, 13, sem avisar. Amarro a cara assim que os primeiros raios de sol surgem no horizonte. Não se pode esbanjar bom humor cedo demais. Dá azar. E o tinhoso está atento. Felicidade se conquista dia após o dia. Só abro um largo sorriso depois do meio-dia. Toda manhã acordo espirrando. Não sei porquê. Mas numa sexta, 13, cuido para que minha esposa fique ao meu lado o dia inteiro, pedindo a deus para me abençoar a cada esternutação. É essa bênção que evita que o espírito escape do corpo a cada espirro. Depois do café da manhã costumo soluçar. Isso, dizem, também é um orixá querendo me fazer de cavalo. Para expulsar o sapucaio, prendo a respiração pelo nariz, tomo um copo de água, enquanto minha mulher me dá um baita susto por trás, estourando uma enorme bexiga junto aos meus ouvidos. De manhã demoro para pegar no breu. Fico meio sonolento até às nove, e bocejo muito. Minha esposa entende muito de obsessão. Ela me pede para tampar a boca com a mão ao boquejar, senão o pé de gancho me entra pela goela. Interessante é que quando bocejo, ela boceja também. Ela também reclama que eu me coço demais e que, num dia como uma sexta, 13, isso é um mau presságio. O mafarrico pode provocar um bate boca feio com alguém. Sigo seu conselho e aguento a comichão até o dia acabar com minha mulher em minha cama. Lá o batibarba fala a linguagem do corpo. Quando me preparo para começar a trabalhar, primeiro dou uma cusparada nas mãos e as esfrego, para me dar força extra contra o infortúnio. A saliva tem um poder de cura mágico. Por isso meus gatos e cachorros vivem se lambendo. Minha mulher não é muito diferente. Basta ela machucar um dedo e já o enfia na boca. Tenho também algumas crises de tosse. Para contê-la tenho uma simpatia. Pego um fio de cabelo e o coloco num sanduíche com manteiga. Ofereço-o a um de meus cachorros e lhe digo: Coma bem seu cão, Que você seja sadio e eu são. Às vezes tenho câimbra e dói muito. Numa perigosa sexta, 13, carrego alguns ossos de animais. Eles protegem. Se a câimbra vem e não passa, deito por alguns minutos com um par de sapatos em cima do estômago. Só assim a dor vai embora. A má sorte de uma sexta, 13, venha de onde vier, pode ser, até certo ponto, controlada. Para não deixar a sorte escapar, mantenho os dedos cruzados em tudo que faço, até para soltar um gás. Se o mau humor me protege contra o azar a manhã inteira, assobiar numa sexta, 13, é pedir para o azucrim te empossar. Gosto de assobiar, mas não numa sexta, 13. Minhas cãs estão aumentando aritmeticamente. Todos os dias arranco os fios brancos, um por um. Nuna sexta, 13, só dou uma guaribada neles com graxa de sapato. Dizem que na sexta, 13, quanto mais fios de cabelos brancos se tira, mais eles se multiplicam geometricamente. Todos os dias aparo as unhas dos pés e das mãos. Meu vizinho me disse que numa sexta, 13, é preciso enterrar ou queimar as unhas cortadas porque se o beiçudo as encontra numa sexta, 13, ele arrepia para valer. Minha dona me pede para simplificar. Deixe para cortar as unhas no sabado, 14. Neste último dia útil da semana, no sexto número primo do mês, o famoso olho gordo ganha peso considerável. O que faço para sair de seu foco é ficar na moita, passar desapercebido, não falar absolutamente nada a meu respeito, muito menos chamar a atenção para algo que tenho e outros não têm, uma linda mulher, por exemplo. Assim que os últimos raios de sol abrem a noite para as estrelas começa a alegria. É chegada a hora do amor. Aqui em casa se faz amor todos os dias, mas sexta é especial. Dia para beliscar um queijinho mais maneiro e bebericar um bom vinho chileno de, no máximo, 35 reais. Depois, cama! Dizem que o demônio é muito chegado numa sacanagem. Ele está convidado a vir ao meu quarto numa sexta, 13, lá pelas 22 horas. Ele terá que se conformar em assistir. Ele pode esgotar seu arsenal de mutretas que não conseguirá participar. No batente superior da porta de meu quarto penduro réstias de alho e ferraduras. Nas paredes há crucifixos. Sei que são fetiches que afugentam somente vampiros e que o diabo tira de letra. Mas acima de minha cabeceira há dois posters irresistíveis: Um mostra Judas de costas, enforcado, sangrando pelo ânus, depois de ter sido enrabado pelo seu arrependimento. O outro mostra Jesus, completamente pelado, de pênis ereto, saindo andando de seu túmulo, e esperando-o do lado de fora Maria Madalena cheia de contentamento. E hoje é sexta,  mas 26,  meu dia de sorte,  o dobro de 13.  Portanto, o diabo que se cuide.

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