sexta-feira, 16 de setembro de 2016

AS HORAS - HOMENAGEM À ESCRITORA BRITÂNICA VIRGINIA WOOLF


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA FANTÁSTICA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



As horas, Por que elas se demoram, E quando chegam vão embora? Por isso esta minha mensagem solitária e breve, Para não ser hora esquecida, Nem esperar por mais instante, Para tirar um peso oneroso das suas costas, E por em prática sonhos de que desde sempre me levanto, Pois minha luta está pela hora da morte, Que apesar de ainda não chegada, Não se atrasa, E nesta hora de cancão pegar menino, Mantenho acesa a lâmpada da imaginação quando tudo está em silêncio, No fundo do mar, No ventre materno, Sem tempo para ver de que lado sopra o vento, Sem sono, De olhos arregalados, Sem cochilos e despertares, Porque já está em cima da hora, Já não há mais tempo para juramentos, Se não me apressar agora, Nunca vou te ler, Nem te escrever, Não posso mais ter horas para a liberdade de sua criação, Para o prazer da sua leitura, E da sua audição, Oras, O que são essas horas? Por que esperar para produzir em boa hora? Por que achar que as más escolhas são sempre feitas na última hora, Em má hora? Para que fazer hora? Por que esperançar que a inspiração venha fora de hora, A desoras? O medo que me retrocede, Da soleira da porta banhada pelo sol contente, Até as horas mortas sob o luar doente, Vem da minha frívola insegurança, De meu arrependimento da hora que nasci, Da hora que morri, Então, Meu benquerer, Saio à boca da noite, Faço horas pelos jardins, Até encontrar-me com as águas de olhos fundos, Irmãs na dor, Chorando comigo minhas mágoas, Dou-lhes meu beijo de boa noite, Deixo-lhe saudades, Meu amor pela sua bondade, Por ter sido feliz ao seu lado, Para te deixar criar, Para levar minha maldição embora, E não te ver mais aflito, Te deixar livre de minha eterna aparência triste, Minha insistência doentia, Que cria coragem com a prece saída de seus pensamentos, Tudo nas melhores horas e nos melhores momentos.

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CIDADE DA MORANGA (trecho adaptado do livro VALE DA AMOREIRA)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)
A noite tardia fica mais calada longe da agitação urbana. Ela não arfa e sua suave respiração é abafada por burburinhos do universo, remanescentes da grande explosão, uma explosão de querença. ‘Quero luz!’, gritou o negrume abissal quando só existia o nada. Quem comunga com o universo na madrugada, mesmo de olhos abertos, capta o eco de suas vibrações. De olhos fechados é possível ouvi-los e até vê-los. Matilda dirige com sua atenção visual toda voltada para a estrada, pois não é a todo instante que a caligem da noite é fosforeada pelos clarões artificiais das habitações que margeiam o caminho. Seus pensamentos se perdem nas lembranças de sua melhor amiga e se reencontram na imagem da cidade da moranga que ela guarda no seu inventário de processos e fatos psíquicos que atuam sobre sua conduta, mas que escapam ao âmbito da consciência de pessoas normais e nelas só irrompem em sonhos, em atos falhos, e em estados neuróticos ou psicóticos, quando a consciência não está vigilante. Nestes últimos vinte anos, Matilda passou por este mesmo caminho pelo menos duas vezes. Numa delas, voltando para casa, ela viu do lado direito da estrada quase o vale inteiro da moranga, mas não teve coragem de entrar na cidade. Não estava preparada ainda. Se não fosse sua necessidade de cumprir uma promessa feita à sua melhor amiga de redescobrir a cidade, ela teria ficado apenas com o registro da imagem da cidade com sua criptomnésia, que atua como uma câmera fotográfica que precisa só de uma fração de segundo de luz, e sem nenhum esforço da vontade ou da memória ela a retirou do seu patrimônio inconsciente. Ela é um cartão postal monocrômico, não muda nunca. No fundo há uma encosta, não muito acima do plano horizontal dos olhos, onde se amontoam casas acabadas que não lembram favelas ou periferias paupérrimas, e entre elas há entranhas, mas não muita vegetação. O grosso da cidade está no centro, abaixo do nível da estrada, mas os topos das edificações mais altas denunciam várias convenções de concreto. Uma igreja, a prefeitura, uma biblioteca, talvez a delegacia onde sua amiga esteve, talvez um dos vários hotéis, uma cidade destas deve ter pelo menos uns três, fora os motéis, ou talvez algumas pousadas. No primeiro plano, a cidade se esconde por baixo da estrada. Deve estar ali o matagal por onde sua amiga fugiu. Não será difícil traçar o percurso da última grande corrida da via dolorosa de sua amiga, quando voltava para casa sem um ponto de partida, ganhando a estrada numa noite caída, parou no acostamento sem motivo aparente, foi abordada por homens na escuridão num repente, embrenhou-se no matagal sem rumo confiável, foi seguida por dois numa perseguição implacável, avistou luzes com sinais de vida, deixou para trás ladrões na noite vencida, andou pelas ruas sem encontrar uma delegacia, decidiu descansar e refletir numa hospedaria, lendo um jornal com uma manchete da antiguidade, que a seduziu pela morte na clandestinidade, acordou-a na manhã sem resposta ao seu quesito, tendo repreendida sua curiosidade num distrito, e voltou para casa com um enigma sonhado, e lembrou-se da cidade com nome transliterado, para onde hoje Matilda retorna vinte anos depois sem a escrita de Zeus, para desvendar o mistério da moranga nas linhas tortas de Deus.


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FACE DANCES (trecho original do livro VALE DA AMOREIRA)


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

O The Who havi
a passado pela vida dele como um cometa que deixou um rastro de esplendor, mas nenhum voto de regresso, e ele não se deu conta da sua ausência no panteão dos grandes pop stars de tão ofuscado que ele estava pelo brilho do astro rei, os Beatles, por isso a falta de notícias sobre eles nos três anos seguintes passou desapercebida até o dia que ele ganhou de presente metade do seu mais recente e mais celebrado álbum e que ele aceitou com um ar de quem recebe uma caixa de lenços, pois naquela ocasião ele já havia deixado de ser um audiófilo para ser um borboleteiro.

Mas agora, sem saber, o Mensageiro da Enganação havia devolvido a ele sua paixão pela música e a ela ele se entregou de corpo e alma para tirar todo o atraso e recuperar mais de uma década de descaso. Os Beatles haviam se separado havia muito tempo e ele os travestiu de cristo porque eles tinham talento de sobra para exortar uma b
anda tão quintessencialmente britânica como o The Who para tentar sobrepujá-los. Seria necessário muito tempo e muito aperto financeiro para adquirir todos os discos de catálogos, raridades, livros, revistas e vídeos do The Who e ele almejava desfrutar de cada aquisição lentamente como uma criança que saboreia um doce de bar. Ele nunca deixou de ser um menino. Só trocou as calças curtas pelas compridas que serviram apenas para aumentar sua rebeldia, seu radicalismo e sua imaturidade. Aos olhos de uma pessoa desavisada, ele poderia passar por um garoto sábio e meticuloso que guardou todos os presentes de natal por mais de uma década e deixou para abri-los todos agora, na idade adulta, um a um, como um colecionador, sem perceber que ele queria ter pela frente muitos anos de brincadeira até enjoar.

Quando ele se viu pela primeira vez frente a frente com o penúltimo álbum da banda chamado Face Dances ficou por vários minutos enfeitiçado pela atraente capa do disco de vinil exposta na vitrine de uma loja de shopping. Seus olhos infantis cintilavam como no dia que ele ganhou o primeiro trenzinho do Papai Noel. O brinquedo que se deixava ver e não se tocar por trás da barreira de vidro tinha um invólucro que lembrava a forma do A Hard Day's Night de vinte rostos em preto e branco, tirados de uma imitação de rolo de um filme fotográfico e dispostos em cinco colunas e cinco linhas, todos eles separados por molduras de azul comum, mas a embalagem de Face Dances era mais encantadora com aquele tabuleiro de dezesseis caras maiores, aquareladas, estilizadas, rabiscadas, deformadas, picasseadas, assombradas, irreconhecíveis, e de uma beleza que está somente nos olhos de quem a vê, como os olhos dele cuja mente embriagada de adjetivos fastidiosamente rimados é perdoada porquanto aqueles rostos dançavam em volta de sua cabeça e lhe sussurravam no ouvido que as músicas que os embalavam valiam qualquer estouro no orçamento.

Imagino-te como Lúcia no céu com diamantes. Coloco-te em movimento como um caleidoscópio de polichinelos pulsantes. Dou vazão à sua gentil leveza como uma exposição de borboletas esvoaçantes. Amplio-te no firmamento como um arco-íris que ganhou palhetas abertas em leques radiantes. Retenho em minhas pupilas a graça e a meiguice de seu olhar de uma miríade de gérberas deslumbrantes.


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DONIMO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O céu abre-se e solta um magnificente estrépito dos tempos imemoriais, Todos os anjos entoam um canto unissonante que vai além dos limites do universo,

Chegou a hora de Deus tomar meu lugar, Chegou a hora de eu tomar o lugar dos sonhos, Chegou a hora dos sonhos tomarem o lugar da vida, Chegou a hora da vida tomar o lugar de Deus,

As vozes das naves prontas para partir solenizam, 
Glória ao Mestre, Glória ao Som Primordial,

Chegou a hora de Deus tomar meu lugar, Chegou a hora de eu tomar o lugar dos sonhos, Chegou a hora dos sonhos tomarem o lugar da vida, Chegou a hora da vida tomar o lugar de Deus,

Todas as naves partem a um só tempo,

Vida Linda, Vida Linda, Quantas lembranças guardarei de você, Vida Linda, Vida Linda, Quantos prantos levarei de você, Vida Linda, Vida Linda, Quantas esperanças herdadas de você, Vida Linda, Vida Linda, Quantos encantos sortilégios de você,

Deus poderá sonhar no meu lugar, Teus sonhos irão te consolar, E você nunca mais desejará acordar, Deus poderá sonhar no meu lugar, Teus sonhos irão te consolar, Chegou a hora dos sonhos tomarem o lugar da vida, E você nunca mais desejará acordar, Chegou a hora da vida tomar o lugar de Deus, E você nunca mais desejará acordar,

Sonhos Lindos, Sonhos Lindos, Quantas realidades tornaram-se vocês, Sonhos Lindos, Sonhos Lindos, Quantas revelações fizeram-se vocês, Sonhos Lindos, Sonhos Lindos, Quantas saudades rebenqueadas de vocês, Sonhos Lindos, Sonhos Lindos, Quantas intuições tiradas de vocês,

Deus poderá sonhar no lugar de Donimo, Os sonhos de Donimo irão te consolar, Deus poderá sonhar no lugar de Donimo, Os sonhos de Donimo irão te consolar, Deus poderá sonhar no lugar de Donimo, Os sonhos de Donimo irão te consolar, Deus poderá sonhar no lugar de Donimo, Os sonhos de Donimo irão te consolar, Chegou a hora de Deus tomar meu lugar, Chegou a hora de eu tomar o lugar dos sonhos, Chegou a hora dos sonhos tomarem o lugar da vida, Chegou a hora da vida tomar o lugar de Deus,

Deuses Lindos, Deuses Lindos, Quantos cultos se antepuseram a todos os afetos por vocês, Deuses Lindos, Deuses Lindos, Quantos gabos em circunstâncias felizes deram graças por vocês, Deuses Lindos, Deuses Lindos, Quão vultos sãos os anseios por vocês, Deuses Lindos, Deuses Lindos, Quão flechados os amores por você.

Deus poderá sonhar no meu lugar, Teus sonhos irão te consolar, E você nunca mais desejará acordar, Deus poderá sonhar no meu lugar, Teus sonhos irão te consolar, Chegou a hora dos sonhos tomarem o lugar da vida, E você nunca mais desejará acordar, Chegou a hora da vida tomar o lugar de Deus, E você nunca mais desejará acordar,

Lugar Lindo, Lugar Lindo, Quão profundos são os caminhos em você, Lugar Lindo, Lugar Lindo, Quão desmedidas as proporções em você, Lugar Lindo, Lugar Lindo, Quantos mundos encontrarei em você, Lugar Lindo, Lugar Lindo, Quantas vidas vivendo em você.


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ESPERANÇA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Você é diferente de tudo, Em meio à flora e à fauna universal, Em meio à verde vegetação da terra, Ainda assim você é única, Seja um alfanumérico como 2MASSJ0523-1403 ou um nome como VY Canis Majoris, Uma lesma ou um falcão peregrino, Abraçada a mim ou passeando pela galáxia z8_GND_5296, Sempre bonita aos meus olhos, Feia aos de quem não vê, Na estaca zero ou no Pi da contagem progressiva da alma, Só comigo ou multibilionésima acompanhada, Em Moçambique ou nos EUA, Viajando pelas estrelas ou apenas contando-as nos olhos da noite, Nas retinas tão fatigadas de Carlos Drummond de Andrade ou no limite do amanhã, Morrendo feliz na estrada sem destino ou perdendo-se assustada numa odisseia pelo espaço, Com um instante de decisão e sem um voltar atrás, Porquanto a água que você tocou no rio nunca mais será a mesma, As pegadas que você deixou na areia da praia desapareceram com o vaivém das marés, Porquanto tudo e todos são iguais a você quanto muito na forma, Mas não na essência, Você é um presente caído do céu, Tão semelhante a tantos outros, E este vou abrir já para encontrar felicidade, Pois ela não me procura, Nem me escolhe, Só se disponibiliza, Vou abrir agora mesmo, Pois posso estar à sua entrada sem perceber, Este pode ser nosso melhor tempo, Nosso melhor momento, E ninguém poderá ser e fazer em nosso lugar, Porque ninguém é Houdini, Mas realista esperançoso como Ariano Suassuna, Ninguém é santo milagreiro, Mas voluntarioso como o Conde de Monte Cristo, Ninguém é predestinado, Mas determinado como Gandhi, E muita gente por aí está escolhendo este dia para fazer um novo fim, Diferente do meu, Diferente do seu, Quem sabe muito parecido com aquilo que chamamos de Deus!
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